Macau Arqueológico 12-10-10

A construção de um parque de estacionamento nas imediações da Fortaleza do Monte levou à tomada de uma decisão inédita em Macau que foi a de reconhecer o subsolo do ponto de vista arqueológico, antes do início de um projecto de construção civil. Este tipo de acções há muito que são obrigatórias em vários países e a China não é já excepção. Os trabalhos permitiram por a descoberto o que resta das últimas paredes do antigo Colégio de S. Paulo adjacente à fachada da igreja da Madre de Deus que ainda o não tinham sido. De resto recolheram-se alguns cacos da dinastia Ming e creio que também da Ching. O arqueólogo responsável fez o relato da importância do que foi encontrado concluindo que os despojos provavam que Macau já era pelo século XVII e XVIII um centro comercial entre o Oriente e o Ocidente.

Primeira pedra da Igreja de S. Paulo (foto: – macauantigo.blogspot)

A conclusão, tal como os achados, não foram de modo algum relevantes, por duas razões: Primeiro, porque o terreno circundante em que se insere a fachada de S. Paulo e a Fortaleza tinham sido alvo de trabalhos profundos e sérios de investigação arqueológica levados a cabo há cerca de década e meia que permitiram pôr a descoberto as fundações do referido colégio, bem como a primeira muralha da fortaleza, uma parte da qual se encontra preservada (e bem!) no interior do Museu de História de Macau. Segundo porque nessas escavações foram recolhidos cacos e outros artefactos do maior interesse que se não provaram que Macau era então um centro internacional de comércio lançaram jorros de luz sobre a vida quotidiana na que foi a primeira Universidade do Extremo Oriente e igualmente sobre a presença de importantes figuras de missionários que fizeram os primórdios da Igreja Católica na China. Para além disso refira-se que a construção do complexo religioso não terá resultado tanto do comércio entre o Oriente e o Ocidente, mas provavelmente mais exactamente do comércio entre a China e o Japão que naquele caso rendeu os “3130 pardaos de reais” necessários para o construir como afirma o jesuíta frei Fernando Guerreiro contemporâneo desses efeitos históricos. Não é objectivo deste artigo tecer considerações sobre a questão das antigas casas que foram demolidas para dar lugar ao tal parque de estacionamento, ou sobre o seu valor como património, cujo projecto acabou por redundar nas investigações arqueológicas. As casas foram demolidas, o parque de estacionamento face aos achados não irá por ventura para a frente e por isso “não vale a pena chorar sobre o leite derramado”. Tendo em conta o facto consumado o que se espera é que agora, antes do início de qualquer projecto de obras o Governo implemente as devidas prospecções arqueológicas que, como disse, costumam ser obrigatórias hoje em dia, mesmo em países que menos cuidam do seu património histórico. Mas neste campo as autoridades parecem relevar alguns aspectos e pura e simplesmente descurar outros, que terão, pelo menos igual importância. Será porque destes se não fala? Será porque voltados a enterrar terão sido pura e simplesmente esquecidos por todos? Refiro-me naturalmente ao campo arqueológico de Hak Sá em Coloane, onde foram encontradas relíquias de grande importância. Não pelo seu valor intrínseco, mas pelo que revelam de ocupação humana no local que remonta a mais de seis mil anos. É certo que uma parte do conjunto se encontra actualmente debaixo de um complexo recreativo e de edifícios de habitação. No entanto existe ainda uma grande parte por desbravar em terrenos circundantes. Refira-se que esses terrenos já foram alvo de tentativas de ocupação selvagem tendo em parte deles, nomeadamente sido construída uma placa de cimento armado que serviu de base ao estacionamento de autocarros durante algum tempo até as Obras Públicas, com auxílio da polícia, intervirem e reporem a legalidade. Parece ser tempo de levar a cabo em toda a área as prospecções arqueológicas que se impõem e que desde 1973 têm sido feitas intermitentemente. O panorama do passado de Macau não termina no pano de fundo da estátua de Jorge Álvares, nem na fachada do templo de à Má na Barra.

Fragmento encontrado nas ecavações de Hak Sá (Coloane).

De facto, os artefactos encontrados em Hak Sá provam que por aqui andaram muitos povos senhores de muitas culturas que se foram perdendo no tempo e que parece importante trazer de novo à luz. Tal, como se preservaram os achados da Madre de Deus e do Monte utilizando técnicas modernas que permitem mostrar uma nesga do passado aos olhos de hoje e contribuir para a diversificação da oferta turística (como está na moda dizer-se) também os artefactos que se encontram no subsolo de Coloane podem ser estudados, preservados e mostrados permanentemente. Neste caso se nada for feito poderá dizer-se que o que por lá se conserva se manterá conservado. Mas perante as tentativas frustradas de utilização do espaço levadas a cabo ilegalmente o mais provável é que no futuro alguma delas surta mesmo efeito. Ou então possível é também que algum projecto legal público, ou privado ali venha a ser desenvolvido, sem ter em conta a jazida que por ali se encontra varrendo definitivamente quaisquer possibilidades de implementar uma investigação arqueológica ampla, metódica e definitiva. Afinal já lá vão 37 anos sobre a primeira campanha levada a efeito pela “Hong Kong Archaelogical Society” que permitiu saber-se que em Coloane existiam afinal locais de interesse arqueológico a estudar.

A Maçonaria no 5 de Outubro em Macau 05-10-10

Muito se tem escrito sobre o papel da Maçonaria na implantação da República em Portugal e também no papel decisivo que a Carbonária nela terá desempenhado como braço armado da primeira. Todavia, para além de uma ou outra referência bibliográfica, não é muito o que se sabe da acção destas organizações na instituição do regime republicano em Macau.

É certo que os dados escasseiam (mesmo em Portugal), mas do que se conhece pode concluir-se que a Maçonaria também aqui desempenhou papel equivalente ao da sua congénere da “Metrópole”.

O mesmo não se poderá dizer da Carbonária. Sobre esta associação secreta a bibliografia não é abundante, mas pelo menos existem alguns trabalhos, de certo detalhe, identificando-a essencialmente como o “exército civil” que apoiou os heróis da Rotunda nos acontecimentos que culminaram no dia 5 de Outubro de 1910. Um dos seus chefes era o próprio Machado dos Santos. O outro era Carlos da Maia que viria a governar Macau em 1914. Todavia, sobre a organização no Território o silêncio é absoluto.

Embora a história de associações desse género seja sempre difícil de fazer dado o grau de secretismo de que se rodeavam pode dizer-se, com razoável certeza, que o silêncio que reina se deve apenas ao facto da organização não ter existido de todo na então colónia portuguesa da China, pelo menos nesse período.

A única referência à Carbonária em Macau diz respeito à estada na cidade de cinco dos seus elementos presos por subversão em Portugal que para aqui foram exilados em 1898. Os cinco teriam, pouco depois da chegada, tentado aliciar alguns militares no sentido de sublevar a guarnição, prender o Governador e proclamar a República.

A tentativa fracassou e os cinco voltaram a ser detidos cumprindo o resto da pena de exílio a que tinham sido anteriormente condenados, mas agora mais longe ainda, ou seja em Timor. Refira-se todavia que o relato destes factos se baseia apenas em alusões breves sem citação de fontes reproduzidas nalguma bibliografia relativa à história do movimento anarquista em Portugal e nada mais.

No que toca à Maçonaria o caso é bem diferente. A sua acção em Macau está relativamente documentada graças ao trabalho de investigação de alguns autores com destaque para o historiador A. H. De Oliveira Marques.

Assim sabe-se hoje que o papel dos “pedreiros livres” na colónia portuguesa, reunidos em torno da “Loja Luís de Camões” foi decisivo não só na proclamação da República, como posteriormente no afastamento da elite dirigente monárquica e na consolidação do novo regime.

De facto a “Loja Luís de Camões” incluía no seu seio um grande número de funcionários públicos de todos os escalões, militares da marinha e do exército, para além de advogados, engenheiros e jornalistas, ou seja o escol da colónia. Assim não é de admirar que o próprio ajudante de campo do último governador monárquico (Eduardo Marques) Álvaro de Melo Machado tenha sido escolhido para o substituir dois meses depois da proclamação do regime republicano.

Álvaro de Melo Machado primeiro governador republicano de Macau (1910-1912)

Melo Machado era maçom desde 1907 tendo aderido nesse ano à loja lisboeta “Liberdade”. Aqui chegado passou, naturalmente a integrar-se nos quadros da “Loja Luís de Camões”. Para além deste à mesma loja pertenciam também, outros vultos que desempenhariam papel fulcral no rumo político que o Território haveria de tomar no futuro.

Entre muitos conta-se com particular destaque a figura bem conhecida de Constâncio José da Silva, advogado jornalista e polemista, proprietário e redactor do jornal “A Verdade”que esteve na primeira linha do republicanismo na campanha pelo afastamento das figuras de proa da monarquia. Constâncio inspirou nomeadamente o levantamento das tropas que cercaram o Palácio da Praia Grande e obrigaram à ponta das baionetas o governador Eduardo Marques a publicar as novas leis da república que insistia obstinadamente em guardar na gaveta.

Outro jornalista que ficaria para a posteridade pelas suas relações de medianeiro entre os revolucionários republicanos chineses e as autoridades locais, amigo pessoal de Sun Yat-sen (fundador da República da China) e igualmente redactor e proprietário de vários jornais era Francisco Hermenegildo Fernandes, figura sobre a qual muito se tem escrito e de quem ainda hoje pouco mais se sabe a não ser o que ele próprio de si deixou publicado. O mais pode resumir-se à frieza de um currículo constante na “Repartição dos Assuntos Sínicos” onde era tradutor e os dados oficiais inclusos nos autos que contra si foram levantados pelos tribunais em diversos processos por alegado abuso de liberdade de imprensa que contra si foram movidos.

Com menor destaque, mas não menos eficácia política salientou-se também o coronel José Luís Marques, um dos fundadores da maçonaria organizada em Macau que ocuparia durante largos anos a presidência do Leal Senado.

Igualmente pouco citado, mas bem inserido nos centros de decisão encontrava-se o seu camarada de armas António Antunes, igualmente co-fundador da “Loja Luís de Camões”, que nos anos subsequentes a 1910 comandaria a Polícia de Segurança Pública.

Outro advogado de renome e republicano estrénuo pertencente à mesma loja era Damião Rodrigues, personalidade cujo perfil já abordei aqui em anteriores artigos igualmente devido às suas ligações estreitas à revolução republicana da China e também pelo combate desassombrado que travou, especialmente, contra a ditadura do “Estado Novo” de Salazar, já numa fase adiantada da sua vida.

Para além dos nomes citados muitos outros o poderiam ser. O poeta Camilo Pessanha, que dispensa biografias, mesmo maçónicas, que outros já fizeram e com pormenor, seria um deles.

Deste destaque, necessariamente limitado, fica excluído Rosa Duque, porventura um dos mais combativos jornalistas republicanos de Macau, que com a aproximação do golpe de 28 de Maio de 1926 chegou a anunciar na primeira página do jornal “O Combate” a sua filiação maçónica e o alto grau de que era detentor naquela organização iniciática. A exclusão deve-se apenas ao facto de no momento em que a república se instaurava nos confins do Oriente, se contar entre os sargentos que na Rotunda, de armas na mão, com Machado Santos, sofriam o cerco e as arremetidas das tropas fieis a D. Manuel II comandadas por Paiva Couceiro.

Este breve artigo não ficaria completo sem uma referência curiosa que parece subscrever o dito do rei D. Carlos segundo o qual “Portugal era uma monarquia sem monárquicos”. Seria? Não se sabe!

O que se sabe é que, em Macau, Bernardino de Senna Fernandes, 2º Conde de Senna Fernandes, tal como o ex-realista seu homónimo, Presidente Bernardino Machado, era já maçom e republicano numa época em que a monarquia vigorava em pleno e a República não passava de um ideal cuja concretização até entre os seus correligionários gerava dúvidas.

Médicos e medicina em Macau. 28-09-10

Normalmente nos compêndios de história, as figuras militares, os políticos, os revolucionários, e os aventureiros ocupam a maior parte do labor dos autores que se dedicam a investigar o passado.

Na história de Macau é igualmente assim.

Todos nós conhecemos se não a saga pelo menos a figura do Ferreira do Amaral, ou do Coronel Mesquita, ou então do todo-poderoso ouvidor Miguel de Arriaga, ou do Comendador Lou Lim Yok, ou o comissário Lin  que veio a Macau para arrasar o humilhante contrabando do ópio.

Os seus perfis estão largamento documentados e continuam a ser alvo de estudo ainda hoje.

No entanto pelos vistos em Macau há uma profissão, ou melhor duas de que não reza a história: – médicos e os farmacêuticos.

Uma omissão tão injusta, quanto relevante foi a acção de alguns deles ao longo dos quase quinhentos anos de presença portuguesa em Macau e não só nas suas áreas profissionais.

Muitos foram muito mais do que médicos e contribuíram decisivamente no seu e noutros campos em momentos decisivos da história local.

Porém, tanto quanto me lembre na toponímia apenas ficaram recordados meia dúzia de nomes desses servidores da ciência.

Padres, militares e políticos excedem-nos largamente em número.

Faltou historiador que deles falasse?

Felizmente não.

Isto graças ao prolífico Monsenhor Manuel Teixeira que na sua extensa bibliografia não deixou pode dizer-se, aspecto algum da história de Macau de fora. A medicina e a farmacêutica, foi capítulo que também não lhe escapou.

Sobre este assunto Monsenhor Manuel Teixeira também se debruçou com profundidade, ainda que o que deu à estampa não tivesse produzido eco digno de registo. Principalmente se comparada a obra com a sua “Toponímia de Macau”, ou “os Militares em Macau”.

Trata-se de “A Medicina em Macau“, investigação republicada pela secretaria dos Assuntos Sociais e Orçamento em 1998 e que parece estar apenas disponível nas bibliotecas.

Esta área geralmente ignorada pelos investigadores e divulgadores das coisas de Macau merece tanto mais relevância quanto contêm monografias e biografias que somente ali se encontram.

Esta obra conheceu duas edições. A segunda foi a que acima referi, a primeira foi publicada em 1976 e desta se encontram exemplares em alfarrabistas e igualmente nas bibliotecas.

Devo dizer, que consegui os volumes dessa primeira edição aqui há uns anos precisamente num dos alfarrabistas por onde não deixo de passar de cada vez que me desloco a Lisboa.

Comprei-os por um preço muito acessível em comparação com outras obras sobre Macau, algumas expostas por cifras tão proibitivas quanto muitas vezes banais, e repetitivos são os temas que abordam.

Isto por si só demonstra que se em 1976 a obra pouco interesse despertou, trinta anos depois, nem aos frequentadores de alfarrabistas continua a interessar a julgar pelos valores de capa.

A segunda edição não conheceu melhor sorte do que a primeira que se saiba. Permaneceu desde logo fora da circulação, quedando-se pelas estantes dos departamentos do Governo e pelas mãos de alguns a quem o livro foi oferecido pelas ditas autoridades e pouco mais.

No entanto, vale a pena ter este livro, por duas razões pelo menos.

Primeiro porque revela uma faceta extremamente importante da história de Macau tão mal estudada e tratada.

Segundo, porque Monsenhor Manuel Teixeira, tantas vezes acusado de fazer uma história muitas vezes pecando pela parcialidade, excluindo intencionalmente muitos assuntos do conjunto das suas obras, nesta discorre largamente sobre a outra face da medicina em Macau, ou seja a medicina tradicional chinesa e a forma como esta era praticada.

Sobre este tema vale a pena ler o capítulo intitulado “Alguns Aspectos da Medicina Tradicional Chinesa”, em que o autor cita o médico Caetano Soares, que passou 15 anos da sua estada em Macau a estudar este peculiar campo o conhecimento. Neste capítulo revela alguns dados curiosíssimos, como seja o simples facto de muito antes da medicina preventiva ter começado a ser aceite na Europa, já ser aqui praticada há milénios, nomeadamente através da “tradição existente entre os chineses de beber chá e água quente, uma boa forma de combater as infecções microbianas”.

Além disso junta a tudo dados estatísticos de grande relevância através das épocas, que permitem a qualquer estudioso retirar importantes conclusões noutros domínios da história nomeadamente social e política de Macau.

A compor tudo isso “A Medicina em Macau” de Monsenhor Manuel Teixeira, inclui indicações preciosas sobre a génese e actividades das grandes instituições de assistência médico-social do território.

Nomeadamente, sobre o primeiro hospital, de S. Rafael, que se situou onde hoje se encontra o Consulado Geral de Portugal em Macau, que se ergueu quase a par da fundação de Macau no século XVI, por mão do bispo Jesuíta Melchior Carneiro, o hospital, Conde de S. Januário, o Kiang Wu, ou mesmo centros menos conhecidos como o antigo núcleo de recuperação de tóxico-dependentes da Taipa, que chegou a ser tomado como modelo internacional de tratamento principalmente de dependentes da heroína e do ópio,  a leprosaria, actualmente desactivada de Ka Hó em Coloane e outras mais.

Ficamos também a conhecer algumas figuras do passado, que chegaram a ter nome no seio da comunidade científica internacional no domínio da botânica, com o médico José d’ Almeida. Este um cientista típico do século das luzes, introdutor de novas espécies vegetais, como um certo tipo de banana que ainda hoje é conhecido como “banana d’Almeida”. Os seus trabalhos sobre a guta-percha ainda hoje são igualmente reconhecidos.

O médico José d’Almeida (de casaca vermelha) figura de cera constante no museu de história de Singapura.

“A Medicina em Macau” é um livro que se não destina ao grande público mas que nem por isso deve permanecer ignorado.

Um livro que apesar de datado poderá revelar-se de grande interesse particularmente, para as pessoas ligadas à área da saúde, designadamente ao nível executivo porque é possível encontrar ali situações e problemas que por serem do passado não quer dizer que não possam conter a inspiração no sentido de abordar os desafios que se colocam hoje à saúde pública em Macau.

Continuo convencido que as lições do passado servem sempre para encarar melhor a resolução do futuro. No mundo da medicina não será diferente.

O general anarquista e a “República Cantonense” (II) 14-09-10

Frequentemente, nos relatórios diplomáticos americanos e ingleses Chen Jiongming era referido como “o general bolchevista”. No entanto tal não parece ter sido o seu posicionamento como se viria a revelar. Quando muito seria o socialista moderado que um observador descreve num relatório dirigido ao cônsul americano em Amoy.

É certo que foi o alegado “general bolchevista” que abriu as portas de Cantão ao Komintern, quando a província possuía, pode dizer-se, uma liderança bicéfala (constituída por ele próprio e Sun Yat-sen) no entanto, seria afinal Sun, que durante a reorganização do Kwomintang em 1924 faria uma aliança clara com Moscovo que enviou os seus conselheiros políticos e militares para a China, dando forma ao Partido Nacionalista.

Na mesma altura Lenine, através de um enviado especial sondou igualmente Chen quanto à possibilidade de um entendimento, mas este recusou a ajuda, talvez por duvidar da revolução russa de que lhe chegavam notícias, mas que então se encontrava ainda numa titubeante infância.

Regressado a Cantão em 1915, depois do temporário exílio de Macau, Chen reiniciou a obra que anos antes tinha deixado por concluir. Assim procedeu a várias reformas administrativas estabelecendo municípios em moldes modernos, organizou eleições autárquicas, implementou remodelações na educação e no sistema, incentivou campanhas de alfabetização com a criação de escolas nas fábricas e também a doutrinação política do operariado e do campesinato.

Mas a sua mais importante área de actuação e a que maior impacte social provocaria verificou-se neste último sector, ou seja, no mundo do trabalho.

Nessa área os anarquistas inspirados por Liu Shifu, principal orientador ideológico de Chen,  efectuaram um trabalho relevante junto das massas. Assim, de uma quase total ausência em 1911 o sindicalismo organizado surgiu e expandiu-se de tal forma que em 1922 a província contava com 130 sindicatos e mais de 300.000 trabalhadores sindicalizados.

Este movimento não se restringiu porém às fronteiras de Guangdong alastrando-se igualmente a Hong Kong e Macau.

A acção dos anarco-sindicalistas fez-se sentir na colónia portuguesa através da rápida formação de associações de classe cujo número chegou a ascender a quase oito dezenas segundo dados estatísticos da “Repartição de Administração Civil”.

O primeiro sinal de que algo estava a mudar tinha tido lugar muito antes, em 7 de Agosto de 1909 com uma greve geral dos condutores de riquexós. Porém à data o incidente não mereceu atenção por parte das autoridades que se mantinham convictas da imobilidade social da China e por conseguinte de Macau. O desengano surgiria (inesperado?) em 1922.

Nessa data a capacidade organizativa dos trabalhadores locais era já uma realidade insofismável que só o governo teimava em não tomar a sério. Isto apesar de não desconhecer a situação como afirmava à época o publicista Jaime do Inso: -“Os ânimos na China andavam exaltados mercê da activa propaganda russa entre os chineses, e de Cantão foco vermelho de sempre no sul do ex-Celeste Império, irradiara para Macau, como não podia deixar de suceder, o vírus da revolta introduzido metodicamente pelos agentes (do Komintern) Yoff, Karakan, Borodine e tantos outros que, nas escolas, nos quartéis, nas oficinas, nas ruas e nos campos, tinham estendido habilmente a rede da sua propaganda cujos resultados no espírito simplista da população chinesa, a quem faziam crer que os senhores de hoje passariam a criados de amanhã, não havia de se fazer esperar. Os ânimos andavam exaltados a ponto de Macau a terra pacífica por excelência, e que muitos chineses ricos preferem pela segurança e quietação que aqui desfrutam ver nas ruas procissões chinas, onde, em manifestações verdadeiramente infantis, se faziam alusões deprimentes e de desafio ao “Diabo Estrangeiro”, como , por exemplo, um chinês cavalgando a esfera terrestre, como símbolo da China dominando o Mundo…”

Jaime do Inso. Oficial de marinha e escritor

Nesse estado de espírito de que o escritor faz descrição concisamente correcta, mas eventualmente redutora a verdade é que se adivinharia que um qualquer pretexto bastasse para lançar as massas nas ruas contra o colonialismo. O pretexto foi encontrado em finais de Maio de 1922.

Na sequência da prisão de desordeiros numa rixa que envolveu soldados do contingente militar de Moçambique estacionado no Território despoletaram-se manifestações de protesto que culminaram no cerco a uma esquadra de polícia. O cerco terminou com a intervenção do exército que dispersou os manifestantes a tiro. Do tumulto resultaram dezenas de mortos e centenas de feridos. Face ao escalar da violência a lei marcial foi declarada. Por seu turno os sindicatos responderam com uma greve geral que paralisou a vida do Território durante largos meses.

À greve de Macau seguiu-se pouco depois em Hong Kong, processo grevista semelhante, embora aqui a situação tenha atingido foros de ainda maior gravidade tanto em perda de vidas como em prejuízos económicos que decorreram do congelamento do tráfego marítimo num porto que já então servia uma das mais importantes praças comerciais do Extremo Oriente.

A imprensa macaense não hesitou em apontar o dedo acusador a Sun Yat-sen como mentor dos lamentáveis acontecimentos reverberando-o pelo facto de pagar assim a hospitalidade que Macau tantas vezes lhe tinha concedido em tempos de crise.

A este propósito e como curiosidade registe-se que nesse mesmo ano entre os candidatos a deputados por Macau ao Parlamento de Lisboa, figurava o nome do próprio Sun Yat-sen, que apesar de tudo, ainda conseguiu o voto de um eleitor, num universo de 335 eleitores.

Todavia a responsabilidade directa, ou indirecta, do inopinado candidato ao parlamento português nos acontecimentos de 1922 ainda hoje permanece por esclarecer por duas ordens de razões:

Primeiro, porque à data dos acontecimentos Cantão encontrava-se mergulhada num quase total caos político militar resultante da cisão que se revelaria definitiva entre Sun Yat-sen e Chen Jiongming que estalara nessa altura.

No campo sindical a cisão também se encontrava em vias de se efectivar entre os anarco-sindicalistas que viam em Chen um líder indiscutível e os que defendiam a luta operária nos moldes marxistas-leninistas. Nesse Verão, a tal “propaganda” do Komintern, orientada por Borodine, e sublinhada por Jaime do Inso já produzia efeitos sensíveis retirando lenta, mas inexoravelmente a exclusividade a Chen Jiongming na liderança do movimento operário. A fundação no ano anterior do Partido Comunista da China, por Chen Duxiu, que tinha sido ministro da educação de Chen Jiongming em 1920, tinha sido decisiva no isolamento do “general anarquista”.

Tendo esses factos em conta não custa admitir que as massas perante um jogo de forças momentaneamente inconclusivo tenham saído para as ruas mais como consequência de um movimento de inércia do que de uma acção dirigida e planeada por uma liderança que na realidade estava muito mais ocupada entre si na luta pelo poder em Cantão do que em instigar motins nas colónias europeias da China.

Seja como for, certo é que a paz social em Macau e Hong Kong só se restabeleceu mais de um ano depois com a consolidação na presidência da “República Cantonense” de Sun Yat-sen e a ascensão de Chiang Kai-shek ao comando indisputado das principais forças militares de Guangdong e províncias limítrofes em finais de 1923.

Aliás a derrota posterior de Chen Jiongming na luta contra Sun Yat-sen deve-se em grande parte às tropas de Chiang Kai-shek que enquadradas por oficiais formadas na recém criada academia de Whampoa (fundada em 1924) instalada pelos conselheiros militares soviéticos superavam largamente em disciplina eficiência táctica e armamento as forças do “general anarquista”.

No entanto, a luta entre Sun e Chen, muito mais do que disputar-se nos campos de batalha travou-se essencialmente no terreno ideológico.

Para Sun o futuro da China passava pelas teses de Lenin defensoras de um estado forte e centralizado num partido único, moldes em que reorganizou o Kwomintang. No pólo oposto situava-se Chen, cujas raízes anarquistas o levavam a defender um regime socialista, pluri-partidário e uma China federalista tendo como modelo os Estados Unidos da América.

Apesar do apoio militar e financeiro, que depois do pronunciamento pró soviético de Sun, durante algum tempo lhe foi proporcionado pela Inglaterra através de Hong Kong, Chen não conseguiu resistir à máquina militar ascendente do Kwomintang que acabou por esmagar o que restava das suas tropas reunidas no chamado “Exército de Guangdong” no bastião de Haifeng a sua terra natal onde tinha iniciado a sua vida política como chefe guerrilheiro algumas décadas antes. Em 1925, a colónia britânica abria-lhe as portas do exílio final.

Apesar de banido porém, Chen não cessou de lutar pelo seu “social federalismo”.

Pouco depois de se estabelecer em Hong Kong organizou e foi eleito presidente do “Partido do Interesse Público” (Zhi Gong) continuando a criticar o sistema Nacionalista de partido único que depois do desaparecimento de Sun Yat-sen e a ascensão de Chiang Kai –shek rompeu definitivamente a aliança com Moscovo e levou a cabo uma acção fulminante de extermínio dos comunistas que integravam as fileiras do Kwomintang.

O “Partido do Interesse Público” aderiu em 1947 à frente unida promovida por Mao Tsé-Tung e é actualmente um dos oito partidos políticos aceites e oficialmente reconhecidos na República Popular da China.

O protesto contra a decisão de Chiang Kai-shek de não confrontar o Japão aquando da invasão da Manchúria (1931) e a campanha subsequente pelo boicote à compra de produtos japoneses foram os seus dois últimos pronunciamentos políticos antes de morrer vítima de febre tifóide na colónia britânica em 1933.

Com Chen Jiongming morreria também a ideia federalista que chegou a ser uma das mais acarinhadas doutrinas entre os intelectuais chineses dos convulsos anos vinte do século passado