Macau 400 Years

Em dois anteriores programas falei-lhe sobre as duas primeiras histórias de Macau que se publicaram.

 

A primeira em 1836 da autoria do Sueco Anders Ljungstedt.

 

A segunda foi publicada já na primeira década do século XX, da autoria de Montalto de Jesus.

 

Ambas as obras tiveram em comum o facto de terem sido escritas originalmente em inglês e ambas terem sido muito mal recebidas.

 

A primeira, de Anders Jungiste porque apoiando-se em documentos afirmava uma verdade insofismável, mas politicamente inconveniente, que era o facto de a soberania de Macau, nunca ter sido concedida pela China a Portugal, não existindo qualquer documento oficial, que comprovasse essa fantasiosa doação.

 

A segunda de Montalto de Jesus, porque o autor decidiu incluir um epílogo na obra, sugerindo a entrega de Macau às Nações unidas tendo em conta, segundo ele, a continuada má administração que os portugueses faziam do território.

 

A História de Macau de Montalto provocou os mais irados fervores patrióticos, os exemplares da segunda edição foram mesmo queimados publicamente, numa espécie de auto de fé e o autor condenado pelos tribunais.

 

Mas para alem destas duas histórias existe uma outra, que é esta que tenho aqui.

 

Chama-se “Macau 400 Years”.

 

Originalmente publicada apenas em chinês, em 1988.

 

A tradução inglesa surgiria a público em 1996, ou seja três anos antes da transferência da soberania de Macau, de Portugal para a China.

 

O seu autor é o professor Fei Cheng Kang, da Academia de Ciências Sociais de Xangai e segundo ele próprio, esta tradução para inglês não segue exactamente a primeira edição chinesa, antes incluindo alguma documentação sobre o assunto que o autor viria a descobrir, nos arquivos, ou para os quais foi chamado a atenção por outros académicos, incluindo portugueses posteriormente.

 

Se comparações podem ser feitas, esta história aproxima-se bastante mais das teses de Ljungstedt, e distancia-se claramente das de Montalto de Jesus.

 

Claro que Fei Cheng Kang possuía à partida uma vantagem de que nenhum dos seus antecessores tinha beneficiado.

Dominava a língua dos arquivos chineses e teve acesso a eles, o que não aconteceu com Ljungstedt, ou Montalto que apenas tinha acesso às fontes portuguesas.

 

Só por estas razões vale a pena lê-la.

 

Mas eu chamaria a atenção para outro facto que é o de esta publicação, ao contrário das outras de que falei, não ter provocado qualquer reacção notável junto do público ocidental.

 

Não sei se por ter sido publicada num momento em que a transição decorria a pleno vapor, e tanto o publico leitor como os académicos estarem, então, preocupadas com outros assuntos de maior imediatismo e mediatismo.

 

Alguns consideram esta obra como uma espécie de versão oficial da história feita precisamente para servir de guia pós transição.

 

Isto tanto mais que surgia a público através de uma editora oficial da República Popular da China.

 

Não contesto este ponto de vista, mas não posso deixar de salientar que, independentemente, do grau de subjectividade, que qualquer obra de carácter histórico possui, o livro constitui um relato bastante, diria, imparcial, sobre os mais de quatrocentos anos de presença portuguesa em Macau.

 

Aliás entre várias apreciações sobre alguns episódios controversos dessa presença saliento um, que é o do breve e trágico consulado do governador Ferreira do Amaral em Macau.

 

Ferreira do Amaral foi a figura encarregada em finais da primeira metade do século dezanove de afirmar a soberania de Portugal em Macau, visando tornar o Território, numa verdadeira colónia, missão que cumpriu com empenhamento e sucesso, mas que lhe custaria a vida.

 

Fiquei algo surpreendido ao verificar que Fei Cheng Kang, trata a questão sem fazer juízos de valor, ou repetir chavões preconcebidos.

 

Claro que para os que entendem que a história de Macau é um assunto exclusivamente português, ou para quem ainda defenda visões redentoristas, que tiveram o seu tempo, mas há muito se tornaram totalmente extemporâneas, a obra poderá ser vista do mesmo modo que o foi a de Montalto de Jesus, ou Ljungstedt.

 

Para quem não tem preconceitos, acho que tem todo o interesse lê-la, porque se fica a conhecer outro lado da história.

 

Resta dizer que o autor, para além desta história tem publicado diversos trabalhos, vários deles relacionados com a presença ocidental na China, nomeadamente em Xangai.

É uma pena que “Macau 400 Years” continue bem mais ignorada do que merecia.

 

Não deixe também de dar uma vista de olhos pela bibliografia em que o autor sustenta esta obra vale a pena prestar-lhe também atenção.

 

An Historical Sketch of the Portuguese Settlements in China.

Na bibliografia de Macau há uma lacuna importante.

Falta uma História.

E digo isto, porque o que se tem publicado sobre o assunto não passa quando muito de trabalhos de maior ou menor fôlego, mas sempre parciais, já que mal referem o papel que outras comunidades para além da portuguesa, por aqui tiveram.

E não me refiro só à comunidade chinesa.

Falo também por exemplo do papel desempenhado, por americanos, ingleses, franceses, alemães, filipinos e outros que em Macau viveram e actuaram.

Apesar de recentemente terem surgido alguns trabalhos bastante mais abrangentes, de alguns seguidores de Alan Brodel, que privilegiam as fontes locais, certo é que me parece que apesar das promessas não viremos a ter tão cedo uma verdadeira história de Macau.

Seja por que razões for.

Bom. independentemente das circunstâncias também é certo que na bibliografia de Macau se levantaram alguns marcos nesta matéria.

Um deles chama-se An Historical Sketch of the Portuguese Settlements in China.

O exemplar que aqui tenho é uma reimpressão da primeira edição de 1836.

Esta reimpressão foi feita em 1992 pela editora, Viking de, Hong Kong.

Trata-se de uma obra curiosa feita por um homem que era tudo menos historiador e que escreveu este livro ao que parece com o propósito principal de tentar provar que nunca a dinastia Ming, cedeu a soberania de Macau a Portugal.

Ljungstedt era sueco.

Nasceu no seio de uma família pobre na cidade de Linkoping.

Mesmo assim, chegou a frequentar por algum tempo a universidade de Upsala, mas privado de meios acabou por ser forçado a abandonar os estudos superiores.

Emigrou depois para a Rússia, onde foi professor e tradutor do Rei sueco Gustavo Adolfo, durante dez anos.

Mais tarde, seria contratado pela Companhia Sueca das Índias Orientais e acabaria por passar a residir em Macau, onde faleceu em 1835.

Anders Ljungstedt

Aliás Ljungstedt está sepultado no cemitério protestante, ali ao pé da Casa Garden.

Em Macau a fortuna acabou por lhe sorrir, tornando-se um comerciante abastado.

Porém ao contrário dos seus contemporâneos ficou a gostar tanto da sua terra adoptiva que resolveu escrever-lhe a história.

Para isso socorreu-se dos inestimáveis arquivos da igreja, que lhe foram franqueados pelo bispo, que era seu amigo, apesar de professarem religiões bastante distintas e viverem num tempo anterior em mais de um século à tolerância do ecumenismo do Papa João XXIII.

Seja como for certo é que Ljungtedt, aproveitou esse espólio e se dele não retirou as conclusões que melhor agradariam às autoridades portuguesas, pelo menos teve o inestimável mérito de salvar importantes informações sobre o passado de Macau, que na sua forma original se perderam irremediavelmente.

E perderam-se porque quem tinha obrigação de zelar pelos documentos, não o fez e uma grande parte desapareceu, isto segundo conta o falecido historiador Padre Manuel Teixeira.

Para além desta história de Macau, Ljungstdet, deixou-nos mais alguns trabalhos, pelos quais acabaria por ser reconhecido e agraciado com a condecoração da Ordem de Vasa, pelo rei da Suécia em 1820.

Ljungstedt, chegou a ser também o cônsul geral da Suécia na China e o seu nome permanece na escola secundária da sua terra Linkoping, onde como disse nunca mais regressaria.

Macau também lhe dedicou memória dando o seu nome a uma das ruas do bairro do NAPE.

Creio que será justo salientar que a primeira história de Macau, encare-se ela como se quiser foi esta escrita por Ljungstedt.

A segunda só seria dada à estampa mais de um século depois, já no século XX, também escrita em inglês, pelo intelectual macaense Montalto de Jesus.

 

Dicionário de Termos e citações de interesse político e estratégico

 

Já ouvimos falar de coleccionadores das mais diversas coisas.

 

Existem os numismatas que coleccionam moedas.

 

Os filatelistas que coleccionam selos.

 

Os filuministas que coleccionam caixas de fósforos

 

Os bibliógrafos que coleccionam livros documentos assinaturas de autores e coisas assim.

 

Enfim, há um sem número de coleccionadores, mas não encontro nome para quem colecciona termos.

 

Deixo a questão a quem me ouve (aqui no blogue a quem me lê).

 

Com certeza haverá termo para seccionar na língua portuguesa este interessantíssimo trabalho de Henrique Lages Ribeiro.

 

Tenho-o aqui.

 

Chama-se; “Dicionário de Termos e citações de interesse político e estratégico. Contributo”.

 

Contributo é um subtítulo e acho que seria dispensável numa obra pioneira.

 

O título, quanto a mim é demasiado elaborado para obra que é.

 

As recensões literárias dizem que interessa a quem se interessa por assuntos específicos de política e estratégia.

 

Em minha opinião interessa a todos.

 

Lages Ribeiro coleccionou ao longo de pelo menos duas décadas termos retirados da imprensa e dos livros que ia lendo.

 

Se alguma palavra lhe despertava a atenção anotava-a.

 

Aliás Lages Ribeiro é um leitor quase compulsivo de tudo.

 

Recorta artigos de jornais, sublinha livros, guarda documentos.

 

Em suma, colecciona o que lhe desperta a atenção

 

Recordo que Lages Ribeiro foi Secretário Adjunto para a Segurança do último Governador de Macau.

 

Antes disso desempenhou vários outros cargos no Território.

 

Este é um livro que vale a pena ter em casa para consultar aos bocadinhos.

 

Isto porque cada entrada é uma recordação da novela do mundo que todos os dias nos passa pelos olhos através do livros, dos jornais e dos telejornais,

 

A capa é curiosa.

 

Trata-se do mapa cómico da Europa.

 

A editora é a Gradiva e a edição é deste ano.

 

Creio que a livraria portuguesa se já não tem este livro vai tê-lo nas próximas semanas.

 

Se não o tiver peça, por que vale a pena.

 

Visões da China

Jaime do Inso

A literatura de viagem e em geral a literatura sobre temas ultramarinos nunca ocupou grande lugar no panteão das letras portuguesas.

 

Exceptuando muito recentemente o romance “Equador”, passado em S. Tomé e Príncipe, de Sousa Tavares que foi recorde de vendas.

 

Independentemente do que sobre “Equador” se diga e a crítica foi contundente, sobre o romance de Tavares, creio no entanto que não passa de um grão de areia na desértica bibliografia da literatura ultramarina que possui tantos grãos de areia como nomes esquecidos.

 

Basta falar, por exemplo em Travassos Valdez, Pinto Basto, ou Jaime do Inso.

 

Quem alguma vez leu algum destes autores?

 

Poucos de nós.

 

Acho por isso que é preciso ressuscitar o interesse por este género literário e particularmente este que tanto nos diz.

 

Jaime do Inso.

 

Tenho aqui uma primeira edição dada à estampa pela Editora Europa a 5 de Fevereiro de 1938.

 

Tive a sorte de a encontrar num alfarrabista de Lisboa onde vou sempre que me desloco a Portugal.

 

Ainda bem que este original foi republicado não há muitos anos.

 

Pergunte na Livraria Portuguesa, ou vá à biblioteca do IPOR que o deve encontrar.

 

São visões da China que Jaime do Inso condensa no seu sentimento e que eu cito:

 

“A China absorve-nos, narcotiza-nos, prende e domina, como regra geral, o nosso espírito, invade tudo, o raciocínio e o sentimento, como uma teia invisível que aperta, pouco a pouco, insensivelmente, que nos sufoca, esgota e cansa!
A China é traiçoeira e calma, insinua-se quanto mais se aborrece, deseja-se quando se odeia, aspira-se como uma necessidade, a China, que quase até nos mata!
A China é como uma feiticeira que tem sortilégios, é a cartomante terrível que parece escrever o nosso destino com letras invisíveis: há no seu ambiente um sopro de agoiro, uma agonia, uma tristeza, uma tortura, que se recebem sem custo e com prazer, como uma necessidade fatal da nossa existência.
A China é o mistério que ri e que dança na frente de nós, numa volúpia dolorosa do espírito duende, a China é a mensageira do desconhecido que perturba, enerva, envenena e vence.
A China é tudo isso e muito mais ainda que a minha pena não sabe descrever, a China não se define, só se respira e sente, como um veneno imprescindível a quem uma vez o provou.”

 

Era este o sentimento de Jaime Correia do Inso nascido em Niza em 1880 e falecido 1967.

 

Neste livro que para além de valer pela escrita vale também pelas extraordinárias fotografias e litografias que condensa.

 

Jaime do Inso era marinheiro.

 

Assentou praça aos 18 anos no regimento de Infantaria 22, em Portalegre, e, no ano seguinte, integrou, como aspirante, o corpo de alunos da Armada.

 

Promovido a guarda-marinha em 1903 ascendeu nos postos até capitão-de-fragata em 1935, situação em que passou à reserva em 1938.

 

Correu mundo.

 

Esteve em Timor e em Macau.

 

Macau, o território a que dedicou praticamente toda a sua obra literária, sob a forma de conferências, artigos e livros.

 

Foi Distinguido com vários louvores e medalhas, entre outras, as comendas da Ordem de Avis e da ordem do Rei Leopoldo da Bélgica.

 

Foi colaborador regular do semanário macaense “A Pátria”.

 

Em Portugal deixou textos dispersos em revistas e jornais, designadamente no “Diário de Notícias”, onde o seu último escrito datado de 1965) foi dedicado à inauguração do Planetário Calouste Gulbenkian, anexo ao Museu da Marinha.

Enfim um escritor que contribuiu inexcedivelmente para as letras macaenses, mas que mesmo aqui na terra a que dedicou toda a sua vocação e intelecto parece esquecido.

 

Imperdoável.

 

Viagem por Macau

O escritor inglês Austin Coats, que citei aqui no “Guarda-livros” a propósito da Birmânia achava que Macau possuía uma beleza mediterrânica impar, afirmação plena de sentido para esta cidade até, digamos, finais dos anos 80 do século passado.

Mas Coats, que possuía quarto reservado no antigo Hotel Bela Vista, onde passava temporadas a escrever as suas novelas, ia mais longe e dizia com aquele ênfase que punha em tudo que quando acordava de manhã, o som do silêncio e a paisagem marítima que se lhe deparava o fazia pensar sistematicamente que acordava em Veneza.

Creio que o tom marítimo de Macau, a não ser agora ali no Cotai com esse arremedo da Praça de S. Marcos e arredores, pouco se assemelharia à cidade italiana, mas em questões estéticas, cada um é livre de exprimir a opinião que entende.

E muitos estrangeiros, por aqui passaram e exprimiram de diversas formas a maneira como sentiram Macau.

Uns descreveram-na em verso, outros em prosa, outros, pura e simplesmente fixaram os traços da sua fisionomia pintando-a a aguarela, ou a óleo e outros fixando-a em fotografia, como o famoso e pioneiro Jules Ittier de que também já aqui falei,

E eis aqui uma reunião das impressões desses viajantes que por cá passaram pelos séculos XVIII e XIX.

Chama-se “Viagem por Macau”.

Este bonito álbum de “Comentários Descrições e Relatos” de autores estrangeiros sobre o Território.

Claro que ao ler-se as descrições que aqui constam, mal podemos sentir que se fala da mesma cidade onde vivemos hoje.

O seu perfil mediterrânico que todos elogiavam desvaneceu-se há muito.

No entanto quando percorremos este álbum parece que somos chamados à atenção para os pequenos becos, as traseiras raramente visitadas, ou os edifícios que vemos todos os dias e não ligamos a tomarem novas dimensões, tornarem-se reais como se nunca tivessem desaparecido, ou não estivessem em risco de extinção.

Constam aqui várias descrições de Macau, como as de Lord Macartney, ou do navegador Laperousse, ou de Jules Itier.

Todos incluídos aqui pela pena de Cecília Jorge e Beltrão Coelho, duas das figuras que nas últimas décadas mais fizeram, no domínio editorial pela divulgação de Macau nos seus mais diversos aspectos.

Sem dúvida, que a iconografia de Macau agora é outra, mas a alma deste pequeno Território da China, não se desvaneceu de todo.

Permanece e sente-a quem tenha tempo ou paciência para parar um pouco e deixar-se encantar com o mesmo beco, ou as mesmas traseiras, ou a mesma esquina por onde passa todos os dias e de tanto passar já não vê nem sente.

Percorra as páginas deste álbum e deixe-se encantar de novo.

Às vezes há uma sabedoria, inata, desconhecida que nos dá a força necessária para voltarmos à infância e encontrarmos a beleza que tínhamos esquecido, depois de termos deixado de ser crianças.

A estética, na prosa e na imagem é este trabalho de Cecília Jorge e Beltrão Coelho, das Edições Oriente, dado à estampa pela primeira vez em 1997.

Um detectiva nos tempos da dinastia Tang

Hoje vou falar-lhe de um autor tão pouco conhecido, como interessantes e originais as coisas que escreveu.

Trata-se de Robert Hans van Gulik, o autor que ficou conhecido principalmente pelas histórias policiais de que foi autor e que não se inscrevem em quadro nenhum da literatura policial a que estamos habituados.

Pois é verdade.

Os mistérios do Juiz Di, que aqui tenho, numa edição da Difel, são histórias sobre as peripécias de um detective que viveu na China no ano seiscentos da nossa era, no tempo da Dinastia Tang.

A personagem é fundada numa figura histórica.

Era o juiz Di Renjie, referido nos anais da época.

Mas como é que isto surgiu?

Pois é simples, Van Gulit, começou por traduzir, a novela do século XVIII, intitulada “De Goong An”, que tem no enredo central precisamente a figura do histórico juiz Di.

Isto em 1948, data em que publicou a tradução e ao mesmo tempo lhe surgiu a ideia de criar uma personagem chinesa ao estilo dos detectives, da colecção Vampiro, fundada precisamente na novela que acabara de traduzir.

E assim nasceu esta figura, e algumas dezenas de histórias, que não ficam nada a dever a qualquer clássico do género do mundo ocidental.

No entanto Gulit achou que o efeito das suas novelas não seria muito na Europa, nem na América, por isso decidiu publicar o livro primeiro em Japonês, o que se revelou uma decisão de sucesso.

O livro esgotou sucessivas edições, com o título “Meiró no Satsunji”.

Sucesso em japonês, sucesso seguinte em Chinês, graças a uma tradução feita por uma editora de Singapura. Em 1951.

A tentativa resultou e Gulik escreveu mais dois livros com as aventuras do perspicaz detective, “Os Crimes do Sino Dourado”, este que tenho aqui e “As Mortes do Lago”.

Apesar da popularidade na China e no Japão o mesmo não se pode dizer nos Estados Unidos e na Europa que olhou com alguma indiferença para esta incursão oriental nos domínios reservados de Conan Doyle e Deshel Hamet.

Aliás a figura do juiz Di tinha pouco a ver com a de Fu Man Chu que na altura estava na moda.

Mas quem era Robert Van Gulik?

Bom! era uma diplomata holandês, que percorreu um pouco todo o extremo Oriente, tendo estado colocado em Tóquio, na China e também na Indonésia quando este país ainda era colónia holandesa.

Aliás Gulik que nasceu em 1910 na Holanda e morreu igualmente na Holanda em 1967, viveu a sua infância em Jacarta, já que o pai era médico e ali estava colocado.

Formou-se na universidade de Leyden em 1934 e fez o doutoramento no ano seguinte, sendo considerado um dos mais reputados orientalistas europeus do século XX, tendo obtido duas licenciaturas na universidade de Leyden Uma em direito e outra em línguas e cultura Indonésia.

Gulik quase seria apanhado pela guerra em Tóquio, mas foi evacuado antes da Holanda declarar guerra ao Japão, passando a fazer parte da legação holandesa junto do governo nacionalista de Chiang Kai Shek.

Nessa altura casou com a filha de um alto funcionário chinês, de quem teria quatro filhos.

Os livros que publicou tendo como herói o juiz Di são nem mais nem menos do que 16, entre 1948 e 1968.

Vale a pena ler estas histórias que vão muito para além da simples aventura, denunciando um profundo conhecimento da vida e da maneira de ser dos chineses.

Aliás em minha opinião os juristas deveriam dar uma vista de olhos pelas aventuras do juiz Di que contêm muita informação sobre o entendimento, a prática e os fundamentos do direito chinês.

As aventuras de um detective no mundo perdido da Dinastia Tang, de há quase dois mil anos.

É uma delícia mergulhar neste mundo inopinado e fascinante onde se cruzam Confúcio com Raymond Chandler, e Lau Tzé com Sherlok Holms, tudo durante a mais brilhante das dinastias da China, a dinastia Tang

Leia que vai ver que ao fechar a última página não se arrepende.

 

Álbum de Macau

Saber como era Macau e quem era quem em Macau, antes do aparecimento da fotografia tem um autor, chama-se George Chinnery.

Nascido em 1774, em Londres, Chinnery passou a maior parte da sua vida na Ásia e encontra-se sepultado no chamado Cemitério Protestante mesmo ao lado do Jardim de Camões.

Durante várias décadas Chinnery pintou o que havia para pintar desde Macau a Cantão passando por Hong Kong, deixando-nos em pinceladas precisas a silhueta do Rio das Pérolas.

Mas foi como retratista, que Chinnery haveria de conquistar a sua maior fama.

Também neste campo, poucas figuras do seu tempo se eximiram à sua tela.

Há um álbum imperdível resultado de uma colecção reunida por Anthony Lawrence, de quadros do mestre inglês, que actualmente se encontram espalhados por várias instituições públicas e privadas, principalmente em Hong Kong.

Depois do desaparecimento de Chinnery, a imagem de Macau apenas voltaria a surgir em 1844, através do daguerreótipo, que foi a primeira forma de fotografia, inventada por Daguerriot.

O autor dos primeiros daguerreótipos de Macau foi Jules Ettier, que em Outubro de 1844, dedicou dois dias da sua estada no Oriente, a fotografar o Território.

Pode ver alguns dos trabalhos de Jules Ettier, nesta colecção da autoria de Cecília Jorge e Beltrão Coelho, de que em cima reproduzo a capa de um deles.

São três álbuns que retratam a vida e a história de Macau desde 1844, até 1974.

Para além das imagens da cidade e ilhas, esta colecção debruça-se também, sobre situações e pessoas, mostrando os retratos de figuras e festividades ilustrativas de uma certa maneira de ser e estar macaense.

Esta colecção é afinal uma súmula da arte fotográfica em Macau desde os seus tempos áureos.

Numerosos álbuns de fotografias foram entretanto publicados depois destes, afinal complementando esta obra. Todavia estes foram os pioneiros e por ventura os que mais largo espectro abrangem.

Ver Macau através das imagens é sentir, como a cidade tem mudado vertiginosamente, mas também notar que há tantos flagrantes invulgares, pelos quais passamos no nosso dia a dia e passamos sem ver.

 

The Story of a Stele, o monumento nestoriano da China e a sua recepção no Ocidente

O livro de que lhes falo hoje chama-se “A História de uma Estela, o monumento Nestoriano e a sua recepção no Ocidente 1625-1916”.

O exemplar que aqui reproduzo é em inglês e tem o título de “The Story of a Stele”.

Não creio que esta obra tenha sido ainda traduzida para português.

Não só porque é recente (a edição é deste ano), mas provavelmente, por que a sinologia não parece muito desenvolvida em Portugal,  e por isso assuntos destes pouca atenção despertam, embora nos anos mais recentes tenham sido dados uns passos em frente ainda que tímidos.

Trata-se de um estudo que reflecte bem os equívocos e incompreensões entre o Ocidente e o Oriente.

Neste caso trata-se da descoberta de uma estela em xisto, datada de 1625 escrita em caracteres chineses na parte frontal e em alfabeto siríaco nos dois lados laterais.

O siríaco era um alfabeto do Médio Oriente.

Alguns estudiosos ocidentais proclamaram a estela como uma pedra da Roseta do Extremo Oriente.

Nada de mais errado.

Essa consideração era feita por académicos ocidentais que poderiam saber muito de siríaco, mas nada sabiam de chinês, nem da sua cultura, nem dos seus caracteres.

Nesse tempo apenas o “jurubaças” de Macau (tradutores do Leal Senado) sabiam ler e escrever chinês e essencialmente conheciam profundamente os chineses.

Na Europa ninguém mais os conhecia a não ser por ouvir dizer.

Para além do que Marco Pólo tinha escrito no século 13 e Fernão Mendes Pinto no século 17 da China pouco, ou nada se sabia e da estela de Xian muito menos.

E porquê?

Porque provava que o cristianismo chegou à China através de uma heresia condenada por católicos e ortodoxos.

Mas antes de resumir o que foi o nestorianismo devo explicar que a redescoberta da estela surgiu num momento crucial da chegada a Pequim da religião católica já há muito expurgada de cismas no século XVII, através de missionários jesuítas esclarecidos, como Mateus Ricci.

Este padre, ao falar com o imperador sobre o Salvador do Mundo engoliu em seco quando o monarca perguntou: “Então se Jesus é o Salvador do Mundo porque é que a China que foi e continua a ser o centro do mundo e da civilização não teve notícia do facto?”

O Jesuíta, não respondeu de pronto, mas safou-se do silogismo pouco tempo depois ao saber da descoberta da Estela Nestoriana.

Assim pôde responder ao imperador que o Salvador já era conhecido na China desde a dinastia Tang (que reinou entre os anos 300 e 800) e provar até que a nova religião tinha sido autorizada por decreto como constava dos arquivos imperiais.

Diga-se que a China será um dos raros países que conserva desde tempos imemoriais os documentos oficiais da sua história sistematicamente arquivados ao longo dos tempos até hoje.

O Imperador terá mandado verificar os documentos e comprovado a asserção do padre jesuíta.

De facto o cristianismo tinha chegado à China pouco tempo depois de surgir (provavelmente através do apóstolo S. Tomé) e os imperadores da dinastia Tang tinham autorizado o novo culto.

Foi um alívio para os jesuítas.

Mas para o Vaticano seria pelas décadas e séculos seguintes um embaraço.

É que o Bispo de Constantinopla, Nestor tinha sido considerado herético pelo concílio de Éfeso no ano de 431

Sendo assim considerar que a palavra do Redentor tinha chegado à China por via herética era questão que era preciso apagar da história e foi o que aconteceu.

Diz-se que a palavra de Cristo chegou à China através de S. Tomé, ou S. Bartolomeu.

S. Tomé diz a tradição que está sepultado na Índia.

Porém não há memória destes dois apóstolos terem chegado ao “Império do Meio”.

O que chegou foi de facto o nestorianismo alguns séculos depois, não através de apóstolos mas sim de mercenários e comerciantes que percorriam a via da seda.

O nestorianismo não vingou na China.

O catolicismo esteve quase a vingar mais de mil anos depois, mas a “questão dos ritos” que opôs jesuítas a dominicanos, no século XVIII, tal como a heresia nestoriana voltou a fazer soçobrar ali a religião cristã.

Religião que no século XXI luta nas suas diversas vertentes para conquistar fiéis, num país onde o budismo serenamente e sem fazer apostolado parece continuar a reinar sem concorrência entre a maioria do povo.

Esta estela é um símbolo de fé e de fracasso.

Leia este livro.

Desfaz alguns mitos

De Michael Keevak, com a chancela da Hong Kong Kong University Press, publicado em 2008.

O pronunciamento dos sargentos republicanos de Macau 19-10-10

A proclamação do regime republicano em Portugal trouxe consigo profundas mudanças político-sociais para o país inteiro determinando para o bem, ou para o mal o curso da história. O mesmo aconteceria um ano depois na China. Porém aqui as consequências teriam efeitos universais, pode dizer-se, tendo em atenção as proporções desta imensa nação. Todavia, nenhuma das alterações de regime verificadas e tão coincidentes no tempo teriam efeitos notáveis em Macau, para além dos normais e de curto prazo que todas as alterações políticas de fundo motivam sempre.

De facto, a proclamação do fim de monarquia em Lisboa para além dos resultados imediatos que provocou, nomeadamente a alteração das cores da bandeira, do hino e dos selos das repartições não registou grande impacto na vida social do território logo que ultrapassadas as angústias e entusiasmos de momento e mal que firmadas foram as novas instituições o que não levou muito tempo. Aliás a proclamação do novo regime em Macau não suscitou contestação de vulto, nem teve figura de resistência que se assemelhasse a Paiva Couceiro, por exemplo.

O mais que houve foi alguma teimosia mais burocrática do que outra coisa de um, ou outro, com destaque para o Governador e para o juiz da comarca que fiéis à monarquia pela qual tinham sido nomeados revelavam pruridos evidentes em “virar a casaca”.

O percurso subsequente do magistrado Marques Vidal não se conhece. No entanto sobre o governador Eduardo Marques sabe-se bem que morreu fiel ao antigo regime. Aliás Eduardo Marques nunca deixou a política activa militando sempre nas fileiras monárquicas. Ali e depois de um período de relativo apagamento, durante os anos áureos da “Primeira República” o ex-governador de Macau voltaria a emergir na sequência do golpe de 28 de Maio de 1926 como ministro de Salazar.

Eduardo Marques, último governador de Macau do regime monárquico.

Todavia apesar do carácter de Eduardo Marques, este nem sequer, como Paiva Couceiro, possuía tropas que o apoiassem se tivesse optado pela resistência activa. A prova disso mesmo é fornecida pelo jornal “ O Colonial” que informava então: – “A nossa bonita e sossegada província de Macau, foi há poucos dias, teatro de uma cena que bem podia tirá-la à tutela da nossa soberania e certamente a fez retroceder um grande passo no caminho lento da sua prosperidade.

Em 29 de Novembro último , algumas praças da canhoneira Pátria desembarcaram armadas, juntando-se às do Corpo de Polícia e Companhia de Infantaria , para obrigarem o Governador a dar cumprimento às determinações do decreto sobre as ordens religiosas, que erradamente imaginavam não tinha sido posto em execução.

Todas essas praças, umas 150 aproximadamente , que os esforços dos oficiais não conseguiram manter disciplinadas nos quartéis dirigiram-se debaixo de forma , comandadas por sargentos e já convencidas do engano que as amotinava, ao palácio do Governo a fim de conseguirem perdão para a falta gravíssima que tinham cometido e exigiram-lhe que fosse garantido por um documento escrito e assinado pelo Governador. Seguros da impunidade, voltaram aos quartéis, onde, pelo menos aparentemente, a vida normal se restabeleceu e a disciplina continuou mantendo-se como se antes não tivesse por completo sido desprezada ostensivamente”.

Ou seja, o Governador pura e simplesmente não podia contar com a força armada já que para além do exército e da marinha também a polícia se juntou ao motim republicano. Perante a quebra de confiança assim demonstrada, Eduardo Marques não teve alternativa senão assinar o tal documento ilibando de responsabilidades os amotinados e entregar seguidamente a administração da colónia ao seu ajudante de campo, o primeiro-tenente Álvaro de Melo Machado. A solução foi do agrado geral já que Álvaro Machado era bem conhecido pela sua feição republicana. Falta saber ao certo se não teria sido ele próprio um dos principais instigadores da sublevação.

Se no campo militar a República era um facto, no campo civil nada se registava em matéria de reacção. Aliás se havia local onde a monarquia não tinha monárquicos (como dizia o rei D. Carlos) um deles seria com certeza Macau. De facto a aristocracia no Território era reduzidíssima podendo ser contada pelos dedos de uma só mão. O número de titulares resumia-se ao Barão do Cercal, que ocupado com a gerência das suas várias empresas e com os pés mais em Hong Kong do que em Macau pouco se preocuparia com a política. Feliciano Pereira Marques, deputado por Macau em Lisboa tinha morrido no ano anterior. Restava Bernardino de Senna Fernandes. Porém a monarquia em Macau podia contar com todos menos com este já que o conde (tal como o seu contitular de Portugal, Ribeira Brava) enfileirava há muito entre as hostes conspirativas republicanas.

Sendo assim e para além das alterações de nomes ainda que sonantes na estrutura administrativa em essência pouco mudou na vida quotidiana local e mesmo o motim das tropas não chegou a atingir as cores dramáticas que “O Colonial” lhe quis atribuir. O pronunciamento militar liderado pelos sargentos não só não colocou em causa a presença portuguesa em Macau, como muito menos a “fez retroceder um grande passo no caminho lento da sua prosperidade”.

Regressada porém a normalidade, o combate contra a monarquia não acabou ali. De facto, clarificadas as águas, o poder político concentrava-se agora no apoio ao esforço republicano de derrubar o regime imperial da China, esforço esse que numa parte significativa passava pela colónia.

Sun Yat-sen seria a partir de então a nova bandeira dos republicanos locais que celebrariam novo triunfo logo no mesmo mês de Outubro do ano seguinte, nomeadamente no recém criado “Clube dos Sargentos”, instituição que durante décadas seria um dos mais significativos cadinhos da cultura republicana de Macau.

Macau Arqueológico 12-10-10

A construção de um parque de estacionamento nas imediações da Fortaleza do Monte levou à tomada de uma decisão inédita em Macau que foi a de reconhecer o subsolo do ponto de vista arqueológico, antes do início de um projecto de construção civil. Este tipo de acções há muito que são obrigatórias em vários países e a China não é já excepção.

Os trabalhos permitiram por a descoberto o que resta das últimas paredes do antigo Colégio de S. Paulo adjacente à fachada da igreja da Madre de Deus que ainda o não tinham sido. De resto recolheram-se alguns cacos da dinastia Ming e creio que também da Ching. O arqueólogo responsável fez o relato da importância do que foi encontrado concluindo que os despojos provavam que Macau já era pelo século XVII e XVIII um centro comercial entre o Oriente e o Ocidente.

Primeira pedra da Igreja da Madre de Deus (foto: macauantigo.blogspot)

A conclusão, tal como os achados, não foram de modo algum relevantes, por duas razões: Primeiro, porque o terreno circundante em que se insere a fachada de S. Paulo e a Fortaleza tinham sido alvo de trabalhos profundos e sérios de investigação arqueológica levados a cabo há cerca de década e meia que permitiram pôr a descoberto as fundações do referido colégio, bem como a primeira muralha da fortaleza, uma parte da qual se encontra preservada (e bem!) no interior do Museu de História de Macau. Segundo porque nessas escavações foram recolhidos cacos e outros artefactos do maior interesse que se não provaram que Macau era então um centro internacional de comércio lançaram jorros de luz sobre a vida quotidiana na que foi a primeira Universidade do Extremo Oriente e igualmente sobre a presença de importantes figuras de missionários que fizeram os primórdios da Igreja Católica na China.

Para além disso refira-se que a construção do complexo religioso não terá resultado tanto do comércio entre o Oriente e o Ocidente, mas provavelmente mais exactamente do comércio entre a China e o Japão que naquele caso rendeu os “3130 pardaos de reais” necessários para o construir como afirma o jesuíta frei Fernando Guerreiro contemporâneo desses efeitos históricos.

Não é objectivo deste artigo tecer considerações sobre a questão das antigas casas que foram demolidas para dar lugar ao tal parque de estacionamento, ou sobre o seu valor como património, cujo projecto acabou por redundar nas investigações arqueológicas. As casas foram demolidas, o parque de estacionamento face aos achados não irá por ventura para a frente e por isso “não vale a pena chorar sobre o leite derramado”.

Tendo em conta o facto consumado o que se espera é que agora, antes do início de qualquer projecto de obras o Governo implemente as devidas prospecções arqueológicas que, como disse, costumam ser obrigatórias hoje em dia, mesmo em países que menos cuidam do seu património histórico.

Mas neste campo as autoridades parecem relevar alguns aspectos e pura e simplesmente descurar outros, que terão, pelo menos igual importância. Será porque destes se não fala? Será porque voltados a enterrar terão sido pura e simplesmente esquecidos por todos? Refiro-me naturalmente ao campo arqueológico de Hak Sá em Coloane, onde foram encontradas relíquias de grande importância. Não pelo seu valor intrínseco, mas pelo que revelam de ocupação humana no local que remonta a mais de seis mil anos.

Fragmentos encontrados nas escavações arqueológicas de Hak Sá (Coloane)

É certo que uma parte do conjunto se encontra actualmente debaixo de um complexo recreativo e de edifícios de habitação. No entanto existe ainda uma grande parte por desbravar em terrenos circundantes. Refira-se que esses terrenos já foram alvo de tentativas de ocupação selvagem tendo em parte deles, nomeadamente sido construída uma placa de cimento armado que serviu de base ao estacionamento de autocarros durante algum tempo até as Obras Públicas, com auxílio da polícia, intervirem e reporem a legalidade.

Parece ser tempo de levar a cabo em toda a área as prospecções arqueológicas que se impõem e que desde 1973 têm sido feitas intermitentemente. O panorama do passado de Macau não termina no pano de fundo da estátua de Jorge Álvares, nem na fachada do templo de à Má na Barra. De facto, os artefactos encontrados em Hak Sá provam que por aqui andaram muitos povos senhores de muitas culturas que se foram perdendo no tempo e que parece importante trazer de novo à luz. Tal, como se preservaram os achados da Madre de Deus e do Monte utilizando técnicas modernas que permitem mostrar uma nesga do passado aos olhos de hoje e contribuir para a diversificação da oferta turística (como está na moda dizer-se) também os artefactos que se encontram no subsolo de Coloane podem ser estudados, preservados e mostrados permanentemente.

Neste caso se nada for feito poderá dizer-se que o que por lá se conserva se manterá conservado. Mas perante as tentativas frustradas de utilização do espaço levadas a cabo ilegalmente o mais provável é que no futuro alguma delas surta mesmo efeito. Ou então possível é também que algum projecto legal público, ou privado ali venha a ser desenvolvido, sem ter em conta a jazida que por ali se encontra varrendo definitivamente quaisquer possibilidades de implementar uma investigação arqueológica ampla, metódica e definitiva. Afinal já lá vão 37 anos sobre a primeira campanha levada a efeito pela “Hong Kong Archaelogical Society” que permitiu saber-se que em Coloane existiam afinal locais de interesse arqueológico a estudar.