Se gosta de ficção científica o livro que lhe apresento hoje pode ser uma boa sugestão para preencher alguns dos seus tempos livres.

Se gosta de estar a par das novas perspectivas que se abrem à humanidade com as descobertas científicas que vão surgindo em vários ramos do conhecimento humano, este livro, será capaz também de lhe satisfazer a curiosidade

Questões que não há muitas décadas eram pura e simplesmente vistas, inclusivamente por muitos cientistas, como estando muito para além das possibilidades da ciência e da tecnologia, estão agora ao alcance do nosso dia a dia.

Muitas vezes fazem até parte de um quotidiano de que não nos apercebemos bem, de tanto convivermos connosco próprios todos os dias.

O Ipod, ou a sua Tv de plasma, ou o seu telefone móvel, ou ainda o seus “laptop”?

já se perguntou como são possíveis?

Bom são possíveis, porque os físicos descobriram o mundo sub atómico, o “quanto”, onde tudo parece contrariar as leis da física de Newton.

O Ipod, o pequeno e popular objecto que nos dias de hoje se vende aos milhões pelo mundo fora só foi possível depois de se ter descoberto que certo tipo de partículas sub atómicas, possuíam a paradoxal capacidade, de viajar entre o futuro e o passado, com a mesma, ou mais facilidade ainda, com a que nos deslocamos de carro entre a nossa casa e o emprego e vice versa.

E é isto mesmo de que nos fala Michio Kaku neste livro.

“Phisics of the Impossible”, que foi traduzido para português, o ano passado pela Editorial Bizâncio com o título a “Física do Impossível”.

Michio Kaku, norte americano de ascendência japonesa é o autor desta obra que se lê de um fôlego, isto porque para além de ser, o co-autor da “Teoria das Cordas”, que entre outras coisas pretende explicar a criação do universo, é também um excepcional divulgador, que em palavras e ideias simples explica os conceitos mais esotéricos e complexos da física moderna.

Neste livro Michio Kaku, aborda questões que muitos consideram impossíveis e que vão da psicoquinese, a capacidade de mover objectos apenas com a força da mente, até às máquinas de viajar no tempo.

Impossível?

Definitivamente, não!

O Mundo da classe I que inclui entre outras a capacidade a de viajar por teleportação como na série, “Star Trek” e que poderá ser uma realidade já dentro de pouco mais de um século.

O mundo da classe II, que incluirá entre outras a descoberta da forma de viajar a velocidades superiores à da luz, questão teoricamente resolvida, mas que ainda requer tecnologia que ainda não possuímos e só viremos a ter dentro de bem mais do que alguns séculos

O Mundo da Classe III, aquele em que Kaku, admite que o progresso permitirá descobrir máquinas que funcionem sem gastar energia, ou seja o moto contínuo, que até hoje e desde há séculos tanto tem apaixonado inventores, como enriquecido charlatães

E finalmente a possibilidade de prever o futuro, que o actor Tom Cruise popularizou, em 2002, no filme, “Minority Report”.

A escrita de Michio Kaku é fluente e simples, e os temas que trata verdadeiramente fascinantes.

Michio Kaku, é um físico teórico formado pela universidade de Harvard. Tirou o mestrado em Berkley em 1972 e no ano seguinte iniciou a carreira de investigador em Princeton.

É actualmente professor da Universidade de Nova York.

Para além de “A Física do Impossível”, editado em português, o ano passado pela editorial Bizâncio, escreveu, também, “Para Além de Einstein”, publicação da Europa América, em 1997, “Visões”, da Editorial Bizâncio, em 1998 e “Cosmos de Einstein” dado à estampa em 2005, pela editora Campo das Letras, entre outras obras.

Além de tudo isto participou em séries de televisão dedicadas à explicação de diversas áreas da física moderna.

Michio Kaku um autor que vale mais do que a pena ler, ou então, pelo menos, vê-lo e ouvi-lo, porque muitos dos seus programas estão por aí em DVD.

GOD DELUSION by RICHARD DAWKINS

Há quem defenda que um ateu poderá ser tão feliz como qualquer pessoa que acredita num ser superior, mas o que é, com certeza, é mais livre.

Esta posição é adoptada por Richard Dawkins, um biólogo darwinista, divulgador científico e ateu militante.

O seu livro mais famoso foi sem dúvida, o “Gene Egoísta”, o primeiro que lhe conferiu a notoriedade de que disfruta actualmente.

No entanto a sua obra mais controversa e na minha opinião mais empolgante, pelo que expõe e pela forma como expõe, mas também pelo arrojo, e sólida argumentação é esta.

Chama-se The God Delusion.

Está já traduzida para português com o título “A Desilusão de Deus”.

Deus provavelmente não existe?

As religiões são perniciosas?

Têm sido a causa da maior parte dos males do mundo, ou pelo menos do maior número de guerras?

Provar que as respostas a estas perguntas não podem deixar de ser afirmativas é o que com grande rigor e objectividade apoiado nos mais recentes conhecimentos científicos em várias áreas tenta fazer Richard Dawkins neste livro.

Devo mencionar que Dawkins, é não só ateu, mas ateu militante, que está convencido que todos, os cientistas como ele, embora o possam evitar dizer, no seu íntimo são pelo menos cépticos quanto à existência de um construtor do universo, chame-se Deus, Alá, Jeová, ou qualquer outra coisa.

Por outro lado Dawkins, de uma forma bastante persuasiva pretende igualmente provar  que os argumentos filosóficos e religiosos a favor da existência de Deus são de extrema debilidade.

Independentemente de concordar, ou não com Dawkins, há que reconhecer que se trata de um autor (e não é um autor qualquer), que se arroja a afrontar um domínio que convive mal com a discordância.

Veja-se a condenação à morte de Salman Rashdie, o autor dos Versos Satânicos, que durante anos viveu escondido e sob a protecção da polícia por alegadamente ter insultado a fé islâmica.

Resta-me dizer que Richard Dawkins nasceu em Nairobi no Quénia em 1941.

Estudou Zoologia e é actualmente professor catedrático na Universidade de Oxford em Inglaterra, depois de ter sido também professor da sua especialidade na Universidade de Berkley nos Estado Unidos.

The God Delusion.

Um livro que vale a pena ler independentemente de crenças, ou descrenças.

De Longe à China

O romance policial vem de longe, tem pelo menos século e meio.

Neste domínio da literatura os pioneiros são Sir Arthur Conan Doyle, que em 1887 inventou a figura de Sherlock Holmes.

Depois disso apareceram centenas de autores que vão de Agatha Christie ao nosso bem português Deniz Mac Shade, ou Diniz Machado que escreveu o “ O que diz Molero”, novela que não tem nada ver com romances policiais, mas é um marco na literatura portuguesa.

Mas antes de todos estes nomes sonantes da literatura mundial houve alguns pioneiros de que se houve falar pouco e outros de que não se houve falar de todo.

Um dos que não se conhece e de que nem sequer existe obra acessível em qualquer livraria a não ser provavelmente em alfarrabistas e na Biblioteca Nacional, naturalmente, é António Maria Bordalo.

António Maria Bordalo era um oficial de marinha português que foi secretário do governo de Macau durante cerca de dois anos nos idos de 1850.

1850, um ano particularmente dramático na história de Macau, quanto desconhecido hoje em dia.

Foi o ano que se seguiu ao assassinato do governador Ferreira do Amaral.

Um ano em que mais do que antes, ou depois, a sobrevivência de Macau esteve por um fio.

Este escritor menor da literatura portuguesa, isto segundo a classificação dos dicionários bibliográficos, deixou obra publicada, principalmente no que respeita ao seu género literário preferido que eram as narrativas de viagem marítimas.

Neste âmbito escreveu coisas interessantes, como “Trinta anos de Peregrinação”, “Manuscrito Achado na Gruta de Camões”, ou um “Passeio de Sete Mil Léguas”.

Digo eu que são coisas interessantes, porque dizem respeito a Macau.

Mas Portugal ainda não redescobriu este autor.

O que é certo é que António Maria Bordalo escreveu, não só o primeiro romance policial passado em Macau, como talvez até um dos romances, ou novelas policiais, como lhe queiram chamar, que se escreveram no mundo.

Isto muitos anos antes do “Mistério da Estrada de Sintra” de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão

A novela chama-se “Sansão na Vingança”.

O enredo gira em torno da explosão da Fragata D. Maria II, que ocorreu em Macau em 1850.

António Maria Bordalo, fala pela primeira vez das seitas em Macau, do crime que campeava nas ruelas tortuosas dos bairros, que eram então periféricos à cidade como o da fortaleza do Monte, de que restam hoje as ruas de Sancho Pança e D. Quixote e o recuperado bairro de S. Lázaro.

António Maria Bordalo ficcionou um drama familiar, depois de o ter investigado exaustivamente.

É que o irmão, também oficial de marinha morreu precisamente no desastre da fragata D. Maria II.

A explosão de um dos navios mais emblemáticos da marinha portuguesa desses tempos provocou uma consternação nacional.

E o mais estranho nesse episódio é que o irmão de Bordalo teria feito chegar a Lisboa uma carta em que dava conta do desastre.

No entanto essa carta, misteriosamente, fora expedida antes do desastre ter acontecido.

Este facto não consta da novela.

Mas consta da história. E até hoje ainda ninguém avançou com uma explicação plausível para esse facto.

Uma novela de ficção científica, talvez possa especular sobre o que passou.

A destruição da fragata D. Maria II foi um desastre nacional.

Uma tripulação de duzentos homens obliterada num ápice pela explosão de toneladas de pólvora carregadas no porão.

Vários navios ingleses, franceses e americanos, que se encontravam nas imediações do ancoradouro da Taipa sofreram as consequências. Houve mortos, feridos e danos irreparáveis nalguns dos mais modernos navios de várias nações.

Quem foi o responsável?

Quem foram os responsáveis?

Nesta novela Francisco Maria Bordalo não dá uma resposta concreta.

Deixa pairar vagamente que foram as seitas.

Pena é que o livro só esteja disponível na Biblioteca de Macau e na Biblioteca Nacional de Lisboa já que nunca mais foram feitas quaisquer reedições.

Mas ainda bem que ainda existe.

Mas, “De Longe à China”, uma compilação de vários autores, fala disso – e de muito mais.

Este conjunto de livros que aqui tenho fornece resumos da história que contei e de muitas outras, de muitos outros autores que escreveram sobre Macau.

É uma edição do Instituto Cultural de Macau, que poderá encontrar também na Livraria Portuguesa.

Nestes cinco volumes talvez encontre também outras histórias que nunca pensou que se pudessem passar em Macau.

De Longe à China é uma espécie de enciclopédia resumida e fácil de manusear do que se escreveu sobre Macau

Se quer saber quem escreveu o quê, sobre Macau, seja história, romance ou biografia, leia de Longe à China e depois, se puder, compre a colecção inteira.

Infelizmente muita da bibliografia que de Longe à China refere não existe nas livrarias.

É pena.

Duas Instituições Macaenses.

Hoje este meu guarda-livros guarda apenas este.

Chama-se: – Duas Instituições Macaenses.

1871 – 1878 – 1998

Este livro pretendeu comemorar e historiar a vida de uma das mais antigas instituições locais.

Trata-se da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses.

Como vêm este livro é de comum autoria.

Foi feito pelo Professor José Silveira Machado e por mim.

Devo dizer que no que toca a esta obra, ela é mais, muito mais de Silveira Machado do que minha.

Toda a investigação histórica sobre a APIM e a Escola Comercial foi desse emérito professor que Macau perdeu recentemente.

Mas para mim fazer este livro foi muito mais do que conhecer outro dos muitos aspectos pouco divulgados da história de Macau.

Foi principalmente conhecer o professor Silveira Machado.

Ao longo de meses, reuníamo-nos no Café “O Galo”, que ficava no primeiro andar do edifício Nam Kwong, na avenida Rodrigo Rodrigues.

O café já desapareceu há anos.

Era um sítio sossegado, sem janelas. Paredes decoradas com todos os ícones de uma casa portuguesa (com certeza), incluindo os azulejos com os galos de Barcelos e os cachos de uvas pintadas.

As colunas de som nos quatro cantos da sala tocavam isso mesmo, ou seja Amália, Carlos Mourão, Fernando Farinha e tudo quanto ficou gravado da propaganda do SNI para Mundo ver do Portugal passado passadista e estafado.

Encontrávamo-nos lá regularmente ao fim da tarde para conferir elementos para o livro, que cada um tinha descoberto nas buscas que fazíamos.

Ele revelava-me as dificuldades que tinha tido em descobrir uma fotografia inédita que queria por força incluir, ou os trabalhos que teve para encontrar a lista exacta dos directores da Escola Comercial.

“Falta tanto nos arquivos”, dizia ele desiludido com a falta de zelo dos arquivistas e completava:- Se não fosse a minha memória!…

Silveira Machado, sabia bem onde procurar e se não encontrou tudo, acho que muito pouco restou que aqui neste livro não tenha ficado inscrito.

Mas no Café O Galo, terminada a faina literária, não acabava a conversa.

Silveira Machado, cheio de vivacidade e bom humor continuava a palestra a dois, ou às vezes a três ou quatro, sempre que as empregadas vestidas de verde e vermelho, ou não fossem as cores do uniforme as que mais conviessem a um café que tinha por emblema o Galo de Barcelos, se aproximavam solícitas a perguntar ao professor se lhe podiam pôr mais um pouco do líquido escocês de que todas sabiam ser a sua marca preferida.

E entre olhares de soslaio meio líricos, meio eróticos, meios românticos perdia-se entusiasmado a falar-me do que iria escrever no número dessa semana do Clarim.

Eram sempre coisas do quotidiano da cidade.

Ele era um buraco mal sinalizado na avenida; ele era a falta de estacionamentos; ele era o mau tratamento da língua portuguesa nos placares e anúncios das paredes da cidade, enfim…

E confidenciava-me. Lembro-me bem: – Sabes que eu para escrever as crónicas no Clarim meto-me nos autocarros e percorro a cidade. Saio aqui e ali quando alguma coisa me desperta mais a atenção e observo de perto o que se passa.

E eu pensava para mim.

Eis um jornalista competente, como se Silveira Machado fosse um jornalista.

Não. Silveira Machado ao longo da sua vida foi muito mais do que jornalista, ou mero observador.

Foi um interventor e um interventor de mérito.

Não se estranhe por isso que a comunicação social o tenha classificado como, uma das figuras marcantes da cultura portuguesa em Macau.

Faleceu Domingo aos 89 anos no Hospital Conde de São Januário. Professor, fundador e jornalista do semanário católito “O Clarim”, comentador e autor, José Silveira Machado nasceu a 24 de Outubro de 1918 na freguesia e Concelho de Velas, na ilha açoriana de São Jorge.

Chegou nos anos 30 do século passado a Macau para estudar para padre no Seminário de S. José, na companhia de outras figuras de Macau, como Monsenhor Manuel Teixeira, figura emérita da historiografia, e o padre Áureo Castro, outra figura emérita da música.

Dos três Silveira Machado, era o único que se tinha na conta de poeta, por isso é natural que as musas o tivessem impedido de se tornar padre.

Mas as musas deram-lhe também a inspiração para escrever “Rio das Pérolas” colectânea da sua poesia que vale a pena ler.

Nos intervalos da poesia perdeu-se na burocracia do estado como funcionário público durante alguns anos.

Mas foi principalmente professor na Escola Comercial, Colégio Dom Busco e no Centro de Formação dos Serviços de Educação.

Ao longo da sua carreira como jornalista, colaborou na Voz de Macau, na Revista Renascimento, O Clarim, Comunidade, Boletim Informativo de Macau, e foi correspondente do Diário da Manhã e da revista de Cinema Plateia.

Aliás, na sétima arte foi um dos que participou na feitura de uma longa-metragem que se chamava Caminhos Longos, totalmente idealizada escrita e rodada em Macau com actores locais.

Um história romântica dos anos da guerra do Pacífico.

Que pena que a fita se tenha perdido sabe-se lá como algures nuns estúdios de Hong Kong, depois de ter sido passada com assinalável êxito em Macau e Hong Kong, visto com muitas lágrimas e outros tantos risos e sorrisos, bem ao estilo do Leão da Estrela, ou do Costa do Castelo, de Vasco Santana e António Silva.

Se calhar outra vocação frustrada de Silveira Machado que bem poderia ser um António Lopes Ribeiro. Sabe-se lá.

Fluente em cantonense, Silveira Machado escreveu diversos livros.

Macau, Sentinela do Passado, Macau, Mitos e Lendas, Duas Instituições Macaenses, que é o livro que temos aqui, Macau na Memória do Tempo” e “O Outro lado da Vida” que por ele mesmo foi definido como um retrato social de Macau, são alguns dos livros que publicou.

A sua actividade cívica e em prol do português em Macau valeu-lhe o reconhecimento da classe política, tendo sido condecorado com quase todas a medalhas que existem no Boletim Oficial.

A última, a do grau de Grande Oficial da Ordem da Instrução, foi-lhe concedida há dois anos pelo então presidente da república portuguesa Jorge Sampaio.

Homem ligado ao desporto, turismo, educação e cultura, a sua morte é considerada uma “enorme perda” dizem os órgãos de comunicação e digo eu também que tive o privilégio de conviver tão de perto com ele.

Com tanta vida e tanta obra, é claro que Silveira Machado não morreu.

Basta ir à Livraria Portuguesa, por exemplo, para confirmar que Silveira Machado está evidentemente entre nós.

OS DEVORISTAS

Aqui há uns tempos falei-lhe de Vasco Pulido Valente e do seu livro sobre Paiva Couceiro, Um Herói Português.

Embora Vasco Pulido Valente me pareça um produto de certas tertúlias de Lisboa sem interesse de maior, reconheço que escreve por vezes coisas com interesse, principalmente no que se refere à história.

(Sei que também fala na televisão. Mas como por aqui só a RTPI chega, não sei ao certo do que falará!…)

Aconteceu quanto ao Herói Português, Paiva Couceiro.

Não me parecendo um livro que se pudesse classificar exactamente na prateleira de história era vivo interessante e li-o com agrado.

Pareceu-me às vezes rondar entre Raul Brandão, e Eça, quando descreve, ou ironiza.

Depois de ler o Herói Português, comprei logo que pude este

Chama-se a REVOLUÇÃO LIBERAL (1834 – 1836).

Tem como subtítulo OS DEVORISTAS.

É uma edição de 2007, ou seja deste ano.

Li-o com o mesmo interesse de Um Herói Português.

Mas confesso que no final me ficou um amargo de boca.

Pereceu-me ter estado a ler apenas uma espécie de resumo deste livro

O PORTUGAL CONTEMPORÂNEO de Oliveira Martins.

A mesma ironia, o mesmo cepticismo do médico homónimo autor de tratados de medicina, cuja estátua no Campo de Santana em Lisboa ainda hoje continua a ser venerada com velinhas acesas e flores como se tivesse sido santo milagreiro.

Oliveira Martins não!

Mas Vasco Pulido Valente nos DEVORISTAS, fica longe de Oliveira Martins e de Raul Brandão e não chega às ironias de Eça.

E não entende os milagres do outro. O médico…

Optou por dar à estampa o curto período de dois anos do liberalismo português oitocentista.

Curto período.

Mas apesar de curto, em vez de o sintetizar amplia-o e de tal maneira que parece querer incluir nele tudo quanto se passou durante o liberalismo até o regime se converter à tecnocracia de Fontes Pereira de Melo, nos anos 50 do século XIX.

Bendito antecessor de Cavaco, mas bem mais do que este melhor entendedor do futuro que o de agora.

Afinal, não são dois anos conturbados, mas várias décadas politicamente conturbadas de que fala Pulido Valente.

Foram décadas ainda hoje difíceis de compreender.

Por um lado por que ainda hoje não devidamente estudadas apesar dos esforços empreendidos nesse sentido nos últimos trinta anos.

Recordo aqui que antes do 25 de Abril estudar o liberalismo não era recomendado pelo regime.

Por outro lado porque o século XIX em Portugal esteve sujeito a tanta convulsão política que é bem mais fácil compreender os inigmas de João de Barros e da revolução de 1383 (digo bem 1383, 1385, ou depois?), ou as aldrabices de Frei Bernardo de Brito dadas à estampa em quê? 1600 e não sei quantos?…

(Note que digo convulsão política e não social, nem económica porque no século XIX Portugal pareceu tratar apenas de política.

Política, política e nada mais.

Mas dizia, que Portugal esteve sujeito a tanta convulsão que me parece que não vai ser fácil pelos próximos anos deslindar um fio a tal meada nos tecidos da historiografia.

É por isso que aguardo agora o livro que Vasco Pulido Valente diz ter no prelo.

Tem título inédito no dicionário de títulos.

Ao que parece vai chamar-se IR PARA O MANETA.

A expressão liga-se a um general francês que não tinha um braço chamado Loisson e que ficou encarregado de reprimir a revolta portuguesa contra a invasão francesa em 1807.

Loisson reprimiu a revolta com violência inaudita.

E assim a expressão popular ficou.

Quem lhe caía nas mãos morria, ou seja ia PARA O MANETA.

Vasco Pulido Valente diz porém que o livro não é a biografia do general francês, mas a história dos desgraçados que lhe caíram nas mãos.

Aguardo e a publicação do livro, mas ao mesmo tempo com certo receio.

Espero que Pulido Valente não volte a querer meter o Rossio na betesga como fez com  OS DEVORISTAS.

OS CÃES DE RIGA

Como não me considero crítico literário, nem crítico de cinema, e muito menos crítico de arte prefiro fixar-me apenas na recensão das coisas que vão saindo no mundo editorial, classificadas como “não ficção”.

Devo dizer que esta classificação, “Não Ficção” existe apenas nos escaparates das livrarias anglo-saxónicas.

Em Hong Kong, em Singapura e Bancoque, por exemplo há sempre uma secção destacada, dedicada a livros de não ficção e é por aí que me perco.

No que diz respeito ás livrarias portuguesas o assunto é mais complicado.

Por exemplo na FNAC há uma secção intitulada literatura traduzida, que eu não sei o que seja embora de cada vez que vá a Portugal de férias não deixe de dedicar pelo menos duas ou três horas a essa epítome do escaparate do livro.

A FNAC é também a epítome do disco, mas por agora falo de livros.

Bom, apesar disso continuo sem saber bem o que quer dizer literatura traduzida.

Mas enfim tudo isto para dizer que hoje chamo a sua atenção não para a não ficção, mas para a ficção.

E a ficção que hoje me trás é este livro

É um policial, mas um policial quanto a mim particularmente interessante.

Provavelmente não pela trama em si, mas pela situação, ou seja, passa-se num país que era desconhecido de toda a gente, ou quase até ter sido integrado na União Europeia.

Banhada pelas águas geladas do mar Báltico, a Letónia tem litoral pantanoso, com dunas de areia e importantes portos pesqueiros.

Riga é a maior capital das repúblicas bálticas.

No bairro histórico de Riga misturam-se edificações medievais e prédios art nouveau, declaradas património da humanidade.

As florestas cobrem quase metade do território.

Ex-república da União Soviética, a Letónia conquista a independência em 1991.

Como herança do domínio soviético, os russos constituem mais de 30% da população.

E agora, a simples remoção da estátua de um soldado do Exército Vermelho da ex-união soviética no centro da capital, quase gera uma guerra civil.

IMAGENS DE TELEJORNAL

Que país é este de que tudo se sabe, mas poucos parecem saber ao certo o que se lá passa?

O detective sueco Kurt Walander depois de ser chamado a descobrir dois homens assassinados a navegar à deriva nas costas da Suécia num bote, decide atravessar o Báltico para tentar desvendar os segredos de Riga e a dramática mudança que afecta os estados bálticos.

E é entre prédios art noveux e pântanos e florestas e Letões, que são descendentes de suecos e também russos que são os tais 30% da população, que o detective se move, sem saber bem por onde,  e essencialmente sem retirar conclusões.

Vale a pena ler este livro de 270 páginas, que não tem nada a ver com Macau, ou com a China, ou mesmo com a Ásia, mas que tem a ver seguramente com os dias de hoje.

Lê-se de um fôlego, num fim-de-semana na Tailândia, ou nas Filipinas, ou mesmo na Praia de Cheok Van.

Se não o encontrar na Livraria Portuguesa mande vir.

Custa 190 Patacas.

O Título é estes:

Os cães de Riga, o autor é Henning Mankell.

É da editorial Presença.

Leio policiais desde a minha adolescência e também livros de ficção científica.

Creio que são dois géneros que todos nós cultivamos, para preencher as horas vagas, embora nestas matérias hoje em dia existam o VCD e DVD, mais fáceis de consumir, embora deixem menos espaço à nossa própria imaginação.

Um dia destes hei-de falar-lhe também de ficção científica

Bernard Lewis.

Advertência inicial: O texto que se segue é o script de “Guarda-livros” segmento que faz parte do programa “A Montra do Lilau”. Segue sem alterações nem acrescentos.

Boa noite.

Hoje vou-lhe falar de um autor e de quatro livros.

Tenho aqui um apenas traduzido para português.

PEGO NO LIVRO A CRISE DO ISLÃO

O autor chama-se Bernard Lewis.

Nasceu em Londres em 1916 e apesar da idade, continua a ser o dono da cadeira de estudos do Próximo Oriente das Universidades de Cleveland e Princeton, nos Estados Unidos.

Especializou-se em História do Islão e na interacção entre o Islão e o Ocidente ganhou fama mundial graças aos estudos que publicou sobre a história do Império Otomano.

Naturalmente que não preciso de lhe lembrar que o Império Otomano é a actual Turquia, onde se assiste neste momento a uma luta entre os que querem manter o sistema laico do regime – as mulheres sem véu, por exemplo menor – e aderir à União Europeia.

E os que rejeitam a revolução de Mustafá Kemal Ataturk e preferem pertencer ao mundo islâmico – homens de cabeça descoberta (ou de chapéu, em vez de turbante).

Uns querem uma Turquia moderna, os outros o reingresso no Corão puro e duro.

Os militares – como sempre, guardiães do laicismo na Turquia – já ameaçaram que, se houver um regresso ao passado, vão intervir.

(por  isso uns tantos já foram presos)

A União Europeia reagiu desde logo a dizer que eleições livres não são para contestar.

Má consciência da União Europeia, diria eu, já que, quando os islamitas argelinos ganharam as eleições e os militares as anularam, aqui há uns anos, nenhuma voz se levantou na Europa para as impugnar.

É sobre estas contradições que Bernard Lewis fala nos seus livros.

Neste, que se chama, What Went Wrong (MOSTRAR)

Ou neste, que se chama The Crisis Of Islam (MOSTRAR)

E, finamente, neste, The Middle East, a Brief History of the Last 2000 years.

MOTRAR

Esta obra, publicada há três anos, condensa as aulas de décadas anteriores de um professor com uma  visão particular do mundo, depois da dicotomia entre o Ocidente e o Oriente ter deixado de existir com a queda do muro de Berlim e novas dicotomias terem surgido.

Bernard Lewis, é actualmente um dos mais lidos académicos do mundo na especialidade e as suas teses são tidas em atenção e fazem política nos Estados Unidos da América.

São 60 anos de cátedra e diz-se que Lewis é hoje o mais influente historiador Ocidental do Islão e do Médio Oriente.

Devo dizer que, embora, simpatizando com o que defende, penso que muitas vezes exagera na eventual ameaça que o Islão representa para o mundo.

Mesmo, apesar da El Qaida, dos bombistas suicidas, dos atentados de Beslam, de Madrid, de Londres e das Torres gémeas de Nova Iorque.

Pelo menos não estou a ver no século XXI os exércitos do Islão a unirem-se para reconquistar a Andaluzia espanhola e o Algarve.

Não acredito que isso seja possível.

Mas, tal como todos os académicos, defende uma tese e nela pensa condensar a verdade e defende-a com vigor.

Mas quer estejamos de acordo com ele ou não, a verdade é que os conselheiros de George Bush, o presidente americano, o leram e dele tiraram ilacções.

E delas resultou, entre outras, a invasão do Iraque, do Afeganistão, o contencioso com o Irão, o impasse da Palestina e o mais que adiante se verá nas notícias de telejornal de todo o mundo nos próximos tempos

Tudo porque George Bush (republicano) tem direito de veto às leis do Congresso (actualmente dominado pelos democratas).

Se quiser conhecer o mundo islâmico, que vai do Médio Oriente à Indonésia – e às minorias da Austrália e Timor – e estar a par do que se passa por esta Ásia,  não deixe de ler Bernard Lewis, concorde, ou não com ele.

E se tiver verdadeiro interesse comece por este.

MOSTRAR – WHAT WENT WRONG.

De certeza que não vai dar por perdido o seu tempo.

Se calhar vai perceber a importância desta notícia do Telejornal.

ENTRA AL ZARKAWI (TJ de 06/05/07)

O Número dois da Al – Queida mostrou que está são e vivo e, principalmente, parece querer demonstrar que apesar de já lá irem mais de oitocentos anos as cruzadas não só não acabaram, como estão vivas na mente de muitos dirigentes políticos islamitas.

E será por tudo isto que a Turquia continua a bater, sem resposta, à porta da Europa.

Blogues, anonimato e vírgulas 22 – 06 – 10

Na sequência do meu artigo sobre “blogues e anonimato” recebi vários “feedbacks” neologismo inglês de que não gosto muito mas que não tenho senão que aceitar perante a falta de vocábulo português mais à mão. Ou então perante a preguiça de consultar – por exemplo – o novel dicionário da “Academia das Ciências de Lisboa” que alegadamente contém tudo quanto há no léxico de “aquém e além-mar” que não constava do dicionário de “Figueiredo”.

Fui criticado (imagine-se!) não pelo que disse mas pelas vírgulas que deixei de pôr ou inseri a mais (ou a menos) no artigo que deixei exarado nesta página semanal do “JTM”.

Tenho pena que ninguém na “blogosfera” me tenha interpelado sobre “blogues” “anonimato” “calúnias” “censura” “auto-censura” “ética jornalística” “liberdade” “direitos de autor”. Sei lá que mais?

Mas não!

Fui interpelado essencialmente sobre vírgulas. Vírgulas! Vírgulas e mais nada!

Isto na blogosfera!…

Porque algumas pessoas com quem tive oportunidade de falar sobre a questão e/ou me interpelaram directa e pessoalmente a propósito do escrito essas sim falaram-me do conteúdo. Concordaram e discordaram. Enfim!… Disseram o que quiseram e entenderam. Suscitaram discussão de ideias que era o objectivo subjacente ao tempo que despendi a escrever o dito que se prendia essencialmente sobre a “lei de imprensa” anunciada como em fase de revisão.

Mas essa das vírgulas é boa! Não posso levar a sério (mais outro ponto de exclamação e umas tantas reticências).

Fez-me lembrar o meu professor de português do liceu (Pe. Bento da Guia de boa memória) que dizia que a utilização dos acentos nas palavras é coisa ainda hoje absolutamente dispensável para quem domine seriamente um idioma.

Segundo esse pedagogo a acentuação das palavras só começou, naquela fronteira indefinida da “alta idade média” quando o latim se começou a perder com o ocaso do “Império Romano” dando lugar ao analfabetismo generalizado da barbárie e à ascensão do português a afirmar-se como forma de comunicação corrente exclusivamente oral como percursora de língua nova.

Isso ocorreu num momento em que os padres (ilustrados detentores exclusivos do conhecimento que ameaçava esboroar-se nesse episódio histórico em que a guerra se sobrelevava às letras mas que eram muito poucos) ainda dominavam bem as duas línguas: – o “latinório” e o português nascente que na altura era uma espécie de crioulo pouco diferenciável do castelhano.

Mas dizia eu que os tais padres se viram na necessidade de inventar os tais acentos (e possivelmente as vírgulas). Isso de modo a que os frades seus discípulos semi-analfabetos como instrumentos ao seu serviço de Deus e da difusão dos conhecimentos básicos – que era necessário preservar a todo o custo nas escolas conventuais de primeiras letras – pudessem ensinar correctamente os rudimentos da escrita às crianças. Missão vital bem cometida a quem não teria merecimento original. Graças aos benditos acentos passou a ter.

Os frades acabaram por cumprir o seu serviço como reza a história e Frei Bernardo de Brito entre outros atesta e a gramática da língua portuguesa conclui.

Fizeram muito bem esses esclarecidos padres letrados medievais! Quem leu “O nome da Rosa” de Humberto Eco poderá ter uma ideia mais concreta desse quadro bárbaro de reconstrução que menciono.

Neste ponto do discurso devo dizer – por exemplo – que  Mário Vargas Llosa rejeita as vírgulas como se nota. É pesado lê-lo sem vírgulas? É! Mas quem não se delicia com “Pantaleão e as Visitadoras”; ou a “Conversa na Catedral”?

O desaparecido Saramago – idem. Além disso Saramago acrescenta (a meu ver) igual desprezo pelos parágrafos. Páginas quase inteiras. Verdadeiros conglomerados – como se diz em geologia – de imagens fantásticas que afogam de todo a ortografia e a semântica e tornam mais impossível do que nos Lusíadas a divisão de orações. Mas quem não compreende o “Levantado do Chão. Ou o “Memorial do Convento”?

A “Guidinha” de Luís de Sttau Monteiro (alguém se lembra daquele e daquela que foram paradigmas de uma época de jornalismo militante em Portugal?) o que omitia deliberadamente as vírgulas (mais os pontos e os acentos) para salientar a implacável crítica aos costumes e à política vigente. Todos entendiam o objectivo dessas agressões liminares à gramática e entendiam bem. Tanto a forma como as omissões pretendiam atingir objectivos concretos. Todos os leitores de jornais desde os de “A Bola” aos de “A Seara Nova” ou de “A Vida Mundial” sabiam quais eram. E sorriam. E comentavam. Os textos eram claros porque sem vírgulas. Talvez por isso a censura semântica e ortograficamente analfabeta tenha deixado publicar nesse tempo textos tão subversivos quanto repletos de humor. Humor – diga-se – era coisa que o regime iletrado de então – por não saber o que fosse – desconfiava seriamente.

Neste caso das vírgulas não refiro Eça nem Camilo nem Soares de Passos nem Pessanha. Muito menos Aquilino. Cada um destes punha as vírgulas as tónicas os parágrafos as reticência e apóstrofes onde achavam mais adequado para acentuar o efeito literário conveniente ao desenvolvimento da caneta que fluía pela página linear da novela.

Silva Gaio então punha mais vírgulas num parágrafo do que João de Deus gastava a explicar o que tal sinal ortográfico fosse na sua “Cartilha Maternal”.

Poderia citar outros autores mas cito o seguinte (dois pontos ou ponto e vírgula ou apenas ponto)

“Vírgula pode ser uma pausa… ou não.
Não, espere.
Não espere..
Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.
Pode criar heróis..
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.
Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.
A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.
A vírgula pode condenar ou salvar.
Não tenha clemência!
Não, tenha clemência!
Uma vírgula muda tudo.

Detalhes Adicionais:
SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.
* Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER…
* Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM…”.

Aqui a vírgula tem valor absoluto no que toca ao dinheiro. A estética do poema paira no entanto (quanto a mim) acima da vírgula bem como a própria mensagem ainda que esta seja sobre a vírgula em si.

Do poema citado entendi uma coisa. Cada leitor provavelmente entenderá outras e diversas.

Daqui retiro duas conclusões:

1 – O valor da vírgula faz parte intrínseca da teoria da relatividade. Existe apenas segundo o ponto de vista de quem escreve e pode ser alterado pelo observador. Ou seja por quem lê.

2 – A vírgula tem importância absoluta para o economista ou para o técnico de contas. Neste caso por uma razão simples. É que para o economista ou para o técnico de contas uma vírgula mal colocada pode levar à ruína um pagador de impostos; uma empresa; ou uma “holding”. Se o técnico de contas for ministro então a ruína pode estender-se mesmo a um país inteiro.

Se trocarmos as vírgulas a Pessoa; ou Álvaro de Campos; ou Ricardo Reis; ou Alberto Caeiro para as colocarmos no rigor da gramática estaremos a alterar-lhe o valor da “mensagem” e a reduzir dolosa e acintosamente a coisa a assunto de correcto preenchimento de ofício como na agrimensura de “O Castelo” de Kafka? Sem dúvida!

Nesse caso Pessoa nunca existiria na história da literatura. Nem Bernardim Ribeiro; João de Barros; Pascoais; Torga; Daniel Filipe; Lobo Antunes.

A vírgula não depende do autor, mas do leitor e não interessa de todo a não ser em folhas de balanço.

“O lavrador tinha um bezerro e a mãe do lavrador era também o pai do bezerro”. Se puser vírgulas nesta frase descobre-lhe certamente o sentido. No entanto estou convencido que nem Sá Carneiro nem Almada se tivessem sido autores da dita lhas teriam posto. Quebrariam o seu lirismo rural subjacente e passariam um atestado de menoridade a quem imagina o quê lê e outro igual a quem lê o que imagina.

Poderia neste ponto fazer algumas alusões ao acordo ortográfico. Fato e facto. Ação e acção. Irão ou Irã. Mas isso ficaria obviamente bem distante e fora do âmbito das vírgulas que é do que aqui se trata.

Finalmente e para concluir com uma analogia harmoniosa e quiçá “científica” como convém ao politicamente correcto da Macau chinesa do segundo milénio digo o seguinte:

– A música dita clássica (ou erudita) está inserida nas baias da rígida pauta de cinco tons que deu o extraordinário mundo de Beetoven; Mozart; Bartock; Tchaikovsky; Katchaturian e sei lá mais quantos sagrados nomes da harmonia universal. Mas a harmonia universal também se reconhece com a mesma melodia na escala espúria – para o ouvido ocidental já se vê – que é a dodecafónica da China. O perigo desta escala cíclica é que por mais precauções que se adoptem as fracções tornam-se cada vez mais complicadas e irredutíveis. No entanto o sentimento profundo que se sente ao ouvir a “Sinfonia Nº3 de Rachmaninof” é idêntico ao que nos invade quando se ouve – por exemplo –a “Sinfonia do Rio Amarelo”, ou o trecho de “Os Pioneiros” que é actualmente o hino da República Popular da China.

Do que ficou dito em todo este texto chamo a atenção para o facto de não ter usado vírgulas. Se o leitor entender colocá-las faça dos “Sinais” desta semana coisa sua. Pode ser um mote para qualquer inspiração. Distribua vírgulas por onde quiser. Mude parágrafos. Divida ou multiplique orações. É seu o texto “não fiz mais do que o escrever” como dizia António Nobre.

PS. Não quero com isto ofender. Ou menosprezar os professores de português que diariamente ensinam aos seus alunos coisas tão herméticas como: – palavras paroxítonas ou graves. Palavras oxítonas. Sílabas subtónicas; ou notações sintácticas. Mas acima de tudo a regra essencial que é a seguinte:O vocativo é sempre separado por vírgula.

Antes de concluir de facto não posso deixar de citar aqui um excerto da wikipédia (wikipedia pelos vistos escreve-se com acento) que me surgiu entrementes na blogosfera muito a propósito e que diz o seguinte acerca da língua japonesa: – “Um dos sistemas ortográficos mais complexos é o da língua japonesa que usa uma combinação de várias centenas de caracteres ideográficos kanji, de origem chinesa, dois silabários, katana e hiragana, e ainda o alfabeto latino, a que dão o nome romaji. Todas as palavras em japonês podem ser escritas em katakana, hiragana ou romaji. E a maioria delas também pode ser identificada por caracteres kanji. A escolha de um tipo de escrita depende de vários factores, nomeadamente o uso mais habitual, a facilidade de leitura ou até as opções estilísticas de quem escreve”.

Que seria do sistema ortográfico japonês se lhe acrescentassem vírgulas?

The New Central Asia. The Creation of Nations. Olivier Roy

Aqui há uns bons quinze a vinte anos, um britânico decidiu aventura-se a fazer a pé o trajecto entre a Europa e a China.

Para o efeito achou que era necessário aprender turco.

E porquê turco?

Porque era a língua mais falada na maior parte da rota que ia empreender.

E assim, o aventureiro conseguiu entender-se nesse idioma com as populações dos países por onde passava desde a Turquia até quase às portas de Pequim passando pela imensa Ásia Central.

É que as línguas dessas regiões, com predominância para o Urdu, derivam todas do turco.

Esta história revela bem a dimensão que atingiu o império otomano que durou de 1299 a 1922.

Serve esta introdução para apresentar este título.

“The New Central Asia. The Creation of Nations”.

A obra constitui uma referência importante para quem queira conhecer não só a história da Ásia Central, mas a emergência de novos países depois da queda da União Soviética.

Nela observa-se com nitidez o papel aglutinador do Islão entre essas novas nações, que em termos culturais, pouco ou nada diferem umas das outras.

A razão do seu surgimento prende-se mais com a queda do império otomano e a consequente perda de referência religiosa, ligada a um centro de poder forte.

A divisão em repúblicas, pela União Soviética dos territórios da Ásia Central, um tanto artificial diria eu, fez o resto.

Olivier Roy

O autor deste livro é Olivier Roy, um académico do Centro Nacional de Investigação Científica de Paris.

Roy é um profundo conhecedor do Islão, principalmente no que diz respeito à Ásia Centra, onde desempenhou missões internacionais, nomeadamente no Afeganistão e Kirguistão.

Roy é também consultor do Ministério dos Negócios Estrangeiros francês.

O seu último livro tem por título “Secularism Confronts Islam” e foi publicado em 2007.

“The New Central Ásia” foi publicado pela primeira vez em 1997.

A edição que aqui tenho é uma tradução para inglês datada de 2000 e tem a chancela  da New York University Press.

Um livro que vale a pena ler tanto mais que com a nova administração americana de Barak Obama o fulcro de conflito passa a centrar-se no Afeganistão. Na luta contra o terrorismo e contra os fundamentalistas Taliban, o que perspectiva um crescendo de importância das novas nações da Ásia Central que com o Afeganistão fazem fronteira.

Stalin; the first in-depth biography based on explosive new documents from russia’s secret archives

Sobre Estaline a bibliografia é extensa.

No entanto quem escreve sobre o ditador soviético são escritores ocidentais.

Alguns de grande renome, mas mesmo assim ocidentais.

Confesso que por esse facto nunca perdi grande tempo a ler o que sobre ele se escreveu.

Bastaram-me uns artigos de jornal e uma ressenções literárias.

Isto até ir ali a Zhouhai e descobrir que para além das intermináveis lojas de roupas, CDs, artesanato de duvidosa qualidade e roupas existe também uma livraria.

Uma livraria a sério.

Não fica longe das Portas do Cerco e passei, ou melhor atravessei o local por acaso.

Mas, quando reparei que era uma livraria parei.

A bibliografia era imensa, embora a maior parte em chinês.

Procurei ver então, se tinha livros em línguas estrangeiras, e tinha.

Uma secção pequena. A maior parte são livros técnicos, mas mesmo assim digna de atenção.

Foi ali que vi este livro

Chama-se, como podem ver “Alexander II, The Last Great Tsar” e é assinado por Edvard Radzinsky e diz na capa como também podem ver que este autor escreveu outro livro chamado “The Last Tzar”, ou “O Último Czar”, que foi um best-seller mundial.

“Alexander II”, já não vendeu tanto, mas quanto a mim vale mais pelo que diz do que pelo que contém.

Trata-se de um período da história da Rússia que refere todos os ícones da juventude das pessoas da minha idade.

Nele fala-se de Bakunine, de Turgueniev, de Doistoyevsky, de Toslstoi, de Kropotkine, enfim de todos os nomes.

Vale a pena ler e creio que voltarei especificamente a falar deste livro mais tarde que vale a pena.

Mas agora falo-lhe neste

Chama-se “Estaline”.

O nome, como podem ver surge a branco sobre campo vermelho, como se o autor pretendesse assim salientar o reino sangrento do Czar vermelho, e se calhar pretendia mesmo.

O subtítulo é demasiado grande para as capas a que estamos habituados.

Diz: “The first in-depth biography based on explosive new documents from russia’s secret archives”.

Ou seja a primeira biografia total baseada em novos documentos explosivos dos arquivos secretos da Rússia.

A capa cheira a primeira página de jornais tablóides, mas vale a pena ler e isto porquê?

Porque é o primeiro livro sobre Estaline escrito por um russo sem intervenção de editores ocidentais.

Só por isso vale a pena.

Claro que o autor, não é um historiador imparcial.

Quando muito será uma espécie do nosso Hermano Saraiva, com o qual revela alguns paralelos.

Edvard Radzinsky é monárquico por convicção e estrela de televisão.

Tem programas em vários canais onde expõe os seus pontos de vista.

Mais do que historiador Radzinsky é um contador de histórias e conta-as bem como se depreende da leitura deste livro sobre Estaline.

Principalmente Radzinsky relembra que houve um período da humanidade em que a revolução estava acima de tudo.

Acima de Deus, acima da família, acima da Pátria e acima de cada um de nós individualmente.

Este conceito fez a revolução russa de 1917 e formatou o mundo que temos hoje.

E Estaline quem era?

Era um produto da revolução. Um homem novo que queria fazer um mundo novo.

Morreu antes de o concretizar.

Mas se à sua maneira não o concretizou inteiramente nele deixou uma marca mais do que indelével.

O general Xi Haotian, chefe das forças armadas da China, dizia que o tempo da Alemanha de Hitler apesar do socialismo, foi um erro momentâneo da história

O tempo de Estaline, digo eu foi a formatação de um novo mundo que insidiosamente continua.

Estamos a assistir todos os dias ao seu desenrolar.

Falta saber se também foi um erro momentâneo da história.

Acho que já existe tradução em português deste livro.

A Livraria Portuguesa se o não tem pode mandar vir com certeza. Peça-o lá!

Se não. Leia a edição em inglês.

Pode encontra-la em Banguecoque na Livraria Konukaia no centro comercial “Paragon”, ali no coração da capital tailandesa, ou então em Hong Kong, aqui ao lado na livraria “Page One”, por exemplo.