The Messianic Legacy

O Livro de Dan Brown chamado The Davinci Code, ou na tradução portuguesa, o Código de Davinci provocou uma controvérsia extraordinária.

Isto Apesar de ser um romance, ou uma novela, como lhe queiram chamar.

Ou seja, pura ficção.

É como o Evangelho Segundo Jesus Cristo de Saramago, que era também ficção e quase igual controvérsia provocou.

Apesar do Código de Davinci ser apenas ficção, como disse, levou a que várias instituições respeitáveis, sérias, credíveis e antigas se pronunciassem sobre ele, nomeadamente o Vaticano, que neste contexto seria a mais interessada das instituições, naturalmente.

Em síntese, o Código de Davinci de Dan Brown especula sobre a possibilidade de Jesus Cristo ter tido vida humana.

A especulação é razoável, tendo em conta que até aos 30 ano Jesus viveu na penumbra social, não se sabendo nada, ou quase nada, da sua vida, tanto em termos bíblicos, como históricos.

Católicos, Ortodoxos e Protestantes, embora estes, um pouco menos, teimam em manter secreta a juventude do salvador dos cristãos.

Teria Cristo Casado?

Teria Cristo tido filhos de Maria Madalena?

Dan Brown calou a resposta à incógnita e fez o romance.

E no romance, o filho de Jesus atravessou; o Mediterrâneo, até França, onde se deduz que cresceu e viveu a juventude até se tornar Rei dos franceses não se sabe como.

Mas assim certo é na novela, claro, que teria de facto iniciado a dinastia Merovíngia.

Os documentos históricos desmentem a ascendência divina da dinastia merovíngia.

Os merovíngios eram uma família de senhores feudais igual a tantas outras que ascendeu na guerra e pouco cultivaria o intelecto.

A dinastia durou pouco sendo substituída pelos Carolíngios que tiveram em Carlos Magno o verdadeiro imperador e defensor do catolicismo na Europa e a figura que de facto ficaria não só na história, mas também no imaginário universal.

Quem não se lembra da canção de Rolando, o guerreiro do sacro imperador a combater contra os mouros, a vencer e morrer afinal em triste glória no campo de batalha?

O caso curioso é que Dan Brown propõe no seu romance uma hipótese romântica.

É esta: – uma sociedade secreta, que de facto ainda hoje existe, registada nos cartórios notariais de França, chamada Priorado do Sião, teria ficado encarregada de guardar a descendência de Cristo, ou seja as relíquias do ano zero e o Santo Graal.

Em minha opinião, Dan Brown, limitou-se a reescrever e adaptar prosas e poemas medievais e lendas românticas do século das luzes.

Adaptou-os à escrita actual e fez um best-seller.

Na sua novela, não há rigor histórico, nem tinha que haver.

Há mito e romance.

Dan Brown baseou-se para o que escreveu numa investigação séria sobre o ano zero levada a Cabo por Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln.

Estes três investigadores que trabalham há anos para a BBC consultaram arquivos em vários países, entrevistaram peritos, consultaram tradutores e concluíram as suas investigações com, “Holy Blood Holy Grail”.

Foi deste livro que Dan Bown retirou, como disse, a inspiração para o seu Código de Davinci e que lhe deu fama mundial.

Michael Baigent, Richard Lei e Henry Lincoln, não gostaram que Dan Brown tivesse aproveitado o seu trabalho.

Afinal as suas investigações em termos de edição livreira não tiveram grande sucesso.

Por isso intentaram uma acção judicial contra o escritor, que naturalmente perderam.

Os três tiveram que pagar mais que 30 milhões de dólares americanos em custas judiciais, provavelmente mais do que os lucros que obtiveram com “Holly Blood Holly Grail”.

Mas de facto. O que é que tinha a ver um romance com uma investigação científica?

O processo foi perdido e, na minha opinião bem perdido.

Depois de toda a controvérsia, Michel Beigent, Richard Leig e Henry Lincoln decidiram dar à estampa, “The Messianic Legacy”. No fundo, este livro não é mais do que uma explicação do método de investigação adoptado na feitura de “Hooly Blood Holly Grail”, ou melhor é transformar em livro, notas de pé de página, que ninguém tem pachorra para ler.

No entanto, este último livro, apesar de em minha opinião conter especulação a mais, é a chave de três obras e três mistérios.

Um é o de Dan Brown. O outro é Holy Blood Holy Grail e o último é o que 

tem por título “Messianic Legacy”

Das três obras devo dizer que a de que mais gostei foi “The Messianic Legacy”.

É mais especulativo ainda do que o romance de Dan Brown, mas diz mais coisas acertadas do que os outros dois.

The “The Messianic Legacy” foi editado pela Arrow Books em 2006.

Mas leia apenas, se o tema do Código de Davinci, depois do “flop” que foi o filme protagonizado por Tom Hanks, um Bad Cast, como dizem os americanos, ainda lhe continuar a provocar interrogações. Senão, não vale a pena.

Camões em Macau uma certeza histórica

Aqui há uns 10, ou 20 anos, entre os académicos e historiadores a passagem de Camões por Macau pouco passava de um mito.

Leitão de barros no seu filme, mostrava o poeta como tendo escrito “Os Lusíadas” em Macau e entre ondas alterosas dava-o como salvando a bíblia nacional a nado, da maior tempestade do Mundo, nos mares do Sul da China, sem lhe esborratar uma linha.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra.

Camões não escreveu os Lusíadas em Macau.

Isso sabe-se de ciência certa como o próprio dizia.

Mas Camões, aqui fez alguma da sua obra e talvez mesmo algumas estrofes do grande livro de Portugal.

E é complexo e é estranho que o maior poeta nacional, o mais estudado pelos autores da história da nossa literatura tenha sido o menos estudado pelos historiadores da história de Portugal.

Isto até, aqui há uns anos, quando Hermano Saraiva se afoitou a estudar a vida do poeta, não sob o ponto de vista exclusivamente literário, mas também biográfico.

Com elementos seguros desfez mitos e lendas incluindo o filme de Leitão de Barros.

Ele di-lo em vivo em Macau num documentário da TDM

Este pronunciamento confrontou-se não com o antagonismo dos académicos, mas apenas com a sua soberana indiferença.

Nenhum encartado cioso de carreira pegaria no tema. Primeiro, porque seria necessário obter bolsas de estudo e coisas do género para o investigar e segundo porque a coisa pareceria muito semelhante aos sinais das planícies de Nasca no Peru que ninguém sabe explicar porque foram feitos e por isso é melhor não tocar no tema de forma científica, para não correr o risco cair no académico ridículo.

E o ridículo académico, digo-lhe, é coisa que poucos, muitíssimo poucos se decidem a enfrentar.

Mas, entretanto, um jurista, ex-magistrado, apaixonado pela história ousou pegar de novo no tema abordando-o da forma que melhor sabia, ou seja de uma forma jurídica.

Fez de Procurador da república, investigou prós e contras e instituiu um processo, não se sabe se civil ou criminal, já que Camões quando era vivo incorreu em ambos.

Mas Eduardo Ribeiro, não se limitou ao papel de procurador da história, mas sim também ao de juiz e desenvolveu sentença, sem atender mais ao Ministério Público que acusa do que às partes que desenvolvem testemunhos sem serem propriamente advogados, ou seja ouviu todas as partes sem pré juízos.

Processo interessante o deste livro em que nenhum recorrente tem primazia.

Ouvidos os autos e debatida a causa, como se diria em linguagem judicial, foi lida a sentença: – A presença de Camões é uma certeza histórica.

A sentença parece-me correcta e com toda a certeza fará jurisprudência.

Um livro bem escrito, bem estruturado e que só não é um best-seller, porque Portugal, é mercado literário pequenino onde não há best-sellers do género.

Mas daqui para a frente, estou certo, Eduardo Ribeiro, que diz que não é historiador, vai ser citado por muitos historiadores que virão a seguir, por ter sido o primeiro a aduzir factos e circunstâncias que redundam em justa conclusão.

Quanto ao que Camões fez nos seus poucos anos de Macau, isso é outra história, já que o poeta era nesses primórdios de Macau o único letrado entre analfabetos, exceptuando alguns padres que sabiam ler e escrever mas, que nesses tempos estavam mais interessados em fazer catecismos do que historiar a presença portuguesa em Macau, quanto mais a presença de um poeta por mais famosos que fosse mesmo já nessa época. E Camões não era historiador não foi biógrafo de si próprio que se saiba.

É por isso que o nome do poeta consta apenas de um documento de compra e venda do século XVI que fala nuns “penedos de Camões”, que se sabe também serem os que se erguem no jardim que leva em português e nome do vate e que em chinês é conhecido por Pak Kap Chau (Jardim das Pombas Brancas).

“Camões em Macau, Uma Certeza histórica”.

Um livro onde Dinamene se torna mais real do que as pedras do jardim que lhe dão nome.

“Camões em Macau, Uma certeza histórica” é uma obra de Eduardo Ribeiro, editada pela COD em 2007.

O Império Imóvel

Allan Peyrefitte é uma das figuras mais marcantes, das letras francesas do século XX, mas não só.

Allan Peyrefite foi também um político de renome.

Morreu vai fazer no próximo dia 27 dez anos em Paris e está sepultado no Panteão Nacional junto de Napoleão.

Gaulista, terá sido ele próprio quem, moldou para a posteridade a figura do general De Gaule, como herói da resistência na Segunda Guerra Mundial e inspirador de uma França que fazia todos os esforços para recobrar da humilhação e da destruição causada pelo conflito e voltar a afirmar-se numa Europa em farrapos.

Para além da sua associação com De Gaule, Allan Peyrefite, esteve também muito próximo dos dois presidentes que lhe sucederam, George Pompidou e Valerie Gicard Destaing.

Membro da Academia Francesa, teve um percurso de vida mais político do que literário, embora ele próprio dissesse que não queria ser político mas apenas escritor.

Foi secretário de estado e ministro em diversos governos e em diversas pastas, mas a sua obra literária acabaria por sobrepor-se ao que eventualmente tenha feito nos diversos governos em que participou.

Falo-lhe de Peyrefitte, porque, tenho aqui, uma das suas mais importantes obras.

Chama-se O Império Imóvel e considero ser de leitura obrigatória, para quem vive em Macau.

O Império Imóvel conta a história da incomunicabilidade e da intolerância entre dois povos (ingleses e chineses) de culturas totalmente distintas e narra a viagem de Lorde Macartney à China, com o objectivo de estabelecer um canal de comércio entre os dois países.

Mas o Império do Meio, nunca tinha aberto as suas portas a outra nação, excepto em certa medida aos portugueses através de Macau, e recusou liminarmente as propostas inglesas.

Um acidente, aparentemente sem importância, selou o fracasso da embaixada ao Império de Qianlong: é que Mackartney negou-se a executar o kowtow , ou seja a levar nove vezes a cabeça ao chão em outras tantas prostrações, diante do imperador, como exigia o protocolo chinês.

O orgulho britânico não o permitia.

Para escrever este livro Peyrefite, visitou a China, percorrendo os mesmos passos que a embaixada de Makartney e acabaria, por escrever outros livros sobre o país de Mão Tsé Tung, veiculando uma imagem do país e do maoísmo, que seria duramente criticada pela intelectualidade de esquerda francesa, que o acusou de transformar a realidade da R.P. C., num romantismo anacrónico.

O próprio Bernard Henri Levy, que escreveu extensamente também sobre a China o criticou desta forma, embora, Levy nas suas obras transmita a mesma imagem romântica de uma China que de facto não era assim e que criticava em Peyrefite.

Neste ponto vale a pena ler a crítica que, Jean Remy Pierre, do jornal Le Monde fazia ao Império Imóvel de Peyrefite, quando este foi publicado em 1989, com o título original francês, L Impire Imobile, ou Le Choc dês Mondes.

A espantosa diversidade de informações, as vozes europeias e chinesas que se cruzam e respondem umas às outras fazem do livro um documento excepcional e, ao mesmo tempo, um discurso premonitório. Mas trata-se, também, de um romance de aventuras admiravelmente bem amarrado. A linguagem é de uma fluidez surpreendente, jogando com o espaço e o tempo (…) Uma história que varre os mil e um episódios que fazem o dia-a-dia dos nossos cronistas. O desafio é que o livro é feito de episódios, mas Peyrefitte eleva o episódio ao nível de história universal (…) Uma suma fabulosa, um livro-chave, uma proeza.

O Império Imóvel, ou o Choque dos Mundos, uma edição da Gradiva e do Instituto Cultural de Macau, publicado em 1995, é de facto um livro em minha opinião indispensável.

Mesmo que no final nos fique a sensação de que a China e a Inglaterra de que se fala, estão longe de ser o que eram na época de Makartney e Qianglong e mesmo que achemos que de facto a China de Peyrefite é bem capaz de ser um universo muito mais imaginado do que real, embora o Império Imóvel não seja uma obra de ficção.

Stalin

O século XX foi um período que conheceu, particularmente na Europa em termos políticos uma lenta e penosa caminhada em direcção à democracia. Uma caminhada repleta de divisões, ódios e derramamento de sangue.

Mas o mais curioso deste lento progresso foi o facto de tanto, as divisões, como o sangue derramado não terem ocorrido apenas entre a democracia e os seus inimigos.

Não.

O problema é que o conceito de democracia na Europa cindiu-se e cristalizou-se em dois campos irreconciliáveis no que toca à interpretação do dito.

Enquanto o que viria a ser chamado mundo ocidental entendia que a liberdade era um conceito burguês que a revolução francesa de 1789 tinha definido e os parlamentos burgueses subsequentemente dado consistência, tendo como epítome a democracia americana, as correntes socialistas inspiradas no marxismo tinham uma visão bem diversa, entendendo que a verdadeira liberdade era o acesso livre ao trabalho, à educação, e à saúde para todos, na mais completa igualdade.

Esta liberdade seria a única que garantiria a realização última da felicidade humana.

Tendo isto em conta, para esta corrente de pensamento, os fins justificavam os meios e não havia que hesitar mesmo em fazer tábua rasa da liberdade de expressar o pensamento, de opinar e principalmente de discordar, sendo preciso.

Toda a gente teria, assim, direito a ser feliz, nem que fosse à força.

Claro que esta idiossincrasia teria resultados funestos, produzindo na prática um variado leque de ditaduras e ditadores um pouco por todos os países da Europa, desde Portugal à Rússia e foi na Rússia que se revelou ao mundo um dos maiores e mais brutais ditadores da história do século XX.

Stalin.

Sobre ele a bibliografia é imensa em todas as línguas universais e o número de biografias não é menor.

Mostro aqui uma delas.

Chama-se STALIN e é escrita por Edvard Radzinsky.

Esta edição é de 1996.

O que distingue esta biografia de outras é que as anteriores, tinham sido publicadas antes da queda da União Soviética e por isso careciam, de alguns elementos fundamentais sobre a personalidade desse georgiano que comandou os destinos da Rússia durante quase trinta anos.

É que na altura o que se sabia ou não sabia sobre Estalin, era segredo de estado e estava guardado a sete chaves, nos arquivos do Kremlin inacessíveis a quase todos, se exceptuarmos um reduzidíssimo número de altos dirigentes do partido, ou do mal afamado KGB.

Por isso a novidade deste livro está no facto de Edvard Radzinky ter tido acesso a toda essa documentação até então desconhecida, para além de ter falado com alguns contemporâneos que de algum modo privaram com o ditador e que na nova Rússia do pós queda do muro de Berlim já podiam falar um tanto ou quanto mais livremente.

Diga-se que Radzinsky, beneficiou em larga medida, da confusão que se instalou na Rússia na sequência da queda de Gorbachev e durante a ascensão de Yeltsin ao poder, período em que os próprios guardiães dos arquivos não ficaram imunes à nova política de mercado, vendendo os documentos que tinham a quem dava mais, a preços variados consoante a importância da personalidade, ou do segredo a desvendar e Estaline era um dos assuntos mais importantes e mais importantes eram ainda os segredos que protagonizara.

Num comentário a esta biografia, o historiador David Brandenberger, da universidade de Harvard, perito reputado na história da União Soviética com vasta obra publicada, diz que se trata essencialmente de uma compilação de factos, opiniões e má língua, em circulação, pelo menos na Rússia, há décadas.

Seja como for certo é que Radzinsky apoia esses rumores e a eventual má-língua em sólida documentação extraída dos tais arquivos secretos.

Claro que ao longo destas páginas não pode deixar também de se notar a pena de um autor declaradamente monárquico e visceralmente anti comunista.

No entanto não deixa de ser uma obra a todos os títulos merecedora de atenção.

Não por revelar pormenores da vida privada de Estaline, que se satisfazem os tais cultores da má língua, no mais pouco acrescentam, mas principalmente pela caracterização que faz das grandes figuras que gravitavam em torno do ditador e de que se foi livrando uma a uma até ficar apenas, ou quase só rodeados de personalidades cuja estatura física podia passar bem o metro e sessenta de Estaline, mas que ficava a milhas da sua moral revolucionária, no melhor e no pior.

Aliás acho que no que toca a ditadores, o segredo do poder está essencialmente em livrarem-se da concorrência.

Este livro responde também em certa medida a algumas interrogações sobre grandes momentos da história que causaram a maior perplexidade. Um exemplo foi a aliança contra natura entre Estaline e Hitler, na segunda Grande Guerra Mundial.

Já agora vale a pena dizer que o autor inseriu Stalin numa série editorial que começou em 1990, chamada Mistérios da História, na qual publicou, O Dossier Rasputin, O Mundo Perdido de Nicolau e Alexandra, Alexandre II e Vida e Morte de Nicolau II, entre outros, que circulam apenas na versão original em russo.   

Acredito que a oportunidade de mercado, terá sido factor decisivo que levou Radzinsky a escrever este livro, que a certos momentos resvala para temas de tablóide britânico, mas mesmo assim acho que vale a pena ler.

Prisoner of the State

Esta é a história contada na primeira pessoa de um homem fascinado com fórmulas económicas que aplicava e que como se por magia, transformavam a face do seu país criando riqueza e prosperidade onde antes havia apenas o encargo de não deixar enferrujar a “malga de ferro de arroz” que garantia a sobrevivência para todos.

Passa-se na China e o autor é o falecido ex-primeiro ministro e ex-secretário-geral do Partido Comunista, Zhao Zhiang.

A história é esta.

Chama-se: – Prisioneiro do estado.

Depois têm como subtítulo: – O jornal secreto do premier Zhao Ziyang.

Devo dizer que nas 306 páginas deste livro não se encontra nenhum grande segredo, de que já se não soubesse com mais ou menos pormenor alguma coisa.

Apesar do secretismo em que na China se envolvem os passos do Estado, muito do conteúdo do livro foi aparecendo mais ou menos a avulso em artigos de imprensa durante anos.

No entanto a importância desta obra reside precisamente no facto de ser o seu protagonista, não só a apor uma chancela de autenticidade nesses artigos avulso, mas a explicar circunstanciadamente políticas, motivações e alguns segredos de uma engrenagem muito mais complexa do que à primeira vista se poderia supor.

Fica-se a saber por exemplo, ainda que desde sempre se suspeitasse, que pelo menos durante mais de uma década quem detinha o poder não era o restrito politburo do Comité Central do P.C.C., mas um grupo ainda mais restrito constituído precisamente por quem dele já oficialmente não constava.

De Deng Xiaoping, o arquitecto das reformas, sempre se soube, mas durante muito tempo poucos sabiam de ciência certa o poder que Chen Yun, por exemplo, detinha por trás da cortina.

Alegadamente o livro terá resultado das memórias gravadas secretamente por Zhao Zyiang, em cassetes rotuladas como contendo histórias para crianças, no caso concreto destinadas à neta do desaparecido dirigente.

Não se pode saber se foi de facto assim, ou se a elaboração do livro decorreu de outro modo e o alegado secretismo com que teriam sido ditadas, terá sido apenas um ingrediente para valorizar comercialmente a edição.

Seja como for neste livro Zhao Zyang, expõe com detalhe as grandes medidas tomadas no domínio económico com vista a fazer sair a China do subdesenvolvimento.

E apenas uma coisa se pode constatar.

As medidas adoptadas resultaram em pleno.

O facto da China ser hoje a segunda maior economia do mundo comprova-o, mas o livro revela também que nenhuma dessas medidas poderia ter sido implementada, apenas e só por Zhao Zyang. Bem pelo contrário.

Elas só foram possíveis por que acima estava o peso político de Deng Xiaoping, o único com força para vencer as resistências que se opunham  à grande mudança e eram muitas.

Não seria portanto pela questão da economia que Zhao Zyiang sairia derrotado do palco da história.

Apesar de banido, as suas políticas económicas continuaram a vigorar, sem um passo atrás, tendo apenas vindo a conhecer pequenas correcções e muitos aprofundamentos.

Isto, porque Zhao Zyiang não estava enganado, em matéria de desenvolvimento económico como se nota claramente hoje.

A sua eliminação não se deve portanto à economia mas sim à política, onde Zhao não tinha nem de longe nem de perto a força o prestígio e principalmente a solidez de Deng.

Neste domínio pode dizer-se que Zhao se deixou fascinar pelo modo como a aplicação das fórmulas económicas que implementava produziam efeitos surpreendentes, subscrevendo algumas “heréticas” teses (do ponto de vista marxista leninista) que achava serem inerentes a um desenvolvimento económico moderno.

Ou seja, alguns dos elementos das democracias ocidentais, nomeadamente, o pluripartidarismo, a separação de poderes no seio de estado e mais alguns elementos liberais das sociedades burguesas.

Neste ponto entrou naturalmente em colisão com Deng, que analisando a recente viragem de regime na União Soviética, não antevia nada de frutuoso para o socialismo chinês no desvio social-democrata de Gorbachev em Moscovo.

Diga-se que Deng Xiaoping não se enganava como se viria a ver pouco depois com a queda de Gorbachev, a ascensão de Boris Yeltsin e os anos de confusão, fragmentação política e caos social que se seguiram na Rússia.

Do livro ressalta claro que Zhao Zyiang, não admitia, que da abertura política do regime pudesse decorrer qualquer malefício e nesta ilusão travou um braço de ferro, que parece-me a mim, que como homem inteligente que era sabia que não tinha probabilidades, ainda que mínimas, de vencer.

Daí a Tian An Men foi um passo e o seguinte foi a prisão domiciliária onde permaneceria até a morrer.

Apesar do desfecho da sua vida política, as forças vencedoras na batalha de Tian An Men, que declararam os estudantes radicais inimigos do povo, nunca consideraram Zhao Zyang como um traidor, nem o baniram

Bem pelo contrário.

Não só contra ele não foram desencadeadas as perseguições habituais em tais regimes, como manteve sempre até ao fim a condição de membro do Partido Comunista, condição que o próprio também nunca renegou.

Vale a pena ler este livro, quanto mais não seja para conferir convicções.

The Story of a Stele

O livro de que lhes falo hoje chama-se A História de uma Estela, o monumento Nestoriano e a sua recepção no Ocidente 1625-1916

O exemplar que aqui mostro é em inglês e  tem por título “The Story of a Stele”.

Não creio que esta obra tenha sido ainda traduzida para português.

Não só porque é recente. A edição é deste ano. Mas provavelmente, por que a sinologia não parece muito desenvolvida em Portugal, embora nos anos mais recentes tenham sido dados uns passos em frente ainda que tímidos, por isso não se traduz muito nesse campo.

Trata-se de um estudo que reflecte bem os equívocos e incompreensões entre o Ocidente e o Oriente.

Neste caso trata-se da descoberta de uma estela em xisto, em 1625, escrita em caracteres chineses na parte frontal e em alfabeto siríaco nos dois lados laterais.

O siríaco era um alfabeto do Médio Oriente.

Alguns estudiosos ocidentais proclamaram a estela como a “Pedra da Roseta” do Extremo Oriente.

Nada de mais errado se diz

Essa consideração era feita por académicos ocidentais que poderiam saber muito de siríaco, mas nada sabiam de chinês, nem da sua cultura, nem dos seus caracteres.

Nesse tempo apenas o jurubaças de Macau (tradutores do Leal Senado) sabiam ler e escrever chinês e essencialmente conheciam os chineses.

 Na Europa ninguém mais os conhecia a não ser por ouvir dizer.

Para além do que Marco Pólo tinha escrito no século XIII e Fernão Mendes Pinto no século XVII da China nada se sabia e da estela de Xian muito menos.

E porquê?

Porque provava que o cristianismo chegou à China através de uma heresia condenada por católicos e ortodoxos.

Mas antes de resumir o que foi o nestorianismo devo explicar que a redescoberta da estela surgiu num momento crucial da chegada a Pequim da religião católica já há muito expurgada de cismas no século XVII, através de missionários jesuítas esclarecidos, como Mateus Ricci.

Este padre, ao falar com o imperador sobre o Salvador do Mundo, engoliu em seco quando o Imperador perguntou: Então se Jesus é o Salvador do Mundo porque é que a China que foi e continua a ser o centro do mundo e da civilização não teve notícia do facto?

O Jesuíta, não respondeu de pronto, mas safou-se do silogismo pouco tempo depois ao saber da descoberta da estela nestoriana.

Assim pôde responder ao imperador que o Salvador já era conhecido na China desde a dinastia Tang  que reinou entre os anos 300 e 800 e provar até que a nova religião tinha sido autorizada por decreto como constava dos arquivos imperiais.

Diga-se que a China será um dos raros países que melhor e mais conserva, desde tempos imemoriais, os documentos oficiais da sua história.

O Imperador terá mandado verificar os documentos e comprovado a asserção do padre jesuíta.

De facto o cristianismo tinha chegado à China pouco tempo depois de surgir e os imperadores da dinastia Tang tinham autorizado o novo culto.

Foi um alívio para Mateus Ricci e para os jesuítas.

Mas para o Vaticano seria pelas décadas e séculos seguintes um embaraço.

É que o Bispo de Constantinopla, Nestor tinha sido considerado herético pelo concílio de Éfeso no ano de 431

Sendo assim considerar que a palavra do Redentor tinha chegado à China por via herética era questão que era preciso apagar da história e foi o que aconteceu.

Diz-se que a palavra de Cristo chegou ao Império do Meio, através de S. Tomé, ou S. Bartolomeu.

S. Tomé, diz a tradição que está sepultado na Índia.

Porém não há memória destes dois apóstolos terem chegado à China.

O que chegou foi de facto o nestorianismo alguns séculos depois, não através de apóstolos mas através de mercenários e comerciantes que percorriam a via da seda.

O nestorianismo não vingou no império dos Han. O catolicismo esteve quase a vingar mais de mil anos depois, mas a questão dos ritos, que opôs jesuítas a dominicanos, no século XVIII, tal como a heresia nestoriana muito antes voltou a fazer soçobrar a religião cristã na China.

Religião que no século XXI luta nas suas diversas vertentes para conquistar fiéis, num país onde o budismo serenamente e sem fazer apostolado parece continuar a reinar sem concorrência entre a maioria do povo.

Esta estela é um símbolo de fé e de fracasso.

Autor: – Michael Keevak, com a chancela da Hong Kong Kong University Press, 2008.

http://www.hkupress.org

A perigosa neutralidade na Guerra do Pacífico (II) 18-05-10

O final da “Segunda Guerra” assinalou não só fim do conflito mais mortífero que a humanidade conheceu, mas também a entrada numa era inteiramente nova no xadrez geopolítico e estratégico mundial. As descolonizações. Um sinal simbólico de partida para essa recomposição que se alastraria pelo mundo seria dado pelas forças americanas no Extremo Oriente. Na contra ofensiva que teve lugar para desalojar os japoneses das regiões ocupadas as forças dos EUA, juntamente com o exército chinês efectuaram uma lenta progressão através dos principais pontos estratégicos da China, mas ignoraram completamente Hong Kong, que permaneceu em mãos nipónicas durante algum tempo mais do que outras cidades do país. A principal razão para isso prendia-se com o facto de o governo do Kwomintang considerar que Hong Kong fazia parte integrante da China, não existindo razões para que a Inglaterra reassumisse a soberania do território. Por seu turno aos americanos não interessava de modo algum dar qualquer sinal de parcialidade que pudesse ser considerado hostil pelos nacionalistas. Esta situação levou a que o alto comando sedeado na Índia, tivesse de pedir autorização para destacar um certo número de navios britânicos da esquadra do Pacífico sob o comando do almirante Sir Cecil Harcourt, para efectuar uma operação autónoma destinada a reconquistar Hong Kong. Um situação de envolveu negociações árduas e que essencialmente consumiu tempo precioso do ponto de vista de Londres. Nesse contexto, enquanto a esquadra britânica não chegava impunha-se o restabelecimento urgente do governo colonial, que tinha sido literalmente encarcerado nos campos de concentração levantados pelos japoneses no Natal de 1941. Para Londres essa acção era crucial de modo a evitar que na eventualidade de um vazio de poder o governo do Kwomintang levantasse a questão da soberania de Hong Kong, na esfera político-diplomática. Registava-se assim uma situação de corrida contra o tempo. De um lado a esquadra britânica a rumar ao Porto de Vitória e do outro as tropas do Kwomintang a penetrarem, já nos novos Territórios acercando-se perigosamente de Kowloon. Assim, Londres através do alto comando aliado na Índia, chefiado por Lord Mountbatten enviou ordens expressas para que o antigo secretário colonial Francklin Gimson, que estava preso no campo de concentração de Stanley, assumisse imediatamente após a sua libertação o cargo de governador em exercício e reorganizasse o governo até à chegada da esquadra britânica momento a partir do qual seria estabelecido um governo militar de excepção que vigoraria até à restauração da normalidade britânica. O problema era no entanto fazer chegar as ordens ao interior do campo. A difícil e perigosa missão seria cometida ao MI9 do tenente-coronel Lindsay Ride e à sua rede de espiões do “BAAG” (British Army Aid Group), os únicos que mantinham canais de comunicação com os campos de internamento e com a resistência no interior de Hong Kong. As ordens de Londres foram recebidas por telégrafo por Y. C. Lyang, que de imediato as transmitiu ao cônsul britânico John Reeves. A missão de entregar as ordens em mão a Gimson recaiu sobre o médico Eddie Gosano, que para o efeito recebeu o nome de código de “Phoenix”. Juntamente com Gosano seguiria Roger Lobo.

Roger Lobo seguiu com o agente "Phoenix" na missão secreta a Hong Kong

 Para além de entregar as instruções de Londres ao antigo secretário colonial, os dois tinham por missão contactar várias figuras de Hong Kong que deveriam colaborar no restabelecimento da administração britânica de Hong Kong. Inicialmente “Phoenix”, Roger Lobo e o próprio Lindsay Ride opuseram-se à missão tendo em conta a enorme dificuldade que representava a travessia do Rio das Pérolas enxameado de navios patrulha japoneses, milícias navais pró nipónicas e bandos de piratas sem quaisquer lealdades assumidas que apenas aproveitavam a caótica situação para pilhar o que podiam. Uma travessia assim poderia levar semanas a efectuar, afirmava Ride e a vida dos agentes corria sérios riscos. O assunto resolveu-se quando Y. C. Lyang, que controlava a rede clandestina de navios de pesca que garantiam o fluxo de mantimentos entre o Vietname e Macau iludindo o bloqueio japonês, garantiu que a viagem seria feita rapidamente e com toda a segurança, designando para o efeito uma escolta constituída por quatro guerrilheiros armados e largamente experimentados nas andanças dos mares do Sul da China. Vencidas as hesitações o pequeno grupo de homens disfarçados de pescadores partiu num velho junco a motor com destino a Hong Kong, conseguindo passar incólume, como Y. C. Lyang tinha garantido, através da perigosa selva em que se tinha transformado o Delta nos últimos anos. A velha embarcação ainda avariou várias vezes durante o percurso, o que transformou a viagem que normalmente não duraria mais do que 12 horas numa angustiante eternidade para Gosano e Lobo. Mas finalmente os dois puderam aportar sãos e salvos no cais de Kennedy Town. Chegados a Hong Kong, Gosano contactou de imediato o seu colega Selwin Clarke, fazendo-lhe saber que ficava a partir daquele momento responsável pelos serviços de saúde e particularmente pelo processo de distribuição de alimentos à população e recuperação dos inúmeros prisioneiros de guerra afectados pela fome e em precárias condições de saúde. Para o efeito aproveitaria o sistema em vigor implementado pelos japonesas garantindo o seu continuado funcionamento. Outra personalidade contacta foi Sir Robert Kotwall, que tinha sido o último e mais categorizado deputado do Conselho Legislativo de Hong Kong, antes da ocupação. As razões para este contacto com Kotwall, notório colaboracionista, permanecem ainda hoje um mistério. Isto tendo em conta que até Lindsay Ride se tinha oposto a tê-lo sequer em consideração. A verdade é que o próprio Kotwall, que sabia que a queda dos japoneses estava eminente, se eximiu, declarando-se indisponível por tempo indeterminado para o exercício de toda e qualquer função oficial alegando motivos de saúde. Kotwall não recebeu Gosano, tendo-lhe sido indicado que contactasse antes Man Kam Lo (genro de Sir Robert Ho Tung), que era tacitamente aceite como o líder da comunidade chinesa de Hong Kong. Finalmente “Phoenix” rumou a Stanley, onde entrou com facilidade entregando as ordens que trazia num envelope selado, cujo conteúdo ignorava, ao secretário Francklin Gimson. Este não perdeu tempo e munido da carta patente que o nomeava governador empossou o presidente do Supremo Tribunal, e o “postmaster general” (director dos correios), Athol MacGregor e Gwynn-Jones, que consigo se encontravam internado no mesmo campo. Com essas três figuras fulcrais se iniciou a recomposição da administração e a restauração da soberania britânica de Hong Kong. De salientar em tudo isto o facto de nenhum dos elementos da “Coluna do Rio de Leste”, que tão bravamente se tinham batido contra a presença japonesa em Hong Kong ter sido tido ou achado na operação. É que logo à chegada dos navios da esquadra do Pacífico, o almirante Cecil Harcourt, fazia saber que as únicas forças combatentes reconhecidas seriam apenas e só as do Kwomintang. Isto, apesar da sua presença se ter feito sentir apenas na fase final do conflito nas imediações de Hong Kong e seguramente não com o objectivo de facilitar qualquer regresso dos ingleses.

Letra morta 16-Abril-10

Letra morta é uma frase batida, que em Macau se aplica, por vezes, com alarmante frequência no que diz respeito ao cumprimento das leis vigentes. Disso mesmo muitos exemplos se poderiam adiantar. Eis um deles: O regime de terras.

Neste âmbito a questão foi regulamentada inicialmente no século XIX (21 de Agosto de 1856) e em 1901 (9 de Maio de 1901) voltou a ser alvo de legislação por carta de lei. Esta última acção legislativa não deixava dúvidas quanto ao facto de todas as terras que não fossem provadas como propriedade privada pertenciam ao Estado.

Crê-se que o caso permaneceu letra morta já que principalmente a partir da altura em que se anunciaram os planos para a construção do aeroporto de Macau, em inícios dos anos 80 do século passado, começaram a surgir os chamados “sa-chi-kei”, ou seja alegados títulos de propriedade, em papel de seda (por isso talvez conhecidos também como “papéis de vento”. Estes documentos não correspondem a qualquer registo notarial oficial e ostentam carimbos e assinaturas cuja legitimidade em muitos casos é mais do que duvidosa.

No entanto, a posse destes títulos, tem servido para a ocupação ilegal, em Macau e nas ilhas de diversas parcelas de terrenos, dando azo também a manifestações, protestos de diversa ordem e acções judiciais.

Nalguns casos o direito consuetudinário lá foi funcionando e o devido registo notarial ocorrendo, noutros não. A situação contribui, claro, para acrescentar mais um ponto de desordem num sistema porventura tradicionalmente demasiado complacente, nalgumas áreas.

A este propósito relembre-se o caso ocorrido em Hak Sá na ilha de Coloane, onde alguém munido de “sa-chi-kei” não foi de meias medidas e derrubou parte de um morro junto à estrada com vista provavelmente a construir ali um edifício para habitação.

À gritante ilegalidade (essa área de floresta é legalmente protegida), juntou-se o dolo e a negligência, já que a obra pôs em perigo o trilho pedonal ali existente que ficou em risco de derribar e porventura levar na derribada quem por ele passasse de momento.

Neste ponto porém a tal atitude contemplativa habitual em Macau, parece ter-se alterado e as Obras Públicas actuaram sem equívocos desmantelando as estruturas construídas, consolidando a falda da colina e reestabilizando o trilho.

A atitude decidida das Obras Públicas (OP), apesar de fortemente contestada, foi ali avante, mas não parou por ali.

De facto, desde há cerca de duas semanas que  estão a se levadas a cabo acções semelhantes um pouco por toda a RAEM, o que não pode deixar de se louvar plenamente.

Assim, verdadeiros edifícios construídos ilegalmente sobre outros pré existentes estão a ser demolidos como convém à segurança pública e à verdadeira observância da lei. Isto numa das áreas (urbanismo), onde a palavra caos se pode aplicar com alguma propriedade, pelo menos em certas zonas.

Por seu turno a “lei” através do seu braço executivo do ordenamento do Território (OP), garante que não vai ficar pedra sobre pedra, ou tijolo sobre tijolo, ou seja, “irá continuar de forma incansável com as acções de combate contra as obras ilegais, em que além da adopção de várias medidas para combater estas situações, serão ainda acrescidos mais recursos humanos para reforçar as acções de fiscalização, no sentido de se ter um domínio mais preciso do ponto da situação das obras ilegais existentes em Macau”. Não era sem tempo e é de louvar!

Espera-se agora que a campanha encetada que, diga-se, não conhece muitos precedentes semelhantes na história local, constitua pretexto para o lançamento de outras, noutros domínios onde reina flagrante contravenção.

Ocorre-me, nomeadamente o sector da segurança dos edifícios, onde os sistemas de combate a incêndios operam nalguns casos deficientemente e noutros, pura e simplesmente, não passam de cenário.

Ocorre-me também o caso das grades nas janelas, que fazem com que os edifícios se assemelhem a gaiolas gigantes e constituem um evidente perigo em caso de incêndio, impedindo nomeadamente o acesso dos bombeiros.

Aliás, creio que a colocação de tais grades é também proibida.

Neste caso não há dívida, a frase batida aplica-se também. A lei é, pelo menos por enquanto, letra morta.

Pode ser estúpido mas será eficaz 02-Maio-10

Apesar de todos os aparentes desmentidos que se possam conceber, tenho para mim que a caracterização feita por Rousseau da bondade intrínseca da humanidade é uma verdade estabelecida para além da controvérsia. Se o não fosse ainda andaríamos hoje a rastejar pelo paleolítico de pedra e pau na mão a agredir o vizinho para lhe roubar a preza.

Porém, essa verdade contém, naturalmente, em si um elemento essencial a todas as regras que é a excepção.

A excepção confirma-se e afirma-se na tendência que prevalece (em maior, ou menor grau) para a infracção.

Chamei Rousseau à colação porque as máximas do filósofo francês impregnam em boa parte os princípios fundamentais do direito vigente em Macau.

Assim não admira que Shuen Ka Hung (tal como o legislador em abstracto) acreditem na implícita bondade humana e achem “estúpido” ter de efectuar acções de fiscalização sobre entidades que mais do que pessoas individuais tinham obrigação de observar na prática as lei vigentes.

Shuen Ka Hung acha idiota, e não diz nenhum disparate, bem pelo contrário, mas comete o pecado da ingenuidade (se tal pecado possa existir) já que esperava o que a prática vem demonstrando em Macau, não ser de esperar, ou seja, a crença na inexistência de uma tendência dolosa e sempre latente (das empresas de construção civil neste caso) no sentido de resvalar para a infracção. Isto em nome do lucro, princípio sempre soberano e já agora, superlativo, quando se trata de matéria de empreitadas.

A contratação de trabalhadores não residentes, em detrimento dos trabalhadores locais para obras indiferenciadas não é fenómeno novo. Bem pelo contrário. Quando cheguei a Macau no início da década de 80 do século passado, já se levantavam clamores contra esse fenómeno recorrente.

Recordo-me que à época, principalmente quando se tratava de empreendimentos de maior dimensão, os operários eram trazidos em camiões fechados para Macau e postos a residir em contentores igualmente fechados, estrategicamente colocados junto às obras. Dali saíam exclusivamente para trabalhar (não sei quantas horas por dia, mas com certeza muitas mais do que seria prática habitual no Território) regressando aos contentores para dormir no final da jornada.

Os lucros deste sistema para os empreiteiros eram então mais evidentes ainda do que hoje, tendo em conta que o salário pago a um operário do Continente, era então infinitamente menor de que o de qualquer trabalhador local. Isto apesar de não existir (tal como não existe agora) tabela mínima de aferição.

Com o surto de desenvolvimento que Macau começou a conhecer a partir daquela década a situação agravou-se e o trabalho ilegal acabou por passar a ser preocupação da Assembleia Legislativa, que acabaria por legislar, punindo com multas pesadas e mais tarde até, com penas de prisão, os empresários que contratassem mão de obra ilegal.

No entanto, apesar da legislação e das boas intenções certo é que a situação não parece ter-se alterado grande coisa.

De facto, a avaliar pelos protestos cíclicos que se fazem ouvir em manifestações de rua pelas associações de operários, pelas interpelações dos deputados na Assembleia Legislativa e pelas denúncias dos órgãos de comunicação social, a situação não terá mudado muito em três décadas pelo que se vê.

Há quem levante a voz exigindo leis mais severas e o legislador parece sempre pronto a responder às exigências produzindo mais e mais apertada legislação. Todavia o efeito pático não parece corresponder à energia normativa.

A razão para este estado de coisas é evidente. Sem fiscalização adequada não há legislação que valha. Faz-me lembrar o “metro” de Lisboa, que durante anos circulou de portas abertas confiando que os utentes não utilizassem esse meio de transporte sem comprar o devido bilhete. Decepção! A quantidade de pessoas que andavam pelo subsolo lisboeta sem pagar, aproveitando a boa fé da companhia, revelou-se responsável por uma parcela demasiado significativa dos prejuízos da empresa, pelo que não houve outro remédio senão pôr trancas à porta, ou seja colocar cancelas que se abrem apenas a quem introduza na ranhura o competente título válido de transporte.

Claro que não só foi idiota introduzir esse mecanismo de verificação, como correspondeu, principalmente, à passagem de um atestado de menor confiança na bondade inata (Rousseau “dixit”) do povo circulante de Lisboa. Mas a verdade é que os resultados das folhas de balanço da companhia , a partir daí, passaram a ser mais desafogados e no final de contas quem acabou por ganhar foi o pagador de impostos e particularmente, a justiça social que andava desequilibrada pelo abuso dos borlistas.

Em Macau a situação é em alguns aspectos semelhante, ou seja, o desequilíbrio regista-se a três parcelas, entre o volume legislativo que regula a área, o incumprimento que se verifica e uma fiscalização marcada pela timidez.

Daí a pôr cancelas à porta dos projectos de construção civil locais não ser de todo má ideia. Poderá ser estúpido, mas resultará certamente.

Isto a menos que alguma negligência descuidada se esqueça de advertir os fiscais de que as ditas não se abrem de facto a qualquer transeunte oportunista que surja disfarçado de operário e queira entrar apenas para ver como vão as obras.

De qualquer modo e em jeito de conclusão não pode deixar de se salientar uma contradição que parece insanável em todo este contexto de burburinho que se regista em torno da imigração ilegal e do trabalho clandestino.

Na verdade o desemprego em Macau andava pela casa dos 3.6% nos finais de 2009 e este ano, no final do primeiro trimestre, já baixou para 2.9%. Tendo em conta a evidente disparidade entre o “vozeirão” contra a mão de obra ilegal e a claramente baixa taxa dos que não têm trabalho não se compreenderá (para além da existência de ulteriores motivos), por exemplo, o ímpeto da carga operária contra as fileiras da polícia de choque na embocadura da Avenida Almeida Ribeiro no passado 1º de Maio.

Assim e ainda no contexto referido parece ser imperioso que além de fiscalizar se esclareça o que se fiscaliza, o que se permite e proíbe, mas principalmente porquê.

Os malfadados malefícios do tabaco 27-04-10

Tenho acompanhado (não sem alguma espécie de fastio) a longa telenovela que se desenrola em torno da lei de proibição do fumo de tabaco em locais públicos. Tem sido assim um pouco por todo o mundo. Creio que o primeiro episódio começou em 1585 com a introdução do tabaco em Inglaterra pelo pirata Francis Drake.

O segundo episódio ocorreu pouco depois quando o aventureiro Walter Raleigh, inventou o cachimbo e levou com o primeiro sinal de rejeição à novidade na forma de um balde de água que o criado lhe atirou ao vê-lo envolvido em volutas de fumo. O bom serviçal, coitado, pensou que o patrão tinha entrado em combustão espontânea.

Depois disso o fumo de tabaco continuou a fornecer amplos motivos para os episódios seguintes, caprichosos e rocambolescos.

O consumo da planta foi-se alastrando um pouco por todo o mundo, fumado, cheirado em pitadas de rapé, ou mastigado, mas o uso generalizado só ocorreu a seguir à Primeira Grande Guerra Mundial (1914-18), ou seja mais de três séculos depois da sua introdução na Europa.

A novidade trazida por Drake foi recebida como todas as novidades costumam ser, ou seja defendida por uns como erva medicinal, ou simples sinal de distinção social e combatida por outros como vício execrando e corruptor dos bons costumes.

Houve momentos na história em que o produto chegou mesmo a ser proibido por lei e os fumadores punidos a rigor. Dizem que um dos crimes que levou Sir Walter Raleigh a ficar sem cabeça, decapitado na Torre de Londres, terá sido a forma ostensiva como cachimbava sem rebuços nas barbas dos protestantes puritanos do parlamento.

O próprio Anton Tchekov, um dos maiores dramaturgos da história da literatura não descurou o tema e serviu-se dele para escrever “ Os Malefícios do Tabaco” uma das suas mais famosas peças de teatro.

Atribui-se ao Papa Urbano VII, um pontífice que ocupou cerca de 13 anos a cadeira de S. Pedro (tido como homem corajoso e de boa índole), a primeira proibição universal do uso do tabaco, banindo os fumadores das igrejas e castigando-os com a excomunhão. Um acto preventivo que não evitou que ele próprio morresse envenenado. Não pela nicotina claro, já que nesse tempo (século VI) ainda não se sabia o que a nicotina fosse, mas por outro qualquer veneno de que os “Borgia” eram exímios utilizadores. 

Tudo isto muito antes de se saber se o tabaco fazia mal, ou bem à saúde, já que os primeiros estudos científicos sobre o assunto surgiram apenas já na segunda metade do século XX (1960 para ser mais preciso). Foi a partir dessa data que se desvaneceram as suas propaladas virtudes medicinais e se passou a relacionar o fumo com várias doenças nomeadamente cardiovasculares. Mais tarde seria acrescentado o cancro do pulmão e outras mais patologias derivadas da nicotina e do alcatrão componentes químicos intrínsecos ao tabaco à lista dos malefícios.

Esses estudos produziram uma nova vaga anti tabagista que tem vindo a aumentar gradualmente até hoje. Felizmente, que ainda não produziu a execução de mais ninguém a não ser do citado aventureiro inglês do século XVI, nem levou o Vaticano a renovar a drástica lei canónica do Papa Urbano.

Parece no entanto que a campanha iniciada nos anos 60 do século passado está a atingir foros fundamentalistas elevando a condição dos fumadores à dos infiéis dos tempos das cruzadas, ou dos “niilistas” dos tempos de Tchekov.

A católica Irlanda, por exemplo, foi o primeiro país do mundo a aprovar uma lei nacional de proibição do fumo em 2004. O exemplo irlandês foi seguido pelo Butão, diminuto país dos Himalaias, que foi mais longe ainda e baniu totalmente o fumo de todo o território nacional proibindo pura e simplesmente a venda de cigarros, charutos e tabaco para cachimbo. Um contributo excelente, diga-se, para tornar ainda mais puros os já de si rarefeitos ares da cordilheira do Evereste.

Na livre América os graus de tolerância relativamente ao vício do tabaco variam de estado para estado havendo alguns que proíbem o fumo mesmo ao ar livre. Quem quiser fumar que o faça em casa, ou às escondidas da polícia se não quiser ser multado, ou mesmo preso como qualquer delinquente consumidor de estupefacientes.

Os episódios de Macau da tal novela sobre o tabagismo estão por agora a ser feitos em estúdio, ou seja nos debates da comissão especializada da Assembleia Legislativa designada para o efeito, que tarda em concluir a cena. Ao que parece tal se deve ao “script” da proposta legal em apreciação cujos argumentistas oscilam em excluir, ou incluir no banimento (principalmente) os casinos.

Parece-me no entanto, que neste caso o impasse legislativo está longe de se justificar, tendo em conta não só a histórica condenação da igreja,  e o movimento global no sentido de proibir, mas também os estudos científicos que informam claramente que o fumo não só prejudica a saúde do próprio como a de terceiros (“ou de outra”, como dizem em rodapé os anúncios locais às marcas de tabaco). Sendo assim não se descortina razão para incluir as locandas de “sopa de fitas” e excluir os salões dos casinos. Todos possuem empregados não fumadores que não têm outro remédio senão sujeitar-se às volutas dos sorvedores de esparguete, ou dos apostadores do “bacará” se querem ordenado ao fim do mês.

O bom senso recomendaria a existência de locais separados para fumadores com a respectiva instalação de máquinas exaustoras, espaços para não fumadores e pronto.

Isto porque algo mais atentaria contra a liberdade de cada um (direito universal incontestável).

Será bom recordar aos deputados e fundamentalistas em geral que não existe em Macau (nem em lado nenhum do Mundo) qualquer lei que considere crime o acto de fumar, ou equipare sob qualquer forma o comércio do tabaco a qualquer tipo de tráfico ilícito.

Sendo assim a demora só se justificará como desculpa da comissão para deixar de lado assuntos que porventura se afigurariam mais importantes e de necessidade de resolução mais urgente. De resto não se vislumbra outra razão para tão demoradas lucubrações legislativas.

Resta assim esperar que um dia destes saia fumo branco dos exaustores do edifício da Assembleia legislativa.

Até lá, porém, não será demais chamar a atenção para o facto de o voluntarismo, em muitas matérias desaconselhável, mais o ser ainda nos domínios legislativos. É que depois podem surgir incongruências surrealistas como é o facto de se puder fumar livre e calmamente um “charro” em qualquer café de Amesterdão sem se correr o risco de punição legal. Porquê? Apenas porque a lei holandesa não é contra o fumo da “marijuana”, ou dos escapes dos automóveis, ou das chaminés. É exclusivamente contra o fumo do tabaco.

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