Macau liberal e Macau republicano 09-02-2010

No ano em que se comemora o centenário da implantação da República em Portugal, Macau tem a responsabilidade (como afirmava aqui a semana) de olhar para o papel que desempenhou, na divulgação do novo ideário que desde a Revolução Francesa (1789), vinha alterando a pouco e pouco, as estruturas de poder por todo o mundo.
Macau só tem que se orgulhar pois foi, nesta matéria, precursora.
De facto, não poderá deixar de se salientar, que imediatamente após a revolução liberal do Porto de 1820, Macau, durante cerca de um ano, governou-se autonomamente. Expulsou o governador e o ouvidor (figura esta, que era uma espécie de primeiro-ministro), representantes do governo do reino e transferiu o poder para o município (então chamado Leal Senado), com a eleição livre de uma nova vereação, num movimento de contornos acentuadamente republicanos.
Esse período da história de Macau, ainda relativamente mal estudado, pode ser conhecido com alguma profundidade através da obra: “ A História e os Homens da Primeira República Democrática do Oriente”, que tem como subtítulo; Biologia e sociologia de uma ilha cívica. O livro é da autoria do antropólogo Almerindo Lessa.
Claro que a “Primeira República Democrática do Oriente”, foi Sol de pouca dura. O restabelecimento do antigo regime em Goa, de quem Macau dependia administrativamente, na organização política ultramarina de então, faria com que dalí fosse enviada, uma expedição punitiva, que depois de um prolongado bloqueio do porto acabaria por obter a rendição do Leal Senado e proclamar de novo o absolutismo antes reinante.
Este fenómeno não, surgiu por acaso, mas antes como efeito da presença no Território de uma colónia americana assinalável, mas principalmente de um grande número de militares brasileiros, alguns dos quais desempenhariam poucos anos depois papéis do maior destaque, na independência do Brasil e no governo desse novo país.
Na verdade, enquanto em Portugal, ou em Goa, se discutia liberalismo e absolutismo, em Macau já se falava em República. Alguns textos exemplares sobre novas ideologias, podem ser lidos nas páginas do primeiro jornal impresso no Extremo Oriente, “A Abelha da China”. Este jornal que, durou também, tanto quanto durou a autonomia macaense, ou seja, cerca de um ano, pode ser consultado no Arquivo Histórico e vale a pena fazê-lo. Aliás, o periódico, dirigido por um padre dominicano, despertou tais iras, que acabaria por ver o seu último número queimado em “auto de fé”, à porta do Leal Senado, em Agosto de 1822. Como se com esse acto pudessem ser queimadas as ideias que os seus libelos disseminavam semanalmente pelo espírito dos cidadãos.

O jornal foi queimado, mas o que nele foi escrito não deixou de exercer influência indelével na cidade. A própria comunidade chinesa a isso não terá ficado alheia, pois seria para Cantão, que muitos dos principais dirigentes da revolta liberal local fugiriam à frente das baionetas dos soldados do comandante Garcês Palha, chefe da expedição, que afastaria o Leal Senado, nomeando vereação a seu gosto e assumindo o cargo de governador até ao total restabelecimento da velha ordem política.
Neste ponto convém salientar que alguns dos fugitivos, acabariam por ser acolhidos em Cantão, continuando dali a incendiar os ânimos de Macau, através da publicação de jornais e folhas volantes que muitas dores de cabeça haveriam de causar pelos anos seguintes aos governadores de Macau.
Isto até o liberalismo triunfar definitivamente em Portugal e Macau, aceitar a Carta Constitucional, promulgada em 1826, por D. Pedro IV.
Desde então, Portugal mudava de rosto político, mas Macau, também. Em curso idêntico embarcaria a China, menos de duas décadas depois.
De facto, seria a partir de Cantão, que a maior sublevação de sempre teria lugar contra a dinastia Ching, reinante em Pequim. Tratava-se da revolução “Tai Ping”, que durante doze anos assolou o império (1851- 1864).
Este verdadeiro cataclismo que chegou a envolver um exército revoltoso de mais de 20 milhões de homens armados, seria finalmente detido às portas de Pequim, pelas forças imperiais. Todavia depois da revolta dos “Tai Ping”, também a China política não voltaria a ser a mesma. Novas ideias começavam a germinar e o trono do “celeste império” começava a vacilar seriamente.
Desta vez, muitos dos dirigentes, ou simples combatentes da revolta, regressariam a Cantão e alguns procurariam o único refúgio seguro que se lhes apresentava na China: – Macau.

Assim se pode explicar a presença em Macau, de algumas figuras centrais que participaram, no primeiro processo de liberalização da China, conhecido como a reforma “Wuxu”, ou “Reforma dos Cem Dias”, durante o reinado do imperador Guangxu (1875/ 1908), que acabaria por ser frustrada por um golpe de estado das forças conservadoras.
Entre essas figuras conta-se Liang Qichao. Monárquico liberal, Liang Qichao, desenvolveu em Macau, intensa actividade política, através dos jornais, chegando a fundar alguns, promovendo a difusão de círculos literários e instituindo até escolas.
Outra figura contemporânea daquela seria Zheing Guanyin (a sua residência, na Rua da Barra, acabou de ser restaurada, a semana passada pelo Instituto Cultural de Macau e transformada numa casa museu.), o teórico reformador, igualmente monárquico, de que falamos já aqui, anteriormente. Este teria sido o principal mentor ideológicos de Sun Yat-sen, nos primeiros anos da sua juventude, mas não só.
Juntamente com Sun Yat, encontravam-se igualmente activos em Macau outros jovens revolucionários, que igualmente tinham bebido nos princípios de Liang Qichao e Zheng Guanyin, embora de carizes políticos mais radicais. Destes os mais célebres foram sem duvida, Yang Heling, Chen Shaobai, Guan Xinyan e You Li, que constituíam o que viria a ser o famosos “bando dos quatro”, ou seja um dos primeiros e mais activos embriões da subversão republicana na China.
As actividades de todas as figuras acima citadas, não passavam de modo algum, despercebidas às autoridades portuguesas de Macau, todavia poucas vezes seriam incomodados, mesmo quando levavam a cabo públicas manifestações contra o regime chinês, nomeadamente nos teatros da cidade.
Pedidos de captura dos agitadores eram amiúde enviados pelas autoridades de Cantão, mas certo é que nenhum surtia efeitos práticos. Macau, independentemente dos governadores que se iam sucedendo, optava sistematicamente por fazer “vista grossa” ao que se passava.
Nesta conjuntura desempenhavam inestimável papel de medianeiros, Francisco Hermenegildo Fernandes, jornalista e proprietário de vários jornais e o advogado António Basto, um dos mais conceituados causídicos de Macau.
Como pano de fundo em toda esta cena de oficiosas cumplicidades perfilava-se a Maçonaria (juntamente com a “Carbonária”, estas associações secretas desempenharam papel fundamental no derrube da monarquia portuguesa) a que Francisco Fernandes pertencia.

A Maçonaria contava também nas suas fileiras com uma boa parte dos governadores que administraram Macau, pelo menos, a partir da segunda metade do século XIX.

De entre muitos, destacaram-se, Francisco Isidoro Guimarães, o governador que mais tempo esteve à frente dos destinos de Macau (12 anos) e o Conselheiro, Custódio Miguel de Borja. Este chegou mesmo a ser o grão-mestre da Maçonaria portuguesa. Para além dos governadores variadíssimos outros funcionários civis e militares da administração local nela igualmente estavam filiados.
Resta assinalar que o papel de Macau, na história da China moderna, tem sido obliterado, em parte pelo que nela desempenharam Hong Kong e Xangai. Todavia, o seu não foi menor. A grande ignorância, que reina sobre o assunto, reside apenas e só numa questão de bibliografia. É que o que se sabe sobre os últimos duzentos anos da China, está largamente documentado na universalidade da língua inglesa. O que não se conhece está escrito, ou publicado quase exclusivamente em português. Não será muito, mas convinha universalizar um pouco mais esse conhecimento.

É imperioso assinalar 02-02-2010

Passa este ano um século sobre a data da implantação da República, em Portugal (5 de Outubro de 1910). O centenário não é apenas, mais uma, das muitas efemérides patrióticas, mais, ou menos perdidas nas brumas da memória, que pontuam o calendário politico português. Por isso o Estado, entendeu por bem, não só lembrar oficialmente o dia 5 de Outubro, mas implementar uma vasta gama de iniciativas que preencherão todo o ano. Para o efeito criou a Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República, que tem como principais objectivos os seguintes:

a) Evocar historicamente os acontecimentos de 1910 e honrar a memória daqueles que se entregaram à causa da República;

b) Promover a reflexão colectiva sobre a identidade nacional, os valores da República e o desenvolvimento e o futuro das instituições políticas;

     i. Identificar desafios que se colocam à sociedade portuguesa;

     ii. Contribuir para a renovação da relação entre a República e os cidadãos;

     iii. Mobilizar os mais novos para a participação cívica;

     iv. Aprofundar o debate em torno da ética republicana do século XXI;

     v. Reforçar a identidade nacional;

c) Aprofundar e divulgar o conhecimento histórico-científico sobre a República;

d) Dinamizar iniciativas culturais diversificadas capazes de mobilizar a participação alargada da sociedade portuguesa, especialmente junto das gerações mais jovens e das comunidades portuguesas no exterior.

Segundo o próprio doploma, que cria a Comissão, uma das suas dimensões comemorativas será necessariamente virada para o conhecimento do ideário republicano, dos valores que legitimaram o novo regime e dos acontecimentos e protagonistas da sua história. Mas, como advertiu a Comissão de Projectos, encarregada de definir o enquadramento das comemorações, há que evitar uma visão passadista, contrapondo-lhe uma preocupação prospectiva.

No texto acima citado, parece-me relevante o carácter prospectivo, que se pretende imprimir às comemorações, por contraposição às tais brumas da memória e formais ritualismos, mais, ou menos vazios em que invariavelmente, se envolvem este género de efemérides. Quer seja o próprio, 5 de Outubro, o longínquo, 1º de Dezembro de 1640, ou mesmo, o muito mais recente 25 de Abril de 1974. Isto, só para citar feriados do calendário oficial de Portugal.

Mas mais relevante parece ser ainda, a intenção expressa no ponto d, do mesmo texto que visa especialmente a mobilização e participação das comunidades portuguesas no exterior. Parece-me que neste ponto as comemorações devem ser particularmente assinaladas em Macau. Não por qualquer papel relevante que o território tenha desempenhado na proclamação da República em si mesma, mas sim pelo seu papel na implantação de duas repúblicas. A portuguesa e a chinesa. Aliás, o centenário, desta última, assinala-se no próximo ano (1 de Outubro de 1911).

Passo a explicar-me.

No que à comunidade portuguesa de Macau diz respeito, o fermento republicano sempre foi sensível, nomeadamente através da presença no Território, de vários altos funcionários civis e militares, incluindo governadores que pertenciam à Maçonaria, organização secreta, tida como principal aríete do derrube da monarquia em Portugal. Essa situação fazia com que se criasse um ambiente receptivo às novas ideias, que igualmente germinavam na China. Daí não ser de admirar que, grandes e influentes figuras da revolução chinesa, tenham escolhido Macau. Umas vezes como base de apoio da subversão do regime imperial, outras como local de refúgio temporário, sempre que as marés políticas corriam adversas.
Neste contexto, é de relevar a acção, por exemplo, de Lou Kao e seu filho Lou Lim Iok, líderes da comunidade chinesa de Macau, que ao longo de duas gerações, consertaram esforços locais, no sentido de prestar apoio aos revolucionários chineses e simultaneamente garantir, que o governo português, não hostilizava essas forças.
Assim foi possível, desde a segunda metade do século dezanove, que Macau, desempenhasse um papel relevante (maior do que as suas dimensões geográficas deixariam supor), em vários momentos da história da China. Tanto no período da primeira tentativa de transformação do império numa monarquia constitucional, como a seguir na implantação da República.
Mesmo mais tarde, na proclamação da República Popular (1949), Macau, também, desempenhou o seu papel, embora este último período permaneça ainda bastante na obscuridade, por falta de estudos e também, naturalmente, porque os acontecimentos ainda se encontram demasiado próximos para serem devidamente estudados.
De salientar também, no contexto da fundação das duas repúblicas do início do século XX, a acção relevante da imprensa clandestina chinesa de Macau, que durante décadas inundou a China, com novas ideias. Não esquecer também que um dos maiores pensadores da China moderna, Zheng Kwan Yin, escreveu no território algumas das suas mais influentes obras.
Finalmente e porventura, não menos importante, será lembrar as íntimas ligações do fundador da República Chinesa, Sun Yat-sen a Macau.
Por tudo isto parece-me duplamente imperioso que os portugueses celebrem este centenário, das mais diversas formas e que, nele se procure empenhar também, a comunidade chinesa. Celebrar por exemplo, alguns perfis que figuram na toponímia da RAEM , seria uma das formas de o fazer. Mas com certeza haverá outras. Haja vontade.

Quando poupar é prejuízo 26-01-2010

Manter ou aumentar mais valias é objectivo legítimo de qualquer empresário. Deste facto resultam naturais pressões no sentido fazer vigorar a política do quanto mais baixo salário melhor. Custos da mão de obra é em muitos casos o que melhor se pode controlar, já que os outros essencialmente dependem de factores exógenos às empresas.

No entanto o método, se capaz de suster perdas, ou aumentar lucros, na generalidade, nunca acrescenta progresso, ou desenvolvimento mas antes, estagnação económica e recuo social e económico.

Porém essa filosofia parece estar instalada e bem instalada em Macau e nem a chegada dos novos operadores do jogo, com vistas mais largas, oferecendo salários que em muitos casos duplicavam, ou mesmo triplicavam, os praticados no Território, anteriormente, parece ter contribuído, pelo menos de uma maneira sensível, para alterar o “status quo ante”.

Se bem me lembro o impacto, limitou-se a algumas concessões nas condições laborais de algumas empresas, que passaram a encerrar ao sábado, uns relutantes ajustamentos salariais e pouco mais.

Ainda assim, é certo que se registou um aumento significativo no nível de vida das pessoas, nos últimos anos, e a inflação continua, quase, a não se fazer sentir. Todavia tal não significa que Macau viva no melhor dos mundos. Bem pelo contrário. Há sectores, onde a filosofia subjacente de contenção salarial se reflecte de forma evidente, com os resultados negativos que lhe são consequentes.

O sector da saúde constitui um exemplo de que essa política, nada pode trazer de benéfico, nem para os cidadãos em particular, nem para o desenvolvimento de Macau, em geral.

Outro exemplo pode observar-se no sector da educação, ainda que com menor evidência, ao nível docente.

Na saúde, segundo os últimos de que disponho (2007), Macau contava com 1226 médicos e 1335 enfermeiros, profissionais estes, que serviam respectivamente: 473 e 430 habitantes, situação que se encontra acima da média mundial. Não está mal!

As existências, em termos de instituições de saúde (hospitais, centros de saúde e clínicas), parecem também, por enquanto, capazes de dar conta das ocorrências. Isto apesar do numero de camas de internamento, ficar por 1.9, por cada mil habitantes, muito abaixo, por exemplo, da média europeia, que se cifra em 3 camas por milhar. Em matéria de equipamentos, tanto a nível privado como público a situação parece igualmente ser, pelo menos, razoável.

Todavia o que se verifica na prática é que apesar de todo o equipamento existente, falta quem o opere com proficiência e apesar das camas, falta quem preste os cuidados especializados de quem nelas se aleita.

Neste ponto, há que citar algumas situações que parecem paradigmáticas. No hospital público, existem há anos especialidades por preencher. E quais as razões para isso? Uma delas (porventura a mais importante) terá a ver com as condições e níveis salariais praticados, tanto no que diz respeito à classes médica, como paramédica.

A abertura de um dos últimos concursos para o preenchimento de vagas de especialidade no sector público, levado a cabo em Portugal, resultou numa razoável afluência de interessados e terminou com a sua desistência em massa. Dos muitos, só um médico, se dispôs a fazer as malas e embarcar para, Macau. Os restantes consideraram as condições oferecidas muito menos do que atraentes, mesmo para um recém licenciado.Outro exemplo. O Hospital Kiang Wu, inaugurou, creio que o ano passado, uma nova e luxuosa ala. No entanto, muitos dos casos que ali dão entrada são reencaminhados para o Centro Hospitalar Conde de S. Januário. Por falta de especialistas?

Por outro lado é notável a maior afluência aquele hospital em certos dias da semana. Porquê? Porque é nesses dias que ali se deslocam reputados médicos de Hong Kong.

Por outro lado, ainda, (estatísticas não existem), mas serão muitas as pessoas, que se deslocam à vizinha RAEHK, ou ao Bunrumgrad, na Tailândia, para se tratarem, ou apenas, efectuar análises clínicas de rotina. Tudo isto, evidentemente, porque desconfiam da capacidade das instituições locais.

É necessário pôr termo a esta situação. Para isso não seria mal pensado começar primeiro, pela alteração das tabelas salariais. Depois pela criteriosa escolha dos locais onde recrutar especialistas. Em seguida, pela verificação cuidadosa das credenciais das instituições de onde são oriundos, não deixando de assegurar, a genuinidade das credenciais, bem como o nível técnico do pessoal a recrutar, que deve corresponder às mais altas exigências.

Com estes passos dados, creio que seria então possível começar a pensar (por enquanto tudo não passa, de castelos no ar) a sério, no caminho a seguir para instituir em Macau, uma tão necessária faculdade de medicina.

No âmbito da educação,  creio que a receita poderia ser semelhante. Mas a educação tem as suas próprias especificidades. Poderá caber, por isso, no âmbito de outra reflexão.

Seja como for, creio que antes de apostar na tecnologia de ponta é preciso cuidar de saber onde está o material humano que a saiba utilizar. Se não existir por cá que se busque lá fora, mas bem. O melhor é uma mais valia que custa dinheiro. Por vezes muito dinheiro. Mas, nem sempre a poupar é que se ganha e neste caso concreto, poupar continua a ser prejuízo evidente.

Atenção à cultura 19-01-2010

Ponte é coisa que fica a meio caminho entre dois pontos. É pois, por definição, um local de passagem e nunca um local de fixação. Sendo assim, para qualquer antropólogo, seria hercúleo trabalho, senão evidente perda de tempo, deter-se a estudar a caracterização demográfica de quem por uma ponte circula. Nas pontes ninguém se fixa. Nem mesmo os operários que têm por missão fixar as ditas. As pontes são os estreitos resultados úteis da necessidade de ligar anónimos entre margens.

Lí, há alguns anos, um artigo de alguém, que elaborava sobre este tema referindo-se à Tuquia, como ponte entre a Ásia e a Europa, para concluír que aquele país da Anatólia, circulava sobre o Bósforo, entre duas civilizações sem pertencer a nenhuma. A Turqia vive, quereria dizer o autor, no lodaçal aquoso e indefenido de todos os juzantes salobros. Vinha esse artigo a propósito da eventual adesão de Ancara, à União Europeia, que continua frustrada.

O argumento parece-me convincente e por isso mesmo para mim assustador, quando vejo a frequência com que o conceito de Macau, como ponte entre o Oriente e o Ocidente, é grafado, na comunicação social e consequentemente também impresso na mente das pessoas.

O conceito surge amiúde e principalmente, em artigos de imprens, bem como nos diversos “media”. O que é preocupante, nos média, é-o apenas na medida em que consagra o “chavão” produzindo os efeitos nefastos e conhecidos da propaganda da mentira que mil vezes repetida acaba por ser aceite como verdade, por todos, ou quase todos.

Porém, mais preocupante ainda, é o facto de ser utilizado também, quase com igual profusão, em obras de caracter cietífico escritas por, académicos e autores consagrados, nos mais diversos estudos e nas mais diversas áreas, ou por políticos responsáveis, nos seus discursos de circunstância.

Sendo tratado neste âmbito já me parece inaceitável, continuar a grafar Macau, como se de uma entidade inexistente se tratasse, atendendo ao que o conceito de “ponte” transmite de profundo e consequente em termos de caracterização identitária, ou melhor, de ausência dela.

Macau, não pode, em minha opinião, ser assim divulgada, ou estereotipada. Não só porque não o é, como acaba por incitar ainda que subconscientemente a que se negligencíe, o facto, quanto a mim indesmentível, de possuir tudo, menos as características de uma ponte. Ainda se lhe chamassem “feira”, como polo de acorrência de viandantes de vários mundos, vá que não vá. Agora ponte!?

Macau não é uma ponte. Poderia ser quando muito, um pequeno universo inopinadamente característico, que funda os seus pilares há mais de quatro séculos, numa base de areia um tanto movediça, mas surprendentemente contida em inusitado anel de resistente metal, que a sustém nos seus limites confinados sem ter alguma vez dado sinais de qualquer desagregação, nem  remota, nem eminente.

Porém, se as pontes, por definição, não são locais para viver, a solidez das margens só existe, se o cimento ideológico onde se habita fôr sólido e duradouro e sabe-se bem que como a resistência das pontes é definida pela capacidade dos cabos de aço que as sustentam.

Nos agregados humanos esses cabos não são feitos de aço, mas de cultura.

Em Macau convivem duas culturas claramente marcantes: – chinesa e lusofona. Mas Macau não vive entre duas culturas. A RAEM, é de há muito uma simbiose, que vem benificiando das contribuições de quem vem de fora e quem chega não é oriundo de nenhuma portugalidade, ou sinização uniformitária.

Bem pelo contrário, os elementos culturais que se registam surgem essencialmente sub-complexos dessas matrizes e de outros mais. Fujian, Xangai, Cabo Verde, Angola e actualmente, por influência do desenvolvimento económico, elementos culturais anglo-saxónicos mantêm e simultâneamente forjam-lhe a identidade.

Neste contexto multicolor em que parece reinar, a abundância no apoio orçamental ás géneses multipolares que por aqui circulam, parece igualmente evidente a inexistência de uma política cultural própria, abrangente e orientadora.

Assim pode citar-se a reduzida dotação orçamental do Instituto Cultural, quando comparada com a de algumas instituições de igual, ou menor dimensão. A persistente quase-ausência de um ensino curricular secundário próprio. O adiamento sucessivo do arranque da nova Biblioteca Central, que lhe permita constituir-se como centro irradiador de actividades culturais, que não só de exclusivo acesso à leitura. Ou a produção de trabalhos científicos, sendo neste caso de lembar a angústia contida no clamor de um magistrado que há alguns meses denunciava a carència de jurisprudência produzida pelo Tribunal de Última Instância (não sei se falta só jurisprudência, se também jurisconsultos…).

Os que citei são apenas casos, ainda que porventura exemplares, num conjunto de carências que tardam, não só, a ser resolvidas, como pior do que isso a ser mesmo encaradas como uma verdadeira prioridade.

Perante tudo isto volto à alegoria da ponte. A conservação dos cabos é condição essencial para a preservação da estrutura. No caso da cultura os cabos que a sustentam carecem igualmente de manutenção adequada. È preciso oleá-los contra a corrusão e substituír os fios velhos. Mas antes disso é necessário que acorram ao conserto os necessários “engenheiros de almas”, mas livres e genuínos, que se têm visto pouco.

Caso contrário, o tabuleiro cai, estilhaça-se e finalmente, dilui-se no grande rio continental uniforme, onde sempre navegou uma diversidade de embarcações.

Nesse caso, no que toca à torrente do rio, não se registará diferença significativa. Já o mesmo se não dirá para o corpo dissolvido.

Felizmente que Macau não é uma ponte. Quando muito poderá ser um entreposto que lá vai atravessando todas as crises, com melhores, ou piores resultados de balanço, mas sempre longe de qualquer risco de falência.

Caminhos novos 12-01-2010

Olhando para a década que findou não se pode dizer que Macau mudou, mas sim que está apenas em mudança. Uma mudança que está muito longe de se ficar pela conclusão dos edifícios semi-acabados, ou ainda em projecto, das concessionárias do jogo. Bem pelo contrário. Muito para além do jogo, há sinais claros de que a mudança não só está em pleno curso, mas em vias de se aprofundar podendo até trazer eventuais surpresas para quem possa pensar que tudo começou com o fim do monopólio de Stanley Ho e termina com a consolidação do novo oligopólio ainda em fase de acabamento. No horizonte parecem claros os sinais de que as coisas não serão assim. Nesta perspectiva é necessário ter em conta que Macau, tal como Hong Kong, deixaram de ser a espécie de ilhas mais, ou menos isoladas da China, a ela apenas ligadas por laços de estrita interdependência económica. Igualmente estão também e muito rapidamente, a deixar de ser as portas privilegiadas necessários da RPC, para o mundo exterior. O facto de o Brasil, se estar a constituir como um dos principais parceiros da nova, China global, com investimentos bilaterais gigantescos, directamente acordados entre Brasília e Pequim, sem necessidade de intermediários, é exemplo notório disso mesmo. A China abriu-se ao mundo, faz parte da OMC, está a tomar um papel cada vez mais activo na ONU e na generalidade do conserto das nações. Por todas essas razões Macau, não possui alternativa de afirmação para salvar a identidade e importância estratégica, que não seja descolar definitivamente da sua pesada história feita de ciclos de opulências e crises decorrentes de endémica aposta em monopólios e comércios exclusivos. Ou seja Macau vai ter mesmo que se reinventar. Seja por motu próprio, ou forçada por circunstâncias exteriores. A mudança é sempre difícil de aceitar, em qualquer caso. Muito mais quando Macau conhece como agora um ciclo de abundância. Todavia nesse processo o Território pode contar com a ajuda preciosa de Pequim que, não parece de modo algum disposta, ou interessada em coarctar eventuais novos rumos pelos quais Macau, decida enveredar. Os sinais da China neste sentido parecem também ser claros. Porventura menos pelo que as mensagens deixadas pelos dirigentes dizem e bem mais pelo que omitem. As várias declarações públicas do Presidente Hu Jintao, na sua última deslocação ao Território, por ocasião das celebrações dos dez anos da transição, são disso exemplo quando louva uma década de progresso, escusando-se quase cirurgicamente a referir-se ao papel que os casino tiveram nesse progresso, omissão esta que parece carregada de significado. É que num projecto global de desenvolvimento em que a China se encontra empenhada no Sul da sua província de Guangdong, a diversificação não é uma mera sugestão de Pequim, mas um imperativo que vale igualmente para Hong Kong, Região que continua a depender do seu estatuto de praça financeira e dos seus alicerces na construção civil, tão pesadamente como Macau depende do jogo. Outra mensagem clara nesse sentido foi também já expressa, aquando da divulgação dos planos de desenvolvimento conjunto da ilha da Montanha, ao ficar a saber-se que neles não caberiam novos casinos. Assim sendo o investimento noutras áreas, mesmo que vistos à partida como demasiado arrojados, ou mesmo irrealistas, ganha nova consistência à luz dessa inevitável integração que está a construír-se sob o nosso olhar ainda que disso não demos a devida conta. A projecção de Macau como centro internacional de criação artística, ou polo de saber através do ensino superior, ou mesmo centro de excelência em matéria de cuidados especializados de saúde são projectos que cabem nessa conjuntura. Finalmente e tendo em conta que na RAEM, vigora o segundo sistema, que a China não pretende pôr em causa, por qualquer intromissão intencional, ou inadvertida, a responsabilidade pelos caminhos do futuro fica inteiramente por conta da capacidade imaginativa da população, dos agentes investidores e do novo governo de Macau. Exactamente por esta ordem.