Felizmente que a inquisição nunca chegou a Macau. O mais longínquo lugar do império marítimo português por onde estendeu as suas ”queimadas de hereges ” foi Goa, com os estragos históricos que se conhecem. Em Macau a Igreja absteve-se de incinerar infiéis por duas razoes: – Primeiro porque o mais certo seria que a China se irritasse perante o lançamento à fogueira dos súbditos do império e pura e simplesmente obliterasse o Território, como aconteceu noutros pontos da sua costa mais a Norte onde os portugueses se tinham fixado antes. Segundo porque ao contrário de Goa, ou de Manila, por exemplo a ordem religiosa dominante era a Companhia de Jesus e não a dos Dominicanos. Os companheiros de Jesus, ao contrário dos de S. Domingos nunca foram adeptos de fogueiras para impor a fé.
Apesar de tudo o que ficou dito Macau não se eximiu à simbologia das chamas para purificar os espíritos. Também o Território teve os seus autos de fé. Felizmente que ninguém se chamuscou! Esses autos de fé em Macau foram mais tardios e levados a cabo não por motivos religiosos mas sim políticos. Igualmente os supliciados não foram os incréus, mas antes os instrumentos materiais da apostasia, ou seja livros e jornais.
Várias destas cerimónias “fúnebres” terão eventualmente ocorrido ao longo da história do Território, mas pelo seu simbolismo aberrante e extemporâneo tendo em conta as épocas em que tiveram lugar há duas que merecem referência. Quanto mais não seja como exemplares morais do que a intransigência ideológica em momentos particulares de polarização política pode produzir de barbárie anómala contra o espírito e o progresso sociais.
O primeiro caso ocorreu nos primórdios do liberalismo. Portugal e as suas colónias mergulhavam num período de forte instabilidade, com o fim do regime absoluto e a aprovação da primeira constituição do reino, na sequência da revolução de 1820 (falei já aqui, em anterior artigo, de alguns dos seus efeitos em Macau).
A revolução liberal trouxe consigo um elemento novo que haveria de transformar profundamente o século. Tratava-se da liberdade de imprensa que anteriormente não existia de todo no Portugal ultramarino.
Mal conhecida a abertura do sistema, os jornais começaram a surgir um pouco por toda a parte, desde Cabo Verde a Macau.
A “Abelha da China” (macauantigo.blogspot.com)
O segundo e último episódio do género ocorreu, espante-se! Já em pleno século XX. Este “auto de fé” teve tanto de anómalo como de premonitório. Ocorreu em 1926, e constituiu sinal claro da forma como o novo poder instalado em Lisboa em 28 de Maio desse ano encarava a liberdade de expressão e também a cultura em geral.
“Macau Histórico” (macauantigo.blogspot.com)
A segunda edição porém viria na pior altura. O autor era um republicano militante do Partido Democrático de Afonso Costa, principal formação política visada pelo golpe militar de Gomes da Costa, mas o que concitou a irritação do novo regime, foi o facto de nessa segunda edição Montalto ter acrescentado um capítulo à obra no qual punha em relevo a incompetência da política ultramarina portuguesa e sugeria a entrega da administração de Macau à recém criada “Sociedade das Nações”, antecessora da ONU (Organização das Nações Unidas).
A inadvertida proposta levantaria as iras dos poderes constituídos, que aproveitaram o pretexto para apontar o dedo ao republicanismo partidário como o mais anti patriótico dos sistemas políticos. “Ali estava, no livro de Montalto, claramente espelhada a justificação da ditadura militar”, bradavam o governador Tamagnini Barbosa e os seus seguidores.
Montalto de Jesus (macauantigo.blogspot.com)
Os exemplares que sobraram escondidos por alguns, foram poucos, mas a principal vítima afinal seria o próprio autor que caído em desgraça seria completamente proscrito. Pobre, amargurado e só, Montalto de Jesus morreria em 1927, num asilo em Hong Kong, com 64 anos de idade.
