O romance policial vem de longe, tem pelo menos século e meio.

Neste domínio da literatura os pioneiros são Sir Arthur Conan Doyle, que em 1887 inventou a figura de Sherlock Holmes.

Depois disso apareceram centenas de autores que vão de Agatha Christie ao nosso bem português Deniz Mac Shade, ou Diniz Machado que escreveu o “ O que diz Molero”, novela que não tem nada ver com romances policiais, mas é um marco na literatura portuguesa.

Mas antes de todos estes nomes sonantes da literatura mundial houve alguns pioneiros de que se houve falar pouco e outros de que não se houve falar de todo.

Um dos que não se conhece e de que nem sequer existe obra acessível em qualquer livraria a não ser provavelmente em alfarrabistas e na Biblioteca Nacional, naturalmente, é António Maria Bordalo.

António Maria Bordalo era um oficial de marinha português que foi secretário do governo de Macau durante cerca de dois anos nos idos de 1850.

1850, um ano particularmente dramático na história de Macau, quanto desconhecido hoje em dia.

Foi o ano que se seguiu ao assassinato do governador Ferreira do Amaral.

Um ano em que mais do que antes, ou depois, a sobrevivência de Macau esteve por um fio.

Este escritor menor da literatura portuguesa, isto segundo a classificação dos dicionários bibliográficos, deixou obra publicada, principalmente no que respeita ao seu género literário preferido que eram as narrativas de viagem marítimas.

Neste âmbito escreveu coisas interessantes, como “Trinta anos de Peregrinação”, “Manuscrito Achado na Gruta de Camões”, ou um “Passeio de Sete Mil Léguas”.

Digo eu que são coisas interessantes, porque dizem respeito a Macau.

Mas Portugal ainda não redescobriu este autor.

O que é certo é que António Maria Bordalo escreveu, não só o primeiro romance policial passado em Macau, como talvez até um dos romances, ou novelas policiais, como lhe queiram chamar, que se escreveram no mundo.

Isto muitos anos antes do “Mistério da Estrada de Sintra” de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão

A novela chama-se “Sansão na Vingança”.

O enredo gira em torno da explosão da Fragata D. Maria II, que ocorreu em Macau em 1850.

António Maria Bordalo, fala pela primeira vez das seitas em Macau, do crime que campeava nas ruelas tortuosas dos bairros, que eram então periféricos à cidade como o da fortaleza do Monte, de que restam hoje as ruas de Sancho Pança e D. Quixote e o recuperado bairro de S. Lázaro.

António Maria Bordalo ficcionou um drama familiar, depois de o ter investigado exaustivamente.

É que o irmão, também oficial de marinha morreu precisamente no desastre da fragata D. Maria II.

A explosão de um dos navios mais emblemáticos da marinha portuguesa desses tempos provocou uma consternação nacional.

E o mais estranho nesse episódio é que o irmão de Bordalo teria feito chegar a Lisboa uma carta em que dava conta do desastre.

No entanto essa carta, misteriosamente, fora expedida antes do desastre ter acontecido.

Este facto não consta da novela.

Mas consta da história. E até hoje ainda ninguém avançou com uma explicação plausível para esse facto.

Uma novela de ficção científica, talvez possa especular sobre o que passou.

A destruição da fragata D. Maria II foi um desastre nacional.

Uma tripulação de duzentos homens obliterada num ápice pela explosão de toneladas de pólvora carregadas no porão.

Vários navios ingleses, franceses e americanos, que se encontravam nas imediações do ancoradouro da Taipa sofreram as consequências. Houve mortos, feridos e danos irreparáveis nalguns dos mais modernos navios de várias nações.

Quem foi o responsável?

Quem foram os responsáveis?

Nesta novela Francisco Maria Bordalo não dá uma resposta concreta.

Deixa pairar vagamente que foram as seitas.

Pena é que o livro só esteja disponível na Biblioteca de Macau e na Biblioteca Nacional de Lisboa já que nunca mais foram feitas quaisquer reedições.

Mas ainda bem que ainda existe.

Mas, “De Longe à China”, uma compilação de vários autores, fala disso – e de muito mais.

Este conjunto de livros que aqui tenho fornece resumos da história que contei e de muitas outras, de muitos outros autores que escreveram sobre Macau.

É uma edição do Instituto Cultural de Macau, que poderá encontrar também na Livraria Portuguesa.

Nestes cinco volumes talvez encontre também outras histórias que nunca pensou que se pudessem passar em Macau.

De Longe à China é uma espécie de enciclopédia resumida e fácil de manusear do que se escreveu sobre Macau

Se quer saber quem escreveu o quê, sobre Macau, seja história, romance ou biografia, leia de Longe à China e depois, se puder, compre a colecção inteira.

Infelizmente muita da bibliografia que de “Longe à China” refere não existe nas livrarias.

É pena.

D. José da Costa Nunes

D. José da Costa Nunes, a figura que deixou o seu nome ligado ao infantário situado na Avenida Sidónio Pais aqui em Macau foi uma das figuras mais destacadas da Igreja Católica ao longo de mais de meio século.

Foi bispo de Macau durante cerca de vinte anos imprimindo a sua marca na vida da igreja, local, mas não só.

Também no plano cultural teve uma acção de destaque principalmente durante os anos 20 do século passado.

Ficaram memoráveis as conferências que produziu nomeadamente no Clube Militar, e o seu papel dinamizador nas tertúlias de então em que pontificavam nomes sonantes da cultura portuguesa, como Camilo Pessanha e outros.

Nascido na ilha açoriana do Pico, D. José da Costa Nunes, veio para Macau ainda antes de concluir o seminário como secretário do bispo D. João Paulino, a quem sucederia em 1923.

Em 1940 é nomeado Arcebispo de Goa e Damão e Patriarca das Índias Orientais.

Mais tarde, 1962 ascende a cardeal por nomeação do Papa João XXIII, tendo tido uma acção influente no Concílio Vaticano II.

Faleceu em Roma em 1976.

Uma ascensão pujante para um homem que fez tudo quanto pode para evitar ser nomeado bispo e que acima de tudo prezava as letras.

Porém o seu talento literário permaneceu ensombrado para a história face à sua faceta de resoluto apóstolo da Igreja.

D. José da Costa Nunes publicou uma considerável bibliografia, ainda que essencialmente dedicada a temas eclesiásticos.

No entanto tenho aqui comigo o volume 7 de uma série das suas obras compilada pela Fundação Macau.

Tem por título “Crónicas”

Nestes textos revela-se o fino estilistas da língua portuguesa, mas também o arguto observador do Oriente social e político.

Leio-lhe um pequeno trecho de um texto que D. José intitulou, Em Plena China, escrito em 1927.

LEIO O TRECHO (no programa Guarda Livros leio de facto o excerto. Neste caso terá que adquirir o livro para o poder ler. É uma pérola da língua portuguesa e de uma certa corrente de pensamento da época)

Crónicas de D. José da Costa Nunes, uma edição da Fundação Macau datada de 1999.

Vale a pena ler.

Creio que ainda restam exemplares na Livraria Portuguesa, ali na Rua das Mariazinhas.

Crowned with The Stars

Como para a maioria de nós (digo da minha geração) os assuntos dos espanhóis despertam-nos pouca curiosidade.

Eu não me excluo desse alheamento.

De Espanha retenho nomes como Cervantes, ou Goya, ou Salvador D’Ali, ou o mais recente Biscainho Cazas, por exemplo e pouco mais.

Mas não querem saber que no mais inaudito dos cantos geográficos por onde se possa passar deparei no escaparate de uma livraria de Sabá, na Ilha do Bornéu, na Malásia, com uma das biografias mais fascinantes que me foi dado ler nos últimos tempos.

É esta

Chama-se: – Crowned with The Stars.

O subtítulo diz: The Life and Times of  D. Carlos Quarteron First Pefect of Borneo, 1816-1880.

Em português poderá ser qualquer coisa como: A vida e a época de D. Carlos Quarteron, primeiro perfeito do Bornéu.

O autor é Mike Gibby.

Embora não seja escritor, Gibby escreve esta obra quase como Emílio Salgari escreveu as aventuras de Sandokan, precisamente nas mesmas paragens. As selvas da Malásia e do Bornéu e aventuras semelhantes. Com seitas, piratas e tudo. Um Indiana Jones antes do cinema.

Mas vamos ao que interessa.

Carlos Quarteron nasceu em Cadiz de boas famílias e ingressou na marinha espanhola.

Inteligente, rapidamente ascendeu na hierarquia, obtendo o comando de um navio com apenas 25 anos.

Passou então a fazer a carreira marítima entre Manila e Macau no Extremo Oriente onde a sua família tinha interesses comerciais.

A certa altura este aventureiro espanhol soube do naufrágio de um navio britânico nos chamados recifes de Londres que ficam a meia distância entre o Bornéu e o Vietname.

Recifes perigosos que no século XIX ainda se encontravam mal assinalados nas cartas de marear.

Intrépido e calculista, Quarteron , ao saber da notícia não hesitou.

Abandonou a marinha espanhola, comprou um navio a que chamou “Mártires de Tonquim”, recrutou uma tripulação e alguns pescadores de pérolas conhecidos por conseguirem mergulhar sem respirar durante mais de três minutos e partiu para os perigosos recifes.

Por ali esteve cerca de dois meses e os seus esforços foram recompensados.

Descobriu um tesouro de milhões em lingotes de prata.

E o que julga que fez com eles?

Pois nem mais nem menos do que rumar a Macau e entregar o tesouro ao que julgo à Santa Casa da Misericórdia, esperando que alguma seguradora saísse a terreiro para reclamar o salvado.

Entretanto a Santa casa entregou-lhe 10 por cento do tesouro e guardou o resto aguardando que alguém clamasse a sua posse.

Ninguém a reclamou no prazo legal e D. Quarteron ficou com toda a fortuna ajudado pelo seu amigo José D’Almeida que por procuração ficou a tratar dos seus negócios em Macau.

Mas Quarteron era, passe o eventual exagero da comparação um devoto católico. Uma espécie de S. Francisco Xavier dos tempos modernos.

O seu objectivo não era ficar rico, mas sim evangelizar os indígenas do Bornéu que considerava lamentavelmente abandonados pela igreja Católica.

Assim pegou na sua fortuna e entregou-a toda inteira à “Congregação para a Propagação da Fé”, ou “Propaganda Fides” como é conhecida esta organização do Vaticano, com a condição de ser inteiramente devotada ao apostolado na ilha de Bornéu.

Não vou contar as aventuras deste D. Carlos Quarteron, que frequentaria o seminário em Roma e viria a ser sagrado padre pelo número três da Igreja Católica assumindo os habituais votos, menos o de pobreza, excepção muito, mas mesmo muito raramente concedida fosse a quem fosse.

D. Carlos Quarteron lançou as bases da missionação católica no Bornéu, foi comerciante, e com os navios da sua esquadra privada deu combate sem quartel aos piratas que infestavam a região.

Dedicou a sua vida a libertar escravos cristãos e foi agente secreto de Espanha.

Que vida extraordinária a deste homem que depois de mais de quarenta anos nestes mares que nós, aqui em Macau, também conhecemos (é por lá que se passa férias em conta) regressou à sua Cadiz natal meio arruinado.

Abandonado pelo Vaticano e malquerido pela sua Espanha que não lhe dava crédito.

Mike Gibby descreve esta vida extraordinária de uma forma primorosa.

É pena que não exista tradução deste livro para português já que tem tanto a ver connosco e com Macau.

O livro não será fácil de adquirir, já que se trata de uma edição da diocese de Kota Kinabalu de 2005.

Mas seguramente estará à venda nas livrarias de Orchard Road em Singapura.

Se passar por lá compre que vale a pena.

Camilo Pessanha, o Jurista e o Homem.

Por Macau passaram muitos poetas.

A começar pelo vate nacional Luís de Camões que está celebrado ali (no jardim) na sua gruta em busto de bronze.

Depois do autor dos lusíadas, muitos outros passaram por aqui.

Uns passaram apenas, outros acabaram por deixar impressas em rima, ou versos solto, os sentimentos que os assolaram nestes longínquos orientes.

Estou-me a lembrar, por exemplo, de Couto Viana, que permaneceu por estas paragens tempo suficiente para dedicar a Macau, mais do que um livro inteiro de sonetos.

Torga também por cá passou, ou Eugénio de Andrade, ou António Patrício que terminou a sua vida acometido de doença súbita no Palacete de Santa Sancha.

Mas todos por aqui andaram brevemente.

O único que por cá permaneceu de todo e cá morreu também, foi o poeta do simbolismo.

Falo de Camilo Pessanha.

Camilo Pessanha foi Talvez o único poeta de Macau, se exceptuarmos a figura literária obscura de José Baptista de Miranda Lima, autor do século XIX, cujos poemas surgem citados apenas por outros autores posteriores, não se sabendo por onde andarão os seus versos, se é que ainda existem nalgum espólio particular.

Camilo Pessanha, tem sido um dos poetas mais divulgados e estudados na literatura portuguesa, ainda que em vida poucos lhe tenham reconhecido mérito.

A não ser, evidentemente, Ana de Castro Osório.

Muito se sabe, sobre a poesia de Pessanha portanto, mas pouco se sabe da sua vida.

E a vida de Pessanha dava um romance de Camilo, se Camilo fosse ainda vivo no tempo de Pessanha.

Por isso não vou falar aqui dos seus poemas, que são sobejamente conhecidos, mas sim da outra faceta da sua vida que poucos conhecem e que é a de jurista.

Essa faceta está estampada no livro que hoje trago.

Chama-se Camilo Pessanha, o Jurista e o Homem.

A autora é Celina Veiga de Oliveira.

Trata-se de um trabalho metódico, que não revela apenas a personalidade de Camilo Pessanha, mas também o meio sociológico em que se movimentava.

Como notário e juiz, deixou peças de inegável interesse a todos os títulos, aqui reunidos e bem por Celina Viga de Oliveira, numa edição de 1991 do Instituto Cultural de Macau.

A dimensão deste livro pode encontrar-se em duas recensões que me parecem de todo o interesse.

A primeira é de João Fernandes, um jornalistas que igualmente viveu em Macau longos anos e que diz assim:

Dos poeirentos processos dos arquivos do Tribunal, lutando contra o rebarbativo da escrita e a letra esmaecida no papel amarelecido pelo tempo e a humidade, a autora arrancou a outra face de Camilo Pessanha.

Não o poeta que extravasa o tempo, mas o homem, o jurista perante a sociedade e a circunstância.

Trabalho precioso e que confirma que Pessanha nunca foi banal.

Outra cotação que não resisto a ler é a de Júlio Pereira, procurador-geral adjunto, que aqui residiu também vários anos e que diz assim:

As intervenções processuais que agora vêm a público revelam-nos Camilo Pessanha como um jurista de formação que ultrapassava os cânones da sua época, reivindicando práticas e princípios que só em tempos mais recentes ganharam consagração plena.

É preciso dizer que Camilo Pessanha viveu em Macau entre 1894 e 1926.

Ora Camilo Pessanha era de facto um jurista invulgar e dotado, de uma memória prodigiosa.

Dizem que ouvia um depoimento, por mais longo que fosse e depois o ditava ao escrivão de direito com a mais completa fidelidade.

Mas há muitas outras histórias de Camilo Pessanha que permaneceram na tradição urbana.

Principalmente das suas excentricidades.

Lembro-me por exemplo o que me contou o escritor Henrique de Senna Frernandes, que se recorda de ouvir dizer que no casamento de seus pais, na casa do Jardim de Lou Lim Yock, Camilo Pessanha fez esperar toda a gente chegando com considerável atraso.

Justificando a falta Camilo pediu desculpa e disse que a culpa tinha sido do colete.

Ou seja o poeta vestira-se com os habituais rigores e trabalhos dos smokings, mas não sabia onde tinha posto o colete.

Como estava atrasado decidiu vir mesmo assim.

Nessa altura, alguém que reparou, disse: O senhor Doutor, não sabia onde estava o colete porque vestiu a camisa por cima dele.

Mas para além de distraído Camilo Pessanha era também desafiador, não perdendo oportunidade de criticar quem quer que não lhe caísse de feição, por isso teve mesmo alguns dissabores tendo mesmo um dia que responder em tribunal na sequência de uma discussão com um amigo que lhe levou a mal uma graçola e com o qual chegou a vias de facto.

Mas a sua ousadia um dia foi mais longe.

Por ocasião da visita a Macau do escritor espanhol Fernandez Flores, já então com fama universal, o governador da altura resolveu leva-lo a casa de Pessanha.

Não se sabe se por estar de candeias às avessas com o governador, ou por qualquer outro motivo, Pessanha recebeu as duas personalidades no quarto, deitado na cama apenas com o lençol por cima.

O historiador Monsenhor Manuela Teixeira, dá eco também às suas excentricidades, mostrando-se escandalizado pelo facto de Camilo Pessanha assistir à passagem das procissões da varanda de sua casa, na avenida da Praia Grande junto ao edifício onde se encontra hoje a sede do Banco Nacional Ultramarino, em tronco nu.

Tronco nu era o que as pessoas viam da rua porque na verdade, diz Monsenhor Teixeira, Camilo Pessanha costumava estar de facto mas era como Deus o tinha posto no mundo, ou seja totalmente em pelota.

Um escândalo que só não lhe trazia mais consequências, apenas porque todos lhe conheciam as distracções e excentricidades.

Camilo Pessanha O Jurista e o Homem, de Celina Veiga de Oliveira, vale a pena conhecer a outra face do poeta do simbolismo.

Arthur C. Clarke

Arthur C. Clarke.

Os grandes críticos pouco tempo perderam a criticar os seus livros.

Na literatura, a ficção científica sempre foi considerada de cordel semelhante à literatura policial.

São historietas que se lêem nos aviões, nas salas de espera dos médicos, enfim em lugares em que é preciso passar o tempo.

Mas facto é que a literatura policial deixou nomes que ninguém esquece.

Ágata Crhistie, Raymond Chandler, ou o universalmente conhecido Arthur Conon Doyle criador de Sherlock Holms.

Na ficção científica existem também nomes semelhantes, olhados pelos intelectuais como autores menores.

Izak Asimov, Douglas Hill, Ballard, Philip K. Dick, Robert A. Heinlei, Ray Bradbury, ou os mais recentes, e menos conhecidos Samuel Delany e Greg Bear.

Tenho aqui vário autores deste género.

Todos eles nos deixaram uma leitura empolgante passada nos mais diversos universos e tempos e mundos paralelos e fantasias assim.

Não quero discutir diferenças em termos de literatura entre autores policiais e de ficção científica e muito menos criticar diferenças com romancistas e novelistas de ontem e de hoje.

Muito menos entre romancistas consagrados.

Seria possível comparar A. E Van Voght com Dostoyevsky, ou Isak Assimov com Tolstoi?

Claro que não. São coisas diferentes, mas no fundo, no fundo a essência da literatura é a mesma.

Vem tudo isto a propósito da morte recente de Arthur Charles Clarke, mais conhecido como Arthur C. Clarke, nascido em Minehead, Somerset, a 16 de Dezembro de 1917.

Foi um escritor e inventor britânico, autor de obras de divulgação científica e de ficção científica como o conto The Sentinel, que deu origem ao filme 2001: Uma Odisseia no Espaço e o premiado Encontro com Rama.

Desde pequeno mostrou fascínio pela astronomia, a ponto de, utilizar um telescópio caseiro, para desenhar um mapa da Lua.

Durante a Segunda Guerra Mundial, serviu na Força Aérea britânica como especialista em radares, envolvendo-se no desenvolvimento de um sistema de defesa por radar, sendo uma peça importante no êxito na batalha de Inglaterra.

Depois, estudou Física e Matemática no King’s College de Londres.

Talvez a sua contribuição de maior importância seja o conceito dos satélites geostacionários como ferramenta para desenvolver as telecomunicações.

Clarke propôs essa ideia num artigo científico intitulado “Can Rocket Stations Give Worldwide Radio Coverage?”, publicado na revista Wireless World em Outubro de 1945.

A ideia teve aceitação e aqui temos nós os telefones móveis

A órbita geostacionária também é conhecida, desde então, como órbita Clarke.

Em 1956 mudou a sua residência para Colombo, no Srilanka, em parte devido a seu interesse pela fotografia e exploração submarina, onde permaneceu até à sua morte o mês passado.

Teve dois de seus romances levados ao cinema, 2001: Uma Odisseia no Espaço, dirigido por Stanley Kubrick em 1968) e 2010, O Ano do Contacto dirigido por Peter Hyams, o primeiro considerado um ícone tão importante da ficção científica mundial que especialistas lhe atribuem forte influência sobre a maioria dos filmes do género que lhe sucederam.

Arthur C. Clarke, formulou três leis que tratam da relação entre o homem e a Tecnologia, e são elas:

  1. Quando um cientista distinto e experiente de mais idade diz que algo é possível, está provavelmente certo. Quando ele diz que algo é impossível, está muito provavelmente errado.
  2. O único caminho para desvendar os limites do possível é aventurar-se além dele, através do impossível.
  3. Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.

Inicialmente, era só uma lei, conhecida como a Lei de Clarke, proposta no ensaio, Perigo da Profecia: A Falha da Imaginação, do livro Perfis do Futuro: Um Inquérito dentro dos Limites do Possível, de 1962. Essa primeira lei vinha acompanhada de uma definição sobre o que seria a idade avançada:

“Em física, matemática e astronáutica, significa acima dos trinta anos. Em outras disciplinas, a decadência senil é por vezes adiada até os quarenta anos. Claro que existem gloriosas excepções; mas, como qualquer pesquisador recém-saído da faculdade sabe, cientistas acima dos cinquenta só servem para reuniões de conselho de administração e devem ser mantidos fora do laboratório a qualquer custo.”

A última proposta de Clarke é a de um elevador propulsionado por cabo, capaz de substituir com muito menos custos os dispendiosos foguetões que actualmente se utilizam.

Toda a gente se ri dessa proposta.

Mas C. Clarke responde que o elevador espacial será construído 50 anos depois de todos se deixarem de rir da ideia.

Tenho aqui comigo dois livros da uma imensa biografia.

Este chama-se Expedição à Terra.

É uma das suas menos conhecidas obras.

Este chama-se. – Rendez-vous com Rama e é um dos seu mais aclamados livros e também um dos últimos que escreveu.

Ganhou inúmeros prémios.

Arthur C. Clarke não era definitivamente um escritor de cordel.

Goste-se, ou não de ficção científica Clarke, tal como Izak Asimov vai ficar tal como Júlio Verne na história do futuro.

Volto para a semana com mais livros, autores e imaginação.

Charles Boxer, an Uncommon Life

Nós portugueses sempre nos orgulhamos muito do nosso império marítimo.

Nomes sonantes da historiografia portuguesa descreveram os nossos feitos através do mares fazendo ressaltar nomes como Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque, Diogo Cão e sei lá quantos mais que retemos na memória.

No entanto em toda a bibliografia historiográfica portuguesa há uma espécie de mistério.

De facto os grandes historiadores esmiuçaram os pormenores biográficos de todos os navegadores que citei.

Mas uma cortina de ferro parece ter sido erguida relativamente aos que se aventuraram para Oriente de Malaca, considerada por Afonso de Albuquerque como a fronteira mais oriental do império marítimo português para lá da qual não parecia avisado avançar.

Por isso os que se aventuraram para além da Porta de S. Pedro de Malaca ficaram esquecidos.

Diogo Cão, por exemplo, toda a gente sabe quem tenha sido, agora Jorge Álvares, já há menos quem saiba a não ser quem vive em Macau e passa mais ou menos diariamente pela praça que tem o seu nome em frente ao edifício do antigo tribunal que a breve trecho se vai transformar na nova Biblioteca Central.

Os grandes historiadores portugueses não se debruçaram sobre a sua figura, não se sabendo mesmo ao certo em que data Jorge Álvares chegou à China.

Só começamos a saber alguma coisa sobre os que se aventuraram a Oriente de Malaca graças a um historiador inglês.

Chamava-se Charles Boxer

Descendente de militares, Charles Boxer foi educado no Wellington College e no Royal Military College, em Sandhurst.

Tenente no Regimento do Lincolnshire em 1923, serviu naquele regimento durante 24 anos, até 1947.

Serviu na Irlanda do Norte e, de 1930 a 1933, como tradutor no Japão adido ao Regimento de Infantaria com base em Narra.

Em 1933, formou-se como intérprete oficial da língua japonesa.

Transferido para Hong Kong em 1936, serviu como oficial nas tropas britânicas nos serviços de inteligência.

Ferido em combate durante o ataque japonês a Hong Kong em 8 de Dezembro de 1941, foi feito prisioneiro de guerra e mantido no cativeiro até 1945.

Solto, voltou ao Japão como membro da Comissão Britânica no Extremo Oriente em 1946-1947.

Major Charles Ralph Boxer

Durante sua carreira militar, publicou cerca de 86 livros e opúsculos sobre a história da presença ocidental no Extremo Oriente, sobretudo a portuguesa, nos séculos XVI e XVII.

Como major no Exército, aposentou-se em 1947, quando o Kings College, em Londres, lhe ofereceu regência da Cadeira de Camões de Português, cargo que deteve por vinte anos até 1967.

Em tal período, a Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres nomeou-o seu primeiro Professor de História do Extremo Oriente.

Aposentando-se em 1967 da Universidade de Londres, Boxer aceitou a cadeira de professor visitante na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos da

De 1969 a 1972, teve uma cadeira de história da Expansão Europeia no Ultramar na Universidade de Yale.

Doutorado honoris causa por diversas universidades, desde Lisboa a Utrech, passando pela universidade brasileira da Baía e também pela universidade de Hong Kong, também não lhe faltaram condecorações nomeadamente as de Santiago da Espada  e a Grã-Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique de Portugal.

Esta é a biografia mais exaustiva que jamais sobre ele foi feita.

O autor desta biografia de Charles Boxer chama-se Dauril Alden.

Contemporâneo do historiador foi seu amigo durante mais de 30 anos e dedicou quatro anos da sua vida a vasculhar a biografia de Boxer.

“Charles Boxer, an Uncommon Life” foi o que resultou do estudo, dado à estampa precisamente em 2001 pela Fundação Oriente.

Um livro cheio de fôlego que embate com a vida dos nossos dias em que temos que saber tudo em resumos de poucas linhas.

Esta obra tem seiscentas e quinze páginas, mas vale a pena, nem que seja para ler aos bocadinhos quando houver disposição.

Tem todos os condimentos de uma vida de aventura variada como a de James Bond de Yan Fleming. É que Boxer também foi espião ao serviço de Sua Majestade.

Sword Song

Bernard Cornwell é um dos mais importantes escritores britânicos da actualidade.

Já publicou mais de 40 livros e teve obras traduzidas em mais de 16 línguas.

Incapaz de escrever um romance simples, Cornwell prima pelas sagas de  cativante subtileza narrativa e autenticidade histórica.

O autor é um apaixonado pela história em geral e da Inglaterra em especial, o que se reflecte em romances que retratam conflitos ocorridos em território inglês, como na série A Busca do Graal, situada durante o período de  lutas entre Inglaterra e França conhecido como Guerra dos Cem Anos, ou ainda em crónicas como as do Rei Artur, onde Cornwell, com sólida base histórica, dá uma versão muito pessoal deste rei semi-lendário associado para sempre à Távola Redonda.

Bernard Cornwell nasceu em Londres em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial.

Seu pai era um aviador canadiano e a mãe trabalhava como auxiliar da Força Aérea Britânica.

Cornwell foi adoptado posteriormente por uma família em Essex, na Inglaterra, que pertencia à seita religiosa chamada Peculiar People (Pessoas Peculiares, e, segundo o escritor, eram mesmo).

Por isso fugiu, literalmente para a Universidade de Londres e, depois de ter sido aí professor, por pouco tempo foi para a rede de televisão BBC, onde trabalhou durante 10 anos.

Começou como um pesquisador no programa Nationwide e terminou como Chefe do departamento de Actualidade da BBC, na Irlanda do Norte.

Foi enquanto trabalhava lá em Belfast que conheceu Judy, uma americana que estava de visita ao país, e por quem se apaixonou.

Judy não podia mudar-se para a Inglaterra por questões familiares, e Bernard decidiu então ir para os Estados Unidos onde lhe foi recusado autorização de trabalho.

Decidiu então ganhar a vida como escritor, ofício que não necessitava de permissão do governo americano.

Bernard e Judy  casaram em 1980, permanecem casados e vivem nos Estados Unidos.

O autor tem os seus livros publicados, um pouco por todo o mundo.

A sua série mais extensa, As Aventuras de Sharp, é formada por mais de 20 livros e foi adaptada para a televisão na Inglaterra, com histórias protagonizadas pelo aclamado actor inglês Sean Bean.

Actualmente estão em fase de tradução para português as obras sobre Sharp e as Crónicas Saxonicas, cujos primeiros 3 livros já foram publicados

O Último Reino, O Cavaleiro da Morte, e Os Senhores do Norte.

O último é este.

Chama-se Sword Song.

Gostava ainda de salientar agora que passam os duzentos anos sobre as invasões francesas de Portugal, que a série Sharp de Bernard Cornwell se desenrola precisamente durante o período napoleónico.

Vários dos episódios têm lugar em Portugal.

Se quiser saber o que se passou por exemplo nas batalhas do Bussaco, da Roliça, ou na Ponte de Amarante e não tiver pachorra para ler compêndios de história, lei as aventuras de Sharp de Bernard Cornwell.

A Independência de Portugal, Guerra e Restauração 1640-1680

Hoje vou-lhe falar de uma obra, que é recente, é importante e traz revelações tão novas quanto antigo é o tema que o autor escolheu.

A par de grandes patriotas vemos gente venal neste livro.

Vemos traidores e também incompreendidos.

Vemos que o libertador de Angola, Salvador Correia de Sá, (sim aquele patriota que nos ensinavam na escola) afinal era espanhol!

Mas neste livro lemos e vemos mais!

Vemos um novo retracto, ou talvez apenas um esboço do Padre António Vieira, numa outra perspectiva a que não estávamos habituados nos livros da escola.

Um Padre Vieira que vai ao reino de Nápoles para convencer os napolitanos a rebelarem-se contra Filipe IV de Espanha (III de Portugal).

Em Nápoles o Padre Jesuíta, propõe ao plenipotenciário espanhol a independência Napolitana (não esquecer que Nápoles, embora fosse em Itália era uma província de Espanha).

Em troca oferecia a reunificação da península Ibérica sob o reinado da Casa de Bragança, ou seja o rei de Espanha seria o nosso D. João IV.

Claro que o embaixador Castelhano se recusou a ouvir formalmente as razões de Vieira dizendo-lhe, oficiosamente que não estava bem da cabeça.

Entretanto a Inglaterra, até então neutral e periférica, iniciava a caminhada emergente para o futuro e metia-se também na política europeia, logo que aprontou navios suficientes para rodear os mares da Europa e em breve acabaria com a política hegemónica dos Habsburgos que até então ainda pensavam que dominavam o mundo, mesmo depois de terem perdido a armada invencível constituída por navios portugueses e espanhóis.

A Inglaterra ascendeu a partir de então como primeira potência mundial beneficiando das guerras entre Castelhanos, Flamengos, franceses, italianos e alemães.

No meio deste complicado xadrez internacional Portugal restaurado em 1640, sem dinheiro, sem exército e quase sem gente continuou a viver na Península Ibérica e no Ultramar, das Américas às índias orientais.

Graças à asa protectora dos ingleses? Acredito que sim.

Tudo isto é o que diz Rafael Valladares neste livro que li com o maior dos interesses.

E com o maior dos interesses porquê? Devo dizer que apenas pela novidade de ser escrito por um espanhol.

É que desde que me lembro li sempre a versão portuguesa da nacionalidade; ele era Frei Bernardo de Brito, João de Barros, Alexandre Herculano, Manuel de Arriaga e eu sei lá quantos nomes que compunham as selectas literárias da nossa juventude.

Para Valladares a independência de Portugal ocorreu porque os Habsburgo tinham uma Europa inteira para cuidar, uma Europa em rebelião e Portugal era pequenino (esqueceram-se que a “pérfida Albion” estava empenhada nesse cantinho europeu.

Nesse contexto Portugal era de facto uma questão menor, por isso foi negligenciada por Filipe que não cuidava de unir a Península Ibérica, mas o continente inteiro.

Nesse contexto havia então, segundo Valladares, uma negligência apátrida.

O autor evita tratar o assunto como um negócio de família, embora aborde essa questão particular com desassombro e sem a subalternizar face à geopolítica mundial do tempo.

No entanto, não sei bem se foi assim, ou não.

É que para além das traições políticas, dos negócios sem pátria nem lealdades, e das conjunturas militares desses tempos, Portugal já possuía então uma história de meio milénio.

E Valladares erudito atento, consciencioso e baseado nos documentos que consultou por meia Europa, desde Lisboa a Madrid passando pelo Vaticano parece ter esquecido uma verdade simples que é esta: Quando uma fractura acontece não se restabelece inteiramente, ou não se regenera de todo. Nem com solda da mais dura.

Valladares, neste livro tem razão em tudo, ou quase tudo, mas peca apenas por ter descurado o facto de Portugal já existir antes dos Braganças, dos Filipes de Áustria, dos Ingleses e do Cardeal Mazarino que dizem ter tido parte importante nas intrigas que deram origem à restauração de Portugal de 1640.

Apesar das minhas discordâncias digo-lhe que é um livro que vale, mas vale mesmo a pena ler.

E nem é preciso gostar de história. Este livro lê-se como uma novela.

Há!… e devo dizer-lhe que não esperava encontrar numa obra dedicada à independência de Portugal, com referências a Macau.

Não é que Logo a seguir à revolta do primeiro de Dezembro de 1640, Macau propôs arvorar a bandeira dos Filipes se Madrid abrisse formalmente Manila ao comércio do porto de Macau.

Madrid disse também que não e Macau respondeu mantendo na fortaleza do Monte hasteada a bandeira branca das quinas dos Bragança.

Como seria curiosa a história se Filipe IV tivesse dito que sim.

Se calhar a China não aceitaria e talvez a história do Mundo, no Extremo Oriente tivesse enveredado por um caminho completamente diferente.

O livro chama-se, “A Independência de Portugal, Guerra e Restauração 1640-1680”.

É uma edição da Esfera dos Livros e o autor é como lhe disse Rafael Valadares.

À Boleia pela Galáxia

À Boleia pela Galáxia é o título em português de “The Hitchhiker’s  Guide to the Galaxy”.

Para quem gosta de ficção científica este livro mais do que vale a pena.

É, como disse quando me referi a Artur C. Clarck, verdadeira literatura.

Devo confessar que só li a versão original em inglês que tenho aqui.

A colecção Argonauta, que o saudoso tradutor Eurico da Fonseca tão bem conseguiu verter para português na maioria dos seus livros deve ter também colaborado na tradução deste.

Não consegui averiguar.

Um livro sobre o qual Filipe D’Avillez diz o seguinte e cito: –

“O humor de Adams é brilhante e surpreende-nos constantemente.

Esta mistura de ficção científica com o nonsense tornado famoso pelos Monty Python (com quem Adams conviveu) resulta numa leitura divertida e frenética.

O forte da obra é, sem dúvida, e é bom ver que este não sai prejudicado pela tradução”.

Se a tradução for tão boa como as que Eurico da Fonseca fazia na colecção Argonauta estamos conversados.

É boa.

O livro é interessante.

Diria apaixonante para quem se deleita com o humor nas suas diversas vertentes quer goste de ficção científica ou não.

Faço um pequeno resumo.

Segundos antes da Terra ser destruída para dar lugar a uma auto-estrada intergaláctica, o jovem Arthur Dente é salvo pelo seu amigo Ford Prefect, um alienígena disfarçado de actor desempregado.

Juntos, viajam pelo espaço na companhia do presidente da galáxia um ex-hippie, com 2 cabeças e 3 braços, Marvin, robot paranóico com depressão aguda, e Veet Voojagig, antigo estudante obcecado com todas as canetas que comprou ao longo dos anos.

Onde estão essas canetas? Porque nascemos? Porque morremos? Porque passamos tanto tempo entre as duas coisas a usar relógios digitais?

Se quer obter estas respostas, estique o polegar e apanhe uma boleia pela galáxia.

Isto são perguntas que nunca nos fazemos a nós próprios pelo menos alguma vez na vida, seriamente, digo eu.

Porque coleccionamos coisas?

Porque nos apegamos a isto ou aquilo?

Porque estamos aqui?

Porque nos apaixonamos?

Vale a pena ser o que somos, ou melhor será ser e não perguntar nada?

The “Hitchikers Guide to the Galaxy” é o manual que responde a todas as nossas perguntas espontâneas, ou disparatadas, ou filosóficas, ou apenas pedantes, ou liminarmente tolas.

Vale a pena ler.

E depois leia também esta sequela que se chama: – “So Long and Thanks for all the Fish”.

É o regresso à Terra de Arthur Dent.

O encolher de uma galáxia inteira na pequenina casa que reencontra na sua vilória de província na Inglaterra rural, que afinal acabou por ser restituída à sua originalidade pelos poderes galácticos que conseguiram sobrepor-se ao todo o mando dos tractores dos patos bravos da construção civil.

Podia ser numa qualquer casa de xisto, ou de granito de uma serrania da Beira ou de um monte alentejano.

Ou se calhar em Coloane, onde os poderes galácticos teimam em destruir aos pouquinhos a floresta e aniquilar os esquilos que acham que são os verdadeiros donos dessa pequeníssima selva natural a atentar pela forma como fazem equilibrismo nos cabos da companhia de electricidade e roem as nozes do arvoredo público sem pedir licença nem à CEM nem à edilidade.

Creio que um dos meus vizinhos de Coloane se chama Arthur.

Será também Dent?

Se é o caso esperemos que Ford Prefect esteja por perto para procurar a entrada adequada na enciclopédia electrónica a fim de resolver a situação dos baldios.

Se não estiver sabemos que há sempre a entrada salvadora que diz assim:

– Don’t Panic (não entre em pânico) e a situação se resolverá.

A verde Coloane voltará a restabelecer-se porque os procedimentos administrativos do Universo acabam sempre por repor a legalidade

Leia o livro.

Veja o filme.

E vai verificar que o futuro pode ser mais sombrio do que imagina, ou muito mais hilariante do que alguma vez pensou.

Se calhar já experimentou a desagradável experiência de ter de mudar de casa no NAPE (Novos Aterros do Porto Exterior), ou em qualquer outro sítio, só por que no sítio onde mora vai passar a auto estrada da inflação promovida por uma companhia imobiliária que pretende aumentar os preços dos imóveis e das rendas para dimensões inimagináveis e o vai pôr na rua sem remissão.

Agora imagine poderes galácticos a fazer novo traçado da Via Láctea, ou estrada de S. Tiago, nalgum local que necessite de um viaduto de saída para.

Para sabe-se lá para quê?

Volto para a semana com mais livros e mais autores.

Uns realistas, outros surrealistas, outros perfeitamente disparatados, mas todos com  alguma coisa importante a dizer para a nossa vida quotidiana ainda que achemos que o mais importante na vida é não deixar de  pagar a conta da electricidade, do gás, da água, do condomínio e naturalmente a renda de casa.

Termino perguntando-me. O que é que a ficção científica tem a ver com a vida real e respondo se calhar muito mais do que com o que deparamos nas nossas vidas quando dobramos uma esquina, quando saímos do emprego ao fim da tarde, ou simplesmente quando nos acontece qualquer coisa inesperada ao Domingo, ou numa quarta-feira qualquer.

O Espião Alemão em Goa

Para muitos de nós que vivemos em Macau há alguns uns anos o nome de

José António Barreiros, não é desconhecido.

Os que se lembram, lembram-se da polémica que desencadeou na segunda metade dos anos oitenta, quando era secretário adjunto para a Justiça do Governador, Carlos Melancia.

O caso consistiu no facto de ter demitido o Director dos Assuntos de Justiça, Alberto Costa, que foi o ministro português que tutelou a mesma área, com José Sócrates e que foi também ministro no Governo de António Guterres, mas não chegou ao fim do mandato com Ministro da Administração Interna.

Recordo-me que o despacho de demissão surgiu a horas tardias num suplemento qualquer de emergência ao Boletim Oficial de Macau.

Toda a gente falava nisso na altura.

O caso deu polémica e teve forte repercussão.

Principalmente na vida de José António Barreiros, que depois disso se declarou completamente desiludido da política abandonando o Partido Socialista de que era militante e reformulou a sua vida.

Regressado a Portugal, passou a exercer a advocacia a tempo inteiro e o seu nome costuma surgir sempre que há casos jurídicos de grande interesse mediático.

Recordamo-nos por exemplo do caso dos Skinheads, ou do caso Casa Pia, entre muitos outros.

Porém, ficamos espantados ao perceber que a actividade jurídica de José António Barreiros é apenas e só uma actividade profissional que desempenha com mérito invulgar, mas pouco mais.

José António Barreiro, é essencialmente um escritor que não se importa de perder tempo e eventualmente clientes, sempre que encontra uma pista nova, ou um novo motivo para escrever qualquer coisa na área que mais o interessa.

Provavelmente cancela as consultas jurídicas, ou então delega noutros advogados do seu escritório a função profissional.

Ainda bem que o faz, já que José António Barreiros começou a desbravar um novo campo literário.

O escritor diz e cito

Sou um descrente da vida política, porque a que vivi me desiludiu.

Tenho-me dedicado nos últimos anos, em paralelo com a advocacia, a investigar as redes de espionagem estrangeira em Portugal, nomeadamente durante a Segunda Guerra Mundial.

Hoje gostaria de fazer uma só coisa: escrever. Tenho-o feito, em livros, revistas e jornais e ultimamente também na blogosfera.

O meu primeiro artigo aconteceu porque eu tinha 19 anos de juvenil entusiasmo.

O meu último escrito surgirá quando eu tiver ainda não quantos anos de senil desespero.

Este é o seu resumo autobiográfico

Longe de qualquer senil desespero.

José António Barreiros começou com este livro a desbravar novos campos em português.

Um género que a literatura anglo saxónica cultiva há séculos, mas que nós portugueses teimamos em não aceitar.

Campo inexplorado é este e também o das biografias.

Reparem que praticamente só Mário Domingues escreveu biografias.

Depois dele quase que se contam pelos dedos os que as escreveram.

Claro que excluo do género os jornalistas da actualidade que escrevem as biografias dos famosos e mediáticos, como Pinto da Costa, Jorge Costa, Mourinho, Cristiano Ronaldo e outros que tais.

Mas isso, não será propriamente literatura.

É de relativo interesse.

Mas José António Barreiros interessa.

E interessa principalmente pelo que se diz desse seu primeiro livro nas edições Huguin, sobre “A Lusitânia dos espiões” e cito:

Tudo começou com artigos de jornal, escritos sob pseudónimo.

Durante mais de um ano, o autor, como se fosse António Rebelo da Silva, ele que se chama José António Rebelo da Silva Barreiros, foi escrevendo artigos sob o tema da redes de espionagem na 2ª Grande Guerra e não só.

Um dia assumiu a autoria e compilou algum desse material em livro. Felizmente está esgotado; na apreciação que dele hoje faz, só a capa vale a pena!

Em minha opinião, nem só a capa vale a pena. O conteúdo também.

Os seus últimos livros chamam-se:

“Uma Aventura na Praia dos Coelhos”,

“O 13º PASSAGEIRO”,

“NATHALIE SERGUEIEW”,

“O HOMEM DAS CARTAS DE LONDRES”,

“Rogério de Menezes, uma agente dupla em Lisboa”

E claro,

“O ESPIÃO ALEMÃO EM GOA”,

Operação Longshanks

E ainda “A Lusitânia dos Espiões”.

Para mim que gosto de novelas este é o melhor dos seus livro.

José António Barreiro diz que foi um dos seus piores.

Enfim a opinião é livre e a interpretação dos leitores mais livre ainda.

Eu acho que foi muito conseguido.

Begginers Luck, como se diria aqui em Macau, terra de jogo

Mas, voltando ainda ao “Espião Alemão em Goa”, devo dizer que esta novela foi filme com David Niven como protagonista.

Mas décadas depois de David Nivem, estou certo, o “Espião Alemão em Goa” daria hoje novo filme porventura ainda mais interessante, com os efeitos especiais de Hollywood, que actualmente são mais soberbos do que nunca, desde que Harrisson Ford se estreou no grande ecran.

Imagine-se em Goa na casa que José António Barreiros descreve sobre o mar.

Leia o livro e vai ver que encontra todos os filmes e todos os escritores.

Àh esquecia-me de fornecer mais alguns dados biográficos do autor.

José António Barreiros nasceu em Angola em 1949, Advogado criminalista foi docente na área do direito criminal e autor de vários livros jurídicos.

Investigador no sector da História da Guerra Secreta em Portugal, durante a Segunda Guerra Mundial, publicou cinco livros sobre o tema. Interessado em projectos culturais diversos tem colaboração dispersa em artigos de imprensa, conferências e subscreve vários blogues na Internet.

Enquanto espera pela chegada dos livros, vá lendo os blogues de José António Barreiros.

São muitos e valem a pena.

Vá a joseantoniobarreiros.blogspot.com e encontra-os lá todos.