O Português que nos Pariu

Hoje vou-lhe falar de um livro recente.

Foi editado em Portugal o ano passado e tem um título inédito.

“O PORTUGUÊS QUE NOS PARIU”.

É uma edição da Editora Civilização e deu algum brado.

Pelo menos entre os críticos que não deixaram de sobre ele lançar um olhar enviesado.

Alguns tomaram-no por um livro sobre a história e a influência de Portugal, na história do Brasil.

Mas não é.

Por isso teceram-lhe críticas acentuando ligeireza nas sua páginas.

Todavia a crítica foi unânime em considerá-lo bem escrito.

Claro que o Português que nos Pariu não é um livro sobre a história do Brasil e muito menos sobre a história de Portugal.

No entanto fala não só da história do Brasil, mas também sobre a de Portugal e neste último caso vai aos primórdios.

Recua aos lusitanos e à mescla de povos que constitui o português e acrescenta-lhe mais um ponto a partir da via aberta por Cabral em 1500, quando aportou a Terras de Santa Cruz.

Neste ponto vale a pena ler um excerto do que diz a páginas 21 que é esclarecedor.

(leia a página 21 e sublinhe)

Neste livro haveria outras passagens interessantes, e muitas, mesmo muito mais interessantes do que a da página 21 a sublinhar, mas não vale a pena relevar passagens repletas de mordacidade e interesse.

Quem isto escreve não é uma historiadora, nem a isso tem pretensões.

É uma jornalista e escritora.

Chama-se Ângela Dutra de Menezes.

Trabalhou nessa grande fábrica de televisão brasileira que é a Rede Globo, mas também na Enciclopédia Encarta.

Fez incursões pela ficção e publicou o romance “MIL ANOS MENOS CINQUENTA”, que lhe valeu o Prémio Revelação na Bienal do Livro de 1995.

Depois disso publicou “Santa Sofia” e ainda o “Avesso do Retrato”.

Eu que desconfio dos best-sellers, tenho que reconhecer que gostei deste best seller, que já vai em seis edições.

E leio-lhe o que se diz na contra capa da edição portuguesa

(li no programa Guarda Livros o segundo parágrafo da contra-capa).

É este o Livro.

“O Português que nos Pariu”.

A autora é Ângela Dutra Menezes, como disse já.

A edição é da Civilização.

Deixo-o com este livro mordaz que sorri dos académicos, mas não faz pouco da história.

O Livro de Hitler

Se alguém estiver interessado, ainda, na Segunda Grande Guerra Mundial, guerra que produziu milhares e milhares de obras de ficção e não ficção e que terminou há 63 anos leia este livro.

Chama-se “O Livro de Hitler”.

O título é um pouco infeliz já que não se trata de nenhuma autobiografia do extravagante e sanguinário ditador.

Trata-se de outra coisa.

Apenas dezasseis anos depois do final da Guerra, foi encontrado nos arquivos russos um documento da maior importância e uma das mais significativas fontes históricas do Terceiro Reich: “O Livro de Hitler”.

Composto exclusivamente para José Estaline, contém as recordações pessoais de Otto Günsche e Heinz Linge, por eles passadas a papel, sob controlo do NKWD, quando se encontravam numa prisão soviética.

Ambos eram oficiais das SS e durante muitos anos moveram-se nos círculos próximos de Adolf Hitler.

Ou seja este livro resulta de um interrogatório prolongado por vários meses a dois oficiais que tiveram o privilégio de conviver intimamente com o Furrer.

Stalin, ditador, queria saber como é que o seu colega ditador do centro da Europa se comportava.

Por isso pediu a um dos seus assessor que transformasse os interrogatórios num relatório credível que ele pudesse ler, compreender e extrair ilações.

O assessor, que por acaso viria a acabar anos mais tarde num campo de reeducação na Sibéria por ordem do mesmo Estaline fez o melhor que pôde.

E da sua capacidade de redacção surgiu este relatório agora publicado em livro

Terá Estaline extraído alguma coisa de útil do relatório que lhe foi entregue?

Creio que não.

Os oficiais alemães interrogados tentaram ser o mais impessoais possível para se descartarem de eventuais responsabilidades.

O oficial russo que escreveu este livro, por seu turno, omitiu e adicionou, o que lhe parecia ser então politicamente correcto.

Seja como for temos aqui um apanhado da vida pessoal de Hitler interessante de ler.

Corresponderá a qualquer verdade?

Bom! Isso não sei, nem sei se algum dia se poderá saber com algum grau de certeza.

Embora este livro seja sério, pelo tema que trata, atrevo-me a compará-lo aos tablóides da actualidade, quando esmiúçam a vida privada dos ricos e famosos.

Os autores deste livro são Henrik Eberle, jornalista e historiador que completou o doutoramento com uma tese sobre o Nacional Socialismo.

Mathias Hul é doutorado em História do Leste Europeu.

Este livro é uma edição Alêthea de 2006.

Macau Histórico

A semana passada falei-lhe da primeira história publicada de Macau.

Hoje vou falar-lhe da segunda.

Entre as duas obras mediou mais de meio século.

A primeira da autoria de Anders Ljungstet, foi publicada em 1836, enquanto a segunda, surgiu em 1902

Tenho aqui um exemplar.

Foi publicada com título “Macau Histórico”, e editada pela editora Livros do Oriente, em 1990.

Trata-se da tradução da segunda edição, que foi publicada em inglês, em 1926.

O autor chamava-se Montalto de Jesus

Mas quem era Montalto de Jesus?

Bom. Montalto de Jesus era um macaense que nasceu em Hong Kong, em 1863.

Trabalhou no comércio e na banca e foi tradutor profissional.

Durante a Primeira Grande Guerra, trabalhou em Londres no departamento de Propaganda do Ministério dos Negócios Estrangeiros e em 1922, integrou a delegação portuguesa à Conferência Internacional do Desarmamento em Washington.

Politicamente era um republicano muito provavelmente ligado ao Partido Democrático de Afonso Costa.

Embora se tenha dedicado à investigação histórica, tendo deixado alguns trabalhos nessa área parece-me que terão sido motivações de ordem política que o levaram a escrever esta história de Macau.

Isto, nomeadamente, com a intenção de valorizar a presença portuguesa em Macau, face à Inglaterra e ao seu imperialismo que sempre irritou os republicanos portugueses desde os tempos do Mapa cor-de-rosa.

A primeira edição do “Historic Macau”, de Montalto de Jesus, veio a público em 1902 e foi recebida com aplauso, não só pela crítica como pelas instituições.

Mas se a primeira edição lhe granjeou fama e reconhecimento, a segunda edição haveria de o fazer cair na desgraça.

Porquê?

Bom. Porque, Montalto de Jesus, era um militante republicano e em 1926, parece que andaria de candeias às avessas com o que se passava em Portugal, onde as correntes monárquicas do Integralismo Lusitano triunfavam com o golpe do marechal Gomes da Costa, de 1926.

Para além de andar desgostoso com o rumo político de Portugal, Montalto, não o andava menos com a administração de Macau, onde pontificava o governador Tamagnini Barbosa, homem também do 28 de Maio.

Assim, nesse mesmo ano, decidiu publicar uma segunda edição da sua obra, mas acrescentando-lhe três capítulos novos e uma sugestão fatal.

Tendo em conta, dizia, a má administração que Portugal, fazia de Macau, melhor seria entregar o território à Sociedade das Nações, que era a ONU, da época e por acaso presidida pelo ex-primeiro ministro republicano Afonso Costa, que se encontrava exilado em França.

A sugestão valeu-lhe um processo e a condenação em tribunal, para além de uma campanha difamatória e a todos os títulos vergonhosa, na imprensa.

O livro chegou a ser queimado num acto público de desagravo reminiscente dos tempos da inquisição ali para os lados do Palacete de Santa Sancha, à porta do edifício onde é hoje a, Fundação Macau.

Mas mais. A ordem de apreensão do livro foi cumprida com todo o zelo pela polícia que andou de casa em casa na cidade em busca de exemplares, tendo-os apreendido quase todos.

Os que se salvaram permitiram à Editora Livros do Oriente, republicar 60 anos, mais tarde, essa edição de 1926, agora em português que é a que está aqui.

Aliás o “Historic Macau” ficou como marco por ter sido o primeiro livro apreendido pelo Estado Novo de Salazar.

A ditadura não poupou a idealística e ingénua franqueza de Montalto de Jesus, que para além de humilhado acabaria por ser escorraçado pelos poderes instituídos, não só em Macau, mas também em Hong Kong.

Com todas estas atribulações Montalto de Jesus acabaria por morrer, quase na miséria no Convento das Irmãzinhas dos Pobres em Hong Kong.

“Macau Histórico”, é um livro, não só datado, como politicamente motivado, mas que por isso mesmo mais curioso se torna ainda ler.

E neste ponto gostaria de citar o sinólogo Graça de Abreu que escrevia assim sobre Montalto de Jesus

Para além de alguns erros de pormenor que, aqui e além, ressaltam na obra e do surrealismo dos capítulos finais quanto ao futuro governo da cidade, “Historic Macao” continua a ser a melhor história de Macau até hoje publicada.

As propostas avançadas pelo autor eram, tanto nos anos vinte do século passado como hoje, no mínimo,irrealistas, mas não se pode negar a originalidade e coragem deste homem que, amava lapidarmente Macau.

Isto dizia Graça de Abreu, de Montalto de Jesus e do seu “Historic Macau”.

Macau na Política Externa Chinesa, 1949-1979

Quarenta e um anos nos separam das manifestações de fins de 1966, princípios de 67.

Muitos estarão lembrados desses tempos difíceis

E quarenta e um anos depois já é possível analisar com serenidade a história.

Este livro explica o que se passou.

Diria que principalmente sistematiza as causas já que em situações semelhantes não existe apenas uma causa e fá-lo de uma forma extremamente esclarecedora.

O autor é Moisés da Silva Fernandes.

Um investigador, que quanto a mim tem o mérito de ter estudado Macau através de documentos e testemunhos, sem nunca ter passado mais do que alguns poucos dias aqui na RAEM.

Está por isso de certo modo imune a certo preconceito que toma quem vive no palco onde se desenrola a história.

Moisés da Silva Fernandes é um investigador de renome já considerado.

Licenciado no Canadá, país novo, teve as dificuldades usuais para se impor no velho continente e em Portugal, em particular, mas conseguiu.

Neste livro a que deu o título de “Macau na Política Externa Chinesa – 1949-1979”, Moisés da Silva Fernandes historia antecedentes e consequências do “Um, Dois, Três”.

Penso ser um trabalho definitivo sobre esse período da história de Macau, isto, se é que existem trabalhos definitivos.

Claro que para ler esta obra tem que estar munido de algumas armas necessárias, ou seja tem que saber um mínimo sobre o que foi a história de Macau dos últimos 50 anos.

Se não souber nada sobre o assunto, não vale a pena abrir o livro, porque corre o risco de tirar conclusões erradas, ou pior não tirar conclusões nenhumas.

Mas se souber, ou julgar que sabe, há!… então abra-o, leia-o, concorde, discorde, mas vai ver que as posições do autor vão provocar em si com certeza uma reacção.

O autor é como tenho vindo a dizer Moisés da Silva Fernandes, o livro chama-se “Macau na Política Externa Chinesa, 1949-1979”.

É uma edição ICS, abreviatura que quer dizer Imprensa de Ciências Sociais.

Creio que ainda haverá exemplares à venda em Macau.

Moisés da Silva Fernandes continua a estudar Macau e vai lançar um novo livro que se chama “Confluência de Interesses: Macau nas relações luso-chinesas contemporâneas, 1945-2005”.

Um livro onde segundo quem já o leu o pragmatismo impera e se expõe a importância que Pequim dá à RAEM enquanto lança para Angola e o Brasil.

Burma in Revolt

Austin Coats, escritor britânico que publicou diversos livros sobre Macau, só se tornou escritor a tempo inteiro numa fase adiantada da vida, depois de ter abandonado desiludido os quadros da administração colonial britânica e se ter fixado em Hong Kong.

Coats, que privou intimamente com Mahatma Ghandy, o libertador da Índia, participou no processo de descolonização do Império britânico asiático.

Índia, Malásia, Birmânia e, mas apenas como observador do governo inglês, participou também na descolonização holandesa da Indonésia.

Observador arguto, Coats, não previa grande futuro para a Indonésia, mas como o caso não lhe dizia imediatamente respeito limitou-se a reportá-lo ao Foreign Office.

No que dizia respeito porém à Birmânia, ou Burma, como se diz em inglês, ou ainda Myanmar como actualmente é conhecido o país, o caso era diferente.

Ele próprio tinha responsabilidades directas no nascimento dessa nova nação que sentia que não tinha condições para ganhar a independência no âmbito do curto calendário de transição estabelecido por Londres para as suas colónias asiáticas.

Coats entendia, que ao contrário da Índia, ou da Malásia, a Birmânia não possuía quadros capazes de governar um território, onde existia tudo menos o conceito de nação.

Claro que Londres não ouviu. A descolonização fez-se, mas os resultados foram os previstos.

A Birmânia foi uma das razões que levaram Coats a abandonar os quadros do Serviço Colonial.

De facto, as etnias que constituem o país nunca se entenderam e os militares acabaram por constituir a única força capaz de imprimir alguma estabilidade e coerência a um país fragmentado.

O resultado foi a emergência quase imediata de uma ditadura militar que governa com mão de ferro o país desde 4 de Janeiro de 1948 até hoje.

Essa falta de quadros referida por Austin Coats fez também com que a Birmânia se auto-excluísse do surto de desenvolvimento que envolveu a Ásia Oriental e o sudeste asiático em particular.

A imagem que temos actualmente deste país é a que surge na capa deste livro.

A Birmânia em revolta, ópio e insurreição desde 1948.

E de facto é isto a Birmânia, um país que mantém há mais de uma década a única voz da oposição em prisão domiciliária, sem qualquer acusação concreta.

Refiro-me naturalmente à prémio Nobel Aun San Su Ky.

A Birmânia apresenta uma enorme diversidade étnica.

Embora o governo reconheça 135 grupos étnicos diferentes, uma avaliação exacta a esse respeito é considerada difícil.

Há pelo menos 108 grupos etnolinguísticos distintos no país, principalmente tibetano-birmaneses.

Estima-se que os birmanes formem 68% da população, seguidos dos shans, kayin, rakhine, chineses, que são cerca de 3%) e mons.

Outrora uma comunidade grande e influente, os anglo-birmaneses começaram a deixar o país a partir de 1958, restando hoje poucos no país.

É este quadro de diversidade confusão étnica e dura repressão que gira a escrita deste livro de Bertil Lintner, um dos jornalistas que melhor conhece o país e que aqui nos detalha a história de um país que só não é um estado falhado, porque os militares o controlam de forma frequentemente brutal, como denunciam também frequentemente as organizações internacionais de direitos humanos.

Bertil Lintner, o autor deste livro é como disse um perito reputado em questões da Birmânia, país sobre o qual escreveu numerosos artigos e livros.

Aqui põe a nu as ligações entre as aspirações legítimas das minorias étnicas e as suas estratégias e o colapso do sonho de uma Birmânia unida, com direitos iguais para todos.

O papel que o ópio desempenha e as responsabilidades da junta militar que governa o país no seu tráfico.

Lintner diz mesmo que a filosofia que preside à acção dos governantes militares é simplesmente dividir as minorias e ficar rico.

Lintner aborda esta questão também no seu livro “Land of Jade”, ou “Terra do jade” em português, publicado anteriormente e que lhe grangeou o sucesso como autor de não ficção.

Lindtner, jornalista de origem sueca não resume o seu trabalho à Birmânia, mas tem publicado também vários estudos em jornais e revistas e também alguns livros sobre temas controversos da política asiática em geral, nomeadamente o papel das associações secretas na política e no crime desta região.

“Blood Brothers, the Criminal Underwarld of Ásia”, é dos seus livros mais recentes sobre esta tema, onde aborda também extensamente a situação em Macau no período conturbado que se viveu neste aspecto desde 1997 até à transição em 1999.

Actualmente Bertil Lintner, recentrou as suas preocupações e tem escrito sobre a situação da Ásia Setentrional, particularmente sobre a Coreia do Norte.

“Burma in Revolt”, um livro que é um guia indispensável para quem aqui vive e pretende conhecer mais do que as breves notícias de telejornal dizem sobre esse país ainda em grande parte misterioso.

Este livro publicado em 1994 é uma obra extremamente bem informada e continua a manter toda a actualidade.

As Tu Vu Cremet

Quando os bolchevistas, que era assim que se chamavam naquele tempo, fizeram a revolução na Rússia, davam apenas o primeiro passo para alguma coisa de mais universal.

Fazer a revolução no mundo inteiro.

Esta ideia era uma consequência natural da aplicação, das ideias de Marx e Engels do internacionalismo proletário, postas em prática por Lenine.

Não se tratava de um tumulto russo destinado a acabar apenas com o Czar, mas com todos os czares em todos os países.

Quando Eisentein filmou a grande convulsão da Rússia de 1917, filmava apenas o primeiro episódio de sucesso de uma série que viria a dividir o mundo em dois, a consagrar a luta de classes e a consagrar também o novo hino, não de um país, mas dos trabalhadores de todos os países.

A Internacional.

Nesta conjuntura ideológica, era preciso dar organização ao grande empreendimento de conquista global e isso aconteceu logo nos primeiros tempos da ascensão ao poder do Partido Comunista Soviético, com a organização do Komintern.

Ora o que era o Komintern?

Na prática era o comité central o partido comunista mundial, ou seja uma super-estrutura baseada em Moscovo, que controlava os partidos comunistas já formados ou em formação em todos os continentes.

A direcção do Komintern, sedeada em Mocovo, e dirigida por Manuilsky, um dos míticos revolucionários que rodearam Lenin desde a primeira hora, estava dividida em departamentos, que controlavam o mundo por áreas geográficas.

O partido Comunista Português, por exemplo era controlado directamente pelo próprio Manuilsky.

Ao que parece os agentes do Komintern não seriam mais de 200, número aparentemente reduzido para tarefa quase ciclópica que era essa de organizar os comunistas do mundo inteiro, dar-lhes consistência política e ideológica e prepara-los para derrubar a ordem estabelecida.

Entre esses agentes, sobre a maioria dos quais pouco ou nada se sabe figuram no entanto alguns nomes que ficaram na história.

Ho Chi Min, o fundador da República Popular do Vietname era um deles, nesta região do mundo.

Outro era este.

Jean Cremet.

E quem era Jean Cremet?

Pois o que dele se sabe é pouco e está reproduzido aqui nesta obra de Roger Faligot e Remi Kaufer.

Um profundo trabalho de investigação que levou anos a fazer e que só conheceu a luz do dia graças ao facto dos arquivos do Komintern em Moscovo terem finalmente sido abertos à consulta dos especialistas depois da queda do Muro de Berlim.

Mas Jean Cremet interessa particularmente a Macau, tendo em conta que era este comunista francês que como agente do Komintern controlava a região do Extremo Oriente onde se incluía a China, o Japão, o Vietname, e a Coreia entre outros.

Durante anos, Jean Cremet, movimentou-se clandestinamente por esses países, utilizando variadíssimas identidades falsas e assim esteve em Macau, que foi durante as primeiras décadas do século XX, um dos quartéis-generais da secção extremo oriental do Komintern.

Ho Chi Min, era com ele o único a partilhar os segredos dos planos revolucionários para esta região do Mundo e a fundação do Partido Comunista do Vietname, que teve lugar  em Macau, com a realização do primeiro congresso do partido, no hoje velhinho Hotel Cantão, deve-lhe muito.

Jean Cremet, que igualmente com Ho Chi Min tinha sido um dos fundadores do Partido Comunista Francês, teria um percurso de vida radicalmente diferente.

Enquanto Ho Chi Min depois de anos e anos de luta clandestina haveria de chegar triunfante à ribalta como líder máximo do Vietname independente, Jean Cremet, nunca sairia da clandestinidade.

E a razão para isso prende-se com o facto de Ho Chi Min, no auge da luta pelo poder entre Trotsky e Estaline, ter alinhado com o ditador georgiano.

Jean Cremet, ao contrário, absteve-se no acto de votação sobre a expulsão do Partido de Leon Trotsky.

Essa atitude valeu-lhe naturalmente uma implícita sentença de morte.

Alias todos os agentes do Komintern, que não tomaram posição clara contra Trostky acabariam por ser eliminados um a um por Estaline.

Diga-se que a desconfiança de Estaline não se restringia aos agentes, mas ao próprio Komintern eivado de um internacionalismo que não lhe agradava, o que levou finalmente à extinção desta organização e à fundação de uma outra semelhante, o Kominform, cujos princípios e os quadros que integrou se coadunavam mais com a sua política, de consolidar o comunismo primeiro num só país, que era a Rússia e os estados satélites vizinhos.

Jean Cremet apercebeu-se da sentença que sobre ele pendia e com a ajuda do escritor Jean Malraux, então cônsul francês na China, conseguiu simular a sua própria morte em Macau, mudou de identidade, regressou à Europa e nunca mais emergiu da clandestinidade até à sua morte anónima na Bélgica em 1968.

A simulação foi tão bem feita que o próprio Komintern, que enviou agentes para investigar o caso, anunciou o incidente como verdadeiro e rendeu homenagem a Cremet

As Tu Vu Cremet, uma história de aventuras  espionagem traições e redenções, que acrescenta mais um véu ao exotismo misterioso da Macau dos anos XX, que a literatura e o jornalismo mundiais descreveram exaustivamente, mas que nunca conseguiram espiar-lhe verdadeiramente os segredos.

Vale a pena ler este livro e os outros de Roger Falligot, um especialista em assuntos da China, que tem assinado algumas das obras mais controversas sobre esta região do Mundo, como a actividade das seitas, ou as operações dos serviços de inteligência de Pequim.

A History of Hong Kong

Em Hong Kong há bem menos preconceitos em relação a determinadas matérias, do que em Macau.

Um desses preconceitos tem a ver com a forma como se encara a história e a maneira de a contar.

Uma história de Macau está prometida há mais de uma década, mas até agora a promessa continua por cumprir.

Bem sei que Macau tem quatrocentos anos de história desde a chegada dos portugueses e mais pelo menos cinco mil para trás.

Não será fácil contá-la, mas mesmo assim creio que uma década seria suficiente para trazer a público qualquer coisa.

Portugal tem oitocentos anos de história e também mais de cinco mil para trás e contam-se às dezenas as histórias que por aí circulam.

A última saiu o ano passado.

Claro que Hong Kong, tem uma história jovem, de menos de cento e setenta anos, pelo que será bem mais fácil contá-la.

Mas para tão curta memória, aqui temos um volume com 623 páginas que a conta, não a partir de nenhuma pré-história, mas a partir de 1841, data em que o capitão Helliot, à frente de um destacamento naval, enterrou na praia, sensivelmente onde hoje fica o bairro de Admiralty, a Union Jack, a bandeira inglesa.

Isto cumprindo os desígnios do riquíssimo comerciante William Jardines, que preferia ter uma feitoria apenas para ele do que estar a submeter-se às leis portuguesas, em Macau e à conjuntura volátil que sempre se vivia em Cantão, eximindo-se às arremetidas da China contra o odioso tráfico do ópio.

Pois é a partir daí que ficamos a conhecer como um pequeno território que o primeiro ministro britânico Lord Palmerston descrevia à rainha Vitória como uma Barren Rock, ou seja um território que tinha menos valor do que as rochas áridas de que era feito, se transformaria, em poucos anos numa metrópole comercial internacional.

Tudo isto à revelia dos poderes políticos, porque Londres não estava interessada em ter tal colónia, nem a China queria perder mais um pouco do seu território que no século XIX, começou a ser retalhados pelas potências ocidentais que paulatinamente iam ocupando as mais importantes cidades costeiras do país sem que a dinastia Ching, corroída pela corrupção demonstrasse ânimo para se opor.

Mas foi assim, contra ventos e marés e graças à superioridade militar britânica, que Hong Kong nasceu.

Primeiro o crescimento de Hong Kong foi titubeante, os comerciantes ingleses não viam grande futuro na nova colónia, preferindo deixar-se ficar por Macau.

No entanto, o facto consumado parece ter feito com que a comunidade comercial estrangeira de Macau acabasse por se transferir a pouco e pouco para o outro lado do Rio das Pérolas.

Em 1860, Hong Kong era já um território política e socialmente estruturado e metia os pés aos caminhos do progresso.

Diga-se que a formação de Hong Kong muito deve aos macaenses, que constituíram o grosso do funcionalismo público que ajudou a organizar não só a administração daquela colónia, mas também o seu sistema bancário.

Muitos dos descendentes desses pioneiros, podem encontrar-se hoje nos vários escalões do sistema judicial de Hong Kong e alguns ainda nos quadros do Hong Kong and Shangay Bank, onde tiveram posições proeminentes no arranque desse instituição que hoje se conta entre os maiores bancos do mundo.

Bem resta agora falar sobre Framck Welsh, o autor desta história.

Ora bem. Frank Welsh nasceu em 1931, e é conhecido como historiador e novelista embora a sua carreira tivesse sido dispendida nos conselhos de administração da banca internacional.

Welsh, licenciou-se no Madalena Colledge em Cambridge e para além da carreira bancária dedicou-se a escrever extensamente sobre a história do Império britânico, particularmente sobre Hong Kong, a Austrália e a África do Sul.

Aliás foi o primeiro não Australiano a escrever uma história de grande fôlego sobre aquele país.

Vale a pena dar uma vista de olhos por esta obra que não deixa de falar de Macau que como se disse esteve na base da estrutura do governo de Hong Kong, a partir da data da cedência do território pela China à Grã Bretanha como consequência do tratado de Naking em 1842.

Welsh aborda também aqui alguns momentos importantes da presença britânica em Macau, principalmente o final da década de 30 do século XIX, momento em que os comerciantes ingleses se convenceram da necessidade de obter um porto próprio para o comércio do ópio, já que o governo de Macau não lhes dava garantias de segurança, preferindo  e muito bem colaborar com a China na erradicação desse tráfico que estava a arruinar o país em todos os sentidos.

Nessa época é de salientar a acção diplomática e o tacto político do governador Adrião Acácio da Silveira Pinto, que mais tarde viria a ser ministro plenipotenciário de Portugal na China, que conseguiu manter a neutralidade de Macau num momento difícil da sua história como foi a Guerra do ópio, sem no entanto ceder às exigências britânicas.

E assim nasceu Hong Kong, que depois de algumas décadas a viver do tráfico da droga acabaria finalmente por encontrar o seu próprio lugar no comércio mundial legítimo e tornar-se a grande praça financeira que conhecemos nos dias de hoje.

Franck Welsh conta aqui como foi toda essa história.

Buried Treasures of Chinese Turkestan

Berlim não é naturalmente apenas o festival de cinema que a semana passada atraiu todas as atenções para a capital alemã.

De facto, em Berlim podem encontrar-se algumas das mais belas maravilhas da arte, da arquitectura e algumas bem surpreendentes e quase desconhecidas do mundo em geral.

Entre várias há as que constam das galerias da Ásia Central do principal museu da cidade.

Entre elas contam-se o que resta dos grandes painéis budistas encontrados em Donhuang no grande deserto do Gobi por onde passava mítica rota da seda, via que ligava a China à Roma imperial.

Para além dos painéis é possível ver também as sedas e jades que os mercadores transportavam no dorso dos camelos nas caravanas entre a Europa e a China através das areias do deserto mais árido do mundo, o Gobi, também chamado Taklamakan, palavra que em urdu significa local onde se entra mas não se sai.

Hoje o local de onde essas relíquias foram retiradas, é de relativamente fácil acesso.

Fica não longe das cidades de Urumchi e Turpan, a pouco mais de duas horas de voo de Macau e constituem mesmo as principais atracões turísticas da região.

Todavia em finais do século XIX, a situação era bem diferente.

Não havia aviões, nem estradas e para lá chegar era preciso enfrentar os rigores e inclemências do clima.

Temperaturas extremas, tempestades de areia que num momento tudo soterravam e novas tempestades que desfaziam as anteriores pondo subitamente a descoberto as ruínas que restavam da rota da seda, mas só por pouco tempo, porque logo a seguir nova tempestade tudo de novo cobria e o que restava eram mares de dunas onde encontrar caminhos é impossível.

Aliás os guias turísticos da região avisam logo para o perigo que é alguém aventurar-se sozinho nessas imensidões sem norte.

Todas essas antigas cidades permaneceram encerradas em mistério durante séculos.

Isto até ter tido início a verdadeira fúria arqueológica europeia que começou com as primeiras expedições promovidas por Napoleão Bonaparte na grande expedição militar ao Egipto cuja única vitória que colheu foi a descoberta da pedra da Roseta, que permitiu decifrar os hieróglifos e iniciar esse novo ramo da ciência que se chama egiptologia.

A Ásia central ainda que em menor escala não escapou à atenção da arqueologia europeia sedenta de descobertas e o pioneiro foi o aventureiro e explorador Sven Edin, de origem sueca mas que na verdade trabalhava para o governo britânico, e que foi o primeiro a ter notícia dos tesouros enterrados nas areias ardentes do turquestão chinês.

Outros se lhe seguiriam, mas o que mais tempo trabalhou e mais tesouros desenterrou foi sem dúvida, Albert Von Le Coq.

A história das suas aventuras, conta-as ele próprio, na primeira pessoa, aqui neste livro com um sugestivo título: – “Buried Treasures of the Chinese Turkestan”.

“An Account of the activities and adventures of the second and third German Turfan expeditions”.

Ou seja um relato das segunda e terceira expedições alemãs a Turpan.

Este livro foi publicado pela primeira vez em inglês, em 1928 e trata-se, como disse, da narração das aventuras e desventuras que envolveram Von Le Coq durante as escavações que levou a cabo na rota da seda.

Mas conta principalmente como conseguiu, depois de muitas andanças, encontrar o maior e mais controversos tesouro de toda a via da seda.

A grande biblioteca manuscrita de Dunhuang.

Von Le coq, não seria à partida o mais provável candidato a arqueólogo.

Muito menos destinado a fazer qualquer descoberta sensacional.

De facto, Le Coq era um alemão filho de um negociante Huguenote de vinhos, de Darmstadt, que viveu e estudou nos Estados Unidos e em Inglaterra durante alguns anos antes de regressar à Alemanha para ficar à frente dos negócios do pai.

No entanto o comércio vinícola não era vida para ele.

Por isso deixou tudo e dedicou-se durante os 30 anos seguintes da sua vida a aprender línguas orientais.

Foi isso que o tornou notado e que o fez integrar a segunda expedição financiada pelo grande industrial de armamento Frederik Krup, ao turquestão chinês, juntamente com Albert Grunvald, que tinha liderado a primeira.

Estas duas últimas expedições decorreram entre contratempos de vária ordem, nomeadamente a eclosão da “Primeira Grande Guerra Mundial” que fez esgotar os financiamentos e interromper os trabalhos várias vezes.

A instabilidade mundial terá pesado na decisão de Von Le Koq de retirar os tesouros, nomeadamente as grandes pinturas murais budistas, as primeira que retratam Buda, ainda de uma forma helenística, os manuscritos e os restantes tesouros encontrados, empacota-los e levá-los para a Alemanha, a fim de os preservar  melhor.

Isto tudo numa expedição extremamente dispendiosa para o governo alemão e contra a vontade de

Albert Grunvald que defendia que os tesouros deveriam ser estudados e ficar onde tinham sido encontrados.

Afinal Grunvald Tinha razão, porque no decorrer da “Segunda Guerra Mundial” o Museu Nacional de Berlim foi alvo de diversos bombardeamentos que o reduziram a cinzas.

Claro que os painéis budistas, não escaparam. Dos tesouros de Dung Huang salvaram-se apenas as peças de menores dimensões e os manuscritos que tinham sido postos a salvo em grutas nos arredores de Berlim.

A razão de Grunvald ficava vingada, embora o arqueólogo tenha morrido antes da eclosão do segundo conflito mundial.

Quanto a Von Le coq, os tesouros de pouco lhe valeram, acabaria por morrer pobre e ostracizado pela comunidade científica alemã.

Felizmente que Von Le Coq, e outros exploradores, como Paul Peliot, ou Aurel Stein que também andaram pelo turquestão chinês não conseguiu retirar tudo quanto havia em Dunhuang.

Longe disso mais de 60 por cento das suas preciosidades ali permanecem e podem ser vistas nas suas grutas características alcandoradas nas falésias.

Há excursões para lá.

Por seu turno o governo chinês tem feito nas últimas décadas um esforço notável de preservação e recuperação desses locais.

Aliás a China já pediu à Alemanha a devolução do que Von Le Coq, levou, tal como fez a Grécia, junto de Inglaterra por causa dos frisos do Partenon.

Até agora a resposta tem sido negativa.

Mas no caso dos tesouros de Dunuhang a situação é mais complicada, já que parte do espólio salvo da guerra foi posteriormente empacotado e levado para a Rússia pelo exército de ocupação soviético.

Os Tesouros Enterrados do Turquestão chinês, uma obra que no fundo não deixa de ser um livro de aventuras bem ao gosto romântico de uma época sem regresso possível.

Von Le Cok, uma figura que revela também até que ponto o positivismo científico europeu em vez de se nortear pelos princípios da razão e da justiça levava aos extremismos mais irracionais e xenófobos.

Vale a pena ler.

Esta é uma edição da Oxford University Press, de 1985, que se não estiver já disponível nas livrarias encontra com certeza on line em http://www.amazon.com.

A Espada de Dois Gumes

O livro que deixo como sugestão para hoje surgiu de um comentário de um dos poucos nomes do panorama editorial português que ficou na história, Francisco Lyon de Castro.

Segundo Lyon de Castro, faltava ainda uma obra de teor histórico, que explicasse as razões da longa permanência de Salazar no poder.

Quem aceitou o desafio foi David Martelo, um oficial do exército que meteu ombros à tarefa e publicou, “A Espada de Dois Gumes”.

Neste ensaio, o autor pretende historiar o papel das forças armadas entre o golpe militar de 28 de Maio de 1926 e a revolução de 25 de Abril de 1974.

Ao longo das quase quatrocentas páginas deste livro, David Martelo, parece-me ter conseguido responder ao desafio de Lyon de Castro, ou seja explicar uma das principais razões para a manutenção do ditador Salazar durante mais de 40 anos no poder, contra ventos e marés, reinando durante todo esse período quase sem oposição, ou com muito diminuta oposição.

Claro que o livro visando essencialmente o pilar militar da manutenção do regime, se fica muito por esse aspecto, deixando porventura de fora outras razões de ordem política, que nada ou pouco teriam a ver com o domínio castrense.

No entanto pode dizer-se que se foram os militares, principalmente de baixa patente que fizeram o golpe de 1926, pode dizer-se também que foram eles que forjaram as bases do Estado Novo, num simbiose inextrincável com o então jovem professor de Coimbra, Oliveira Salazar.

Feito o golpe de 28 de Maio, os militares ficaram nas mãos com um poder que não sabiam manejar e sem generais que o soubessem fazer também.

Assim, à falta de general competente e tendo em conta as disputas internas no meio militar, a saída foi nomear virtualmente um general civil, capaz de transformar o exército e sanar disputas.

O resultado foi a ascensão de Salazar que ficaria nomeado árbitro ad eterno, pois nos meios militares, nunca surgiria general suficientemente competente, ou carismático para o substituir no poder.

Nem mesmo Humberto Delgado.

Mais tarde Spínola não seria excepção a essa regra já que abandonaria a chefia do estado por não saber o que fazer à revolução de 1974.

Este estudo publicado, pela Europa América, em 1999, é de um autor, cujos trabalhos me permito destacar, como muito sérios e bem documentados, ainda que o seu nome passe mais despercebido do que seria de esperar e merece no panorama editorial português.

Para além da “Espada de dois gumes”, David Martelo publicou, também, na Europa América, o “Exército Português na Fronteira do Futuro”, e um outro livro que se chama “Cessar-fogo em África”.

Este “Cessar-fogo em África” quanto a mim é um dos mais lúcidos estudos sobre o papel das forças armadas na descolonização na sequência da revolução de 25 Abril.

Pena é que permaneça também numa semi-penumbra, apesar de ser considerado como “obra essencial que ficará, por certo nos anais da ensaística nacional, quer pelo seu valor documental e literário quer pelas características de exactidão”.

Bom. resta falar sobre o autor.

Chama-se David Martelo, é coronel do exército reformado.

Nasceu em Viseu em 1946, possui vários cursos nacionais e estrangeiros em matéria de defesa e teve um papel de algum relevo no 25 de Abril, principalmente no então chamado grupo dos Nove, onde pontificavam entre outros Melo Antunes e Vasco Lourenço.

Bastante desapaixonado na forma como escreve, David Martelo, não deixa no entanto de deixar bem vincadas as suas posições, nomeadamente quando refere momentos controversos da história.

A este propósito devo salientar a forma como analisa o papel de Santos Costa, o eterno senhor do Ministério da Guerra durante o longo consulado de salazarista.

Um retrato curioso deste personagem do Estado Novo que em vida chegou a ser um nome tão sonante quanto o do ditador e que depois a história relegou completamente para umas quantas notas de roda pé. Hoje é figura praticamente esquecida de todos, depois de ter sido o patrão indisputável do exército, comandando com a mera patente de capitão todos os generais da terra e do ar, do então império português, pondo e dispondo a seu bel prazer sempre com a aquiescência do velho ditador de S. Bento.

Resta ainda dizer que para além dos livros que mencionei, David Martelo, escreveu ainda um outro, “As Mágoas do Império”, também saído sob a chancela da editora Europa América, um livro que ainda não tive oportunidade de ler, mas que vou procurar encontrar depois de ter lido os outros dois, porque com certeza valerá a pena.

David Martelo.

Não esqueça este nome se quiser saber mais sobre a história contemporânea de Portugal, principalmente no domínio do papel das forças armadas na vida nacional.

Com permissão de Sua Majestade

Este livro é particularmente interessante e extremamente valioso para quem queira estar a par dos desenvolvimentos político-sociais de Portugal no século XX.

Chama-se: – “Com permissão de Sua Majestade” e tem como subtítulo A Família Real Inglesa e Maçonaria na Instauração da República em Portugal.

O autor é Jorge Morais.

Vou ler o resumo publicado sobre esta obra editada há três anos.

“A implantação da República em Portugal, em 5 de Outubro de 1910, não foi resultado exclusivo da revolta militar personificada na Rotunda pelo comandante Machado Santos e apoiada nas ruas pelas células carbonárias de Lisboa.

Uma conspiração internacional, envolvendo a Maçonaria inglesa e a Família Real britânica, deu aos revoltosos portugueses a garantia prévia (e escrita) de que a Inglaterra, a França e a Espanha não levantariam um dedo para salvar a Dinastia de Bragança.

E só depois de obtida esta garantia o estado-maior revolucionário avançou para pôr fim à Monarquia mais antiga do Continente Europeu.
Numa reconstituição historiográfica exaustiva, agora publicada em livro sob o título “Com permissão de Sua Majestade”, o jornalista e investigador Jorge Morais sustenta que, em 5 de Outubro, as tropas revoltosas se limitaram a seguir o “sinal verde” dado a partir de Londres pelo poderoso “lobby” liberal radical (em que pontificavam altos dignitários maçons, homens de negócios ingleses com interesses na África portuguesa e jornalistas de influência internacional) com conhecimento e permissão de dois membros da Família Real britânica: o próprio Rei Jorge V e seu tio, o Duque de Connaught.
Na sua obra, baseada em documentação de grande rigor historiográfico mas apresentada numa linguagem acessível ao leitor comum, o autor relata como, em Setembro de 1909, o Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, Sebastião de Magalhães Lima, viajou secretamente para Londres a fim de obter garantias da congénere inglesa (cujo Grão-Mestre era então o Duque de Connaught, filho favorito da Rainha Victoria e irmão do Rei Eduardo VII) de que o golpe em Lisboa teria a aprovação do Governo de Sua Majestade, chefiado por Asquith e integrado por Winston Churchill, Lloyd George e Edward Grey – maçons de inegável peso na política mundial da época.

Valendo-se de uma teia de cumplicidades maçónicas, políticas, jornalísticas e financeiras, Magalhães Lima voltou a Londres em Julho de 1910 (já com o Rei Jorge V no Trono), agora acompanhado pelo abastado homem de negócios e dirigente republicano José Relvas, para ouvir da boca de um membro do Governo inglês a confirmação de uma “neutralidade compreensiva”.

A posição das autoridades de Londres, expressa por escrito num Memorandum secreto a que o autor teve acesso nos Arquivos Nacionais britânicos, permitiu aos revoltosos lançarem-se confiadamente numa revolução que, sem esse apoio, falhara de tentativa em tentativa nos 20 anos anteriores.

E, com efeito, três meses após o seu encontro reservado no Foreign Office, a República estava implantada em Portugal.

“Com permissão de Sua Majestade” traça o quadro político, nacional e internacional, em que decorre esta conspiração; comprova a ligação dos principais intervenientes à Maçonaria e ao “lobby” radical europeu; transcreve correspondência, até hoje mantida no silêncio dos arquivos, entre a Grande Loja Unida de Inglaterra e altos dirigentes do Grande Oriente Lusitano; reconstitui as viagens do Grão-Mestre português e a sua passagem pelas Lojas de Londres; evidencia o ambíguo papel do Rei Jorge V (primo do último Monarca português, D. Manuel II) em toda a trama; e revela por extenso o Memorandum do Ministério britânico dos Negócios Estrangeiros que permitiu aos revolucionários de Lisboa implantarem, por fim, a República em 5 de Outubro de 1910.

Um livro que mais do que interessante é perturbante.

Baseado em factos históricos e documentados, o rigoroso autor deste livro Jorge Morais, deixa campo livre aos cultores da teoria da conspiração.

Como é que tudo isso aconteceu?

E em nota de pé de página deixa uma frase intrigante citando um outro autor.

“Quando a Rainha Isabel Segunda visitou Portugal em finais da década de 50 do século passado acenou às multidões aglomeradas no Terreiro do Paço em Lisboa, deixava de facto a Portugal um farewell.

Como se com esse aceno dissesse: – adeus, a aliança foi interessante enquanto durou, mas agora tenho que ir à minha vida.

O regicídio e a proclamação da República portuguesa são casos que nunca se resolverão inteiramente.

Tal como o assassinato do presidente americano John Kennedy, que ainda hoje continua a suscitar bibliografia infindável.

COM PERMISSÃO DE SUA MAJESTADE, UM LIVRO DE JORGE MORAIS, EDITADO PELA VIA OCIDENTALIS EM 2005.

Vale, mas vale mesmo a pena ler. Principalmente no ano do centenário da República.