A memorial seita da formiga branca 23-11-10

Devo dizer que não tenho nada contra a burocracia!

Contra os excessos de exercício da dita pela dita (àh…!) isso tenho!

Nesse contexto não posso deixar de recordar aqui o que se passou, já lá vão muitos e bons anos em Inglaterra com um amigo meu, num caso que acompanhei de perto, porque lá estava.

Foi um processo burocrático que desde então me deu a medida da fronteira entre o que é “red tape” (não traduzo este conceito para português porque não significaria mais do que a própria tradução literal francesa do termo) e burocracia mal entendida.

O caso foi que esse meu amigo teve um filho numa maternidade de “West London”. O menino nasceu saudável, revelou-se criança inteligente foi adolescente escolar com boas notas e actualmente é engenheiro reputado, razões pelas quais de sobra prova que não só nasceu como existe.

No entanto, à data, o pai da criança dirigiu-se ao consulado português na capital britânica a fim de pedir que lhe fosse passada uma “cédula pessoal”. A dita era um caderninho de poucas folhas e capas pretas que se diferenciava apenas dos certificados de vacinas pela cor. A das vacinas era de capas amarelas.

Resposta do atencioso funcionário: – Sim, mas é preciso uma certidão de nascimento. O meu amigo agradeceu a informação e dirigiu-se, acto contínuo, ao hospital onde o filho varão e seu primeiro orgulho (depois teve mais três) tinha nascido e pediu que lhe passassem uma “certidão de nascimento” do rebento. O funcionário hospitalar, por acaso uma senhora de meia-idade igualmente simpática e que de meia em meia frase dizia “Yes please”, olhou para ele surpreendido e respondeu depois de consultar um livro: – Não há dúvida de que nasceu. Está aqui escrito. O que é que quer ao certo?

-Uma “certidão de nascimento” respondeu candidamente o meu amigo.

A senhora, apesar de todas as explicações que lhe foram fornecidas continuava “puzled”, ou seja sem compreender bem o que lhe era pedido. Definitivamente não sabia o que uma certidão de nascimento fosse. No entanto perante tanta insistência vinda de dois estrangeiros. Gente sobre a qual os ingleses pouca ideia costumam ter acabou por satisfazer a nossa insistência que terá levado à conta de impertinências continentais sem importância de maior, ou seja “courious things about foreign people”.

Então? Se o nascimento ocorrera como constava do registo hospitalar, sem vestígios de falsificação aparente, para que eram preciso mais provas?

Todos três entendia-mos que assim era, mas o consulado português achava que não. Nesse contexto de concordância geral a paciente funcionária parece ter descoberto subitamente a solução que não apenas nos satisfaria pessoalmente, mas possivelmente também à burocracia exigente do “estranho” país (fossemos lá de onde fossemos) de que éramos cidadãos. Creio que nesse momento, pelo nosso aspecto moreno de bigodes hirsutos pensaria que na verdade éramos árabes recheados de “petro-dólares”, ou coisa que o valha.

Talvez por isso, pensando que os ditos árabes eram afinal quem lhe pagava o ordenado, isto a ter em conta as notícias dos “tablóides” que davam a Inglaterra como comprada pelos “sheiks” (e se calhar até pensava bem, sabe-se lá?…) a senhora, em vez de perder a paciência e nos mandar embora, abriu um bloco de notas sob a luz néon do balcão de atendimento e no papel em que anotava diária e indiscriminadamente o rol da mercearia, recados que os médicos lhe deixavam, números de telefone avulso e garatujas diversas, transcreveu de forma resumida o que constava do cardápio encadernado em folhas de couro sobre o novel bebé do meu amigo. Em seguida (cuidadosamente diga-se) rasgou a folha pelo picotado exibiu-a perante nós entre o indicador e o polegar e disse mais, ou menos triunfante

– Aqui está a certidão. “Are you happy now?”

– “Yes. Thank you very much” respondeu o pai requerente, que em voz baixa, como se a funcionária percebesse português me disse: – O consulado de certeza que não vai aceitar isto…. Achas que sim?

Eu achava que não, mas guardei de “Conrado o prudente silêncio”. Se calhar é capaz de não! mas afinal, é uma inglesa que escreve (lembro-me de ter pensado). Para Portugal a letra de qualquer inglês tem o mesmo valor de uma letra de crédito. A qualidade do papel em que escrevem seja o que for é o que menos interessa e para o consulado não deixará de ser, com certeza, igualmente assim.

Não sei ao pormenor o que aconteceu depois, mas certo é que o filho do meu amigo é hoje cidadão português e inglês. Com iguais direitos nos dois países e benefícios inerentes. Ou seja o livro base do hospital privado que o tinha dado como nascido ficou guardado nessa instituição (sublinho) privada com igual rigor como se o tivesse sido na “British Library”.

Esta história longa vem a propósito de uma conclusão bem mais curta que é esta: – Em Macau nas velhas tradições burocráticas dos “Filipes de Espanha” que inventaram o papel selado e nas dos funcionários estereotipados nos romances de Dostoyevsky (ou de Franz Kafka) certidões de nascimento, selos brancos e coisas que tais possuem valor absoluto independentemente de serem apócrifos, ou não. E nesse ponto damos plena razão à funcionária do hospital de Londres: “Então? se está escrito nos livros oficiais é porque é verdade!”. No Mundo anglo-saxónico os documentos originais (tal como nos arquivos da China) são preservados como se fossem sacro santos. Mas no mundo lusófono onde se encontram ao certo os documentos originais?

Em Macau, por exemplo, a verdade é que apesar das leis que obrigam a arquivar a história (nomeadamente a última) sobre a conservação de documentos datada de 1989 (que eu saiba) o que se verifica é que as certidões passadas muitas vezes se fundam sobre nada, ou muito pouco. Ou seja os documentos originais deixaram e continuam a deixar de existir, mais ou menos à vontade de cada serviço. Já não falo sequer dos chamados “papéis de Seda” (Sai Chi Key), por exemplo que não correspondem a qualquer registo de conservatória e muito menos se encontram no Arquivo Histórico. Mas nem sequer é preciso ir tão longe, nem vale a pena particularizar. Basta apenas perguntar aos serviços de Macau se sabem e cumprem nesta área particular a lei 7M3/89e que diz assim : Artigo 10.º(Conservação permanente)

1. Os documentos de conservação permanente não podem ser eliminados, devendo ser conservados nos serviços ou instituições a que pertencem sempre que tenham interesse para os mesmos. Ser incorporados no Arquivo Histórico, de acordo com as competências que lhe são conferidas (…) a título de arquivos definitivos. (…) Os serviços ou instituições a que os documentos pertencem podem proceder à sua transferência para suportes de cópia sempre que o julguem necessário.

Gostava de saber que serviços cumprem a lei no que toca à microfilmagem, ou passagem de arquivos para suporte informático? Gostava também de saber se algum serviço presta sequer atenção ao que a lei diz.

Mais, gostava de saber ainda se alguém classifica documentos (do ponto de vista histórico) de acordo com o que o Artigo 17.º que fala de Indestrutibilidade diz: –

“É proibida a destruição de arquivos privados classificados”. Alguém se preocupará na nossa Administração Pública em saber que arquivos privados classificados existem no seio dos seus departamentos (já nem falo dos exclusivamente privados, como os pertencentes a empresas públicas tais como a CEM. SAAM, CTM, TDM, Air Macau, e outras.

O Artigo 7.º (Selecção) diz que: – “A selecção é o processo que permite determinar os documentos que devem ser conservados ou que devem ser eliminados”. Pergunto-me de novo? Algum departamento público terá tido verdadeiramente em conta este artigo?

É minha convicção que o que existe com mais de dez anos e não constitui processo a “aguardar melhor prova” como se diz em linguagem judicial tem sido sem remissão deitado ao lixo. Não simplesmente por incúria, estou quase certo, mas muito mais provavelmente por falta de espaço para o efeito.

Neste ponto pergunto-me o que fazem os membros integrantes do Artigo 19.º que se chama Conselho Geral de Arquivos (CGA) que foi criado, como órgão consultivo do governo e ao qual alegadamente compete contribuir para a definição das políticas arquivísticas do Território, cabendo-lhe designadamente: – Propor os critérios de selecção, os prazos de conservação e o destino final da documentação. Dar parecer sobre todas as questões regulamentares e científicas respeitantes aos arquivos que lhe sejam submetidas ou sobre as quais entenda dever pronunciar-se.

Ao CGA compete igualmente reunir em sessão ordinária no princípio de cada semestre e, em sessão extraordinária, sempre que o presidente ou a maioria dos membros o requeira ou, extraordinariamente sempre que o Serviço de Administração e Função Pública o solicite.

Não tenho notícia de qualquer reunião ordinária, ou extraordinária deste CGA e provavelmente os membros que o integram (devido com certeza a muitos outros afazeres a que estão sujeitos) mal sabem que pertencem a tal comissão.

Para um historiador o caso é grave, mas para um funcionário público não deixa de o ser também, ou mais ainda. Principalmente quando por imperativos de serviço é necessário fazer um estudo sobre isto, ou aquilo.

Muitas vezes gastam-se milhões em novos estudos sobre os mesmos sujeitos que décadas antes foram dissecados, muitas vezes, até à exaustão. Como exemplo tenho presente o relatório, do governador Marques Esparteiro de 1956 que cita alguns planos que actualmente são encarados como novidades que o progresso impõe, mas de que ninguém se lembrou que já tinham sido iniciados (ou porventura mesmo concluídos) há mais de meio século. Igualmente não falo nos estudos técnicos, mais antigos ainda, subscritos pelas equipas do Almirante Lacerda, ou do engenheiro Adolfo Loureiro que directamente têm a ver, actualmente, com os aterros que estão a ser construídos nas imediações marítimas da Ponte da Amizade. Não! Peço apenas que cada serviço tenha consciência do que tem. Não deite fora o papel que eventualmente pensa que existe a mais nos seus armazéns. Se os não pode microfilmar, ou classificar, pelo menos entregue-o em bruto ao Arquivo Histórico.

Os ingleses (mas não só) da história por que comecei este artigo fazem-no há séculos numa tradição burocrática. Se quiser ir hoje ao hospital onde nasceu o filho do meu amigo, em Londres, há mais de 30 anos encontro certamente o seu registo. E se lá não estiver uma secretária atenciosa para além do inevitável “yes please” me dirá que o livro de nascimentos de 1973 foi enviado para tal, ou tal arquivo e com mais do que certeza absoluta o encontrarei onde me foi indicado.

No entanto hoje se tentar encontrar informação ainda que carimbado e numerada de um qualquer documento constante há apenas meia dúzia de anos num serviço qualquer, mas que não conste dos processos correntes passíveis de serem eventualmente consultados e que não contenha rara chancela de “classificado” o mais provável é que nem deles cinzas restem.

Felizmente que em Macau nesta a área a culpa nunca morreu solteira e como dizia Monsenhor Manuel Teixeira a responsabilidade foi e será sempre atribuída a uma e só delinquente e insidiosa “seita” que costuma dar pelo nome de “formiga branca”.

Pena é que sobre a questão nenhum poder constituídos tenha algum dia reivindicado competência para inquirir e nem “Provedoria de Justiça”, ou “Comissariado de Auditoria” se lembre de levantar a questão.

O corredor secreto 16-11-10

Naturalmente que perante a omnipresença japonesa em Macau o estatuto de neutralidade valia menos do que nada e foi isso mesmo que o comandante Gabriel Maurício Teixeira se apercebeu mal chegou ao Território. Isto bem ao contrário do seu chefe da administração civil Meneses Alves. Curioso será entender o facto de ambos serem convictos apoiantes e militantes dos princípios do Estado Novo não diferindo nesse aspecto em termos ideológicos. No que diferiam era nos termos práticos em que haviam de administrar um território cuja situação geopolítica internacional só teria paralelo com o Marrocos francês expresso por Humphrey Bogarth e Ingrid Bergman no filme “Casa Blanca”.

No entanto apesar de todas as eventuais semelhanças o cenário de Macau não era o de Casablanca nem a ficção, ainda que por vezes romântica, se balizava pelo preto e branco. Macau era uma película muito mais complexa. É que sobre as duas cores opostas imperavam todos os matizes de cinzento numa cortina tanto mais difusa quanto lhe emprestava o seu oriental exotismo.

Este esbatido cenário mostrava-se a toda a largura da boca do pano através de dois actores que se mantiveram em cena no palco macaense durante os quatro anos da guerra.

Um era o cônsul britânico John P. Reeves, o outro o seu homólogo japonês Fukui Yasumitsu.

John Reeves era um jovem diplomata quando chegou a Macau vindo de Mukden (actual Sheniang) local onde a guerra secreta se travava de um modo particularmente aceso entre o Japão, a China e as potências ocidentais. Alegadamente terá vindo para Macau para descansar. De que trabalhos e fadigas que outros dos seus colegas não tenham tido? Não se sabe nem era para saber. De facto a ordem oficial de descanso de Reeves não era mais do que uma cobertura já que o cônsul pertencia ao MI6 (Inteligence Service) organismo que dependia do Foreign Office. O posto que vinha ocupar estava longe de se assemelhar a uma estação de convalescença sendo sim uma das principais “antenas” do Extremo Oriente dos serviços de informações.

No que diz respeito a Fukui Yasumitsu a história era outra. Fukui era um funcionário diplomático cumpridor, mas com um espírito intrinsecamente civilista ligado ás correntes políticas que se opunham ao totalitarismo militarista que tinha tomado o seu país com a bênção do imperador Hiroito. No plano concreto Fukui, reflectia a opinião de correntes prevalecentes ainda que sem poder de decisão junto dos órgãos centrais de que a ocupação militar da China não passava de uma guerra perdida a longo prazo. A curto prazo representaria quando muito um investimento demasiado caro, tanto em dinheiro como em vidas perdidas sem possibilidade de retorno. Quanto ao slogan “a Ásia para os asiáticos” apregoado aos quatro ventos pelo “Império do Sol Nascente” Fukui entendia-o apenas como isso mesmo, ou seja um mero slogan que na prática não significava mais do que uma entrada tardia do seu país numa era imperialista que a Europa e os EUA tinham iniciado na China com a primeira “guerra do ópio” (1839-42).

Estes dois homens encontraram-se em Macau (se não se tivessem encontrado antes em Mukden) numa situação pouco menos que surrealista descrita assim: –

Macau é hoje um centro de espionagem japonesa e por sua vez de contra-espionagem chinesa. Registam-se com frequência na colónia atentados a chineses de tendências pró Japão ou mesmo com a simples suspeita de simpatia por ele (…) os nossos amigos de ambos os lados desconfiam de nós (…)mau é que nos tenham colocado nessa posição tornando qualquer movimento que não seja absolutamente claro, suspeito aos seus desconfiados olhos (…). Também os japoneses pensam e dizem que precisam dificultar a vida a Hong Kong que ajuda o governo de Chiang Kai-Shek permitindo que por ali se transporte material e artigos de guerra. (…) Se houver guerra a nossa posição já é diferente. A amizade secular com a Inglaterra pode ser um factor contra nós. (…) Os chineses suspeitam que Hong Kong não poderá dar-nos auxílio e, nestas condições, por sua vez, não nos olharão com os mesmo olhos com que nos vêm agora.

Em 1943 o Japão reuniu uma conferência histórica com os chefes de estado das nações do Sudeste Asiático: – Hideki Tojo (Japão), Wang Jingwei (China), Zhang Jinghui (Manchukuo), Ba Maw (Birmânia), Whaiwhai Thayakone(Tailândia), Jose Laurel (Filipinas) e Chandra Bose (Índia) todos estes tomaram parte na conferência que se realizou numa calorosa atmosfera em Tóquio. “A Ásia para os asiáticos” era o lema.

Esta era a súmula oficial da situação de Macau descrita em relatório secreto pelo bem informado cônsul português em Cantão Vasco Martins Morgado em 1938 no limiar da guerra e da chegada dos dois cônsules.

Curiosamente, Reeves e Fukuy iriam habitar em residência vizinhas nas faldas da colina da Guia mantendo amizade pessoal que não escondiam, nomeadamente ao marcarem presença conjunta em vários eventos sociais e desportivos patrocinados pelo governo de Macau, ou pelos respectivos consulados.

Esta situação mudaria radicalmente na sequência da ocupação de Hong Kong.

Embora permanecessem tão amigos como antes, os dois representantes diplomáticos, depois da declaração de guerra, não tiveram remédio senão considerar-se também formalmente inimigos.

Como prova disso mesmo fizeram questão em emparedar as janelas das respectivas vivendas fronteiras em que residiam a fim de vincar o corte de relações. Formalmente os dois cônsules deixavam dali para a frente de se falar. E nunca mais foram vistos juntos nos convívios sociais onde até então tinham sido assíduos.

O emparedamento das janelas não passou porém de mais outro formalismo (um tanto conspícuo) já que Fukui e Reeves se encarregaram de mandar construir “secretamente” um corredor entre as duas residências que permitia que se continuassem a encontrar ou a receber visitas sempre que assim entendiam fora de vistas indiscretas. E as visitas oficiais eram sem dúvida, principalmente, os agentes da “Kempentai” (polícia secreta militar) japonesa, comandada pelo coronel Sawa, que mantinham um pesado aparato de vigilância à casa do lado, ou seja de Reeves, seguindo-o sempre e ostensivamente de cada vez que se deslocava de casa para o consulado, ou para os diversos actos protocolares em que participava.

Quanto às instâncias portuguesas a construção do corredor não pareceu constituir infracção de maior já que não consta ter havido denuncia de obra ilegal efectuada a propósito, nem por parte dos fiscais das Obras Públicas nem da polícia, embora a construção fosse patentemente notado por todos os que por ali circulavam, incluindo as crianças do bairro de S. Lázaro que se perdiam em brincadeiras a poucos metros do local no Jardim Vasco da Gama e que do “secreto” corredor conheciam a história.

Apesar do benevolente semi-cerrar de olhos oficial ao anómalo convívio entre Fukui e Reeves o caso do “corredor” continua, ainda hoje, a constituir um total mistério. Terá sido ditado pela necessidade imperiosa de manter secretamente uma forma de contacto regular através dos dois homens entre as duas potências em conflito? É uma possibilidade, tanto mais que o dito corredor, não só permitia a passagem de Reeves, Fukui e respectivas famílias, como também a reunião informal de toda a espécie de pessoas que um ou outro dos dois cônsules pudessem convidar para suas casas. Nesse âmbito incluía-se Menezes Alves, chefe da Administração Civil, Pedro Lobo o todo poderoso chefe da Repartição dos Serviços Económicos, oficiais do exército, marinha e polícia, bem como os principais próceres das elites comerciais chinesas de Macau e Hong Kong (estes refugiados em Macau), e mesmo o próprio governador que conforme lhe conviesse poderia entrar oficialmente pela porta de “casa” do Japão, ou da Inglaterra sem ninguém saber ao certo se quebrava a neutralidade que o cônsul Morgado tão insistentemente defendia que tinha de ser preservada a todo o custo.

No entanto o corredor parece ter sido um elemento vital num conjunto de atitudes do consul Fukui que levantou suspeitas de infidelidade ao regime por parte do coronel Sawa.

Um dia ao sair de casa um comando de assassinos esperava-o à porta abatendo-o a tiros de metralhadora. A autoria do atentado não deixou dúvidas a ninguém. O coronel Sawa era o suspeito. No entanto, como o ataque foi levado a efeito por elementos de uma seita chinesa a suspeita não se provou. O governo de Tóquio lavrou um protesto diplomático e Lisboa não teve remédio senão pedir desculpas formais e pagar uma indemnização compensatória por um crime com o qual nada tinha a ver.

Macau 1941-45: Um anel de ferro a toda a volta 09-11-10

Falei a semana passada nas actividades clandestinas da resistência dos aliados em Macau contra a ocupação japonesa durante a Guerra do Pacífico. Um período de neutralidade precária que Macau viveu envolto no anel de ferro que os japoneses mantiveram em torno do Território que assim permaneceu virtualmente isolado do mundo exterior durante mais de quatro anos, particularmente após a queda de Hong Kong no Natal de 1941.

Irei ocupar-me agora da presença japonesa e da sua guerra secreta, mas antes é necessário traçar o quadro da situação nesses anos de brasa, sem o qual não é possível compreender uma situação essencialmente caracterizada por um jogo de sombras.

A neutralidade de Macau permitiu que ao longo de todos esses anos a “union jack” que flutuava diariamente no consulado britânico local fosse a única bandeira aliada visível em todo o Extremo Oriente depois de todas as outras terem sido humilhantemente arriadas, pelas forças nipónicas que em poucos meses tinham provado com a rápida conquista de Hong Kong e Singapura que a Inglaterra como super-potência não passava de um mito.

O Japão dominava de Norte a Sul, ou seja desde a Manchúria à Indonésia sem contestação e ameaçava a Austrália. A esquadra inglesa que “alegadamente” patrulhava o Pacífico tinha sido metida a pique pelas forças navais do almirante Yamamoto nos mares de Singapura e a maior parte dos militares de sua majestade o rei Jorge VI  encontravam-se irremediavelmente encarcerada nos campos de concentração das ex-colónias da costa da China e do Sudeste Asiático. Militarmente o Japão tinha provado a sua superioridade incontestável nos mares repetindo de uma forma exponencial a vitória que tinha obtido em 1905 contra os russos, quando se tornou o primeiro país não europeu a derrotar militarmente “sem apelo nem agravo” um potência ocidental o que lhe permitiu começar a falar de igual para igual com o que então era designado como o “mundo civilizado”.

Nesse contexto, Macau não foi engolido pela força avassaladora do “Sol Nascente” apenas porque Lisboa decidiu adoptar uma politica inversa à que a República tinha adoptado na “1ª Guerra”(1914-18) e que tinha feito com que Portugal “à autrance” tivesse praticamente “obrigado” a Inglaterra a invocar a “velha aliança” a fim de se fazer participar no conflito.

Desta vez os argumentos de Portugal foram esgrimidos ao contrário. A “velha aliança” manteve-se, desta vez, guardada nas gavetas do Ministério dos Negócios Estrangeiros e a Inglaterra agradeceu. Para Londres a neutralidade de Portugal convinha muito mais do que a beligerância activa que o “Foreign Office” tinha pedido na primeira conflagração mundial, quando solicitou a apreensão dos navios alemães surtos nos Portos portugueses.

Independentemente dos argumentos que hoje possam ser aduzidos relativamente à atitude do ditador Salazar perante a guerra certo é que no que diz respeito exclusivamente a Macau essa posição representou a salvação do Território, não só durante o conflito, mas imediatamente após. Isto porque assinada a rendição do Japão em Agosto de 1945, o futuro da colónia britânica de Hong Kong esteve por um fio face às reivindicações nacionalistas do partido Kwomintang e ao facto de os Estados Unidos terem acordado com Chiang Kai-shek que Hong Kong seria entregue à China logo que os japoneses fossem expulsos do país. Nesse contexto Macau ficava desde logo (como ficou) pela neutralidade decorrente da política externa de Lisboa fora de qualquer pré acordo internacional que pudesse existir e livre para negociar com qualquer das potências que emergissem vencedoras.

Por outro lado, no âmbito estritamente militar Macau era na verdade um território inerme, por muito que a doutrina do Ministro da Defesa Santos Costa afirmasse que todo o ultramar português era defensável. Essa doutrina estava longe de corresponder a qualquer realidade, particularmente no que a Macau dizia respeito. Isto apesar das grandes obras de engenharia militar (decorrentes dessa doutrina posta em vigor na segunda metade dos anos 30 do século passado) que foram levadas a cabo e que ainda hoje podem ser observadas em parte nos extensos “bunkers” existentes na zona envolvente do Farol da Guia que no limiar da guerra chegaram a estar eriçados de potente artilharia de costa. Sublinhe-se que antes de dispararem um tiro que fosse os imponentes canhões que ali foram montados tão depressa o foram como o seu destino se cifrou em rápido desmonte. O inusitado afluxo de refugiados que mais do que duplicou a população do Território ditou o inexorável desmantelamento da artilharia que seria ingloriamente vendida aos japoneses em troca de arroz base fundamental da sobrevivência da cidade.

Complexo semelhante ao da Guia existia também em toda a linha de fronteira terrestre na zona das Portas do Cerco. Uma verdadeira colmeia subterrânea capaz de conter uma guarnição de três mil homens. Deste porém hoje nada resta depois das obras que ao longo das últimas décadas foram sendo feitas naquela área.

Apesar de toda a aparente imponência, o dispositivo militar de Macau não passava de um “tigre de papel” como se diria nos tempos da “Revolução Cultural”. De facto nessa época a guarnição militar era constituída por 497 homens, sendo 22 oficiais do exército, 35 da marinha e 440 soldado, cabos e sargentos, 224 dos quais eram elementos recrutados em Moçambique que constituíam as companhias de “caçadores indígenas” (Landins).

Aviação Naval de Macau em 1941 (Foto: – macauantigo.blogspot.com)

Para além destas o dispositivo militar era integrado por uma companhia de metralhadoras, e outra de artilharia. Os destacamentos militares da Taipa e da Ilha Verde completavam o diagrama operacional. O apoio aéreo era garantido por 4 hidroaviões “Hawker Osprey” da Marinha, que tal como os canhões da Guia acabariam igualmente por se desvanecer em mãos obscuras resultantes de negócios de emergência ditados igualmente pela necessidade de adquirir bens essenciais.

Neste contexto qualquer tentativa de resistência perante o invasor japonês nem sequer à partida seria concebível, a não ser para os alegados estrategas de Santos Costa confortavelmente instalados nos sofás do Ministério da Defesa no Terreiro do Paço que apenas pretendiam mostrar serviço desenhando planos de batalha fabulosos sobre mapas de conjuntura geográfica e estratégica essencialmente desactualizados. O plano consistia em resistir até à chegada de reforços. Mas que reforços? Perguntar-se-ia sabendo-se que as forças armadas portuguesas não possuíam nem efectivos nem meios de transporte suficientes para enviar forças expedicionárias fosse para onde fosse. Mesmo o Estado de Goa que era a colónia mais próxima e mais forte não possuía meios capazes para se defender a si própria quanto mais enviar um corpo expedicionário para Macau!

A mobilização do então tenente Bragança (já falecido) é ilustrativa desse contexto militar pouco menos que desolador. O tenente Bragança foi mobilizado para Macau como comandante da defesa anti-aérea viajando juntamente com o governador Maurício Teixeira, de quem tinha aliás opinião politicamente pouco favorável. Sendo voluntário para o efeito e havendo vaga pouco interessava ao estado-maior do exército que soubesse ou não como operar artilharia contra aviões. Todavia o tenente como era escrupuloso (disse-mo, em entrevista que lhe fiz para a TDM em 1997) em vez das férias a que tinha direito, antes de partir, decidiu antes tomar algumas lições de como operar com as novas baterias que iria ter por comissão comandar. Para espanto seu (e nosso) o seu voluntarismo confrontou-se com o aborrecimento expresso do comandante da defesa anti-aérea de Lisboa que achava que o estatuto de um oficial estava acima de trivialidades tais como essas de saber apontar uma metralhadora pesada “Bren” e carregar num gatilho para abater um avião inimigo.

Certo é que, quando a aviação americana bombardeou o Porto Exterior em Janeiro de 1945 as metralhadoras anti-aéreas de Macau não dispararam um tiro. Ou porque os artilheiros não estavam nos postos de combate, ou porque o tenente Bragança não estava lá para os liderar, já que por ignotos imperativos de serviço se encontrava a comandar um pequeno pelotão estacionado bem longe na ilha de Coloane.

Pouco tempo depois do tenente Bragança e do governador Maurício Teixeira chegarem a Macau (Outubro de 1940) a Hong Kong chegavam também consideráveis forças canadianas para reforçar as suas defesas acrescentando mais tropas aos 52 mil homens que constituíam a guarnição da colónia.

Simultaneamente a Singapura chegavam os cruzadores “Prince of Wales” e “Repulse” (glórias da “Primeira Guerra Mundial” ingloriamente torpedeadas pela moderna marinha do “Sol Nascente” mal arribaram ao Estreito de Malaca) para apoiar os 82 mil homens que defendiam a cidade.

Apesar de todas essas demonstrações de força e reafirmações propagandeadas pela “BBC” de que a presença britânica no Extremo Oriente era inexpugnável, Singapura e Hong Kong renderam-se em poucos dias com pesadas baixas. Em Singapura caíram em combate 9500 homens. Em Hong Kong 2113. Nesse contexto de hecatombe que poderia fazer Macau, com os seus 497 soldados? Nada! Ou então fariam o mesmo que fez Vassalo e Silva em Goa em 1961, que se rendeu em 36 horas porque perante uma força invencível sacrificar vidas era opção sem sentido.

Mas, felizmente que, Maurício Teixeira não era Vassalo e Silva, nem Macau estava tecnicamente em guerra. Por isso, o governador, cuja biografia está ainda por fazer, comandou durante cinco anos um teatro de operações de marionetas sombrias e letais cujos cordelinhos que as manipulavam fugiam quase por inteiro ao seu controlo.

Por isso, quando A 5 de Agosto de 1946, o comandante do aviso  “Afonso de Albuquerque”, Samuel Conceição Vieira assumiu as funções de encarregado do Governo, por um período de treze meses, em substituição de Gabriel Maurício Teixeira, “afastado de Macau, a pedido das autoridades chinesas, que o acusavam de ter colaborado com os japoneses durante a guerra do Pacífico” consumava-se finalmente o teatro de todas as farsas que tinha sido o Extremo Oriente em chamas desde 1937. Tudo porque durante cinco anos a neutralidade de Macau não passou de um mito. Os senhores da colónia portuguesa eram de facto os japoneses. O seu “shogum” era o frio e implacável coronel Sawa, chefe da temível “Kempentai” a polícia secreta do Imperador do Japão na província de Guangdong.

Dele pouco se sabe, mas do que fez há notícia bastante para lhe traçar o perfil terrorista. Falarei dele na próxima semana.

A guerra em campo neutro 02-11-10

Ao longo dos quatro anos do chamado conflito do Pacífico Macau manteve-se território neutral mas a guerra ainda que uma forma muito mais insidiosa também teve também aqui o seu teatro ao longo desse angustiante período e apesar de toda a neutralidade oficial.

A neutralidade de Macau foi diplomaticamente e na generalidade respeitada tanto pelos japoneses como pelos aliados, ao contrário do que aconteceu em Timor onde a intenção australiana de ali firmar pé levou o exército nipónico a ocupar a antiga colónia portuguesa.

Apesar disso porém Macau não deixava de ser igualmente uma frente de combate ainda que esse combate fosse levado a cabo por soldados vestidos à civil, guerrilheiros, mercenários e espiões. Aqui todas as forças estavam na primeira linha, mas os diferentes exércitos em vez de se misturarem em sangrentas batalhas digladiavam-se nas sombras. Saber quem era o inimigo foi tarefa impossível até ao final da guerra.

O Hotel Central, situado na Almeida Ribeiro, por exemplo era uma verdadeira Babilónia, onde se entrecruzavam em festas quase permanentes agentes de todas as cores. Fardas do exército português rodopiavam em memoráveis bailes por entre uniformes do “Império do Sol Nascente” e caquis das forças de Wang Jingwei, o presidente chinês do governo de Nanquim marioneta dos japoneses. Jovens mulheres das mais diversas proveniências, desde Yokohama a Harbin e às vezes de mais longe ainda condensavam uma atmosfera envolta em volutas de fumo e eflúvios de álcool no que se diria uma transposição literal dos loucos anos 30 que fizeram a imagem de Xangai. Nesse ambiente de cacofonia, nas na pista de dança e nas mesas que a circundavam segredavam-se os diálogos mais inconcebíveis. Desde informações de valor estratégico para o combate que troava do outro lado das Portas do Cerco a convenientes boatos, passando por negócios escuros, ou apenas negócios, até inocentes juras de amor eterno. Nestes casos o termo “eterno” era um tanto despropositado, pois a eternidade desses tempos em Macau nunca ia muito além da manhã do dia seguinte, já que o futuro constituía para toda a gente a mais total das incógnitas.

Desse ambiente, para além de algumas descrições vivas que se podem encontrar nalgumas obras do romancista Leal de Carvalho, por exemplo, o testemunho do antigo deputado do Conselho Legislativo de Hong Kong, Rogério Lobo (Sir Roger Lobo) constitui uma breve mas elucidativa síntese: – “Eu nunca senti ódio dos chineses a soldo dos japoneses, ou dos próprios japoneses em Macau. Para mim eram apenas pessoas que faziam o que tinham a fazer. Eu fazia também o que tinha a fazer”. O testemunho de Rogério Lobo é tanto mais exemplar quanto ele próprio pertencia uma das mais célebres redes de espionagem que operou durante a “Guerra do Pacífico” no Sul da China com quartel-general em Macau. – “Nos fazíamos parte do British Army Aid Group essencialmente encarregado de enviar para a China livre os pilotos dos aviões que eram abatidos nesta região, ou que conseguiam chegar a Macau. nós conseguíamos retira-los e faze-los regressar às suas unidade de origem. O grupo de “inteligência” passava-nos as informações de modo a conseguirmos localizar os pilotos e coloca-los em juncos depois de nos assegurarmos que a costa estava livre. Essas operações eram normalmente feitas com dois juncos. Um era a motor e suficientemente barulhento para atrair a atenção das patrulhas japonesas. Seguia de maneira a ser deliberadamente apanhado. O outro era o que na verdade transportava o fugitivo escondido e que calmamente rumava sem embaraços com destino à China livre. Eram operações arriscadas. Para nós, para os pilotos, enfim, para toda a gente (…) Recebia as ordens de missão normalmente pela manhã cerca das 10, ou 11 horas durante os jogos de ténis modalidade que praticava. Depois lá ia. Aprendemos a nunca falar sobre o que fazíamos. Nem mesmo com meu Pai alguma vez discuti esses assuntos. O grupo fazia parte da estrutura comandada por Lord Mountbatten”.

Assim, ao longo desses anos Macau foi de facto um palco de guerra e não só um oásis de paz, como aparentemente se poderia ser levado a pensar pela maior parte das memórias que foram sendo recolhidas de quem viveu esses tempos. O lado sombrio e clandestino da guerra permaneceu por isso bem guardado no silêncio das memórias tanto mais que as actividades de espionagem se mantiveram abrangidas pelas leis do segredo de estado até muito depois do final do conflito com a rendição formal do Japão no dia 2 de Setembro de 1945. Por isso revelações extemporâneas, mesmo já em tempos de paz poderiam ser alvo de pesadas condenações nos tribunais civis e militares ingleses, americanos, ou chineses.

No caso português o regime de Salazar possuía ainda meios de coação adicionais que eram a PIDE e os tribunais plenários que até 25 de Abril de 1974 se mostraram sempre lestos em descobrir atentados contra a Nação, mesmo nas mais inócuas das memórias, quer fossem dadas à estampa, ou apenas conversadas em tertúlias de café.

Como abóbada a encerrar todos os segredos por contar acresce ainda a panóplia de traidores e agentes duplos que faziam com que na Macau da “Guerra do Pacífico” nunca se soubesse ao certo quem era quem. A figura do jovem William Gardner, fica para a história como um paradigma.

Gardner era um dos milhares de refugiados que a Macau se acolheram e que deu nas vistas por alegadamente se “bandear” abertamente com os japoneses. Por isso era visto com maus olhos por todos os que simpatizavam com a causa aliada e que constituíam a maioria, mas não só. Diz-se que Gardner chegou a passear-se na Almeida Ribeiro e nos salões do Hotel Central armado e ostentando um uniforme japonês. Por isso sofreu quatro anos de segregação e seus próprios pais não escondiam a vergonha que sentiam pelo comportamento do filho. No entanto, selada a paz Gardner surgiria inopinadamente aos olhos dos que o condenavam vestido, agora sim, com o seu verdadeiro uniforme que era o do exército dos Estados Unidos e integrado numa delegação militar do seu país. Ao peito refulgia para maior espanto de todos a condecoração que lhe tinha sido imposta por relevantes serviços prestados em campanha à causa aliada.

Os guerrilheiros esquecidos do Rio de Leste 26-10-10

Como tenho vindo a dizer a história é assunto delicado de pegar.

Por um lado não se pode fazer sobre o acontecimento, porque é necessário distanciamento no tempo relativamente aos acontecimentos.

Por outro historiar, em muitos países, ainda hoje significa, por vezes, ofender o poder político vigente com as consequências que tais ofensas acarretam.

E por vezes não são poucas.

Muitos que se atreveram a “esgravatar o passado” foram parar às cadeias, ou caíram mesmo perante os pelotões de fuzilamento (noutros tempos claro!).

Goya deixou desenhos elucidativos sobre esse assunto.

Basta olhar para os seus quadros e esboços sombrios para ter uma ideia do que é pugnar pela verdade contra a verdade que os poderes soberanos de ocasião entendem que deve ser.

Portanto, porque não convém, politicamente, ou porque não é oportuno, ou mesmo porque é arriscado, muitas memórias que muitas vezes poderiam explicar com simplicidade o rumo dos acontecimentos no mundo permanecem ignoradas, ou pudicamente auto-obliteradas porque não convém. Por isto, ou por aquilo…

Essas lacunas só contribuem para lançar véus de mistério desnecessários sobre as razões pelas quais as sociedades se comportam de um modo e não de outro. Por vezes o mundo aparenta mover-se de forma incoerente, mas na verdade os resultados sociais decorrem sempre de causas anteriores bem definidas. Conhecendo-se as causas o rumo da marcha dos povos torna-se então mais discernível

Às vezes, decisões políticas e estados sociais radicam em factos históricos marcantes mas que pelas razões apontadas foram relegados para o esquecimento apenas porque a conjuntura política o determinava e a bruma impõe-se.

É o caso narrado no livro: “East River Column. Hong Kong Guerrilhas in the Second World War and After.

Em português, qualquer coisa como “A Coluna do Rio de Lestes. Os guerrilheiros de Hong Kong durante a Segunda Guerra Mundial e depois”.

Mas o que era a Coluna do Rio de Leste?

Em resumo pode dizer-se que era um grupo de patriotas liderado pelo Partido Comunista da China (PCC), sobre os ombros de quem pesou a maior responsabilidade na resistência contra a ocupação japonesa desde 1937 em diante, nesta região do país. A coluna era composta por umas centenas de militantes que iam de intelectuais a camponeses e pescadores iletrados unidos pelos anseios de liberdade contra a opressão nipónica. Não muitos seriam verdadeiramente comunistas no sentido militante do vocábulo, mas certo é que estavam enquadrados nas fileiras e operavam de acordo com a estratégia do partido.

Esse grupo não só manteve em cheque as forças japonesas, como prestou igualmente um auxílio valioso (atrás das linhas) aos exércitos aliados no Leste Asiático, no campo de batalha e no domínio das informações tácticas e estratégicas de auxílio à campanha.

Por outro lado teve também uma acção de relevo no apoio à fuga de numerosos prisioneiros de guerra aliados internados nos campos de concentração japoneses de Hong Kong.

Memorial dedicado à luta dos guerrilheiros contra a ocupação japonesa na província de Guangdong.

Pergunta-se então. Se tiveram uma acção tão relevante, porque é que pouca gente sabe hoje que Coluna tenha sido essa?

A explicação é simples.

No final da guerra, à Inglaterra, ao reocupar Hong Kong, convinha não hostilizar o governo nacionalista, do Kwomintang que tinha lutado bem mais contra os comunistas do que contra os japoneses e a “Coluna do Rio de Leste” era o braço armado do PCC na província de Guangdong. Não era o governo oficial da China. Só o viria a ser no final da guerra civil em 1 de Outubro de 1949.

Por isso, embora reconhecendo os esforços valorosos empreendidos pela Coluna durante a guerra as autoridades britânicas com o seu habitual pragmatismo, preferiram conferir uma ou duas medalhas de mérito em combate a alguns dos seus líderes, oferecer uns pequenos montantes em dinheiro aos guerrilheiros reformados que optaram por permanecer em Kowloon e nos Novos Territórios regressando às suas antigas ocupações e deixar cair, naturalmente, o assunto no esquecimento

Do outro lado da fronteira, guerrilheiros e dirigentes foram por seu turno alvo de reconhecimento, mas apenas momentâneo.

É que com a “Revolução Cultural” (1966) triunfante esses combatentes acabariam também por ser acusados de estar ao serviço do imperialismo. Isto apesar de a acusação se basear apenas no facto de durante a guerra terem mantido estreitos contactos com as forças aliadas e por força das circunstâncias com os Nacionalistas do Kwomintang. Por isso ter pertencido à Coluna deixava novamente de ser pergaminho a ostentar mas antes passado a esconder se possível.

É caso para dizer como dizia o nosso Afonso de Albuquerque: – “Mal com os Homens por Amor de Deus, mal com Deus por amor dos Homens”.

Finda a Revolução Cultural, a China de Deng Xiaoping, não demonstrou interesse em reabilitar memórias e Hong Kong em processo de transição de soberania também não.

E assim, a “Coluna do Rio de Leste”, desapareceu nas brumas da bibliografia e quase da história, como se nunca tivesse existido.

De facto, até surgir a obra que temos vindo a referir praticamente nada se escreveu sobre o assunto, que continuava a não agradar a gregos nem troianos.

Quem decidiu lançar uma pedrada no charco foi Chan Sui Jeung, que se arrojou à empresa de tirar do anonimato esse grupo de heróis que chegou a ser classificado, em certos pontos da história, como “bando de malfeitores”.

O livro é recheado de peripécias, e resultou de numerosas entrevistas que o autor manteve com os sobreviventes da Coluna, bem como da consulta dos arquivos disponíveis.

Um livro, que apesar de tratar essencialmente de Hong Kong, não deixa de salientar o importante papel que Macau desempenhou na luta contra a agressão japonesa, apesar da sua neutralidade na guerra.

O autor, Chan Sui Jeung, é licenciado pela Universidade de Hong Kong e foi durante vários anos administrador civil nos Novos Territórios, local onde viviam muitos dos guerrilheiros que integravam a Coluna, dos quais teve oportunidade de recolher memórias inestimáveis.

De Macau, por enquanto, sabe-se apenas que integravam a coluna 60 guerrilheiros de resto não parece saber-se mais nada.

O pronunciamento dos sargentos republicanos de Macau 19-10-10

A proclamação do regime republicano em Portugal trouxe consigo profundas mudanças político-sociais para o país inteiro determinando para o bem, ou para o mal o curso da história. O mesmo aconteceria um ano depois na China. Porém aqui as consequências teriam efeitos universais, pode dizer-se, tendo em atenção as proporções desta imensa nação. Todavia, nenhuma das alterações de regime verificadas e tão coincidentes no tempo teriam efeitos notáveis em Macau, para além dos normais e de curto prazo que todas as alterações políticas de fundo motivam sempre.

De facto, a proclamação do fim de monarquia em Lisboa para além dos resultados imediatos que provocou, nomeadamente a alteração das cores da bandeira, do hino e dos selos das repartições não registou grande impacto na vida social do território logo que ultrapassadas as angústias e entusiasmos de momento e mal que firmadas foram as novas instituições o que não levou muito tempo. Aliás a proclamação do novo regime em Macau não suscitou contestação de vulto, nem teve figura de resistência que se assemelhasse a Paiva Couceiro, por exemplo.

O mais que houve foi alguma teimosia mais burocrática do que outra coisa de um, ou outro, com destaque para o Governador e para o juiz da comarca que fiéis à monarquia pela qual tinham sido nomeados revelavam pruridos evidentes em “virar a casaca”.

O percurso subsequente do magistrado Marques Vidal não se conhece. No entanto sobre o governador Eduardo Marques sabe-se bem que morreu fiel ao antigo regime. Aliás Eduardo Marques nunca deixou a política activa militando sempre nas fileiras monárquicas. Ali e depois de um período de relativo apagamento, durante os anos áureos da “Primeira República” o ex-governador de Macau voltaria a emergir na sequência do golpe de 28 de Maio de 1926 como ministro de Salazar.

Eduardo Marques, último governador de Macau do regime monárquico.

Todavia apesar do carácter de Eduardo Marques, este nem sequer, como Paiva Couceiro, possuía tropas que o apoiassem se tivesse optado pela resistência activa. A prova disso mesmo é fornecida pelo jornal “ O Colonial” que informava então: – “A nossa bonita e sossegada província de Macau, foi há poucos dias, teatro de uma cena que bem podia tirá-la à tutela da nossa soberania e certamente a fez retroceder um grande passo no caminho lento da sua prosperidade.

Em 29 de Novembro último , algumas praças da canhoneira Pátria desembarcaram armadas, juntando-se às do Corpo de Polícia e Companhia de Infantaria , para obrigarem o Governador a dar cumprimento às determinações do decreto sobre as ordens religiosas, que erradamente imaginavam não tinha sido posto em execução.

Todas essas praças, umas 150 aproximadamente , que os esforços dos oficiais não conseguiram manter disciplinadas nos quartéis dirigiram-se debaixo de forma , comandadas por sargentos e já convencidas do engano que as amotinava, ao palácio do Governo a fim de conseguirem perdão para a falta gravíssima que tinham cometido e exigiram-lhe que fosse garantido por um documento escrito e assinado pelo Governador. Seguros da impunidade, voltaram aos quartéis, onde, pelo menos aparentemente, a vida normal se restabeleceu e a disciplina continuou mantendo-se como se antes não tivesse por completo sido desprezada ostensivamente”.

Ou seja, o Governador pura e simplesmente não podia contar com a força armada já que para além do exército e da marinha também a polícia se juntou ao motim republicano. Perante a quebra de confiança assim demonstrada, Eduardo Marques não teve alternativa senão assinar o tal documento ilibando de responsabilidades os amotinados e entregar seguidamente a administração da colónia ao seu ajudante de campo, o primeiro-tenente Álvaro de Melo Machado. A solução foi do agrado geral já que Álvaro Machado era bem conhecido pela sua feição republicana. Falta saber ao certo se não teria sido ele próprio um dos principais instigadores da sublevação.

Se no campo militar a República era um facto, no campo civil nada se registava em matéria de reacção. Aliás se havia local onde a monarquia não tinha monárquicos (como dizia o rei D. Carlos) um deles seria com certeza Macau. De facto a aristocracia no Território era reduzidíssima podendo ser contada pelos dedos de uma só mão. O número de titulares resumia-se ao Barão do Cercal, que ocupado com a gerência das suas várias empresas e com os pés mais em Hong Kong do que em Macau pouco se preocuparia com a política. Feliciano Pereira Marques, deputado por Macau em Lisboa tinha morrido no ano anterior. Restava Bernardino de Senna Fernandes. Porém a monarquia em Macau podia contar com todos menos com este já que o conde (tal como o seu contitular de Portugal, Ribeira Brava) enfileirava há muito entre as hostes conspirativas republicanas.

Sendo assim e para além das alterações de nomes ainda que sonantes na estrutura administrativa em essência pouco mudou na vida quotidiana local e mesmo o motim das tropas não chegou a atingir as cores dramáticas que “O Colonial” lhe quis atribuir. O pronunciamento militar liderado pelos sargentos não só não colocou em causa a presença portuguesa em Macau, como muito menos a “fez retroceder um grande passo no caminho lento da sua prosperidade”.

Regressada porém a normalidade, o combate contra a monarquia não acabou ali. De facto, clarificadas as águas, o poder político concentrava-se agora no apoio ao esforço republicano de derrubar o regime imperial da China, esforço esse que numa parte significativa passava pela colónia.

Sun Yat-sen seria a partir de então a nova bandeira dos republicanos locais que celebrariam novo triunfo logo no mesmo mês de Outubro do ano seguinte, nomeadamente no recém criado “Clube dos Sargentos”, instituição que durante décadas seria um dos mais significativos cadinhos da cultura republicana de Macau.

Macau Arqueológico 12-10-10

A construção de um parque de estacionamento nas imediações da Fortaleza do Monte levou à tomada de uma decisão inédita em Macau que foi a de reconhecer o subsolo do ponto de vista arqueológico, antes do início de um projecto de construção civil. Este tipo de acções há muito que são obrigatórias em vários países e a China não é já excepção.

Os trabalhos permitiram por a descoberto o que resta das últimas paredes do antigo Colégio de S. Paulo adjacente à fachada da igreja da Madre de Deus que ainda o não tinham sido. De resto recolheram-se alguns cacos da dinastia Ming e creio que também da Ching. O arqueólogo responsável fez o relato da importância do que foi encontrado concluindo que os despojos provavam que Macau já era pelo século XVII e XVIII um centro comercial entre o Oriente e o Ocidente.

Primeira pedra da Igreja da Madre de Deus (foto: macauantigo.blogspot)

A conclusão, tal como os achados, não foram de modo algum relevantes, por duas razões: Primeiro, porque o terreno circundante em que se insere a fachada de S. Paulo e a Fortaleza tinham sido alvo de trabalhos profundos e sérios de investigação arqueológica levados a cabo há cerca de década e meia que permitiram pôr a descoberto as fundações do referido colégio, bem como a primeira muralha da fortaleza, uma parte da qual se encontra preservada (e bem!) no interior do Museu de História de Macau. Segundo porque nessas escavações foram recolhidos cacos e outros artefactos do maior interesse que se não provaram que Macau era então um centro internacional de comércio lançaram jorros de luz sobre a vida quotidiana na que foi a primeira Universidade do Extremo Oriente e igualmente sobre a presença de importantes figuras de missionários que fizeram os primórdios da Igreja Católica na China.

Para além disso refira-se que a construção do complexo religioso não terá resultado tanto do comércio entre o Oriente e o Ocidente, mas provavelmente mais exactamente do comércio entre a China e o Japão que naquele caso rendeu os “3130 pardaos de reais” necessários para o construir como afirma o jesuíta frei Fernando Guerreiro contemporâneo desses efeitos históricos.

Não é objectivo deste artigo tecer considerações sobre a questão das antigas casas que foram demolidas para dar lugar ao tal parque de estacionamento, ou sobre o seu valor como património, cujo projecto acabou por redundar nas investigações arqueológicas. As casas foram demolidas, o parque de estacionamento face aos achados não irá por ventura para a frente e por isso “não vale a pena chorar sobre o leite derramado”.

Tendo em conta o facto consumado o que se espera é que agora, antes do início de qualquer projecto de obras o Governo implemente as devidas prospecções arqueológicas que, como disse, costumam ser obrigatórias hoje em dia, mesmo em países que menos cuidam do seu património histórico.

Mas neste campo as autoridades parecem relevar alguns aspectos e pura e simplesmente descurar outros, que terão, pelo menos igual importância. Será porque destes se não fala? Será porque voltados a enterrar terão sido pura e simplesmente esquecidos por todos? Refiro-me naturalmente ao campo arqueológico de Hak Sá em Coloane, onde foram encontradas relíquias de grande importância. Não pelo seu valor intrínseco, mas pelo que revelam de ocupação humana no local que remonta a mais de seis mil anos.

Fragmentos encontrados nas escavações arqueológicas de Hak Sá (Coloane)

É certo que uma parte do conjunto se encontra actualmente debaixo de um complexo recreativo e de edifícios de habitação. No entanto existe ainda uma grande parte por desbravar em terrenos circundantes. Refira-se que esses terrenos já foram alvo de tentativas de ocupação selvagem tendo em parte deles, nomeadamente sido construída uma placa de cimento armado que serviu de base ao estacionamento de autocarros durante algum tempo até as Obras Públicas, com auxílio da polícia, intervirem e reporem a legalidade.

Parece ser tempo de levar a cabo em toda a área as prospecções arqueológicas que se impõem e que desde 1973 têm sido feitas intermitentemente. O panorama do passado de Macau não termina no pano de fundo da estátua de Jorge Álvares, nem na fachada do templo de à Má na Barra. De facto, os artefactos encontrados em Hak Sá provam que por aqui andaram muitos povos senhores de muitas culturas que se foram perdendo no tempo e que parece importante trazer de novo à luz. Tal, como se preservaram os achados da Madre de Deus e do Monte utilizando técnicas modernas que permitem mostrar uma nesga do passado aos olhos de hoje e contribuir para a diversificação da oferta turística (como está na moda dizer-se) também os artefactos que se encontram no subsolo de Coloane podem ser estudados, preservados e mostrados permanentemente.

Neste caso se nada for feito poderá dizer-se que o que por lá se conserva se manterá conservado. Mas perante as tentativas frustradas de utilização do espaço levadas a cabo ilegalmente o mais provável é que no futuro alguma delas surta mesmo efeito. Ou então possível é também que algum projecto legal público, ou privado ali venha a ser desenvolvido, sem ter em conta a jazida que por ali se encontra varrendo definitivamente quaisquer possibilidades de implementar uma investigação arqueológica ampla, metódica e definitiva. Afinal já lá vão 37 anos sobre a primeira campanha levada a efeito pela “Hong Kong Archaelogical Society” que permitiu saber-se que em Coloane existiam afinal locais de interesse arqueológico a estudar.

Macau Arqueológico 12-10-10

A construção de um parque de estacionamento nas imediações da Fortaleza do Monte levou à tomada de uma decisão inédita em Macau que foi a de reconhecer o subsolo do ponto de vista arqueológico, antes do início de um projecto de construção civil. Este tipo de acções há muito que são obrigatórias em vários países e a China não é já excepção. Os trabalhos permitiram por a descoberto o que resta das últimas paredes do antigo Colégio de S. Paulo adjacente à fachada da igreja da Madre de Deus que ainda o não tinham sido. De resto recolheram-se alguns cacos da dinastia Ming e creio que também da Ching. O arqueólogo responsável fez o relato da importância do que foi encontrado concluindo que os despojos provavam que Macau já era pelo século XVII e XVIII um centro comercial entre o Oriente e o Ocidente.

Primeira pedra da Igreja de S. Paulo (foto: – macauantigo.blogspot)

A conclusão, tal como os achados, não foram de modo algum relevantes, por duas razões: Primeiro, porque o terreno circundante em que se insere a fachada de S. Paulo e a Fortaleza tinham sido alvo de trabalhos profundos e sérios de investigação arqueológica levados a cabo há cerca de década e meia que permitiram pôr a descoberto as fundações do referido colégio, bem como a primeira muralha da fortaleza, uma parte da qual se encontra preservada (e bem!) no interior do Museu de História de Macau. Segundo porque nessas escavações foram recolhidos cacos e outros artefactos do maior interesse que se não provaram que Macau era então um centro internacional de comércio lançaram jorros de luz sobre a vida quotidiana na que foi a primeira Universidade do Extremo Oriente e igualmente sobre a presença de importantes figuras de missionários que fizeram os primórdios da Igreja Católica na China. Para além disso refira-se que a construção do complexo religioso não terá resultado tanto do comércio entre o Oriente e o Ocidente, mas provavelmente mais exactamente do comércio entre a China e o Japão que naquele caso rendeu os “3130 pardaos de reais” necessários para o construir como afirma o jesuíta frei Fernando Guerreiro contemporâneo desses efeitos históricos. Não é objectivo deste artigo tecer considerações sobre a questão das antigas casas que foram demolidas para dar lugar ao tal parque de estacionamento, ou sobre o seu valor como património, cujo projecto acabou por redundar nas investigações arqueológicas. As casas foram demolidas, o parque de estacionamento face aos achados não irá por ventura para a frente e por isso “não vale a pena chorar sobre o leite derramado”. Tendo em conta o facto consumado o que se espera é que agora, antes do início de qualquer projecto de obras o Governo implemente as devidas prospecções arqueológicas que, como disse, costumam ser obrigatórias hoje em dia, mesmo em países que menos cuidam do seu património histórico. Mas neste campo as autoridades parecem relevar alguns aspectos e pura e simplesmente descurar outros, que terão, pelo menos igual importância. Será porque destes se não fala? Será porque voltados a enterrar terão sido pura e simplesmente esquecidos por todos? Refiro-me naturalmente ao campo arqueológico de Hak Sá em Coloane, onde foram encontradas relíquias de grande importância. Não pelo seu valor intrínseco, mas pelo que revelam de ocupação humana no local que remonta a mais de seis mil anos. É certo que uma parte do conjunto se encontra actualmente debaixo de um complexo recreativo e de edifícios de habitação. No entanto existe ainda uma grande parte por desbravar em terrenos circundantes. Refira-se que esses terrenos já foram alvo de tentativas de ocupação selvagem tendo em parte deles, nomeadamente sido construída uma placa de cimento armado que serviu de base ao estacionamento de autocarros durante algum tempo até as Obras Públicas, com auxílio da polícia, intervirem e reporem a legalidade. Parece ser tempo de levar a cabo em toda a área as prospecções arqueológicas que se impõem e que desde 1973 têm sido feitas intermitentemente. O panorama do passado de Macau não termina no pano de fundo da estátua de Jorge Álvares, nem na fachada do templo de à Má na Barra.

Fragmento encontrado nas ecavações de Hak Sá (Coloane).

De facto, os artefactos encontrados em Hak Sá provam que por aqui andaram muitos povos senhores de muitas culturas que se foram perdendo no tempo e que parece importante trazer de novo à luz. Tal, como se preservaram os achados da Madre de Deus e do Monte utilizando técnicas modernas que permitem mostrar uma nesga do passado aos olhos de hoje e contribuir para a diversificação da oferta turística (como está na moda dizer-se) também os artefactos que se encontram no subsolo de Coloane podem ser estudados, preservados e mostrados permanentemente. Neste caso se nada for feito poderá dizer-se que o que por lá se conserva se manterá conservado. Mas perante as tentativas frustradas de utilização do espaço levadas a cabo ilegalmente o mais provável é que no futuro alguma delas surta mesmo efeito. Ou então possível é também que algum projecto legal público, ou privado ali venha a ser desenvolvido, sem ter em conta a jazida que por ali se encontra varrendo definitivamente quaisquer possibilidades de implementar uma investigação arqueológica ampla, metódica e definitiva. Afinal já lá vão 37 anos sobre a primeira campanha levada a efeito pela “Hong Kong Archaelogical Society” que permitiu saber-se que em Coloane existiam afinal locais de interesse arqueológico a estudar.

A Maçonaria no 5 de Outubro em Macau 05-10-10

Muito se tem escrito sobre o papel da Maçonaria na implantação da República em Portugal e também no papel decisivo que a Carbonária nela terá desempenhado como braço armado da primeira. Todavia, para além de uma ou outra referência bibliográfica, não é muito o que se sabe da acção destas organizações na instituição do regime republicano em Macau.

É certo que os dados escasseiam (mesmo em Portugal), mas do que se conhece pode concluir-se que a Maçonaria também aqui desempenhou papel equivalente ao da sua congénere da “Metrópole”.

O mesmo não se poderá dizer da Carbonária. Sobre esta associação secreta a bibliografia não é abundante, mas pelo menos existem alguns trabalhos, de certo detalhe, identificando-a essencialmente como o “exército civil” que apoiou os heróis da Rotunda nos acontecimentos que culminaram no dia 5 de Outubro de 1910. Um dos seus chefes era o próprio Machado dos Santos. O outro era Carlos da Maia que viria a governar Macau em 1914. Todavia, sobre a organização no Território o silêncio é absoluto.

Embora a história de associações desse género seja sempre difícil de fazer dado o grau de secretismo de que se rodeavam pode dizer-se, com razoável certeza, que o silêncio que reina se deve apenas ao facto da organização não ter existido de todo na então colónia portuguesa da China, pelo menos nesse período.

A única referência à Carbonária em Macau diz respeito à estada na cidade de cinco dos seus elementos presos por subversão em Portugal que para aqui foram exilados em 1898. Os cinco teriam, pouco depois da chegada, tentado aliciar alguns militares no sentido de sublevar a guarnição, prender o Governador e proclamar a República.

A tentativa fracassou e os cinco voltaram a ser detidos cumprindo o resto da pena de exílio a que tinham sido anteriormente condenados, mas agora mais longe ainda, ou seja em Timor. Refira-se todavia que o relato destes factos se baseia apenas em alusões breves sem citação de fontes reproduzidas nalguma bibliografia relativa à história do movimento anarquista em Portugal e nada mais.

No que toca à Maçonaria o caso é bem diferente. A sua acção em Macau está relativamente documentada graças ao trabalho de investigação de alguns autores com destaque para o historiador A. H. De Oliveira Marques.

Assim sabe-se hoje que o papel dos “pedreiros livres” na colónia portuguesa, reunidos em torno da “Loja Luís de Camões” foi decisivo não só na proclamação da República, como posteriormente no afastamento da elite dirigente monárquica e na consolidação do novo regime.

De facto a “Loja Luís de Camões” incluía no seu seio um grande número de funcionários públicos de todos os escalões, militares da marinha e do exército, para além de advogados, engenheiros e jornalistas, ou seja o escol da colónia. Assim não é de admirar que o próprio ajudante de campo do último governador monárquico (Eduardo Marques) Álvaro de Melo Machado tenha sido escolhido para o substituir dois meses depois da proclamação do regime republicano.

Álvaro de Melo Machado primeiro governador republicano de Macau (1910-1912)

Melo Machado era maçom desde 1907 tendo aderido nesse ano à loja lisboeta “Liberdade”. Aqui chegado passou, naturalmente a integrar-se nos quadros da “Loja Luís de Camões”. Para além deste à mesma loja pertenciam também, outros vultos que desempenhariam papel fulcral no rumo político que o Território haveria de tomar no futuro.

Entre muitos conta-se com particular destaque a figura bem conhecida de Constâncio José da Silva, advogado jornalista e polemista, proprietário e redactor do jornal “A Verdade”que esteve na primeira linha do republicanismo na campanha pelo afastamento das figuras de proa da monarquia. Constâncio inspirou nomeadamente o levantamento das tropas que cercaram o Palácio da Praia Grande e obrigaram à ponta das baionetas o governador Eduardo Marques a publicar as novas leis da república que insistia obstinadamente em guardar na gaveta.

Outro jornalista que ficaria para a posteridade pelas suas relações de medianeiro entre os revolucionários republicanos chineses e as autoridades locais, amigo pessoal de Sun Yat-sen (fundador da República da China) e igualmente redactor e proprietário de vários jornais era Francisco Hermenegildo Fernandes, figura sobre a qual muito se tem escrito e de quem ainda hoje pouco mais se sabe a não ser o que ele próprio de si deixou publicado. O mais pode resumir-se à frieza de um currículo constante na “Repartição dos Assuntos Sínicos” onde era tradutor e os dados oficiais inclusos nos autos que contra si foram levantados pelos tribunais em diversos processos por alegado abuso de liberdade de imprensa que contra si foram movidos.

Com menor destaque, mas não menos eficácia política salientou-se também o coronel José Luís Marques, um dos fundadores da maçonaria organizada em Macau que ocuparia durante largos anos a presidência do Leal Senado.

Igualmente pouco citado, mas bem inserido nos centros de decisão encontrava-se o seu camarada de armas António Antunes, igualmente co-fundador da “Loja Luís de Camões”, que nos anos subsequentes a 1910 comandaria a Polícia de Segurança Pública.

Outro advogado de renome e republicano estrénuo pertencente à mesma loja era Damião Rodrigues, personalidade cujo perfil já abordei aqui em anteriores artigos igualmente devido às suas ligações estreitas à revolução republicana da China e também pelo combate desassombrado que travou, especialmente, contra a ditadura do “Estado Novo” de Salazar, já numa fase adiantada da sua vida.

Para além dos nomes citados muitos outros o poderiam ser. O poeta Camilo Pessanha, que dispensa biografias, mesmo maçónicas, que outros já fizeram e com pormenor, seria um deles.

Deste destaque, necessariamente limitado, fica excluído Rosa Duque, porventura um dos mais combativos jornalistas republicanos de Macau, que com a aproximação do golpe de 28 de Maio de 1926 chegou a anunciar na primeira página do jornal “O Combate” a sua filiação maçónica e o alto grau de que era detentor naquela organização iniciática. A exclusão deve-se apenas ao facto de no momento em que a república se instaurava nos confins do Oriente, se contar entre os sargentos que na Rotunda, de armas na mão, com Machado Santos, sofriam o cerco e as arremetidas das tropas fieis a D. Manuel II comandadas por Paiva Couceiro.

Este breve artigo não ficaria completo sem uma referência curiosa que parece subscrever o dito do rei D. Carlos segundo o qual “Portugal era uma monarquia sem monárquicos”. Seria? Não se sabe!

O que se sabe é que, em Macau, Bernardino de Senna Fernandes, 2º Conde de Senna Fernandes, tal como o ex-realista seu homónimo, Presidente Bernardino Machado, era já maçom e republicano numa época em que a monarquia vigorava em pleno e a República não passava de um ideal cuja concretização até entre os seus correligionários gerava dúvidas.

Médicos e medicina em Macau. 28-09-10

Normalmente nos compêndios de história, as figuras militares, os políticos, os revolucionários, e os aventureiros ocupam a maior parte do labor dos autores que se dedicam a investigar o passado.

Na história de Macau é igualmente assim.

Todos nós conhecemos se não a saga pelo menos a figura do Ferreira do Amaral, ou do Coronel Mesquita, ou então do todo-poderoso ouvidor Miguel de Arriaga, ou do Comendador Lou Lim Yok, ou o comissário Lin  que veio a Macau para arrasar o humilhante contrabando do ópio.

Os seus perfis estão largamento documentados e continuam a ser alvo de estudo ainda hoje.

No entanto pelos vistos em Macau há uma profissão, ou melhor duas de que não reza a história: – médicos e os farmacêuticos.

Uma omissão tão injusta, quanto relevante foi a acção de alguns deles ao longo dos quase quinhentos anos de presença portuguesa em Macau e não só nas suas áreas profissionais.

Muitos foram muito mais do que médicos e contribuíram decisivamente no seu e noutros campos em momentos decisivos da história local.

Porém, tanto quanto me lembre na toponímia apenas ficaram recordados meia dúzia de nomes desses servidores da ciência.

Padres, militares e políticos excedem-nos largamente em número.

Faltou historiador que deles falasse?

Felizmente não.

Isto graças ao prolífico Monsenhor Manuel Teixeira que na sua extensa bibliografia não deixou pode dizer-se, aspecto algum da história de Macau de fora. A medicina e a farmacêutica, foi capítulo que também não lhe escapou.

Sobre este assunto Monsenhor Manuel Teixeira também se debruçou com profundidade, ainda que o que deu à estampa não tivesse produzido eco digno de registo. Principalmente se comparada a obra com a sua “Toponímia de Macau”, ou “os Militares em Macau”.

Trata-se de “A Medicina em Macau“, investigação republicada pela secretaria dos Assuntos Sociais e Orçamento em 1998 e que parece estar apenas disponível nas bibliotecas.

Esta área geralmente ignorada pelos investigadores e divulgadores das coisas de Macau merece tanto mais relevância quanto contêm monografias e biografias que somente ali se encontram.

Esta obra conheceu duas edições. A segunda foi a que acima referi, a primeira foi publicada em 1976 e desta se encontram exemplares em alfarrabistas e igualmente nas bibliotecas.

Devo dizer, que consegui os volumes dessa primeira edição aqui há uns anos precisamente num dos alfarrabistas por onde não deixo de passar de cada vez que me desloco a Lisboa.

Comprei-os por um preço muito acessível em comparação com outras obras sobre Macau, algumas expostas por cifras tão proibitivas quanto muitas vezes banais, e repetitivos são os temas que abordam.

Isto por si só demonstra que se em 1976 a obra pouco interesse despertou, trinta anos depois, nem aos frequentadores de alfarrabistas continua a interessar a julgar pelos valores de capa.

A segunda edição não conheceu melhor sorte do que a primeira que se saiba. Permaneceu desde logo fora da circulação, quedando-se pelas estantes dos departamentos do Governo e pelas mãos de alguns a quem o livro foi oferecido pelas ditas autoridades e pouco mais.

No entanto, vale a pena ter este livro, por duas razões pelo menos.

Primeiro porque revela uma faceta extremamente importante da história de Macau tão mal estudada e tratada.

Segundo, porque Monsenhor Manuel Teixeira, tantas vezes acusado de fazer uma história muitas vezes pecando pela parcialidade, excluindo intencionalmente muitos assuntos do conjunto das suas obras, nesta discorre largamente sobre a outra face da medicina em Macau, ou seja a medicina tradicional chinesa e a forma como esta era praticada.

Sobre este tema vale a pena ler o capítulo intitulado “Alguns Aspectos da Medicina Tradicional Chinesa”, em que o autor cita o médico Caetano Soares, que passou 15 anos da sua estada em Macau a estudar este peculiar campo o conhecimento. Neste capítulo revela alguns dados curiosíssimos, como seja o simples facto de muito antes da medicina preventiva ter começado a ser aceite na Europa, já ser aqui praticada há milénios, nomeadamente através da “tradição existente entre os chineses de beber chá e água quente, uma boa forma de combater as infecções microbianas”.

Além disso junta a tudo dados estatísticos de grande relevância através das épocas, que permitem a qualquer estudioso retirar importantes conclusões noutros domínios da história nomeadamente social e política de Macau.

A compor tudo isso “A Medicina em Macau” de Monsenhor Manuel Teixeira, inclui indicações preciosas sobre a génese e actividades das grandes instituições de assistência médico-social do território.

Nomeadamente, sobre o primeiro hospital, de S. Rafael, que se situou onde hoje se encontra o Consulado Geral de Portugal em Macau, que se ergueu quase a par da fundação de Macau no século XVI, por mão do bispo Jesuíta Melchior Carneiro, o hospital, Conde de S. Januário, o Kiang Wu, ou mesmo centros menos conhecidos como o antigo núcleo de recuperação de tóxico-dependentes da Taipa, que chegou a ser tomado como modelo internacional de tratamento principalmente de dependentes da heroína e do ópio,  a leprosaria, actualmente desactivada de Ka Hó em Coloane e outras mais.

Ficamos também a conhecer algumas figuras do passado, que chegaram a ter nome no seio da comunidade científica internacional no domínio da botânica, com o médico José d’ Almeida. Este um cientista típico do século das luzes, introdutor de novas espécies vegetais, como um certo tipo de banana que ainda hoje é conhecido como “banana d’Almeida”. Os seus trabalhos sobre a guta-percha ainda hoje são igualmente reconhecidos.

O médico José d’Almeida (de casaca vermelha) figura de cera constante no museu de história de Singapura.

“A Medicina em Macau” é um livro que se não destina ao grande público mas que nem por isso deve permanecer ignorado.

Um livro que apesar de datado poderá revelar-se de grande interesse particularmente, para as pessoas ligadas à área da saúde, designadamente ao nível executivo porque é possível encontrar ali situações e problemas que por serem do passado não quer dizer que não possam conter a inspiração no sentido de abordar os desafios que se colocam hoje à saúde pública em Macau.

Continuo convencido que as lições do passado servem sempre para encarar melhor a resolução do futuro. No mundo da medicina não será diferente.