O general anarquista e a “República Cantonense” (II) 14-09-10

Frequentemente, nos relatórios diplomáticos americanos e ingleses Chen Jiongming era referido como “o general bolchevista”. No entanto tal não parece ter sido o seu posicionamento como se viria a revelar. Quando muito seria o socialista moderado que um observador descreve num relatório dirigido ao cônsul americano em Amoy.

É certo que foi o alegado “general bolchevista” que abriu as portas de Cantão ao Komintern, quando a província possuía, pode dizer-se, uma liderança bicéfala (constituída por ele próprio e Sun Yat-sen) no entanto, seria afinal Sun, que durante a reorganização do Kwomintang em 1924 faria uma aliança clara com Moscovo que enviou os seus conselheiros políticos e militares para a China, dando forma ao Partido Nacionalista.

Na mesma altura Lenine, através de um enviado especial sondou igualmente Chen quanto à possibilidade de um entendimento, mas este recusou a ajuda, talvez por duvidar da revolução russa de que lhe chegavam notícias, mas que então se encontrava ainda numa titubeante infância.

Regressado a Cantão em 1915, depois do temporário exílio de Macau, Chen reiniciou a obra que anos antes tinha deixado por concluir. Assim procedeu a várias reformas administrativas estabelecendo municípios em moldes modernos, organizou eleições autárquicas, implementou remodelações na educação e no sistema, incentivou campanhas de alfabetização com a criação de escolas nas fábricas e também a doutrinação política do operariado e do campesinato.

Mas a sua mais importante área de actuação e a que maior impacte social provocaria verificou-se neste último sector, ou seja, no mundo do trabalho.

Nessa área os anarquistas inspirados por Liu Shifu, principal orientador ideológico de Chen,  efectuaram um trabalho relevante junto das massas. Assim, de uma quase total ausência em 1911 o sindicalismo organizado surgiu e expandiu-se de tal forma que em 1922 a província contava com 130 sindicatos e mais de 300.000 trabalhadores sindicalizados.

Este movimento não se restringiu porém às fronteiras de Guangdong alastrando-se igualmente a Hong Kong e Macau.

A acção dos anarco-sindicalistas fez-se sentir na colónia portuguesa através da rápida formação de associações de classe cujo número chegou a ascender a quase oito dezenas segundo dados estatísticos da “Repartição de Administração Civil”.

O primeiro sinal de que algo estava a mudar tinha tido lugar muito antes, em 7 de Agosto de 1909 com uma greve geral dos condutores de riquexós. Porém à data o incidente não mereceu atenção por parte das autoridades que se mantinham convictas da imobilidade social da China e por conseguinte de Macau. O desengano surgiria (inesperado?) em 1922.

Nessa data a capacidade organizativa dos trabalhadores locais era já uma realidade insofismável que só o governo teimava em não tomar a sério. Isto apesar de não desconhecer a situação como afirmava à época o publicista Jaime do Inso: -“Os ânimos na China andavam exaltados mercê da activa propaganda russa entre os chineses, e de Cantão foco vermelho de sempre no sul do ex-Celeste Império, irradiara para Macau, como não podia deixar de suceder, o vírus da revolta introduzido metodicamente pelos agentes (do Komintern) Yoff, Karakan, Borodine e tantos outros que, nas escolas, nos quartéis, nas oficinas, nas ruas e nos campos, tinham estendido habilmente a rede da sua propaganda cujos resultados no espírito simplista da população chinesa, a quem faziam crer que os senhores de hoje passariam a criados de amanhã, não havia de se fazer esperar. Os ânimos andavam exaltados a ponto de Macau a terra pacífica por excelência, e que muitos chineses ricos preferem pela segurança e quietação que aqui desfrutam ver nas ruas procissões chinas, onde, em manifestações verdadeiramente infantis, se faziam alusões deprimentes e de desafio ao “Diabo Estrangeiro”, como , por exemplo, um chinês cavalgando a esfera terrestre, como símbolo da China dominando o Mundo…”

Jaime do Inso. Oficial de marinha e escritor

Nesse estado de espírito de que o escritor faz descrição concisamente correcta, mas eventualmente redutora a verdade é que se adivinharia que um qualquer pretexto bastasse para lançar as massas nas ruas contra o colonialismo. O pretexto foi encontrado em finais de Maio de 1922.

Na sequência da prisão de desordeiros numa rixa que envolveu soldados do contingente militar de Moçambique estacionado no Território despoletaram-se manifestações de protesto que culminaram no cerco a uma esquadra de polícia. O cerco terminou com a intervenção do exército que dispersou os manifestantes a tiro. Do tumulto resultaram dezenas de mortos e centenas de feridos. Face ao escalar da violência a lei marcial foi declarada. Por seu turno os sindicatos responderam com uma greve geral que paralisou a vida do Território durante largos meses.

À greve de Macau seguiu-se pouco depois em Hong Kong, processo grevista semelhante, embora aqui a situação tenha atingido foros de ainda maior gravidade tanto em perda de vidas como em prejuízos económicos que decorreram do congelamento do tráfego marítimo num porto que já então servia uma das mais importantes praças comerciais do Extremo Oriente.

A imprensa macaense não hesitou em apontar o dedo acusador a Sun Yat-sen como mentor dos lamentáveis acontecimentos reverberando-o pelo facto de pagar assim a hospitalidade que Macau tantas vezes lhe tinha concedido em tempos de crise.

A este propósito e como curiosidade registe-se que nesse mesmo ano entre os candidatos a deputados por Macau ao Parlamento de Lisboa, figurava o nome do próprio Sun Yat-sen, que apesar de tudo, ainda conseguiu o voto de um eleitor, num universo de 335 eleitores.

Todavia a responsabilidade directa, ou indirecta, do inopinado candidato ao parlamento português nos acontecimentos de 1922 ainda hoje permanece por esclarecer por duas ordens de razões:

Primeiro, porque à data dos acontecimentos Cantão encontrava-se mergulhada num quase total caos político militar resultante da cisão que se revelaria definitiva entre Sun Yat-sen e Chen Jiongming que estalara nessa altura.

No campo sindical a cisão também se encontrava em vias de se efectivar entre os anarco-sindicalistas que viam em Chen um líder indiscutível e os que defendiam a luta operária nos moldes marxistas-leninistas. Nesse Verão, a tal “propaganda” do Komintern, orientada por Borodine, e sublinhada por Jaime do Inso já produzia efeitos sensíveis retirando lenta, mas inexoravelmente a exclusividade a Chen Jiongming na liderança do movimento operário. A fundação no ano anterior do Partido Comunista da China, por Chen Duxiu, que tinha sido ministro da educação de Chen Jiongming em 1920, tinha sido decisiva no isolamento do “general anarquista”.

Tendo esses factos em conta não custa admitir que as massas perante um jogo de forças momentaneamente inconclusivo tenham saído para as ruas mais como consequência de um movimento de inércia do que de uma acção dirigida e planeada por uma liderança que na realidade estava muito mais ocupada entre si na luta pelo poder em Cantão do que em instigar motins nas colónias europeias da China.

Seja como for, certo é que a paz social em Macau e Hong Kong só se restabeleceu mais de um ano depois com a consolidação na presidência da “República Cantonense” de Sun Yat-sen e a ascensão de Chiang Kai-shek ao comando indisputado das principais forças militares de Guangdong e províncias limítrofes em finais de 1923.

Aliás a derrota posterior de Chen Jiongming na luta contra Sun Yat-sen deve-se em grande parte às tropas de Chiang Kai-shek que enquadradas por oficiais formadas na recém criada academia de Whampoa (fundada em 1924) instalada pelos conselheiros militares soviéticos superavam largamente em disciplina eficiência táctica e armamento as forças do “general anarquista”.

No entanto, a luta entre Sun e Chen, muito mais do que disputar-se nos campos de batalha travou-se essencialmente no terreno ideológico.

Para Sun o futuro da China passava pelas teses de Lenin defensoras de um estado forte e centralizado num partido único, moldes em que reorganizou o Kwomintang. No pólo oposto situava-se Chen, cujas raízes anarquistas o levavam a defender um regime socialista, pluri-partidário e uma China federalista tendo como modelo os Estados Unidos da América.

Apesar do apoio militar e financeiro, que depois do pronunciamento pró soviético de Sun, durante algum tempo lhe foi proporcionado pela Inglaterra através de Hong Kong, Chen não conseguiu resistir à máquina militar ascendente do Kwomintang que acabou por esmagar o que restava das suas tropas reunidas no chamado “Exército de Guangdong” no bastião de Haifeng a sua terra natal onde tinha iniciado a sua vida política como chefe guerrilheiro algumas décadas antes. Em 1925, a colónia britânica abria-lhe as portas do exílio final.

Apesar de banido porém, Chen não cessou de lutar pelo seu “social federalismo”.

Pouco depois de se estabelecer em Hong Kong organizou e foi eleito presidente do “Partido do Interesse Público” (Zhi Gong) continuando a criticar o sistema Nacionalista de partido único que depois do desaparecimento de Sun Yat-sen e a ascensão de Chiang Kai –shek rompeu definitivamente a aliança com Moscovo e levou a cabo uma acção fulminante de extermínio dos comunistas que integravam as fileiras do Kwomintang.

O “Partido do Interesse Público” aderiu em 1947 à frente unida promovida por Mao Tsé-Tung e é actualmente um dos oito partidos políticos aceites e oficialmente reconhecidos na República Popular da China.

O protesto contra a decisão de Chiang Kai-shek de não confrontar o Japão aquando da invasão da Manchúria (1931) e a campanha subsequente pelo boicote à compra de produtos japoneses foram os seus dois últimos pronunciamentos políticos antes de morrer vítima de febre tifóide na colónia britânica em 1933.

Com Chen Jiongming morreria também a ideia federalista que chegou a ser uma das mais acarinhadas doutrinas entre os intelectuais chineses dos convulsos anos vinte do século passado

O general anarquista e a República Cantonense ( I ) 07 -09 -10

Nem o “socialismo com características chinesas” é conceito novo, nem a China foi sempre impermeável às novas ideias sociais e políticas que foram marcando a marcha do mundo como por vezes se pretende fazer crer. Bem pelo contrário. O que se pode dizer é que a evolução global do pensamento humano ao ultrapassar a “Grande Muralha” penetrava numa civilização há milénios estruturada. Uma civilização em que certos debates que se postavam noutros continentes como revolucionários, ou apenas modernos, principalmente depois da transformação europeia de 1789, já tinham sido feitos muitos séculos antes. Como exemplo pode citar-se a velha questão da existência, ou não de uma intrínseca bondade humana que tanto dividiu as correntes socialistas no século XIX e principalmente marxistas e anarquistas.

O anarquismo, penetrou na China, pode dizer-se, ao mesmo tempo que se alastrava pela Europa e pelas Américas. Porém, enquanto nestes dois continentes o debate não atendia à diversidade de povos ou às diferentes culturas, ali, pelo que se disse, não só se dividiu em variadíssimas correntes (ou não fosse absolutamente libertário), como adquiriu, em alguns casos, características muito próprias.

Tal como no resto do mundo também na China o anarquismo esteve na base dos grandes “ismos” que viriam a transformar e a dividir ideologicamente os povos, produzindo nomeadamente o marxismo-leninismo, embora posteriormente acrescentado de mais um. O de Mao Tse-Tung.

Assim não é de estranhar que nesse fervilhar revolucionário que avassalou tudo nas primeiras décadas do século XX venhamos a encontrar na China um general anarquista.

Chen Jiongming o general anarquista

Chamava-se Chen Jiongming e a sua história tem uma íntima ligação a Macau, lugar onde se refugiou várias vezes ao longo da sua acidentada carreira política.

Chen Jiongming é hoje uma figura quase totalmente obliterada pela história e convenientemente esquecida tanto por comunistas como pelos seus contrários. Isto apesar de não poucos aspectos do seu pensamento político terem sido adoptados pelo Partido Comunista que tanto o criticou e subsistirem também nos três célebres princípios do povo propostos por Sun Yat-sen, que constituem ainda hoje a base ideológica do “Kwomintang”.

Chen Jiongming nasceu em 1878 na cidade de Haifeng, situada nos limites entre as províncias de Guangdong e Fuqian. Filho de uma família de proprietários rurais abastados cedo revelou propensão para as letras tendo recebido uma formação clássica confucionista. Em 1906 matriculou-se na faculdade de direito de Cantão onde se licenciou, tendo participado na elaboração do projecto nacional de reformas destinado a transformar a China numa monarquia constitucional, como deputado provincial, depois de um período de estudos político-administrativos no Japão.

A certa altura porém a evidente resistência do regime à mudança leva-o a perder todas as esperanças na eficácia da acção pela legalidade e a interessar-se pelas obras de Marx, Bakunine e Kropotkin, que começavam a chegar ao Extremo Oriente ganhando adeptos principalmente no “Império do Sol Nascente” que desde finais do século XIX registava um período fulgurante de progresso e abertura ao exterior e às novas ieias. Chen convencia-se que a revolução era a única saída viável.

Convertido à causa internacionalista junta-se ao movimento anarquista cujo principal inspirador era Liu Shifu, com o qual se associa num movimento que advogava a acção directa como forma de derrubar o estado capitalista e feudal.

É integrado nesta corrente que arregimenta as massas em Guangdong contra a monarquia participando activamente em todas as sucessivas conspirações e sublevações que foram tendo lugar.

No dealbar do ano de 1911, Chen, já não é um mero propagandista, mas sim um general revolucionário que comanda um exército fortemente armado constituído por uma mistura de jovens intelectuais e camponeses. É nessa condição que participa na revolta final contra a dinastia “Manchu” e se torna governador militar de Guangdong na sequência da proclamação da República.

A partir dessa data, e com Sun Yat sen em Pequim investido na presidência, Chen leva a efeito profundas reformas em Guangdong. O seu ideário fica desde logo expresso nos caracteres gravados nas três faces do monumento em granito que mandou edificar no centro da sua terra natal: – Ziyou (liberdade), Pingdeng (igualdade), bo’ai (amor fraternal).

Chen Jiongming, pensava que a China não se encontrava organizada de molde a expressar a sua vontade colectiva, mas antes estava habituada a auto governar-se a partir das bases nas comunidades rurais. Sendo assim, era necessário trabalhar politicamente debaixo para cima e não de cima para baixo como tinha acontecido em todas as revoluções anteriores para transformar o país.

“Acreditamos que se implementarmos as nossas ideias em Guangdong e tivermos sucesso, este exemplo levará as restantes províncias a implementar sistemas semelhantes e o movimento alastrará a todo o pais”, escrevia.

Sem publicar legislação nova e numa atitude sem precedentes, Chen pôs então em prática algumas medidas percursoras que só surgiriam nas sociedades industriais avançadas mais de uma década depois. Entre outras contava-se o direito dos trabalhadores negociarem colectivamente as suas condições de trabalho sem interferência do patronato. Ou seja surgiam na China os primeiros sindicatos.

No entanto as medidas radicais aplicadas pelo general revolucionário pouco passariam de mero esboço de projecto.

Em 1913, o novo presidente Yuan Shikai, que queria fazer regressar a China ao regime imperial, consigo no trono, intimou as províncias a aceitarem as alterações constitucionais por ele decretadas. Claro que Chen, de novo em aliança com Sun Yat-sen recusou.

Porém, apesar do apoio popular e do prestígio de que desfrutava, o general anarquista seria forçado a abandonar o poder derrotado pelas tropas enviadas para o Sul por Yuan Chi Kai.

Nessa altura, tanto os anarquistas de Chen como os socialistas revolucionários e republicanos de Sun Yat –sen, estavam longe de possuir as forças militares organizadas e disciplinadas de que viriam a dispor alguns anos mais tarde com a criação da “Academia Militar de “Whampoha”, onde se formariam entre outros Chang Kai-shek e Chu Enlai.

Em resultado da contra ofensiva monárquica, os dois líderes não tiveram alternativa senão fugir do país e estabelecer em Macau uma espécie de governo no exílio.

A escolha de Macau deveu-se ao facto de na colónia portuguesa se encontrarem em actividade os centros de comando partidários e as principais fontes de financiamento que pouco antes tanto tinham contribuído para a instauração da República. Simultaneamente, as rotativas das tipografias locais, semi-adormecidas desde 1911, voltavam a acelerar reiniciando a impressão de jornais e panfletos com inflamadas proclamações. Todavia desta vez aos órgãos de comunicação militantes tradicionais pré existentes juntavam-se novos títulos de índole anarquista e marxista, as duas principais correntes que sustentavam o republicanismo cantonense de então.

Esse fervilhar revolucionário, que não era dirigido contra a presença portuguesa em Macau colocava-a no entanto em sério risco.

Pequim exigia a Portugal a prisão dos revolucionários e o encerramento dos jornais hostis de Macau, deixando subentender que o recurso à força para o efeito não seria excluído se as autoridades de Lisboa não respondessem positivamente.

Os anos seguintes levantariam sérios desafios politico-diplomáticos para Portugal e para os governadores de Macau que se encontravam na linha da frente da crise.

O facto de Sun Yat-sen ter optado por permanecer pouco tempo em Macau exilando-se novamente no Japão contribuiu para aliviar em certa medida a tensão vigente, no entanto a presença reiterada de Chen Jiongming continuava a constituir problema momentoso, já que para além de inimigo político era também chefe militar o que o tornava ainda mais perigoso do ponto de vista do velho general Yuan Chi Kai, do que o próprio Sun Yat-sen, já que se sabia que apesar de exilado não perdera um segundo a reorganizar as suas forças dispersas nos dois “kuang” (Guangdong e Guanxi).

Nesta conjuntura, em que qualquer decisão poderia conduzir ao desastre, assumiu papel de relevo Lou Lim Iok, o então líder da comunidade chinesa local que desfrutando de boas relações com as hostes restauracionistas de Cantão conseguiu conter os ímpetos monárquicos no limite estrito da diplomacia aconselhando passo a passo os governadores nessa difícil conjuntura.

Para além de Lou Lim Iok, do lado português, assumiram igualmente destaque como preciosos auxiliares do governo o jornalista Francisco Hermenegildo Fernandes e o advogado Damião Rodrigues, para além de outros elementos da Maçonaria, instituição que, à época, possuía decisiva importância e influência na vida política do Território

No entanto, a morte inopinada de Yuan Chi Kai em 1916 contribuiu um pouco para distender a atmosfera política de chumbo que se vivia.

Com o desaparecimento do extemporâneo pretendente ao trono do “Celeste Império”, Chen Jiongming conseguiu fazer reverter a situação a seu favor e retomar o poder em Cantão. A ele se juntaria novamente Sun Yat-sen.

Nessa nova conjuntura, porém, a revolução passava estar confinada às fronteiras da província. Assim, os dois dirigentes não encontraram alternativa senão declarar a cessação de Cantão e ali de novo proclamar a República.

Facto consumado abria-se assim o pano para um segundo acto e nova crise. Com novos actores em palco a pressão voltaria a fazer-se sentir sobre Macau, com o mesmo impacte, mas agora de uma forma mais evidente contra a presença estrangeira.

O nacionalismo ganhava corpo entre anarquistas e republicanos que apesar das divergências ideológicas que os separavam comungavam do mesmo sentimento:- Erradicar a presença colonial na China.

No teatro local a década seguinte daria lugar a nova cena ainda mais crispada do que a anterior. No novo elenco o protagonista voltava a ser o general Chen Jiongming, nas mãos do qual repousou incerto, durante longo período, o futuro de Macau até finais dos anos 20.

Autos de fé em Macau 31- 08 – 10

Felizmente que a inquisição nunca chegou a Macau. O mais longínquo lugar do império marítimo português por onde estendeu as suas ”queimadas de hereges ” foi Goa, com os estragos históricos que se conhecem. Em Macau a Igreja absteve-se de incinerar infiéis por duas razoes: – Primeiro porque o mais certo seria que a China se irritasse perante o lançamento à fogueira dos súbditos do império e pura e simplesmente obliterasse o Território, como aconteceu noutros pontos da sua costa mais a Norte onde os portugueses se tinham fixado antes. Segundo porque ao contrário de Goa, ou de Manila, por exemplo a ordem religiosa dominante era a Companhia de Jesus e não a dos Dominicanos. Os companheiros de Jesus, ao contrário dos de S. Domingos nunca foram adeptos de fogueiras para impor a fé.

Apesar de tudo o que ficou dito Macau não se eximiu à simbologia das chamas para purificar os espíritos. Também o Território teve os seus autos de fé. Felizmente que ninguém se chamuscou! Esses autos de fé em Macau foram mais tardios e levados a cabo não por motivos religiosos mas sim políticos. Igualmente os supliciados não foram os incréus, mas antes os instrumentos materiais da apostasia, ou seja livros e jornais.

Várias destas cerimónias “fúnebres” terão eventualmente ocorrido ao longo da história do Território, mas pelo seu simbolismo aberrante e extemporâneo tendo em conta as épocas em que tiveram lugar há duas que merecem referência. Quanto mais não seja como exemplares morais do que a intransigência ideológica em momentos particulares de polarização política pode produzir de barbárie anómala contra o espírito e o progresso sociais.

O primeiro caso ocorreu nos primórdios do liberalismo. Portugal e as suas colónias mergulhavam num período de forte instabilidade, com o fim do regime absoluto e a aprovação da primeira constituição do reino, na sequência da revolução de 1820 (falei já aqui, em anterior artigo, de alguns dos seus efeitos em Macau).

A revolução liberal trouxe consigo um elemento novo que haveria de transformar profundamente o século. Tratava-se da liberdade de imprensa que anteriormente não existia de todo no Portugal ultramarino.

Mal conhecida a abertura do sistema, os jornais começaram a surgir um pouco por toda a parte, desde Cabo Verde a Macau.

A “Abelha da China” (macauantigo.blogspot.com)

No território a primeira publicação a ser dada à estampa foi a conhecida “Abelha da China”, periódico que era uma mistura de jornal noticioso e boletim oficial do Governo. Apesar desta indefinição porém a “Abelha da China não era de “meias tintas”. Bem pelo contrário! Tendo como seu principal redactor Frei António de S. Gonçalo de Amarante (curiosamente um dominicano), as suas páginas eram libelo constante contra a reacção absolutista e tribuna de propaganda sem peias da “liberdade, igualdade e fraternidade”, lema bebido nas ideias da revolução francesa que Frei António perfilhava. Quanto ao resto não punha em causa nem rei, nem religião, pelo que o triste fim do periódico se deve apenas ao extremar de posições e acender de ódios que atingiram o clímax no dia 23 de Setembro de 1823, quando todas as autoridades, civis, militares e homens bons em geral foram convocados para uma estranha cerimónia a ter lugar no Largo do Leal Senado. Tratava-se da “queima judicial” do último número da “Abelha da China”. Um número “virulento”, segundo os absolutistas, mas que aos olhos de hoje se afigura apenas como defensor dos princípios democráticos mais elementares que, aliás, viriam a triunfar em Portugal no final da guerra civil em 1834, ou seja menos de uma década depois. Felizmente que pouco antes da “queima” Frei António se conseguiu por a salvo fugindo para Cantão.

O segundo e último episódio do género ocorreu, espante-se! Já em pleno século XX. Este “auto de fé” teve tanto de anómalo como de premonitório. Ocorreu em 1926, e constituiu sinal claro da forma como o novo poder instalado em Lisboa em 28 de Maio desse ano encarava a liberdade de expressão e também a cultura em geral.

“Macau Histórico” (macauantigo.blogspot.com)

Desta vez a vítima foi o livro “Historic Macau” de Montalto de Jesus. Vítima inesperada, diga-se, já que o fogo do “Estado Novo” caiu sobre uma obra cuja primeira edição tinha conhecido larga difusão e recebido os maiores encómios junto do público e da crítica nacionais.

A segunda edição porém viria na pior altura. O autor era um republicano militante do Partido Democrático de Afonso Costa, principal formação política visada pelo golpe militar de Gomes da Costa, mas o que concitou a irritação do novo regime, foi o facto de nessa segunda edição Montalto ter acrescentado um capítulo à obra no qual punha em relevo a incompetência da política ultramarina portuguesa e sugeria a entrega da administração de Macau à recém criada “Sociedade das Nações”, antecessora da ONU (Organização das Nações Unidas).

A inadvertida proposta levantaria as iras dos poderes constituídos, que aproveitaram o pretexto para apontar o dedo ao republicanismo partidário como o mais anti patriótico dos sistemas políticos. “Ali estava, no livro de Montalto, claramente espelhada a justificação da ditadura militar”, bradavam o governador Tamagnini Barbosa e os seus seguidores.

Montalto de Jesus (macauantigo.blogspot.com)

A exaltação provocada por Montalto de Jesus levou a polícia efectuar rusgas casa a casa por toda a cidade a fim de apreender os exemplares da obra. Depois, o “maldito papel” encadernado foi empilhado perto do local onde hoje se situa a sede da “Fundação Macau” na Avenida da República e consumido em chamas, numa cerimónia percursora das grandes queimas de livros que seriam levadas a cabo alguns anos depois pelos nazis na Alemanha.

Os exemplares que sobraram escondidos por alguns, foram poucos, mas a principal vítima afinal seria o próprio autor que caído em desgraça seria completamente proscrito. Pobre, amargurado e só, Montalto de Jesus morreria em 1927, num asilo em Hong Kong, com 64 anos de idade.

O Navio Escola Sagres e a Fragata Salamandra 24-08-10

A rejeição por Pequim do pedido das autoridades portuguesas para o “Navio Escola Sagres” aportar a Macau, para além de embaraçosa, está longe de ser inédita na história do Território. Episódios semelhantes ocorreram antes, mas há um que vale a pena recordar, ainda que sem pretender estabelecer paralelos que diferentes períodos e circunstâncias históricas não comportam nem permitem subentender.

Navio Escola Sagres (Museu da Marinha, Lisboa).

O facto ocorreu há 187 anos.

Tudo se deveu aos reflexos da revolução liberal portuguesa de 1820, que se fizeram sentir em Macau com inédito vigor. Recebidas as notícias, do estabelecimento do novo regime em Portugal, não tardou que os principais dirigentes do governo, Leal Senado e militares desafectos à nova situação fossem literalmente varridos dos seus postos, sendo muitos deles presos e enviados para Goa a fim de ali serem julgados. Principalmente os militares que abertamente se recusaram a reconhecer a “Constituição”.

Decapitado o governo, o Leal Senado, foi a votos elegendo uma vereação liberal que passou a governar Macau segundo os princípios democráticos que a nova lei fundamental de Lisboa proclamava e garantia. Simultaneamente eram retiradas todas prorrogativas políticas ao Ouvidor, Miguel de Arriaga (juiz de direito cujos poderes à época extravasavam largamente os de um mero magistrando judicial) bem como as atribuições do Governador, José Osório Albuquerque que ficavam estritamente limitadas ao comando das tropas. Além disso Macau cortava os laços de dependência de Goa a que estava submetida no ordenamento colonial vigente proclamando oficialmente que passava a depender directamente de Lisboa. Na prática tratava-se de uma virtual declaração de independência, já que todas as comunicações entre Macau e o Terreiro do Paço passavam obrigatoriamente, ao tempo, pela “Índia Portuguesa”.

O triunfo dos liberais de Macau no entanto foi sol de pouca dura.

Em Goa, também o liberalismo mal teve tempo para se afirmar, regressando poucos meses depois um governo anti constitucional. Assim sendo havia que chamar à ordem os “rebeldes” macaenses. Para o efeito uma considerável força de infantaria apoiada por artilharia de campanha foi embarcada na fragata “Salamandra” e enviada para a China a fim de fazer regressar ao redil do “ancient regime” os insubmissos liberais. O capitão-de-mar-e-guerra Joaquim Mourão Garcez Palha comandava o corpo expedicionário e o imponente navio.

“Fragata D. Fernando II e Glória” navio de características semelhantes às da “Fragata Salamandra” (Pintura do Museu da Marinha, Lisboa).

Durante alguns meses, a fragata pairou ao largo esperando o momento propício para efectuar o assalto. Esse momento surgiria a partir da altura em que a China desse sinais claros de que não interviria na contenda. A certeza chegou a 18 de Setembro pela madrugada quando a “Salamandra” fundeou junto à fortaleza do Bom Parto (bem perto do local onde se ergue hoje a residência do Cônsul Geral de Portugal em Macau), desembarcando os cerca de duzentos fuzileiros que trazia a bordo bem como o esquadrão de artilharia. O golpe de mão foi bem sucedido.

Num só dia todas as posições estratégicas da cidade foram ocupadas, ou entregaram-se sem resistência incluindo o Leal Senado. Os liberais, que puderam, escaparam para Cantão, os restantes, nomeadamente o presidente da Câmara coronel Paulino Barbosa e vários outros oficiais foram detidos e internados nos presídios da fortaleza do Monte e da Guia. Garcez Palha por seu turno desembarcou também para assumir o cargo de Governador civil e militar declarando a lei marcial.

Em todos estes episódios que como disse duraram vários meses até à conclusão final do desembarque a China manteve silêncio e cautelosa neutralidade. Afinal o caso parecia ser exclusivamente entre portugueses. O vice-rei de Cantão limitou-se apenas inquirir oficialmente sobre o estado de tranquilidade de Macau naquela conjuntura: – Recebi uma representação acerca do desembarque dos soldados de Goa e que o governo (de Macau) está entregue a homens bons… V. Mercê me referirá pormenorizadamente quais são os que governam e também lhe ordeno que mande todos os portugueses que coíbam os seus criados de beber vinho para não haver desordens”. Escrito no dia 28 de Setembro este seria o primeiro de uma série de ofícios do mandarim Choi-me que supervisava Macau dirigido ao Procurador dos Negócios Sínicos que por seu turno fazia a ligação com a China.

O segundo ofício, de Choi-me, muito mais imperativo surgiria pouco depois dizendo: “de acordo com a lei toda a fragata estrangeira não pode entrar nesse porto de Macau, por conseguinte esta também não. Qualquer correspondência com ela pode ser feita por meio de botes ou, lanchas. Que a fragata não demore o tempo da partida para não haver desordem. Tal lhe ordeno que obedeça”. O mandarim concluía exigindo explicação sobre quais as razões que levaram a Salamandra e infringir a legalidade e permanecer atracada a Macau em vez de se manter fundeada ao largo.

Na resposta, datada de 23 de Outubro seguinte, o Procurador de Macau explica que a atracação da “Salamandra” se devia à necessidade de efectuar reparações urgentes e desembarcar marinheiros doentes e que o navio partiria mal estivesse pronto. Todavia certo é que tal não aconteceu.

Essa demora parece ter alarmado a China, receando que o pretexto de reparações do vaso de guerra escondesse de facto intenções de Lisboa de iniciar uma presença naval permanente em Macau suficientemente capaz de apoiar operações hostis ao “Império do Meio” em qualquer ponto das suas extensas costas intenções que as dimensões da “Salamandra” poderosamente armada indiciavam ser possíveis. Recorde-se que desde o tempo das caravelas nunca um navio de guerra de tal envergadura tinha estado em Macau. A desconfiança levou o próprio Vice-rei de Cantão a ordenar ao Procurado de Macau que expedisse “já, Já! uma ordem à dita fragata para partir sem demora alguma e no dia da partida dar disso parte”. Esta ordem era datada de 4 de Janeiro de 1824. A “Salamandra” mantinha-se imperturbavelmente ancorada no Porto Interior há mais de cinco meses e ali haveria de permanecer bastante mais tempo.

Na verdade a presença demorada do navio não se devia a qualquer nova estratégia militar de Portugal relativamente à China, mas apenas a questões de política interna da colónia decorrentes da sublevação.

De facto, se o assalto dos absolutistas foi um êxito e executado com rapidez e precisão, já a pacificação do Território demorou o seu tempo. Os tribunais instituídos para julgar os rebeldes e as sentenças ditadas, bem como as nomeações efectuadas para o preenchimento dos principais cargos públicos civis e militares por elementos afectos ao antigo regime exaltaram a população. Politicamente Macau estava ao rubro. O regresso do antigo ouvidor, Miguel de Arriaga e as posições intransigentes do bispo Francisco Chacim não contribuíam também em nada para acalmar os espíritos. A revolta só não voltou a transbordar porque os poderosos canhões da “Salamandra” estavam bem à vista de todos e todos sabiam que Garcez Palha não hesitaria em usá-los ao mais leve sinal de desobediência civil, ou tentativa de pronunciamento dos militares liberais que aceitaram a derrota e disciplinadamente se integraram na nova (velha) cadeia de comando, mas que continuavam a dar evidentes sinais de terem sido vencidos, mas não estarem convencidos.

A fragata zarpou finalmente de Macau com destino a Goa, no dia 23 de Novembro de 1824, ou seja mais de um ano depois da primeira exigência de partida do governo de Cantão fazendo suspirar de alívio o Vice-rei.

Depois da partida definitiva da “Salamandra” e do interregno absolutista a democracia liberal regressaria definitivamente a Macau cerca de dez anos depois com a tomada de posse do 1º tenente da Armada Bernardo José de Sousa Soares Andrea, como governador de Macau.

A conspiração do silêncio 17-08-10

Macau nunca foi terra de conservar arquivos. A história prova-o já que dos primórdios do território não existe sombra de documento. Assim a data de 1553, ou 1554 atribuída à fundação de Macau não passa da teoria já que os portugueses poderão ter chegado bastante antes, ou porventura uns anos depois até 1557 altura em que surge documentação chinesa que prova a presença lusa neste local.

Depois disso a documentação histórica continuou sempre a ser esparsa e largos períodos permanecem hoje por conhecer irremediavelmente perdidos.

Porém nos tempos mais modernos em que começou vigorar consenso sobre a importância de guardar o passado para aconselhamento futuro, ou quanto mais não seja para descobrir precedentes politicamente convenientes, ou paradigmas morais didáticos, a situação não melhorou muito.

É certo que documentos preciosos se salvaram da incúria, mas foram poucos. Demasiado poucos para a quantidade que se perdeu. Relativamente à conservação de documentos oficiais, ou jornais, por exemplo, houve sempre a boa desculpa, sincera, ou dolosa, da falta de espaço. De facto a exiguidade geográfica de Macau reflectia-se na pequena dimensão dos edifícios e das repartições que neles funcionavam e que por isso comportavam apenas espaço limitado para guardar “dossiers”. De tempos a tempos, havia que varrer papeis que não cabiam.

Um arquivo central é idealização relativamente moderna, por isso à falta dele os documentos sobejantes eram literalmente queimados, ou vendidos a peso. Quando não havia justificação plausível para tais acessos de higiene burocrática, surgia sempre como responsável última a praga endémica de Macau. A “formiga branca”. Os exemplos de incúria são demasiado numerosos para citar, mas um episódio referido pelo historiador Monsenhor Manuel Teixeira é exemplar. Trata-se do desaparecimento da rica biblioteca do Clube Militar. Os exemplares dela constantes não foram levados à “surrelefa” pelos frequentadores da sala, mas pura e simplesmente mandados deitar fora, porque eram um empecilho às obras de renovação de interiores de que o edifício necessitava. Outro caso semelhante ocorreu com a transferência da biblioteca do “Clube União” para o seu sucedâneo “Clube 1º de Junho” nos anos 30 do século passado. Até hoje não se sabe onde paira esse acervo, ou o que dele foi feito.

Para além da incúria casos houve em que a memória histórica foi intencionalmente eliminada pelas convulsões políticas, como o foi a destruição dos documentos e livros existentes no Leal Senado e Santa Casa da Misericórdia, destruídos durante os tumultos do “1, 2, 3” de finais de 1966 e princípios de 1967. Porém, casos como estes foram raros na história de Macau. A maior parte deveu-se sim à inexistência de uma política coerente de conservação de arquivos. Aliás se se folhear as páginas da “Cronologia da História de Macau”, de Beatriz Basto da Silva não são poucas as referências à constituição de comissões para a instalação de um arquivo histórico no Território. Na verdade o tal arquivo acabaria por surgir em moldes consistentes apenas já bem no interior da segunda metade do século XX.

Apesar de toda a história pouco menos que calamitosa que rodeia a preservação da memória de Macau existe todavia um hiato que fica por agora inteiramente por explicar. Trata-se da quase total eliminação de toda a documentação referente ao período de 1940 a 1946, ou seja os seis anos durante os quais lavrou a “Guerra do Pacífico”.

De facto, sobre essa época restam apenas as memórias orais de quem viveu esses tempos e pouco, ou mesmo nada mais.

Ora o desaparecimento da documentação oficial e não oficial do período da guerra não parece ter sido produto de incúria, nem obra da “formiga banca”, mas sim decisão premeditada e politicamente motivada.

Facto significativo neste âmbito não deixa de se demonstrar na lacuna existente na vasta obra bibliográfica de Monsenhor Manuel Teixeira. O número dos seus livros ascende a mais de centena e meia abordando neles os aspectos mais diversos de Macau. Alguns constituem tomos de grande fôlego, recheados de transcrições documentais e notas de rodapé. No entanto entre tanta obra, um dos períodos mais dramáticos, e socialmente relevante da história de Macau ocupou apenas na sua extensa obra um opúsculo de 35 páginas sob o título: – Macau Durante a guerra. Nessa pequena monografia o historiador, ao contrário do que habitualmente fazia, não cita documentação, limitando-se a transcrever as suas próprias memórias,. Isto apesar de confessar logo no primeiro parágrafo que “ Macau viveu o período mais crítico de toda a sua história, quatro vezes secular, durante os quatro anos da guerra do Pacífico (1941-1945” e acrescentar um pouco mais à frente que, “pouco, muito pouco se tem escrito sobre a vida em Macau” durante esse conflito.

Monsenhor Manuel Teixeira que tantas vezes verberou a negligência endémica no que toca à guarda das fontes da memória de Macau, nunca teve uma palavra para o vácuo gritante que neste caso se patenteia.

De facto, se pouco se escreveu e o que existe são memórias, como confessa o historiador, tal se deve a uma única razão a inexistência de fontes documentais. O misterioso desaparecimento dos arquivos desse período parece ter ocorrido não muito depois do encerrar das hostilidades, já que nem Monsenhor Manuel Teixeira, nem outros historiadores coevos referem a sua existência, ou citam documentos ao período referentes.

Uma busca recente que efectuei no Arquivo Histórico procurando o que existe sobre o governador Gabriel Teixeira que administrou Macau durante toda a guerra do Pacífico produziu cerca de meia centena de documentos avulso o mais antigo dos quais com data de 1960 e quase todos referentes a expediente relativo à escola primária que tinha o seu nome.

No que toca aos arquivos militares desse período não há mistério, pois sabe-se que em finais da década de 60, toda a documentação foi devidamente acondicionada, selada e enviada para Portugal. Repousa actualmente no arquivo militar anexo ao Museu Militar de Lisboa.

Mas quanto ao resto? Perdeu-se-lhe o rasto, ou gerou-se em torno desse mistério uma conspiração de silêncio?

Agosto de 1945: As doze mulheres especiais de Macau 10-08-10

 Alta ansiedade é o termo que melhor pode caracterizar o estado de espírito que se vivia em Macau no mês de Agosto de 1945.

No final de quatro anos de total bloqueio, as emissões da BBC e Voz da América, praticamente, os únicos meios de comunicação regular que mantinham o Território ligado ao mundo exterior, anunciavam o avanço imparável das forças aliadas por toda a região da Ásia Pacífico em direcção a Tóquio e as sucessivas derrotas do exército imperial nipónico.

As dúvidas sobre o resultado da guerra que já não eram muitas desde os primeiros meses do ano dissiparam-se no dia 6 desse mês com o lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima. A partir daí a rendição do Japão já inevitável passava a ser questão de muito curto prazo.

Em Macau rejubilava-se, mas a vitória encontrava-se longe de estar completa. De facto, Hong Kong permanecia em mãos nipónicas e as várias dezenas de milhares de refugiados, portugueses de Hong Kong, ingleses, americanos e de diversas outras nacionalidades imersos na mais completa desmoralização depois de pesados e angustiantes anos de cerco, contavam as horas esperando a todo o momento o anúncio do desembarque  anglo americano do outro lado do Rio das Pérolas.

No entanto, apesar das novas libertadoras que perpassavam pelo Extremo Oriente o futuro de Hong Kong mantinha-se seriamente duvidoso no que tocava ao regresso à situação colonial anterior à guerra.

De facto, o presidente americano Franklin Delano Roosevelt, tinha prometido ao governo nacionalista de Chang Kai Shek que, logo que expulsos os japoneses, Hong Kong seria restituído à China e não à Grã-bretanha.

Diga-se que no teatro de guerra a campanha aliada no Extremo Oriente decorria sob o alto comando americano (almirante Chester Nimitz), embora integrasse também forças navais inglesas.

Para além do combate directo contra os japoneses na ilhas do Pacífico as forças americanas estavam envolvidas no continente, essencialmente no apoio e colocação de tropas num  xadrez estratégico previamente delineado que incluía as principais cidades da China, mas não contemplava Hong Kong.

Seria nesse quadro de indefinição que Macau assumiria um papel relevante no que toca às manobras político militares de Londres destinadas a evitar que Chang Kai Shek se reapossasse da colónia.

Nesse quadro Macau assumiu o papel de ponta de lança nas operações destinadas a preparar o regresso das autoridades britânicas de modo içar no “Porto de Vitória” de novo a “union jack” antes que as tropas nacionalistas ali fizessem flutuar a do Kwomintang.

Neste âmbito o destaque foi para o cônsul de Inglaterra em Macau, John P. Reevs e para o “BAAG” (British Army Aid Group), rede de resistência comandada a partir de Chongqing pelo coronel Lindsay Ride, o de que faziam parte, numeroso macaenses e chineses, como o médico Eddie Gozano, Roger Lobo, o historiador Jack Braga, Y.C.Liang e muitos outros.

Todas essas figuras se multiplicaram durante o ano de 1945 em missões clandestinas de vai e vem entre Macau e Hong Kong, destinadas a reorganizar o governo britânico e a nomear pessoal de confiança para os diversos postos políticos e administrativos. Para além de garantir a adesão de figuras influentes na sociedade de Hong Kong, nomeadamente antigos membros do Conselho Legislativo colonial, vários elementos da anterior administração que se encontravam presos em campos de concentração receberam instruções para se prepararem para reassumir funções.

Entre as várias personalidades contava-se o antigo secretário colonial Francklin Gimson e o presidente do supremo tribunal Athol MacGregor, ambos internados no campo de Sham Shui Po.

O plano posto em prática resultou em pleno, já que aproveitando o momento de hesitação imediatamente anterior à rendição formal do Império do Sol Nascente, Gimson brandindo as credenciais do governo de Londres que o davam como governador em exercício em nome a de sua majestade reocupou o palácio do governo. O sucesso de Gimson contou com a aquiescência tácita do comando japonês que não possuindo instruções formais sobre o que deveria fazer naquela conjuntura, não colocou obstáculos à ousadia do ex-prisioneiro de guerra.

O golpe foi levado a cabo no momento certo tendo em conta o facto das tropas do Kwomintang que acabavam de ocupar Cantão, se encontrarem já junto à fronteira de Kowloon prontas a receber a rendição japonesa. Graças a Gimson quem a receberia seria o almirante Cecil Hacourt que desembarcaria com a flotilha inglesa no dia 30 de Agosto, em Hong Kong.

Conhecida esta sucessão de episódios Macau fervilhava de emoção, no entanto um balde de água fria arrefeceu os ânimos. Através da edição inglesa do jornal “Renascimento”, os refugiados eram avisados de que pelo menos a breve prazo não haveria regresso a casa. O jornal acrescentava que as notícias sobre a reabertura das carreiras fluviais de passageiros entre os dois territórios eram falsas.

O frustrante anúncio do “Renascimento” prendia-se com o facto de a administração britânica ter reassumido apenas e quase só simbolicamente o controlo de Hong Kong, já que na prática o que funcionava era a estrutura montada  e operada pelos japoneses com auxílio de colaboracionistas. As autoridades britânicas previam um prazo mínimo de três anos para o restabelecimento da situação administrativa anterior à guerra e o regresso dos refugiados teria por isso de ser escalonado.

Nesse âmbito o plano do cônsul Reeves entrou numa segunda fase, ou seja a de seleccionar entre os refugiados em Macau aqueles que tinham sido funcionários públicos antes da ocupação japonesa e escolher outros que tivessem perfil capaz para substituir japoneses e colaboracionistas.

 

Fragata “HMS Parret” que trasportou o grupo especial de dactilógrafas de Macau

A fragata “HMS Parret” seria o navio enviado expressamente a Macau para transportar o primeiro grupo Curioso é que nessa operação de emergência as mulheres tiveram prioridade. Não porque o fossem, mas sim porque um grupo especial de dactilógrafas credenciadas para lidar com o expediente civil e militar classificado estava pronto a partir para iniciar funções de assessoria ao almirantado.

Segundo Stuart Braga, eram doze as escolhidas que constavam da lista secreta de John Reeves: -D. Jex, Olga Carvalho, Elsa Carvalho, Mercedes Roza, Marie Roza, Argentina Gonsalves, Lolita Yvanovich, Avelina Gosano, Betty Clarke, Philomena Gonsalves, Irene Alonso e Hilda May. Foi este o núcleo duro da refundação britânica de Hong Kong há 65 anos.

Mistérios de Macau na Guerra do Pacífico. 03-08-10

Para os historiadores e investigadores um dos maiores mistérios, ainda que dos mais recentes, é o período em que Macau mergulhou, como pequeno território neutral, na “Guerra do Pacífico”.

A principal razão para que tal se verifique prende-se com a gritante ausência de documentação sobre esses anos depositada nos arquivos locais e a quase inexistência de jornais que poderiam esclarecer alguma coisa.

Infelizmente, o Arquivo Histórico, poucos documentos possui referentes ao período entre 1940-46. Por outro lado os poucos jornais que subsistiram intermitentemente durante essa época surgiam a público fortemente censurados, pelo que deles pouco se pode extrair, mesmo relativamente a aspectos da vida social quotidiana.

Sendo assim, a maior parte dos estudos e monografias publicadas baseiam-se essencialmente na tradição oral e não em quaisquer fontes documentais oficiais, ou não. Refira-se que panorama de certa forma semelhante se verifica igualmente no que a Hong Kong diz respeito, embora na vizinha RAEHK se encontre disponível um acervo consideravelmente maior.

De salientar, neste aspecto, o estudo de Chan Sui jeung, intitulado – “East River Column, Hong Kong Guerrillas in the Second Worls War and After”, publicado o ano passado pela “Royal Asiatic Society”por exemplo. A investigação que trás à luz numerosos episódios tão determinantes quanto obscuros, particularmente no que se refere a Macau, baseia-se em grande parte na tradição oral. O autor despendeu anos a ouvir as memórias de numerosos combatentes e não combatentes que em vários graus intervieram nos acontecimentos, principalmente os guerrilheiros comunistas, que depois da guerra optaram por permanecer na antiga colónia britânica.

No que à documentação diz respeito sabe-se da existência de alguns arquivos, embora se encontrem todos fora de Macau.

Uma das mais celebradas fontes é a chamada “Biblioteca Jack Braga”. Trata-se do acervo documental do investigador do mesmo nome, que foi comprado por uma universidade australiana e repousa na Biblioteca Nacional da Austrália em Camberra. No entanto os documentos sobre a Guerra do pacífico que dele constam parecem ser apenas recortes de artigos de jornal e transcrições de emissões de rádio que, como referi, eram alvo de forte censura pelas autoridades.

Por estudar permanece o conjunto documental do exército que se encontra praticamente em bruto depositado no “Arquivo Histórico Militar” de Lisboa.

Outro arquivo que se encontra agora já disponível é o do antigo ditador Salazar, depositado na Torre do Tombo. Trata-se de uma colecção inestimável, que está já aberta à consulta pública e que os investigadores começam agora a estudar nos seus múltiplos aspectos.

Este arquivo já revelou alguma coisa quanto ao papel de Macau, nomeadamente a sua participação na rede de inteligência aliada na guerra.

No entanto muitos pontos obscuros permanecem por esclarecer. Tanto no que diz respeito à situação político-militar, como também nos domínios sociais e económicos.

Neste âmbito, por exemplo, sabe-se que comunidades inteiras de expatriados evacuaram literalmente Tientsin, Xangai e Cantão entre outras cidades, com destino a Hong Kong perante o avanço japonês. Com a subsequente queda de Hong Kong, no Natal de 1941, todos esses refugiados acabaram por vir parar a Macau, que na altura era o único ponto neutral de todo o Extremo Oriente.

Sabe-se que o primeiro navio com alguns milhares de refugiados largou do Porto de Vitória, no dia 7 de Fevereiro de 1942, com alguns milhares de refugiados a bordo rumo à colónia portuguesa. Todavia não se conhecem quaisquer estatísticas que possam informar sobre o número de pessoas que o Território então acolheu. A tradição oral sobrepõe-se nesta área indicando que a população terá aumentado de cerca de 200 mil pessoas para 500 mil. Algumas testemunhas contemporâneas referem mesmo uma milhão de almas. Como foi possível absorver e manter tal número de pessoas num território de tão parcas dimensões por tão longo período? Negociar com os japoneses. Trocar os canhões da fortaleza do Monte e o principal navio da guarnição naval (Canhoneira Macau) por arroz. Enterramentos colectivos em valas comuns dos numerosos famintos que não resistiam. Atribulações da polícia para manter a ordem pública. Ocupação e transformação de monumentos e repartições públicas em centros de refugiados. Todas estas são respostas parciais, bebidas na tradição oral, que permitem traçar um quadro geral da situação mas pouco mais esclarecem.

Gabriel Maurício Teixeira governou Macau entre 1940 e 1947

Uma avaliação do governo do comandante Gabriel Maurício Teixeira (1940-47) está quase inteiramente por fazer.

Sabe-se alguma coisa do que empreendeu para manter uma sempre precária neutralidade durante esses anos. No entanto, poucos sabem que para além de resistir aos japoneses, Maurício Teixeira teve de enfrentar igualmente uma feroz oposição política interna traduzida, nomeadamente, na fuga para a Metrópole do chefe da “Administração Civil”, Menezes Alves, com auxílio das redes de espionagem aliadas. A consulta do “Arquivo de Salazar” permitiu desvendar parte desse mistério.

Outro mistério de que por agora pouco se sabe é o que se refere à situação de virtual rebelião militar que teve de enfrentar.

O súbito aumento do custo de vida e a escassez de géneros terá gerado forte descontentamento entre a guarnição militar, fazendo eclodir a rebelião que começou na Companhia de Metralhadoras, em Março de 1942.

Perante a insubordinação, militares fiéis a Gabriel Teixeira conseguiram restabelecer a ordem, prendendo o comandante da companhia tenente Viera Branco. No entanto a detenção do oficial, em vez de desactivar a revolta, fê-la alastrar-se mais ainda já que foi posto a correr o boato de que Vieira Branco tinha sido preso apenas por ter proposto ao Governador um aumento de vencimento dos soldados. Para além do exército e marinha, a Polícia de Segurança Pública esteve igualmente a um passo de aderir.

Apesar da agitação, no entanto, Gabriel Teixeira (como? Não se sabe.) conseguiu sufocar o motim, que resultou na demissão de vários oficiais sargentos soldados e civis. Alguns seriam detidos e enviados para Portugal, enquanto outros se viram desterrados para as ilhas (Taipa e Coloane) sob a acusação de “comunistas e revolucionários”.

Sobre este episódio que seguramente terá provocado forte comoção na Macau da época não restam vestígios que se conheçam na tradição oral conhecida dos tempos da guerra.

NOTA. Enquadrando-se este artigo essencialmente no ano de 1942, devo referir que foi precisamente naquela data, mais precisamente em 22 de Julho, que faleceu Damião Rodrigues, de que falei anteriormente em peça intitulada “E no pico do Verão chegou a ditadura”. Ali atribuí erradamente àquele a co-fundação do Centro Democrático de Macau em 1974. De facto quem participou na fundação do CDM foi obviamente seu filho que igualmente se chamava Damião Rodrigues e que do pai herdou a fibra combativa de republicano e democrata de antes quebrar que torcer.

E no pico do Verão chegou a ditadura 27-07-10


Foi no dia 22 de Julho de 1926, mais, ou menos no pico do Verão, que em Macau se encerrou o agitado “drama” político da 1ª República. Coube ao coronel Manuel Firmino de Almeida Maia Magalhães fazer descer o pano da democracia, demitido do cargo de Governador pela ditadura militar que se tinha estabelecido em Portugal na sequência do golpe de 28 de Maio desse ano liderado pelo marechal Gomes da Costa.

A Tamagnini Barbosa, um apoiante entusiasta do golpe de Braga, caberia o papel de fazer subir de novo o pano para o extenso acto político que se iniciava em Portugal e que teria como protagonista Salazar. Primeiro governador não militar a exercer o cargo em Macau, Tamagnini inaugurava com agrado a nova era, já que ao contrário dos irmãos democratas indefectíveis, era um dos apoiantes de primeira hora das correntes nacionalistas que queriam acabar com o parlamentarismo de uma vez por todas em nome da ordem pública.

A notícia do pronunciamento de 28 de Maio de 1926, chegou a Macau rapidamente e Maia Magalhães habituado aos golpes e contra-golpes da Metrópole não parece ter levado muito a sério os acontecimentos de Lisboa. Afinal, apesar de todas revoluções e conspirações fracassadas ou triunfantes da última década certo era que o Partido Democrático (PD) acabava por, de uma maneira, ou de outra, emergir sempre na governação do país. Apenas durante o breve consulado de Sidónio Pais (1917-18) o PD se viu afastado do governo.

Porque não haveria de ser assim mais uma vez? pensaria Maia Magalhães. Terá sido nessa ordem de ideias que o governador de Macau em vez de colocar o lugar à disposição das novas autoridades aguardou tranquilamente o desenrolar dos acontecimentos. Porém daquela vez não se tratava de apenas mais uma conspiração no seio do sistema, mas sim um movimento generalizado contra os partidos acusados de desgovernarem o país, que passava então por uma das mais graves crises financeiras desde a instauração da República em 1910.

Manuel Firmino Maia Magalhães, último Governador de Macau da 1ª República.

Face ao seco telegrama que lhe impunha a demissão e nomeava interinamente o almirante Hugo de Lacerda, governador, Maia Magalhães sentiu necessidade de se justificar perante o Conselho Legislativo da colónia afirmando que não o fez porque “ as contingências da política da Metrópole não deviam reflectir-se nas colónias pelo prejuízo causado e que não se encontrava filiado no Partido Republicano Português que perdera o poder”.

Mas se era um facto que Maia Magalhães, não era militante do PD, facto era também que não nutria qualquer simpatia pelas novas figuras que acendiam nem pelo seu ideário. Maia Magalhães era um democrata de longa data e créditos firmados em combate. Primeiro contra a “Monarquia do Norte”, tendo-se distinguido na defesa de Chaves contra as tropas de Paiva Couceiro e mais tarde integrando o “Corpo Expedicionário Português” que combateu em França na “Primeira Grande Guerra Mundial”.

Maia Magalhães continuaria a luta participando em 1931 na fracassada “revolta da Madeira” contra a ditadura, sendo então preso. Morreria no ano seguinte.

Embora em Macau não se conhecessem intenções revolucionárias notórias, a demissão de Maia Magalhães constituiu um sinal iniludível de que algo iria mudar e mudou mesmo. Era chegada de novo a hora de Tamagnini Barbosa, que já tinha governado Macau (1918-19), afastar quem lhe não convinha e nesse campo não perdeu tempo. Mas se o seu antecessor tinha abandonado o campo sem luta por força das circunstâncias, o campo democrático local manteve-se firme quanto pode tendo na liderança Damião Rodrigues, o prestigiado notário da cidade, que para além de um pequeno, mas activo grupo de correligionários fieis, era também o presidente do Leal Senado e desfrutava de forte influência que se estendia largamente à comunidade chinesa.

Tamagnini Barbosa 1º Governador de Macau nomeado pela ditadura

O combate entre Tamagnini Barbosa e Damião Rodrigues foi duro e sem quartel. O governador vendo-se impossibilitado de arredar sem mais justificações o inimigo político não hesitou mesmo numa tentativa de extinguir a edilidade e transforma-la como no século anterior o tinha feito Ferreira do Amaral, numa simples secretaria do Governo unindo as fileiras da oposição.

A luta durou até 1929, feita publicamente através do jornal “O Petardo” de Isidoro da Costa, que se publicava nas tipografias de Kowloon, em Hong Kong, eximindo-se assim à censura de Macau.

Durante cerca de dois anos este jornal constituiu um libelo acusatório semanal contra a política ultramarina da ditadura, sem que Tamagnini Barbosa pudesse fazer fosse o que fosse para o calar. A oportunidade surgiria no entanto um tanto inesperadamente quando o próprio Damião Rodrigues assinou um artigo atacando pessoalmente Tamagnini Barbosa e insinuando a implicação do próprio Governador no assassinato do comerciante de ópio Lee Hysan.

Acto contínuo o governador de Hong Kong (claramente pressionado por Macau) suspendeu a publicação de “O Petardo” e pouco depois Damião Rodrigues seria preso juntamente com outros democratas e subsequentemente deportado para Timor.

Apesar da vitória, Tamagnini Barbosa, não se livrava da sombra de Damião Rodrigues. De facto, a esposa assumiu o facho democrático do marido levantando a opinião pública e conseguindo fazer chegar a Lisboa um abaixo-assinado de protesto contra a prisão. Naturalmente que o protesto não obteve resultados práticos, mas reanimou as hostes levando a que nas eleições para o Conselho de Governo de 1930, Damião Rodrigues, apesar de desterrado se visse eleito como vogal suplente e o seu advogado vogal efectivo. A eleição de ambos seria no entanto anulada sob o pretexto de ambos serem funcionários públicos situação prevista na Carta Orgânica.

O “jornal de Macau” veria em tudo isto não só uma prepotência mas mais ainda uma censura ao “Estado Novo” afirmando: – O acto governativo a que acima nos referimos foi sancionado pelo Governo Central e assim somos levados à conclusão de que essa fracção do eleitorado de Macau elegendo neste momento o Sr. Dr. Damião Rodrigues para vogal suplente do Conselho de Governo, estando este Senhor afastado da Colónia por motivo desse sancionamento do poder superior, implicitamente envolve o Governo Central numa censura que outra coisa não procura ser essa mesma manifestação embora de um platonismo forçado pela Carta Orgânica”.

Como ilustração da fibra combativa de Damião Rodrigues, há quem recorde que depois de regressar a Macau do exílio timorense colocou na parede do átrio de entrada de sua casa um retrato de grandes dimensões do ex-líder do Partido Democrático Afonso Costa. Dizem que ali o manteve bem patente em simbólico desafio à ditadura até à sua morte em 22 de Julho de 1942.

Portugal, Macau, o IPOR e o “Pátio das Cantigas” 20-07-10

Começo por parafrasear Vasco Santana, no “ O pátio das Cantigas”, quando o genial actor, bem “tocado” por uns quartilhos de tinto, pede lume ao candeeiro de iluminação pública e este, soberano, se exime a satisfazer o pedido manipulado pelo não menos famoso astro do cinema de então que se chamava Ribeirinho, que com seu irmão António Lopes Ribeiro fez o argumento do filme. Um “script repleto de equívocos e duplos sentidos”.

– “Compreendi-te (Diz Vasco Santana no papel de Narciso). Não te rebaixas a dar lume a este humilde cidadão. Pensas que és o Sol?…”. Este monólogo memorável ficou para a história do cinema nacional como as fábulas de Esopo para a história da ética e moral universais (penso que não exagero muito neste paralelismo!).

A citação surge tendo em conta a recente visita a Macau da Presidente do “Instituto Camões” Ana Paula Laborinho, que superintende sobre o IPOR.

Do que disse, ou deixou de dizer pode inferir-se que à semelhança do candeeiro de Vasco Santana, igualmente, o “Instituto Camões” se negou a dar lume ao humilde Narciso que precisava apenas de reacender o que restava de uma beata semi-apagada.

Nesse contexto de visita oficial citaria António Aleixo: – “Sou humilde, sou modesto; Mas, entre gente ilustrada, Talvez me digam que eu presto, Porque não presto p’ra nada”. Este trecho do poeta popular algarvio, que às vezes em momentos de irritação, apetecia chamar à colação como protesto geral, ou “grafity” anarquista de parede é pronunciamento evidentemente exagerado, ou mesmo liminarmente injusto, no âmbito do que me proponho dizer a seguir. Sendo assim peço ao leitor que tenha em conta Vasco Santana e esqueça António Aleixo.

Assim temos uma analogia que não parece descabida tendo em conta que com a retirada progressiva da “Fundação Oriente” da “frente de combate de Macau”, a beata da difusão da cultura portuguesa a nível local parece efectivamente condenada a esmorecer até final e languidamente cair de lábios bêbados e apagar-se de todo, irremediavelmente, na quadrícula preta e branca de basalto da calçada à portuguesa do Centro Histórico. Isto, enquanto o candeeiro da iluminação pública se vai retirando sorrateiro pela “Rua da Palha”, descendo as escadinhas traseiras do “Embaixador” até se esconder definitivamente no misterioso “Pátio da Mina” (dorme-se lá bem porque fica à sombra e costuma estar mais fresco nos dias de calor).

Ficam-se as pedras e vão-se as pessoas.

Um exemplo deste esmorecimento “imerecível” como diria Mário Henrique Leiria, posta-se diante de nós não muito longe. É em Malaca, onde uma comunidade votada durante séculos ao abandono sobreviveu encerrada em si e graças a si própria até hoje.

Esse diminuto grupo étnico não enfrentou a extinção por pouco, mas também não gerou cultura nem se afirmou no contexto geral de um país (Malásia).

Há umas décadas para cá essa pequeníssima comunidade “malaquenha”, lá começou a receber uns tímidos apoios oficiais de Portugal, ainda que parcos e curtos de vista.

Mas de que lhe serviram senão para continuar a ser a mesma comunidade de pescadores pobres que sempre foi. O “ban portuguete” (Creio que é assim que se diz em crioulo dessas partes), ou “bairro português” organizou um rancho folclórico que actua num restaurante chamado S. Pedro. Não sei se já haverá outros mais e semelhantes, actualmente, abertos ao público, com outros ranchos folclóricos e marchas de Santos Populares nos respectivos dias consagrados aos ditos que darão emprego a uma dúzia, ou duas, de pessoas. Mas o que se tenha acrescentado culturalmente desde há cinco décadas para agora à “extraordinária Malaca” dos Tempos de Albuquerque continua a ser parca esmola a pedinte de rua.

Que tem a dizer de si actualmente o “ban portuguete” no contexto da Federação da Malásia?

Que validade terão tido tais esforços isolados e principalmente estrategicamente incoerentes implementados desde os anos sessenta do século passado?

Resposta: – Pouco mais do que acrescentar nada ao que já havia antes. E o que existia é o mesmo que ali jaz hoje, em dia, para turista ver: – fieis católicos, que vão à missa ao Domingo; procissões; inestimáveis homens da Igreja, como o malogrado Padre Pintado (autor de todas a monografias publicadas e conhecidas sobre o sítio depois dos cronistas de quinhentos); uma pequena porta de armas da muralha antiga (Porta de Santiago); a Igreja de S. Francisco, contemporânea de Afonso de Albuquerque, acerca de cujas paredes a “câmara municipal” da cidade continua ainda hoje a fazer exercícios de acrobacia financeira para manter de pé, sem ajudas de quase ninguém; e um museu pequenino e parcamente cuidado. Na verdade o que Malaca possui de substância histórica e cultural são pedras. O resto é Malásia onde se fala inglês.

Tudo isso é pouco, ou muito, consoante se entender, ou se tiver em conta que em Malaca, tal como no resto do Mundo, os orçamentos para a cultura costumam ser iguais ao das provas reais, ou seja: – noves fora nada. E o que é que faz Portugal nesta conjuntura lamentável? Nada!

Com esta comparação não pretendo ser catastrofista e muito menos fazer de ave de mau agoiro. Não!

Macau, dotado de uma comunidade viva e actuante, que luta actualmente, por exemplo, para instituir o “patuá como património intangível da humanidade e parece estar em vias de conseguir esse feito, não está, nem de longe nem de perto, a enfrentar situação comparável à dos “malaquenhos”. Bem pelo contrário.

No entanto tenho para mim que os exemplos da história devem ser tidos em conta para que erros não se repitam, ou então para que soluções inovadoras sejam encontradas de forma a evitar que o passado se volte a manifestar de maneira idêntica, irritantemente repetitiva e com consequências semelhantes, ou piores, como o girar do mundo evidencia nas mais diversas partes do globo e sob as mais diversas formas. Ou então para não ter que aceitar as teses do taoismo que nos informa que a vida são ciclos. Umas vezes a roda está em cima, outras em baixo. A civilização lusa rejeita tais fatalismos. Quanto mais não seja o Portugal do fado nunca deixou de acreditar na redenção do “Quinto Império”.

Neste ponto não posso deixar de citar um trecho do malogrado Eduardo Prado Coelho, num dos seus últimos escritos, publicado em 2007: – “Pertenço a um país: – … Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem  que é “muito chato ter que ler”) e não há consciência nem memória política, histórica nem económica”.

Longe de mim implicar nesta citação os agentes do Estado Português, que fazem o seu melhor tendo em conta os orçamentos de que dispõem e principalmente a ordem de que se têm vindo a ver incumbidos que é a de dar prioridade aos negócios. Não aos negócios estrangeiros, a que os nossos embaixadores estiveram habituados desde que a diplomacia é diplomacia em Portugal, mas apenas ao primeiro vocábulo da composta palavra, ou seja: – negócios “tout court”.

Se a nossa política externa se ficar pelos tais negócios “tout court” receio bem que, pelo menos no que toca ao Extremo-Oriente, tenhamos fracasso certo à vista.

Há porém neste contexto aparentemente ominoso muitos mais motivos de optimismo do que o contrário.

Primeiro: – porque a comunidade macaense no seu todo (por muito que tal se ponha em duvida) possui uma identidade própria independentemente da origem dos cidadãos que a compõem vai para meio milénio.

Segundo: – porque o segmento lusófono que a integra não é amorfo (poderá ser fatalista reflectindo atavismos), nem alheio, nem neutral, e muito menos imigrante.

Terceiro: – porque existe um acordo entre Portugal e a China que informa, forma e indica uma etapa sobre a qual ainda restam 40 anos por cumprir.

Quarto: – porque a China tem demonstrado, até agora (e nada indica que modifique essa atitude), a maior das boas fés em matéria de cumprimento da “Declaração Conjunta”. Mesmo quando se sabe que os tratados internacionais não passam de facto de “papéis de vento” circunstanciais e a China motivos teria (e de sobra) para os rasgar a todos, tendo em conta as humilhações sofridas pelas potências ocidentais durante o século XIX.

Quinto: “Last, but not the least” porque Pequim entende que a lusofonia em Macau é um instrumento útil que deve não só ser preservado como incentivado e muito provavelmente não só pelas 40 décadas que juridicamente restam.

Tendo tudo o que disse tem em conta que não se pede ao Estado português que mande dinheiro directamente, ou por interpostas pessoas, ou instituições, para sustentar uma escola, um asilo, um jornal, ou um qualquer projecto privado. Não! As instituições lusófonas locais não precisam de pedir dinheiro a Portugal que (muito mais neste tempos de crise) é evidente que o não tem. Aliás Macau terá sido das poucas colónias portuguesas que nunca pediu dinheiro à Metrópole para se financiar (ao contrário de outras), mas exige apenas ao “Palácio das Necessidades” que não se esqueça do que no livro de contas do deve e haver da história Macau sempre constou e com proeminência na lista dos activos com super-avit.

Acima de tudo o Território nunca foi nem será nunca um livro de balanços contabilísticos. Para a actualmente abrangente, global e lusa Pátria, Macau é pura e simplesmente uma questão de cultura. A nossa cultura que existe viva e actuante pelos quatro continentes.  Haja quem o entenda e o assuma (em Lisboa é claro) porque aqui já sabemos, há muito, onde vivemos e com o que contamos.

Dois irmãos na ponte de comando contra os piratas de Coloane. 13-07-10

Passa agora o centenário dos combates contra os piratas na Ilha de Coloane, no que terá sido talvez a última grande campanha naval ultramarina da monarquia. Muita coisa se tem dito sobre o assunto, mas um estudo mais aprofundado sobre o episódio está ainda por fazer.

Na generalidade sabe-se bem como as coisas aconteceram e o eco que lhes foi dado não só na imprensa portuguesa como internacional. Permanecem porém alguns detalhes que nunca foram referidos e que vale a pena salientar a propósito desta efeméride.

Um deles é o facto de dois dos mais importantes chefes da marinha de guerra portuguesa presentes nas operações serem irmãos.

Refiro-me ao comandante do “Cruzador Rainha D. Amélia”, que com os seus fuzileiros forneceu o grosso das tropas de desembarque e ao imediato da Canhoneira Macau, navio que efectuou o bombardeamento da vila de Coloane, barragem de artilharia que cobriu e antecedeu o avanço das forças de assalto.

Trata-se de António e Manuel Jervis de Athouguia Ferreira Pinto Basto.

António era o comandante do “Cruzador Rainha D. Amélia” que efectuava em 1910 o habitual périplo da marinha portuguesa pelas colónias asiáticas. Manuel era o imediato da “Canhoneira Macau”.

Mas enquanto António efectuava a sua primeira viagem ao Extremo-Oriente, já como oficial superior, Manuel era ainda apenas um segundo-tenente que iniciava uma comissão de serviço na colónia portuguesa da China. Uma comissão que haveria de ser longa mais longa do que o inicialmente esperado (o habitual eram quatro anos), recheada de episódios misteriosos e que terminaria num fim inesperadamente extemporâneo e dramático.

Manuel Jervis  de Athougya Pinto Bastos. Fotocópia da foto constante no seu processo existente no Arquivo da Marinha.

Manuel Jervis foi o oficial que após o bombardeamento da vila, em Julho de 1910, desembarcou com cerca de 40 fuzileiros que seguiam a bordo da canhoneira para efectuar a ocupação efectiva da vila e das imediações. Só depois disso o grosso das tropas apoiado pela artilharia poria pé em Coloane e iniciaria a escalada sistemática dos alcantis montanhosos da ilha varrendo o terreno de lés a lés numa operação que culminou com o aprisionamento dos últimos piratas refugiados numas grutas do lado oposto ao desembarque alguns dias depois.

Manuel Jervis de Athouguia Ferreira Pinto Basto nasceu em Lisboa em 1882 e entrou para a Marinha exactamente ao dobrar do século (1900). O seu primeiro contacto com Macau ocorreu em 1905, quando integrou a tripulação da “Canhoneira Rio Lima”, vazo de guerra envelhecido, que a “Canhoneira Macau” viria a substituir em 1909.

Apesar da sua juventude, para além de oficial corajoso, como ficou demonstrado em Coloane era igualmente dotado de valor intelectual e científico acima da média. Essa faceta é revelada pelo trabalho desenvolvido na determinação das coordenadas geográficas exactas do Farol da Guia.

Farol da Guia. Cortesia Blog Macau Antigo.

Este trabalho foi tanto mais relevante quanto o “GPS” seria aparelho que só surgiria cem anos mais tarde para banalizar a questão e obliterar de todo bússolas, altímetros e mais ainda sextantes quinhentistas.

Na altura determinar as coordenadas, mesmo de um objecto físico imóvel como era o Farol da Guia, exigia um sem número de operações no terreno, consulta de cartas geográficas e topográficas, cálculos, novos cálculos, correcções e mais correcções que exigiam não só estóica paciência e disciplina como particular rigor e sólidos conhecimentos científicos. O trabalho revelava-se na altura tanto mais importante quanto se negociava nas chancelarias diplomáticas de Pequim e Lisboa a delimitação das águas territoriais de Macau. A sua persistência valeu-lhe um louvor do Governo do Território publicado em Boletim Oficial em Agosto de 1906.

Pouco depois, e um ano antes de rumar para a sua última comissão de serviço em Macau, Manuel Jervis, viria a ser também louvado pelo Governo de Lisboa pelo seu trabalho de sondagens e estudos de marés que executou no Funchal (Ilha da Madeira) em 1908 quando fazia parte da tripulação do “Cruzador Vasco da Gama”.

Para além dos seus conhecimentos científicos, Manuel Jervis era também particularmente dotado em matéria linguística como o prova o facto de falar e escrever fluentemente chinês, conhecimentos que lhe valeram passagem nos exames formais que prestou em 1917 que o deram como proficiente no dialecto cantonense com nota final de 15 valores.

Terão sido estes dotes juntamente com o facto de se encontrar bem integrado no seio da comunidade chinesa local e manter contactos, muitos de alto nível, com Cantão, que fizeram com que se tornasse responsável pelo sector das informações estratégica e de segurança da Marinha em Macau.

Neste âmbito, qual precursor “007” de Ian Fleming, ele próprio se encarregaria de uma das mais delicadas e perigosas missões que lhe foram atribuídas durante a sua carreira.

A China levava dois anos de república e Yuan Chi Kay, recebia o poder de Sun-Yat-sen, preparando-se para criar o ambiente político necessário a fim de restabelecer a monarquia consigo próprio como imperador.

Postal ilustrado a cores de Yuan Chi Kay, Presidente da República da China, 1913.

Em todo o país as facções digladiavam-se e Guangdong rebelava-se contra o governo central declarando a cessação do resto do país. Saber ao certo o que se passava do outro lado das Portas do Cerco era pergunta a que nem a nossa embaixada em Pequim, nem o consulado português em Cantão conseguiam responder. Principalmente no que tocava às intenções prevalecentes relativamente ao futuro de Macau. Recorde-se que as proclamações nacionalistas inflamadas contra a presença europeia na China tinham subido alarmantemente de tom desde a proclamação da República em 10 de Outubro de 1911.

Assim, para tentar esclarecer cabalmente o confuso panorama político Manuel Jervis foi encarregado de se deslocar a Cantão, indagar e depois fornecer relato sério e coerente às aflitas autoridades de Macau, que no interior do Território tinham que gerir também as actividade subversivas de uma miríade de facções e grupos de interesse os mais dispares. Tolerar essas actividades, proibir alguma, ou expulsar líder político errado poderia trazer consequências políticas gravíssimas a curto, médio, ou mesmo longo prazo. A aliar a tudo isso a intensificação do tráfego da marinha de guerra chinesa que cruzava junto às costas de Macau em rotas cada vez mais próximas adensavam as nuvens negras que ascendiam no horizonte.

A missão de Manuel Jervis foi coroada de êxito. Depois de vários dias em Cantão e de contactos com as mais diversas fontes aos mais diversos níveis, o oficial da marinha que tinha levado consigo um agente da Polícia Secreta de Macau “disfarçado de boy” (criado particular) regressou com notícias optimistas.

Congresso da República da China (1913).

Macau podia descansar. Yuan Chi Kai tinha de momento mais com que se preocupar no Norte do que em desenhar estratégias para expulsar os portugueses de Macau, ou os ingleses de Hong Kong no tumultuoso Sul.

Por seu turno Sun Yat-sen conjunturalmente afastado do poder estaria igualmente interessado em tudo menos pôr em causa um território onde continuava a contar com apoio unânime e que em qualquer eventualidade lhe poderia servir para voltar ao exílio, ou regressar à China, como o tinha feito tantas vezes antes sempre que os ventos da política lho impuseram.

Depois dessa missão (cujo relatório publiquei há uns anos na “Revista da Cultura ”) Manuel Jervis continuou a efectuar inúmeras deslocações a Cantão, sempre oficialmente justificadas como viagens de turismo e recreio como consta dos arquivos da Marinha.

Cantão. Rua Tang Lam. 1913

Tudo indica que terá sido através dessas digressões aparentemente lúdicas que o diálogo oficioso entre os governos de Cantão e de Macau fluiu até ao dia 11 de Junho de 1919.

Quatro dias depois dessa data os jornais de Macau publicavam uma notícia que chocava toda a gente: – “De chofre caiu no dia 11, sobre a cidade a notícia do falecimento repentino a bordo do Sui-an (vapor que efectuava a carreira regular entre Cantão e Macau) do ilustre 1º Tenente Manuel Athouguia, comandante da “lancha Canhoneira Macau”. É impossível descrever a comoção que de todos se apoderou, sabido como é que o distinto oficial tinha um amigo, um admirador em todo aquele que com ele convivia… O infeliz oficial sucumbiu vítima de uma congestão que em menos de dois minutos o roubou à vida… Foi uma grande desgraça e uma enorme perda para a nossa Marinha de Guerra.

O funeral realizou-se em 12, às seis e trinta incorporando-se nele toda a população da Colónia… S. Ex.ª o Governador (Joaquim Augusto dos Santos) acompanhou o cortejo fazendo um discurso junto da sepultura”.

Para além das condecorações e louvores que possuía, Manuel Jervis era também detentor da mais alta distinção militar portuguesa; o grau de “Cavaleiro da Antiga e Muito Nobre Ordem da Torre e Espada de Valor Lealdade e Mérito”.

Curiosamente, quando consultei o que constava sobre este oficial no Arquivo da Marinha, há mais de uma década, o almirante Vítor Crespo que então era seu director manifestou-se um tanto perplexo.

– Sabe, disse-me, há neste processo uma coisa estranha que é o facto de lhe ter sido atribuída a “Torre e Espada”, mas não constar justificação para tal.

Perante o meu olhar interrogativo o almirante concluiu: – É que a concessão da “Torre e Espada” tem que ter sempre exarada publicamente a justificação, não é como as outras condecorações, acentuou, é a mais elevada distinção de Portugal.

O almirante esboçou então um assomo de subtil sorriso, passou-me as fotocópias do processo para as minhas mãos e não disse mais nada…

Ambos percebemos que quaisquer que tenham sido os feitos de Manuel Jervis de Athouguia Ferreira Pinto Bastos, nunca poderiam ser publicamente revelados. Foi um herói e pronto.

Morreu com apenas 37 anos de idade.