Romance, memória e interpretações da História 21-12-10

A propósito da guerra do Pacífico tenho escrito sobre o papel que o “BAAG” (British Army Aid Group) e a “Coluna do Rio de Leste” (guerrilha comunista) desempenharam durante esses anos cuja intensidade dramática apenas podemos avaliar já que todos estamos longe de ter vivido esses tempos.

Quem a eles assistiu foi desaparecendo no ciclo da vida e hoje restam muito poucos que o lembrem com exactidão, sem “contar conto e acrescentar ponto”.

Seguramente não existem biografias dos protagonistas desses tempos, mas ficaram pelo menos nomes indeléveis na memória que, por costume, se transmite de pais para filhos através de curtas recordações de infância. Os filhos lembram alguma coisa. Os netos apenas retêm (quando retêm) esparsos desconexos. Os bisnetos, então(!), a não ser que para isso possuam inclinação e ganhem gosto sabem lá o quê? Nada!… A vida quotidiana, cheia de afazeres não deixa tempo a ninguém para pensar em águas passadas. É verdade!

Afinal a guerra terminou há 65 anos. No entanto, neste campo de guardar memórias há excepções. Não fossem elas e não saberíamos hoje não só quem somos, mas o que somos.

Sabemos alguma coisa porque algumas crianças, ou adolescentes, dessa altura, retiveram o ambiente denso e tenso que os pais viveram e que não lhes passou despercebido. Principalmente, porque o isolamento de Macau, sem jornais, sem filmes, em suma sem novidades para além das conversas boca a boca levava a que toda a vida se concentrasse essencialmente nos serões caseiros e principalmente nas casas de quem tinha rádio esse aparelho “mágico”  dos anos “40” que permitia ouvir o Mundo. Mas ter rádio, nessa época era privilégio de poucos.

Nesse contexto de forçada insularidade, mesmo no pequeno mundo de Macau, a ilha da Taipa mais isolada estava ainda já que os cabos submarinos de telefone tinham sido cortados pelas seitas para vender o cobre, de que eram feitos e que valia bom dinheiro, aos japoneses.

A Taipa sob o comando do Alferes Maneiras (já nem falo de Coloane, mais longínquo ainda, onde se encontrava o alferes  Bragança, a comandar um destacamento militar ridículo de pouco mais de 30 soldados) encontrava-se nos tempos da “Guerra da Pacífico” tão distante de Macau, como do Mundo se encontravam os arquipélagos de Vanuatu no Pacífico, ou Fernando Pó e Ano Bom no Atlântico, ou a Nova Zelândia que só geograficamente era significativa e que participava na guerra apenas porque era inglesa e queria.

Nas casas do Concelho da Taipa (hoje casas museu) os pais sentavam-se em semi-círculo, de ar circunspecto, concentrado. A mão no ouvido. Para entender melhor os sons nem sempre claramente audíveis das ondas curtas das estações que era possível sintonizar. Ouviam e comentavam os acontecimentos.

Por seu turno as crianças, presentes na sala, brincavam parecendo alheadas da hecatombe, mas na verdade, se pouco ou nada aparentavam ligar às notícias já o contrário se verificava no que dizia respeito aos comentários dos pais e amigos ao que se anunciava no  boletins noticiosos diários. E os boletins noticiosos sonoros causavam, nos pequenos, tanta e tão vivida impressão, que eram capazes de distinguir sem receio de se enganarem o tipo de aviões que sobrevoavam Macau nas sua missões de bombardeamento no interior: – “Estes são bombardeiros americanos. Estes são os ronceiros aviões de reconhecimento. Aqueles são os “Zero” japoneses, de certeza!”…, enfim, as crianças sabiam tanto quanto os adultos embora se lhes perguntassem não poderiam explicar ao certo como e porque sabiam tanto.

Tenho falado com alguns, mas um particular amigo meu que tem seguido as minhas crónicas não deixa de me fazer reparos sempre que sobre o assunto escrevo: – “Isto não terá sido bem assim. Aquilo foi assim, mas houve mais por traz da aparência. Aquele nome de que falas era fulano de tal de que ainda me lembro muito bem apesar de ser criança. Os japoneses andavam por Macau fardados e armados como se isto fosse território ocupado. Meu Pai via-se grego para conciliar as verdadeiras batalhas locais que se travavam em torno da distribuição de arroz e principalmente em impor ordem entre as centenas de “sampanas” que arribavam à Taipa com todo o tipo de contrabando. Umas pertenciam ao monopólio de distribuição alimentar dos japoneses, outras eram sucursais desse monopólio, mas faziam o seu negócio mais, ou menos particularmente. Outras, enfim! … eram capitaneadas por contrabandistas sem bandeira cujo único objectivo era o lucro”.

Até agora todas as “implacáveis” críticas desse meu amigo muito ao contrário de me ferirem eventuais susceptibilidades de “aspirante a cronista” têm-me chamado, para além de outras coisas, a atenção para o facto de os documentos estarem bem longe de serem a única fonte de elaboração da história.

A este propósito não posso deixar de lembrar aqui um livro relativamente recente (terá cinco ou seis anos) sobre o chamado “Verão quente de 75” , em Portugal, da autoria de Freitas do Amaral, em que descreve Portugal mais, ou menos, como um país a arder, em que a guerra civil só não campeava porque não havia unidades militares a combater umas contra as outras nesses tempos de “PREC”, de resto parecia país a saque… Eu vivi esses tempos, percorri o rectângulo nacional, vi por dentro muitos dos seus momentos mais significativos e para além do calor exacerbado do tempo revolucionário que se vivia, não encontrei em lado nenhum por onde me deslocava (e era mais ou menos de lés a lés) a nação a arder em chamas, nem ódios irreconciliáveis possivelmente comparáveis com os que descreve, por exemplo, Silva Gaio no seu “Mário” da guerra civil portuguesa (1828-34), época em que, isso sim, o país esteve irreconciliavelmente divido durante anos  e anos e a ferro e fogo.

O mais que vi, nessa altura, foram excessos e casos de polícia que iam sendo resolvidos como tal. E apesar das declarações que surgiam em parangonas nos jornais sobre a possibilidade de o país se dividir em guerra, nunca senti que isso pudesse ser uma possibilidade credível como o não veio a ser.

Ora vêm isto a propósito do “BAAG” e da “Coluna do Rio de Leste” cujos papeis, (ainda que efectivamente relevantes) não passaram de episódios de guerra nas linhas de retaguarda.

Porventura não terei deixado isso bem claro em artigos anteriores. Mas certo é que, e cito mais uma vez esse meu amigo, “a guerra verdadeira que envolvia unidades militares de milhares de homens, combates de artilharia e esquadrilhas de aviões, depois da batalha pela ocupação de Cantão e Hong Kong, toda essa grande guerra ocorria longe daqui”. As linhas da frente estavam no interior da China, com capital e quartel-general em Chunking, na província de Sichuan. “Esse combate pertencia de facto ao exército nacionalista do Kwomintang, já que os comunistas, para além de não fazerem parte do exército nacional, não possuíam o que se pudesse chamar de forças armadas regulares. Eram apenas guerrilheiros”. Guerrilheiros que se encontravam sedeados muito mais longe e de certo modo isolados  em Shensi no Norte, com cerca de cem mil homens, a maior parte dos quais nunca tinha tido qualquer treino de recruta e estavam enquadrados por oficiais que eram muito mais comissários políticos do que militares profissionais. Ao contrário, o exército do “generalíssimo” Chiang Kai-shek, era constituído por milhões de soldados. Era um exército regular dividido em companhias, batalhões brigadas  e regimentos e comandados por oficiais profissionais oriundos de academias militares, nomeadamente a celebrada e histórica “Academia Militar de Whanpoha”, em Cantão, que constituiu o cadinho da transformação dos conceitos e da prática militar chinesa de milénios na primeira escola de guerra moderna do país no dealbar do século XX.

Nesse contexto, atribuir qualquer papel decisivo global ao “BAAG”, ou à “Coluna do Rio de Leste” seria não só incorrer em exagero, como faltar à verdade histórica.

No entanto sou daqueles que pensam que, como em termos meteorológicos, o bater de asas de uma borboleta num continente pode desencadear um furacão noutro, assim o mesmo se passa no que toca aos “ventos da história”. E não me posso esquecer, igualmente, de um quadro que sempre me ficou na memória desde que, adolescente, li o romance “Guerra e Paz” de Leão Tolstoi. Nele surge relatada a batalha de Borodino (No dia 7 de Setembro de 1812, às 6 horas da manhã, Napoleão deu início ao ataque com seus 135 mil homens e 587 canhões. A batalha durou até depois do pôr-do-sol). Nesse confronto universal, o Marechal Kutuzov saiu alegadamente vencedor.

Para quem se interesse por assuntos de táctica e estratégia militar verifica que Kutuzov  não venceu, nem Napoleão perdeu. A campanha da Rússia continuaria, ainda, depois disso, sangrenta repleta de milhares e milhares de mortos caídos mais sob o frio imposto pelo “general Inverno” do que pelas balas dos exércitos em confronto, mas a verdade é que para a história a vitória russa permanece como indiscutível.

Tosltoi, que não era general, nem estratega, parece-me que explica, melhor do que nenhum professor de ciência militar aplicada, as razões que levaram a atribuir a vitória a Kutuzov. É que no momento em que o exército russo debandava um ignoto capitão de artilharia, por acaso, e por estar situado num colina estratégica sobre o campo de batalha, não ouviu o soar das notas de clarim que ordenavam retirada geral. Assim sendo, e vendo aproximar-se uma carga de cavalaria e infantaria francesas sobre o seu campo, manteve, ainda que isolado mas com sangue frio, a disciplina da pequena bateria que comandava, segundo as ordens que lhe tinham sido dadas, ordenando o disparo metódico das granadas explosivas de que dispunha sobre o inimigo. O inimigo, surpreendido, não só parou, como julgou que tinha caído em inopinada armadilha. Afinal as notas do clarim de retirada russas pareciam, face às bombas que caíam com eficiente precisão sobre si, não serem mais do que uma manobra bem sucedida de contra-informação (como se diria no vocabulário dos nossos dias). Assim, a carga final que teria determinado iniludivelmente a batalha a favor da França foi suspensa. A cavalaria estacou. A infantaria fez volta e meia volver. Os 587 canhões imperiais calaram-se. Em suma as hostes napoleónicas, em pleno assalto, volveram às posições iniciais a “marche, marche”. A batalha estava ganha e a Rússia salva.

Quanto ao nome do capitão artilheiro (muito menos dos seus subalternos e soldados), não consta em lado nenhum da história. Ainda que tivessem sido eles os verdadeiros heróis determinantes do desfecho desse épico drama, como conta Toslstoi. Os historiadores não o poderiam celebrar, como tal, por falta de documentação impressa e exarada em “ordem do dia” do quartel-general. Apenas um romancista poderia ter deixado para a posteridade um episódio tão pequeno quanto verdadeiramente grande e glorioso. Meia dúzia de artilheiros contra 135 mil homens. Mas, foi o que foi!. Um pequeno detalhe que afinal explica em termos simples uma das batalhas mais complexas e sangrentas da história do Mundo, que ainda hoje é estuda nas academias da especialidade.

Tal como nessa épica batalha das estepes russas,  o “BAAG”, a “Coluna do Rio de Leste”, os agentes secretos aliados atrás das linhas, que operavam a partir, nomeadamente,  de Macau, não foram mais, na China da “Guerra do Pacífico” do século XX, do que o pequeno capitão de Tolstoi na batalha eslava de “Borodino” do século anterior. Decisivas, mas, para sempre, anónimas

Certo é, que existiram! Mas, até que ponto foram determinantes no desfecho da guerra, estou certo, que nunca se saberá.

Para a propaganda, politicamente correcta, dos aliados e da China de hoje não existem dúvidas. Foram determinantes. Quanto à realidade dos factos será necessário outro romancista como Tolstoi para explicar a verdade e a importância moral das coisas. Todavia certo é que os Japoneses perderam a guerra. Quanto ao factor determinante da derrota sabe-se lá qual foi…

Guerra, crime e política um “western” de Macau (II) 14-12-10


Num contexto de domínio nipónico absoluto, com a presença de Wong Kong Kit e os seus bandidos, braços armados do coronel Sawa, junto à porta de casa de cada um havia porém e sempre quem recusasse sujeitar-se à força e aos monopólios inimigos da livre concorrência.

Fernando Rodrigues, proprietário da empresa “F. Rodrigues” era um deles. O filho varão do general Rodrigues conhecido como o “pacificador de Timor”, embora longe de alguma vez ter tido jeito para a vida militar, como o pai, dele tinha herdado algumas facetas. Uma delas era a de antes quebrar que torcer em qualquer circunstância. Outra a de não admitir que para além das autoridades constituídas (portuguesas entenda-se) alguém lhe ditasse o que devia, ou não fazer e mesmo assim nem sempre. Igualmente, tinha aprendido, em casa, que ordens, mesmo que genuinamente exaradas e ainda que emitidas no quadro da sua educação familiar, eram para ser cumpridas, apenas, na medida em que não colidissem com os princípios de “Deus Pátria e Família” como dizia Salazar de que todos os seus parentes eram reverentes e reconhecidos observadores. Afinal, ainda que não fosse conde, nem barão, era filho de um general condecorado por feitos em combate. Se não era fidalgo, era filho mais merecido ainda da república, pelo que se considerava à partida não sujeito a quaisquer imposições estrangeiras. Menos monárquicas e muito menos imperiais.

Assim Fernando Rodrigues operava tão livremente quanto podia a sua rede comercial à revelia dos ditames da “CCM”. Os seus circuitos fornecedores provinham essencialmente da Indochina colónia francesa sujeita ao governo de “Vichy”, que apesar, de ter passado a protectorado nipónico, mantinha alguma independência, ainda que mínima e mais formal do que outra coisa. No entanto, permitia que o comércio prosseguisse no Sudeste Asiático independentemente das ideologias.

Essa rota era operada (principalmente) pela seita de Siu Keng Siu (“O Imortal”) que com a sua frota de juncos e um exército de gente que não se sabia ao certo se eram pescadores de profissão, piratas nas horas vagas, ou o contrário de tudo isso, se dizia ter mais de três mil homens sob o seu comando. Em suma uma verdadeira armada.

Essa frota assegurava a chegada regular a Macau de arroz a preços muito mais razoáveis do que os impostos pela “CCM” e essencialmente fora do politicamente indecoroso sistema bloqueio e racionamento imposto pelos japoneses.

Acima do “Imortal” estava Y. C. Liang, operativo dos serviços secretos ingleses com quem Rodrigues, pelo menos aparentemente, ao que se saiba, se dava muito bem. O Governador também com aquele se dava e convivia, embora formalmente tudo fizesse para parecer que não lhe concedia mais crédito público, ou consideração, do que a qualquer outro comerciante de menor importância associado da toda poderosa e veneranda “Associação Comercial de Macau” que pela colónia tivesse estabelecimento aberto. O próprio Pedro Lobo delegado do Governo na “CCS” sabia do que se passava e do mesmo modo fazia ouvidos moucos ao contrabando que singrava, ainda que evidentemente, contra os interesses da própria empresa que oficialmente geria. Porém, neste caso, como noutros, desse intrincado jogo de sombras que era Macau, maiores interesses se “alevantavam”.

Naturalmente que as ostensivas actividades de Fernando Rodrigues se tornaram notadas e o próprio coronel Sawa o advertiu várias vezes. A última advertência que lhe fez foi em pleno cais da Praia Grande, quando Rodrigues assistia ao desembarque de uma grande consignação de arroz. Os mandatários do coronel surgiram inopinadamente no local e declararam que o desembarque não passava de uma acção patente de contrabando. Rodrigues respondeu que quem tinha que classificar o que era, ou não, contrabando, eram as autoridades alfandegárias portuguesas e não qualquer outra autoridade, ainda que legitimada pela força das circunstâncias.

A conversa azedou e redundou numa cena de pancadaria pouco edificante para o prestígio nipónico. Rodrigues (cuja compleição física excedia claramente a dos japoneses que o confrontavam) pôs ponto final na discussão derrubando o oficial comandante e os dois subalternos que o coadjuvavam a murro. Nessa cena de pugilato os militares nem sequer pensaram em usar as pistolas de grosso calibre que lhes pendiam dos coldres. A disciplina militar, em que tinham sido educados desde pequenos, impedia-os de reagir a quente numa situação como aquela. Por isso, “levantaram-se, limparam-se da poeira” e foram-se embora humilhados e ofendidos, mas, acima de tudo, de face perdida.

O caso alcandorou de um momento para o outro o prestígio de Rodrigues para um novo patamar em termos de popularidade geral. No diz-se, que diz, das tertúlias da cidade, era um civil português de punho firme que tinha desafiado, sem medo, um império inteiro, enquanto o próprio Governo que, apesar de tudo, ainda possuía polícia exército e marinha, insistia em manter atitude titubeante que claudicava, sem qualquer assomo de grandeza, que se visse, perante qualquer ordem, ou mera sugestão do arrogante invasor da China e imperial capataz de Macau.

Para as autoridades locais Rodrigues era o contrário, ou seja, uma dor de cabeça que punha em causa um delicado equilíbrio que poderia ser quebrado, com consequências imprevisíveis, mas seguramente fatais, pelo mais ligeiro acto de desafio, ou manifestação de firmeza, que poderia cair bem ao orgulho nacional proclamado pela propaganda do “Estado Novo”, mas que não contribuía, na prática, com o que quer que fosse de positivo para resolver ou minorar a tragédia geral, não passando, por isso de pura e simples insensatez. O que não deixava de ser, também, verdade.

Assim o arroz desembarcado no “Cais da Praia Grande” lá seguiu o seu destino de alimentar as esfaimadas bocas de um território que pouco mais tinha para subsistir no dia a dia do que esse básico alimento.

Porém o caso não se resumiu a uma vulgar cena de pancadaria. Os socos de Rodrigues, que fizeram retirar de modo pouco digno os mandatários de Sawa e a sua escolta mais do que fisicamente terem posto momentaneamente “knok out” uns quantos oficiais japoneses colocaram, de facto, em causa o prestígio inteiro do “Exército de Kuwantung”. Dezenas de pessoas tinham assistido à cena do cais, que existia onde hoje se ergue o centro comercial “Yaohan”, a poucas dezenas de metros da estátua de Jorge Alvares. O próprio cônsul britânico John Reeves da sua residência da Calçada do Gaio, sobranceira à cidade, sorriu, fleumático observando das faldas da Guia o porto onde tudo se passara e telegrafou seguidamente, em cifra, como fazia regularmente, através do seu emissor clandestino, para Chunking, capital da “China Livre”, mais uma pequena vitória da guerra secreta que dirigia contra os japoneses.

Mas, Fernando Rodrigues assinava, nesse local e nesse momento, a sua sentença de morte.

E foi assim que Sawa, no seu quartel de Zhouhai, indirectamente combalido pelos socos do filho do falecido e histórico general, deu ordem para matar à “Seita da Ásia Florescente”, confederação de “tríades” pró japonesas de Guangdong a que Wong Kong Kit pertencia e onde ocupava um cargo paramilitar semelhante ao de major, ou tenente-coronel num exército regular.

Tradicionalmente, na colónia portuguesa muitos circunvertiam a lei,  muitos desobedeciam, muitos faziam contrabando, todos fingiam, mas ninguém tinha, até então, como Fernando Rodrigues afrontado directamente a formalidade vigente e tacitamente aceites desde sempre, fosse na paz fosse na guerra,  pela China, pelo Japão, ou fosse por quem fosse. Muito menos por Macau, a não ser, muito fugazmente, nos quatro anos frontais, de Ferreira do Amaral em meados do século XIX, sem paralelo na história. Formalidades eram e sempre foram formalidades que era necessário observar acima de tudo e de todas as circunstâncias. – Formalidades! – Mais sólidas do que as paredes de granito da Fortaleza do Monte, ou do que os “bunkers” de concreto da Guia. As formalidades eram tão concretas aqui como o cimento armado nos antípodas, ou mais ainda.

Assim Fernando Rodrigues passou a ser um alvo a abater o mais depressa possível, tal como tinha sido meses antes o próprio cônsul japonês Fukui no estertor da derrota do “Sol Nascente”. E assim foi.

Passados dois meses do incidente do cais da Praia Grande, Fernando Rodrigues, a 9 de Julho de 1945, foi assistir ao funeral do Dr. Wong (um conceituado médico local) no cemitério de S. Miguel. Quando saía da cerimónia um dos capangas de Wong Kong Kit disparou sobre ele, à boca do portão de ferro forjado do silencioso campo de repouso dos mortos, vários e estrepitosos tiros de revolver que ecoaram longe. Fernando Rodrigues sucumbiu quase de imediato atingido por seis tiros, tantos quantos o tambor da arma de calibre 45 podia disparar. Morria (ingloriamente?) horas depois, no Hospital Conde de S. Januário, um mês antes da rendição final do Japão.

Vista geral do Cemitério de S. Miguel ao portão do qual Fernando Rodrigues foi assassinado (Foto: – Macau antigo. Blogspot. Com).

O culpado seria capturado quase de imediato graças ao sistema de vigilância que tinha sido implementado pelo capitão Cunha (comandante da PSP) que tinha um dos seus polícias instalado, com telefone, numa arvora fronteira à casa de Wong Kong Kit, para onde o assassino tinha corrido, sem êxito, em busca de refúgio.

Ao ser interrogado em tribunal o homicida diria: – “Não estou arrependido, pois ele era mau; que se ele não estivesse morto e o encontrasse de novo o mataria”.

Este sicário, a soldo, acabaria por ser condenado a 31 anos de degredo em Timor. Não se sabe hoje que sorte foi a sua terminada a guerra.

A sorte de Wong Kong Kit seria pior. Portugal, a China e a Inglaterra não lhe perdoariam os crimes que cometeu.

Na perseguição, captura e execução de Wong Kong Kit teria papel determinante o, tão famoso como enigmático, comissário da polícia Voltaire de Morais

o único homem (que se saiba) a favor do qual Salazar interveio pessoalmente anulando com a sua assinatura de “Presidente do Conselho de Ministros” a sentença condenatória, que o tribunal de Macau tinha lavrado e a relação de Moçambique confirmado, declarando-o criminoso de delito comum. Isto muitos anos depois da guerra (porém esta, é outra história que poucos conhecem, mas que já foi contada).

Voltaire de Morais, não era, nem nunca foi um criminoso de delito comum na acepção vulgar do termo. Terá sido, quando muito, uma espécie de  “Javert” de “Os miseráveis” de Vítor Hugo, imbuído de uma idiossincrasia peculiar e uma forma muito própria de entender os conceitos de bem e mal.

Terminada a guerra Wong Kong Kit fugiu de Macau, mas não escapou à culpa, nem Voltaire de Morais se eximiu à ordem moral que o determinava, nem ao mandato de captura de que tinha sido incumbido pelos tribunais de cumprir. E assim foi.

Depois de uma aventura semelhante às que nas novelas de espionagem Ian Fleming deixou descritas sobre o Extremo Oriente, Voltaire de Morais acabaria por descobrir o paradeiro de Wong Kong Kit, na ilha de Cheung Chau, a poucas milhas de Hong Kong (território inglês). Como o fez e como o trouxe para Macau valerá a pena ser relatado, ainda que não na exiguidade deste artigo (talvez num próximo). Mas certo é que o maior foragido acabaria por ser apresentado ao Juiz de Instrução Criminal algemado pelas mãos do célebre comissário.

Porém, como disse anteriormente, as penas do Código Penal português, ao contrário das leis inglesas de Hong Kong, não contemplavam a pena de morte que Wong Kong Kit obviamente mereceria segundo o direito, então, universalmente aceite.

Assim sendo e para satisfazer a vingança, mais provavelmente do que a justiça, Voltaire de Morais, julgou não ter alternativa, senão a de ser juiz em causa própria como os xerifes dos “westerns” americanos e executou a pena poupando inconveniências aos tribunais. Nomeadamente a possibilidade de uma eventual e escandalosa absolvição por falta de provas. Isto já que, ainda hoje, para além de se repetir que Wong Kong Kit era o mentor de todos os crimes, não resta testemunho nem relatório que o dê como tendo disparado, ele próprio, um tiro sobre quem quer que fosse. Ao contrário subsistem histórias testemunhadas, da sua magnanimidade no auxílio a carenciados e desvalidos (principalmente da seita que liderava) que não hesitariam em comparecer em juízo a atestar o bom comportamento cívico e moral do chefe.

Depois de ter sido ouvido pelo magistrado, Wong Kong Kit, recolheu à viatura prisional escoltado por 4 agentes armados. “Ao chegar à Estrada Adolfo Loureiro… um agente abre-lhe a porta do carro e convida-o a fugir…o homem salta…e é abatido por Morais e Cascais (igualmente Comissário da PSP). Cai o pano. Lavra-se o auto que é arquivado: – malandro tentou fugir…”

No curto tempo de prisão preventiva que cumpriu Wong Kong Kit deixou um testamento escrito em jeito de poema sobre a sua vida e também sobre a sua eventual morte que, pelos vistos, previa como certa. Intitulou-o “ Despedida da Vida” Infelizmente o dito poema não consta dos arquivos judiciais de Macau. O capitão Cunha, que o recebeu das mãos do célebre bandido não o incluiu nos autos que (diga-se) também desapareceram em pó. O capitão guardou-os para si e levou-os para Portugal quando terminou a comissão de serviço em Macau. “Só é pena que o não tenha publicado até hoje” como deixa exarado Monsenhor Manuel Teixeira na única e exígua monografia sobre a guerra que deixou escrita.

O capitão Cunha, Voltaire de Morais e o seu camarada Cascais; “O Imortal”, Gabriel Teixeira, Jack Braga, Menezes Alves, o espião Gardner, o tenente Vieira, bem como o resto dos segredos da guerra, mais os versos de Wong Kong Kit, sumiram-se para sempre com a morte dos protagonistas do drama de Macau na Guerra do Pacífico.

Política radicalismo e demagogia. 07 – 12 – 10

Quando ouço, ou leio que a política é uma “coisa suja”. Os “políticos aldrabões”. Que “é preciso acabar com a classe política” insurjo-me. Mas mais do que me insurgir temo que as vozes vociferantes, ao contrário da dos burros do provérbio, cheguem ao céu. Temendo que tal possibilidade possa ocorrer, para além de me pronunciar fico assustado, porque das últimas vezes, na história, em que vozes que tais “chegaram ao “altíssimo” a coisa deu para o torto e bem mal.

Recordo apenas o fim inglório da “1ª República Portuguesa”. Foi assim: – os políticos alegadamente dominavam a vida nacional cuja constituição fazia residir exclusivamente no parlamento o poder que eleições após eleições davam sempre a maioria ao Partido Republicano (ou Partido Democrático, como se lhe queira chamar) de Afonso Costa. Por muito que custasse a quem queria mudar o estado da coisa política em Portugal o resultado eleitoral era sempre o mesmo e esclarecedor, independentemente da veracidade dos cadernos eleitorais, das “chapeladas” que já vinham de cem anos antes, dos tempos da monarquia, que não tinham mudado nada, ou do enraizamento do caciquismo que igualmente já vinha dos tempos gloriosos da revolução liberal de 1820 e mudado tinham menos ainda.

A certa altura da história houve quem se manifestasse contra um estado de coisas que manifestava eternizar-se. Ou seja contra uma classe política enquistada em Lisboa que conspirava nos cafés querendo alterar tudo, mas, depois, quando rumava de automóvel a S. Bento para ocupar os seus lugares nas bancadas parlamentares, fazia discursos vibrantes, eloquentes, às vezes até às lágrimas, mas não provocava uma pequena onda que fosse no “Mar da Palha” onde os operários do Arsenal faziam muito mais ondulação com as suas pequenas greves que preocupavam de facto mais os destacamentos locais da GNR do que os governadores civis. Muito menos os representantes nacionais.

De facto o país, apesar da retórica parlamentar de Lisboa continuava a ser essencialmente campónio e analfabeto. Portugal, não se tinha alterado um milímetro que fosse no seu desenvolvimento desde que Rodrigo da Fonseca Magalhães (1787-1858) à beira da cova dissera: – nascer entre brutos, viver entre brutos, morrer entre brutos é triste!…

Quem se revoltou contra o estado de coisas vigente foram os radicais anti políticos, tendo à cabeça o General Gomes da Costa (antigo aluno do seminário de Macau) que pensava que as culpas eram dos tais políticos (desde, porventura, Rodrigo da Fonseca e do general Sepúlveda cabeça de cartaz da revolução de 1820).

O radical Gomes da Costa e os seus próceres igualmente radicais anti-partidos acabaram com a “1ª República”, não numa revolução, mas num desfile militar que em vez de se circunscrever ao perímetro de um quartel qualquer se estendeu, de “passadeira vermelha” e triunfante, através dos mais de 300 quilómetros da “estrada nacional número um” entre Porto e Lisboa (mais os cinquenta e tal quilómetros que se acrescentavam entre a capital do Norte e Braga), com Gomes da Costa do alto do seu cavalo e à frente dos esquadrões a acenar ao povo das freguesias por onde passava a trote rápido como salvador da Pátria.

Gomes da Costa venceu apenas porque Portugal estava farto de promessas mal cumpridas, mas o marechal não acabou com os políticos. Bem pelo contrário. Apenas contribuiu, sem dúvida, para escamotear uns e entronizar piores.

Correu com o primeiro-ministro Afonso Costa que fugiu para o exílio juntamente com o Presidente da república Bernardino Machado. Nos tempos de hoje as coisas seriam feitas de modo diferente, ou seja, nem Bernardino Machado nem Afonso Costa precisariam de ser sujeitos ao enxovalho de serem expulsos da Pátria por ordem de “tribunal militar extraordinário” com sentença condenatória lavrada e publicada. Nos brandos tempos de hoje poderiam ter sido apenas nomeados deputados europeus, ou seja escorridos para Bruxelas ou Estrasburgo, locais onde poderiam continuar a escrever e discursar sem fazer mal a ninguém, nem ninguém notar que continuassem a existir.

Mas os tempos de hoje não são esses tempos, embora a história se repita por muito que se diga que não. E certo é, como dizia, que Gomes da Costa, apesar de toda a sua genuína boa vontade de “endireitar” Portugal acabaria não por acabar com a classe política contra a qual toda a gente tinha queixas, mas por alcandorar ao poder concomitantemente honestos e invejosos, sem cuidar de quem era quem nem ter em conta mais nada. Os radicais nunca cuidaram muito em destrinçar o trigo do joio creio eu.

Mendes Cabeçadas, seu parceiro no golpe, não teve tempo de provar, tal como Gomes da Costa, a sua valia já que, igualmente, seria arredado das rédeas do poder em poucos meses. No entanto, Sinel de Cordes, provou e bem, que não valia nada, ou seja, se os políticos da 1ª República tinham endividado Portugal, como os radicais diziam, o primeiro general da ditadura (não contando Carmona) conseguia fazer melhor ainda, ou seja triplicar a dívida nacional e levar o país ao limiar da bancarrota. Ivens Ferraz que se lhe seguiu igualmente não resolveu coisa nenhuma, e se não levou a proa de Portugal ainda mais a pique foi apenas pelo facto de ser general do exército e não almirante de uma marinha que lutava por manter os seus cruzadores cheios de rombos a flutuar à linha de água.

Perante esse estado de coisas, pode dizer-se que a vez dos radicais chegou ao fim com a ascensão ao poder de Salazar.

Salazar longe de ser um radical anti-político era a sua antítese. Entendia que o segredo do futuro residia na máxima de Maurras: – “politique d, abord”. Por isso, se encarregou de correr com o que restava dos radicais no processo revolucionário do 28 de Maio de 1926 incluindo Rolão Preto, o chefe dos “camisas azuis”, cujo destino, ainda que inopinado, pelo facto de ser um dos principais apoiantes do ascendente ditador civil e das suas concepções de “estado Novo”, acabaria igualmente por ser igual ao dos outros, ou seja, preso e banido juntando-se no olvido político a Gomes da Costa, Cabeçadas, Sousa Dias, Agatão Lança e sei lá mais quantos.

Depois disso e de ter pacificado a vida política nacional, Salazar fez o que não se esperaria, ou seja, em vez de manter a ditadura militar anti partidos criou um sucedâneo de sinal oposto ao “Partido Republicano”, que vinha conduzindo a vida política portuguesa das últimas duas décadas. Chamou-lhe “União Nacional” e pronto.

Salazar acabou com os radicais sem verdadeiramente inaugurar uma nova era. Afinal a “União Nacional”, expurgada de alguns nomes mais sonantes que não convinham à nova situação, não deixava de ser um sucedâneo dos ministérios de fusão que desde os tempos de Costa Cabral (1848) se tinham alternado nos governos de Portugal

Mas o que é que tudo isto tem a ver com Macau perguntarão os leitores? E eu respondo: – nada, ou talvez tudo e explico rememorando um pequeno aparte que ouvi, lá vão anos, do então chefe do Executivo Edmundo Ho, que a propósito não sei bem já de quê, dizia que na Assembleia Legislativa faltava um partido de apoio ao Governo ao contrário de Hong Kong onde os partidos existem.

É verdade, pensei, na altura. E continua a ser. Faltam partidos, ou grupos organizados, ou coisa que se lhes assemelhe. Por esse facto, a vida política local continua a estar essencialmente assente no individualismo anómalo que inevitavelmente acaba por resvalar para o radicalismo, nuns casos. Noutros, para a pura e simples demagogia inconsequente.

Ou seja, os deputados, independentemente de serem eleitos por quem sejam, não obedecem a ideário político realmente fundamentado. Serão capazes de defender bem as posições de quem os nomeou, mas estão longe de as defender de um modo ideológico. Uns e outros poderão, aqui e ali, salientar pontos de grande interesse público. Poderão fazer, aqui e ali, discursos eloquentes. Poucos, até hoje puxaram, que me lembre, lágrima emocional decorrente da oratória ao cidadão comum (como nos tempos antigos da 1ª República Portuguesa” acontecia e não poucas vezes) sobre grandes questões.

O deputado de Macau Velhinho Correia nos anos 30 do século passado tinha o condão de o fazer junto da comunidade portuguesa, enquanto, umas décadas antes Chen Shaobai tinha feito o mesmo nos comícios republicanos arrebatadores levados a efeito nos cinematógrafos da cidade entre a população chinesa.  Mas ideário certo?

Poderemos reconhecer, actualmente, no senhor deputado “tal” um Marxista-leninista? Poderemos entender nos discursos do senhor deputado “X” um apóstolo de Mao? Encontraremos no discurso do senhor deputado “Y” alguns pontos fundamentais da “Democracia Cristã? Poderemos subentender alguns princípios postulados pela social-democracia de Bernstein no senhor deputado “H”? Teremos entendido nas palavras do deputado “Z” a filosofia dos “três princípios do povo de Sun Yat Sen”? Poderemos inferir do que disse o senhor deputado “U” um subscritor das máximas de Milton Friedman? Não! da cacofonia política local não se pode subentender mais nada do que o que é e está patente, ou seja um conjunto de vozes independentes entre si que fazem e dizem o melhor que podem e sabem sobre os assuntos correntes de Macau. Sendo assim e tendo em conta que a AL não é de facto um parlamento nacional, o mais a que a poderemos associar é à antiga “Câmara Corporativa” do “Estado Novo”, onde organizações patronais, sindicais e grupos de classe se exprimiam, sem esperarem seriamente que os seus discursos (mais ainda do que os seus pareceres) tivessem qualquer efeito nos resultados políticos práticos da governação.

Será no entanto tudo isto razão de queixa essencial contra a classe política que temos? Claro que sim e claro que não!

Que sim porque “já não nascemos, nem vivemos e não esperamos morrer entre brutos”, como dizia Rodrigo da Fonseca há duzentos anos. Esta é uma verdade que se aplica tanto no Extremo Ocidental Europeu, como no seu oposto Asiático.

Não, porque ainda vamos ter que esperar (estou convencido pelo que tenho visto e ouvido até agora) largos anos até ouvir falar na Al. um verdadeiro tribuno líder de uma autêntica bancada parlamentar.

Apesar porém de todas as eventuais carências, em Macau, como no Haiti, EUA, Japão, ou Vanuatu, recuso-me, seja em que circunstâncias forem, a colocar epítetos pejorativos sobre quem se dedique à política, mesmo que não a tempo inteiro.

Na política, como em qualquer outra profissão é apenas o seu bom exercício, baseado em princípios, que determina a honradez de quem a pratica. Infelizmente na actual conjuntura o principal protagonismo pende naturalmente mais para os radicais sobrevalorizando a demagogia inconsequente e menos para os políticos profissionais que se o são “de jure” carecem ainda de suporte de facto.

Ainda bem que o radicalismo que resultou no longínquo 28 de Maio de 1926 nunca teve nada a ver com Macau. Nem ontem, nem hoje. No entanto tal como Zheng Kwan Yin (1842-1921) deixou para a posteridade da China as suas “Advertências Severas em Época próspera” talvez a recordação do episódio com que iniciei este artigo, situado em Portugal, geograficamente posicionado quase nos antípodas e numa conjuntura particular que de nós dista quase um século, tenha algum valor para os dias que correm. Quanto mais não seja o valor moral e inocuamente universal que têm, por exemplo, as fábulas de Esopo, ou La Fontaine.

PS. Tinha prometido concluir o episódio da guerra esta semana, mas tendo em conta o debate das “Linhas de Acção Governativa” na AL, este “aparte” pareceu-me mais adequado. Concluirei o que prometi em os “Sinais” da  próxima terça-feira.

Guerra, crime e política: – Um “western” de Macau (I) 30-11-10

Apesar de toda retórica sobre a invencibilidade do exército e da marinha imperiais comprovada pela sucessão de vitórias em todo o Extremo Oriente, os estrategas japoneses sabiam bem que ocupar militarmente a China era tarefa impossível. Daí terem desenhado um plano de ocupação efectiva das regiões norte do país contíguas à Coreia (então colónia japonesa) base a partir da qual o chamado exército de Kwantong se encarregaria de lançar uma ofensiva para Sul destinada a apossar-se dos principais portos chineses, desde Tientsin a Xangai, passando por Cantão, Hong Kong até à ilha de Hainão.

Esta estratégia permitia a Tóquio garantir a impossibilidade de reabastecimento das províncias interiores, dificultando, ou teoricamente bloqueando, a possibilidade de auxílio dos Estados Unidos e Inglaterra ao exército nacionalista comandado por Shiang Kai Chek totalmente colocado na defensiva perante a trituradora máquina militar nipónica.

Este plano cuja execução se iniciou com pleno vigor em 1937 foi cumprido obrigando o governo chinês a abandonar Pequim e sedear em Chunking (muito mais a Sul) a sua capital política. Este movimento estratégico obrigou as forças aliadas a abrirem vias de comunicação de emergência através das províncias meridionais chinesas confinantes com a Birmânia (então colónia inglesa) único ponto através do qual o exército do generalíssimo nacionalista se passaria a poder sustentar.

Esta resposta ocidental levaria o Japão, numa fase posterior da guerra, a ter que estender a sua campanha mais para Sul da Ilha de Hainão visando a Malásia e a actual Indonésia que passavam a constituir, depois de aberta a estrada da Birmânia (“Burma Road”), os únicos pontos extensamente vulneráveis do cerco da China.

Eventuais planos de invasão da Austrália parecem ter estado desde sempre fora de qualquer pensamento estratégico dos generais de Tóquio. A Austrália, pela sua dimensão geográfica gigantesca seria, tal como a China, caso a ter em conta muito mais tarde e bem mais pelos diplomatas do que pelos generais. A ocupação de Timor não passou por isso de um episódio táctico de ordem puramente militar em resposta a um inadvertido passo de Camberra.

D. Aleixo Corte Real, régulo de Timor, herói

e mártir na luta contra a invasão japonesa.

(1886-1943).

(foto retirada de – imagemcomparativa.blogspot.com)

 

A estrada de “Burma” tinha ao todo 1,154 km de extensão e serpenteava através de regiões montanhas em terreno particularmente difícil. A secção entre Kunming e a fronteira birmanesa foi construída por 200,000 trabalhadores chineses, a pá e picareta, durante a chamada “segunda guerra sino-japonesa” em 1938. A sua utilidade seria confirmada pouco tempo mais tarde quando os ingleses e americanos a passaram a usar para o transporte de material de guerra, mas não só, para a chamada “China Livre”.

Se a ofensiva nipónica de cerco pelo “Sudeste Asiático” tivesse sucesso toda a China, mais tarde, ou mais cedo, se renderia sem necessidade de empenhar milhões de homens em expedição duvidosa sobre imensidões continentais. Seria, os japoneses sabiam bem, uma expedição semelhante à campanha napoleónica contra a Rússia, nos inícios do século XIX. Tal como ela o mais provável é que redundasse no mesmo fracasso. Porém os estrategas militares de Tóquio não ignoravam os quês e porquês dos desaires de Napoleão um século antes. Nesse contexto, para além de Singapura, bem mais a Sul de Hainão e pelas razões aduzidas, dois Portos da China apenas se interpunham à concretização completa do bloqueio continental:- Hong Kong e Macau.

Quanto à primeira a questão ficaria resolvida já que com a aliança Germano nipónica os ingleses passavam a ser inimigos o que justificou o ataque e ocupação da colónia britânica. Uma ocupação que se verificou em poucos dias sem apelo, agravo, ou resistência capaz por parte dos exércitos da Grã-bretanha, o que para estes constituiu umas das maiores humilhações da sua história imperial.

De facto depois de mais de um século de propaganda de invencibilidade marítima dois dos mais míticos vasos de guerra do almirantado (Prince of Walles e Repulse) enviados para a Ásia para defender a sua presença foram a pique quando mal penetravam no teatro de guerra do Pacífico.

Cruzador britânico HMS Rpulse. Afundado pela marinha japonesa no dia 10 de Dezembro de 1941.

Hong Kong e Singapura propaladas como fortalezas inexpugnáveis pereciam, quase simultaneamente, em poucos dias face ao exército do imperador Hirohito. Que era feito das estrofes do hino: –  “rule britannia rule above the seas”? Nada!

Ficava a restar Macau colónia de um país neutral que apesar da sua exiguidade geográfica e quase ausência de meios militares de defesa não podia ser ocupada à luz do direito internacional e teria de ser tratada de modo diferente.

Nesse aspecto os japoneses cumpriram formalmente, ainda que de modo pouco escrupuloso, os requisitos de neutralidade.

O exército de Kwantong, depois de ocupar as ilhas da Lapa, D. João e Montanha, todas elas reivindicadas por Portugal (onde existiam destacamentos policiais permanentes portugueses havia muitos anos, mas que eram territórios possuidores de estatuto internacional indefinido), parou junto às Portas do Cerco.

Para o interior da fronteira de Macau o papel protagonista caberia pelos quatro anos seguintes não às divisões de linha do exército, marinha e força aérea, mas sim aos departamentos de inteligência  e polícia militar dos três ramos das forças armadas mas principalmente à “Kempentai”, os serviços secretos do exército de sua majestade imperial. Estes para além da espionagem e contra-espionagem tinham como missão garantir, por um lado, que os circuitos de abastecimentos de bens essenciais para a população civil e militar (tropas nipónicas e chinesas aliadas, entenda-se) permaneciam exclusivamente em mãos amigas. Por outro lado, que Macau beneficiando do seu estatuto de neutralidade não se constituísse em base de apoio, contrabando, centro de informações estratégicas e sabotagem ao serviço da “China livre”.

Esta situação levou a que o Japão impusesse a elevação do estatuto do seu cônsul, Fukui Yasumitsu à condição de conselheiro especial do Governador de Macau, com poderes que claramente extravasavam os de um mero representante diplomático de um país estrangeiro. Aliás é curioso notar, neste ponto da história, que, nas listas oficiais de dirigentes mundiais oficial e internacionalmente publicadas, Macau ainda conste, como tendo sido, nessa época, um protectorado japonês e o cônsul Fukui Yasumitsu um super administrador a que o Governador (Gabriel Maurício Teixeira) estaria de facto sujeito como efectivamente esteve. Será uma incongruência que até hoje não foi corrigida, ou corresponderia a uma situação real? Responder a esta pergunta depende da consulta de documentação dispersa por diversas chancelarias de vários países muita da qual ainda permanece inacessível e protegida pelos carimbos vermelhos que a dão, apesar de já lá irem mais de seis década e meia, como secreta.

Concomitantemente com o cônsul, o comandante da “Kempentai”, coronel Sawa tornava-se efectivamente uma espécie de chefe sombra da Repartição dos Serviços de Economia de Macau, ainda que formalmente a sua liderança pertencesse a Pedro José Lobo.

Esta anómala situação levou à criação de uma empresa monopolista denominada “Companhia Cooperativa de Macau” (CCM) de que o governo português possuía um terço das acções. O outro terço pertencia ao exército japonês e o restante estava distribuído por várias famílias ricas, entre as quais se incluíam nomes como os de Sir Robert Ho Tung e outros grandes magnatas de Hong Kong que no limiar da ocupação da colónia britânica tinham transferido os seus negócios e os seus bancos para a colónia portuguesa do outro lado do Rio das Pérolas.

Como delegado do Governo Pedro José Lobo geria “oficialmente” essa empresa que, na verdade, em vez de obedecer às directrizes políticas do governo de Macau obedecia isso sim e muito mais, aos objectivos politico-militares nipónicas de controlo dos principais bens de primeira necessidade – o arroz era o principal, mas outros havia não menos importantes.

Quem esclarece esta situação é Stanley Ho que através de seu tio (Sir Robert Ho Tung) conseguiu uma colocação de certo destaque na emergente “CCM”: – “o governo português entregava-nos tudo o que podia. Navios, equipamento de comunicações, ou seja o que havia capaz de render alguma coisa. Tudo isso era entregue aos japoneses em troca de arroz, feijão, azeite, açúcar, enfim todos os bens essenciais, já que o governo de Macau não tinha recursos para acorrer às necessidades da população”.

Macau estava inexoravelmente sujeita a cerco semelhante ao dos antigos castelos da idade média e ao contrário da analogia nem sequer possuía azeite ou alcatrão para lançar sobre quem lhe assediava as muralhas!…

Apesar porém da existência da “CCM”, certo é que esse monopólio oficial não decorria de uma acção espontânea e natural dos mercados, mas sim de um imperativo bélico.

A “CCM” satisfazia os grandes comerciantes e especuladores que a curto prazo lucravam com a guerra sem olhar a nacionalidades, ou ideologias, mas apenas estes. Ao governo de Macau, por seu turno, permitia acorrer às inúmeras necessidade de uma população que tinha crescido exponencialmente com o constante afluxo de refugiados que surgiam de toda a parte. Dar de comer às pessoas era essencial. Todos os dias se recolhiam pelas ruas cadáveres vítimas da fome, frio, inanição, ou simplesmente do facto de viver se ter tornado fardo demasiado pesado para quem chegava sem nada e não via futuro em nada. Se alguém lucrava ilicitamente com os estratagemas adoptados para salvar vidas e como é que com isso se lucrava era a menor das interrogações para as autoridades de Macau.

Macau: Distribuição de arroz durante a guerra.

(Macauantigo-blogspot.com)

Impedido pelas convenções internacionais de manter em solo macaense a sua “gendermerie” o coronel Sawa, chefe da “Kempentai” recorreu naturalmente às ancestrais seitas que em Macau passaram sob as suas ordens a desempenhar funções de certo modo semelhantes às que em Portugal desempenhava a “Legião Portuguesa” (LP) por esses tempos.

Assim os elementos das seitas, tal como os da “LP” na longínqua “Metrópole” eram polícia de segurança pública, oficiais de alfândega e braços executores dos serviços de inteligência chinesa do governo fantoche e colaboracionista de Weng Ching Wei aliado dos japoneses que mandavam tanto, ou em certas circunstâncias mais ainda do que as instituições oficiais e legalmente estabelecidas. Ou seja vivia-se um tempo de inextrincável confusão. Um tempo de excepção em que um revólver empunhado por mão anónima fazia valer melhor a autoridade do que qualquer “crachat” de polícia, ou mandato judicial. Nesses tempos incorrer em crime de desobediência à autoridade dependia apenas da qualidade de quem desobedecia, mas de modo algum de qualquer artigo do Código Penal, por mais evidente que o flagrante delito fosse.

O comandante de um dos mais importantes destes corpos (se é que se pode chamar assim), actuantes em Macau (onde actuavam outros de outros quadrantes, umas vezes opostos, outras circunstancialmente aliados, “nem sempre todos, nem sempre os mesmos” como rezavam os autos de polícia), era Wong Kong Kit, um criminoso de delito comum que tinha quartel-general numa casa da avenida Coronel Mesquita e residência noutra da Ouvidor Arriaga. Esta defendida por sacos de areia e metralhadoras pesadas numa réplica (ainda que em menor escala) do quartel-general de S. Francisco.

– “Wong Kong Kit foi o verdadeiro Clyde de Macau durante a II Guerra Mundial. Era um sujeito de voz activa que tinha um complemento directo na pessoa de sua Madame Bonnie ilustre costureira, cujas mãos sanguinárias em vez de manusearem a agulha em delicadíssimos bordados empunhavam dois revólveres, que ela podia disparar tanto da esquerda para a direita como da direita para a esquerda(…) Estes dois “gangsters” apareceram por encanto na nossa fronteira e estabeleceram a sua firma  Bonnie and Clyde sob a superintendência da gendermeria japonesa (…) qual o negócio? Espionagem, pressão contra o governo português, fiscalização de arroz importado da China, impondo uma taxa sobre ele. Quais os meios com que contava? Ele transitava pelas ruas em 2 automóveis com 8 homens armados de pistola “Mauser” e revólver de calibre não inferior a 38. Tinha apoio da gendarmeria japonesa sob o comando do coronel Sawa”. Quem isto diz é Monsenhor Manuel Teixeira que viveu os acontecimentos e os deixou escritos em “sumido” trabalho monográfico que mal consta da sua bibliografia.

Deste homem, viremos a encontrar bem mais recentemente uma versão moderna, ainda que muito menos poderosa durante a chamada “guerra das seitas” que antecedeu o período de transição de soberania de Macau para a RPC, e que teve o seu auge em 1997, no peculiar “Tai Ko” Pan Nga Koi, que actualmente cumpre longa sentença judicial em prisão de alta segurança.

Todavia, entre Vong Kong Kit e Pan Nga Koi as semelhanças terminam no facto de ambos serem essencialmente exibicionistas, fanfarrões e chefes de “seita”, para alem, naturalmente de criminosos de delito comum, sem qualquer ideologia. Quanto ao resto, as circunstâncias não têm paralelo. O primeiro era um “gangster” apoiado oficialmente por um Estado ocupante e imperialista.

O segundo era “gangster” do mesmo jaez, que chegou a encerrar uma das pontes de Macau contando com espúrias cumplicidade apenas para participar num cena de filme, por si próprio patrocinado, passeando-se por ela com uma coluna de carros repletos de guarda-costas que não passavam de actores. O “Tai Ko” dos anos 90 não era uma réplica de Wong Kong Kit, mas apenas alguém que pensava que sim, que era apoiado fosse por quem fosse, que estava acima da lei

A diferença era abissal e foi determinante nos seus diferentes destinos. Pan Nga Koi, por mais poderoso que se julgasse nunca esteve acima do estado de direito que o julgou e condenou, nem tinha um poderoso coronel Sawa como protector.

Quanto a Vong Kong Kit o caso era muito diferente. O estado de excepção que se vivia nos anos 40 do século passado era muito semelhante ao das cenas dos “western” americanos. Assim só um justiceiro poderia fazer de facto justiça e foi o que aconteceu. Nesse caso o executor da lei não foi o “herói” John Wayne dos filmes mas, sim um “xerife” real à portuguesa que dava pelo nome de Sebastião Voltaire Pinto de Morais comissário da polícia.

Para a semana aqui contarei o resto da história.

A memorial seita da formiga branca 23-11-10

Devo dizer que não tenho nada contra a burocracia!

Contra os excessos de exercício da dita pela dita (àh…!) isso tenho!

Nesse contexto não posso deixar de recordar aqui o que se passou, já lá vão muitos e bons anos em Inglaterra com um amigo meu, num caso que acompanhei de perto, porque lá estava.

Foi um processo burocrático que desde então me deu a medida da fronteira entre o que é “red tape” (não traduzo este conceito para português porque não significaria mais do que a própria tradução literal francesa do termo) e burocracia mal entendida.

O caso foi que esse meu amigo teve um filho numa maternidade de “West London”. O menino nasceu saudável, revelou-se criança inteligente foi adolescente escolar com boas notas e actualmente é engenheiro reputado, razões pelas quais de sobra prova que não só nasceu como existe.

No entanto, à data, o pai da criança dirigiu-se ao consulado português na capital britânica a fim de pedir que lhe fosse passada uma “cédula pessoal”. A dita era um caderninho de poucas folhas e capas pretas que se diferenciava apenas dos certificados de vacinas pela cor. A das vacinas era de capas amarelas.

Resposta do atencioso funcionário: – Sim, mas é preciso uma certidão de nascimento. O meu amigo agradeceu a informação e dirigiu-se, acto contínuo, ao hospital onde o filho varão e seu primeiro orgulho (depois teve mais três) tinha nascido e pediu que lhe passassem uma “certidão de nascimento” do rebento. O funcionário hospitalar, por acaso uma senhora de meia-idade igualmente simpática e que de meia em meia frase dizia “Yes please”, olhou para ele surpreendido e respondeu depois de consultar um livro: – Não há dúvida de que nasceu. Está aqui escrito. O que é que quer ao certo?

-Uma “certidão de nascimento” respondeu candidamente o meu amigo.

A senhora, apesar de todas as explicações que lhe foram fornecidas continuava “puzled”, ou seja sem compreender bem o que lhe era pedido. Definitivamente não sabia o que uma certidão de nascimento fosse. No entanto perante tanta insistência vinda de dois estrangeiros. Gente sobre a qual os ingleses pouca ideia costumam ter acabou por satisfazer a nossa insistência que terá levado à conta de impertinências continentais sem importância de maior, ou seja “courious things about foreign people”.

Então? Se o nascimento ocorrera como constava do registo hospitalar, sem vestígios de falsificação aparente, para que eram preciso mais provas?

Todos três entendia-mos que assim era, mas o consulado português achava que não. Nesse contexto de concordância geral a paciente funcionária parece ter descoberto subitamente a solução que não apenas nos satisfaria pessoalmente, mas possivelmente também à burocracia exigente do “estranho” país (fossemos lá de onde fossemos) de que éramos cidadãos. Creio que nesse momento, pelo nosso aspecto moreno de bigodes hirsutos pensaria que na verdade éramos árabes recheados de “petro-dólares”, ou coisa que o valha.

Talvez por isso, pensando que os ditos árabes eram afinal quem lhe pagava o ordenado, isto a ter em conta as notícias dos “tablóides” que davam a Inglaterra como comprada pelos “sheiks” (e se calhar até pensava bem, sabe-se lá?…) a senhora, em vez de perder a paciência e nos mandar embora, abriu um bloco de notas sob a luz néon do balcão de atendimento e no papel em que anotava diária e indiscriminadamente o rol da mercearia, recados que os médicos lhe deixavam, números de telefone avulso e garatujas diversas, transcreveu de forma resumida o que constava do cardápio encadernado em folhas de couro sobre o novel bebé do meu amigo. Em seguida (cuidadosamente diga-se) rasgou a folha pelo picotado exibiu-a perante nós entre o indicador e o polegar e disse mais, ou menos triunfante

– Aqui está a certidão. “Are you happy now?”

– “Yes. Thank you very much” respondeu o pai requerente, que em voz baixa, como se a funcionária percebesse português me disse: – O consulado de certeza que não vai aceitar isto…. Achas que sim?

Eu achava que não, mas guardei de “Conrado o prudente silêncio”. Se calhar é capaz de não! mas afinal, é uma inglesa que escreve (lembro-me de ter pensado). Para Portugal a letra de qualquer inglês tem o mesmo valor de uma letra de crédito. A qualidade do papel em que escrevem seja o que for é o que menos interessa e para o consulado não deixará de ser, com certeza, igualmente assim.

Não sei ao pormenor o que aconteceu depois, mas certo é que o filho do meu amigo é hoje cidadão português e inglês. Com iguais direitos nos dois países e benefícios inerentes. Ou seja o livro base do hospital privado que o tinha dado como nascido ficou guardado nessa instituição (sublinho) privada com igual rigor como se o tivesse sido na “British Library”.

Esta história longa vem a propósito de uma conclusão bem mais curta que é esta: – Em Macau nas velhas tradições burocráticas dos “Filipes de Espanha” que inventaram o papel selado e nas dos funcionários estereotipados nos romances de Dostoyevsky (ou de Franz Kafka) certidões de nascimento, selos brancos e coisas que tais possuem valor absoluto independentemente de serem apócrifos, ou não. E nesse ponto damos plena razão à funcionária do hospital de Londres: “Então? se está escrito nos livros oficiais é porque é verdade!”. No Mundo anglo-saxónico os documentos originais (tal como nos arquivos da China) são preservados como se fossem sacro santos. Mas no mundo lusófono onde se encontram ao certo os documentos originais?

Em Macau, por exemplo, a verdade é que apesar das leis que obrigam a arquivar a história (nomeadamente a última) sobre a conservação de documentos datada de 1989 (que eu saiba) o que se verifica é que as certidões passadas muitas vezes se fundam sobre nada, ou muito pouco. Ou seja os documentos originais deixaram e continuam a deixar de existir, mais ou menos à vontade de cada serviço. Já não falo sequer dos chamados “papéis de Seda” (Sai Chi Key), por exemplo que não correspondem a qualquer registo de conservatória e muito menos se encontram no Arquivo Histórico. Mas nem sequer é preciso ir tão longe, nem vale a pena particularizar. Basta apenas perguntar aos serviços de Macau se sabem e cumprem nesta área particular a lei 7M3/89e que diz assim : Artigo 10.º(Conservação permanente)

1. Os documentos de conservação permanente não podem ser eliminados, devendo ser conservados nos serviços ou instituições a que pertencem sempre que tenham interesse para os mesmos. Ser incorporados no Arquivo Histórico, de acordo com as competências que lhe são conferidas (…) a título de arquivos definitivos. (…) Os serviços ou instituições a que os documentos pertencem podem proceder à sua transferência para suportes de cópia sempre que o julguem necessário.

Gostava de saber que serviços cumprem a lei no que toca à microfilmagem, ou passagem de arquivos para suporte informático? Gostava também de saber se algum serviço presta sequer atenção ao que a lei diz.

Mais, gostava de saber ainda se alguém classifica documentos (do ponto de vista histórico) de acordo com o que o Artigo 17.º que fala de Indestrutibilidade diz: –

“É proibida a destruição de arquivos privados classificados”. Alguém se preocupará na nossa Administração Pública em saber que arquivos privados classificados existem no seio dos seus departamentos (já nem falo dos exclusivamente privados, como os pertencentes a empresas públicas tais como a CEM. SAAM, CTM, TDM, Air Macau, e outras.

O Artigo 7.º (Selecção) diz que: – “A selecção é o processo que permite determinar os documentos que devem ser conservados ou que devem ser eliminados”. Pergunto-me de novo? Algum departamento público terá tido verdadeiramente em conta este artigo?

É minha convicção que o que existe com mais de dez anos e não constitui processo a “aguardar melhor prova” como se diz em linguagem judicial tem sido sem remissão deitado ao lixo. Não simplesmente por incúria, estou quase certo, mas muito mais provavelmente por falta de espaço para o efeito.

Neste ponto pergunto-me o que fazem os membros integrantes do Artigo 19.º que se chama Conselho Geral de Arquivos (CGA) que foi criado, como órgão consultivo do governo e ao qual alegadamente compete contribuir para a definição das políticas arquivísticas do Território, cabendo-lhe designadamente: – Propor os critérios de selecção, os prazos de conservação e o destino final da documentação. Dar parecer sobre todas as questões regulamentares e científicas respeitantes aos arquivos que lhe sejam submetidas ou sobre as quais entenda dever pronunciar-se.

Ao CGA compete igualmente reunir em sessão ordinária no princípio de cada semestre e, em sessão extraordinária, sempre que o presidente ou a maioria dos membros o requeira ou, extraordinariamente sempre que o Serviço de Administração e Função Pública o solicite.

Não tenho notícia de qualquer reunião ordinária, ou extraordinária deste CGA e provavelmente os membros que o integram (devido com certeza a muitos outros afazeres a que estão sujeitos) mal sabem que pertencem a tal comissão.

Para um historiador o caso é grave, mas para um funcionário público não deixa de o ser também, ou mais ainda. Principalmente quando por imperativos de serviço é necessário fazer um estudo sobre isto, ou aquilo.

Muitas vezes gastam-se milhões em novos estudos sobre os mesmos sujeitos que décadas antes foram dissecados, muitas vezes, até à exaustão. Como exemplo tenho presente o relatório, do governador Marques Esparteiro de 1956 que cita alguns planos que actualmente são encarados como novidades que o progresso impõe, mas de que ninguém se lembrou que já tinham sido iniciados (ou porventura mesmo concluídos) há mais de meio século. Igualmente não falo nos estudos técnicos, mais antigos ainda, subscritos pelas equipas do Almirante Lacerda, ou do engenheiro Adolfo Loureiro que directamente têm a ver, actualmente, com os aterros que estão a ser construídos nas imediações marítimas da Ponte da Amizade. Não! Peço apenas que cada serviço tenha consciência do que tem. Não deite fora o papel que eventualmente pensa que existe a mais nos seus armazéns. Se os não pode microfilmar, ou classificar, pelo menos entregue-o em bruto ao Arquivo Histórico.

Os ingleses (mas não só) da história por que comecei este artigo fazem-no há séculos numa tradição burocrática. Se quiser ir hoje ao hospital onde nasceu o filho do meu amigo, em Londres, há mais de 30 anos encontro certamente o seu registo. E se lá não estiver uma secretária atenciosa para além do inevitável “yes please” me dirá que o livro de nascimentos de 1973 foi enviado para tal, ou tal arquivo e com mais do que certeza absoluta o encontrarei onde me foi indicado.

No entanto hoje se tentar encontrar informação ainda que carimbado e numerada de um qualquer documento constante há apenas meia dúzia de anos num serviço qualquer, mas que não conste dos processos correntes passíveis de serem eventualmente consultados e que não contenha rara chancela de “classificado” o mais provável é que nem deles cinzas restem.

Felizmente que em Macau nesta a área a culpa nunca morreu solteira e como dizia Monsenhor Manuel Teixeira a responsabilidade foi e será sempre atribuída a uma e só delinquente e insidiosa “seita” que costuma dar pelo nome de “formiga branca”.

Pena é que sobre a questão nenhum poder constituídos tenha algum dia reivindicado competência para inquirir e nem “Provedoria de Justiça”, ou “Comissariado de Auditoria” se lembre de levantar a questão.

O corredor secreto 16-11-10

Naturalmente que perante a omnipresença japonesa em Macau o estatuto de neutralidade valia menos do que nada e foi isso mesmo que o comandante Gabriel Maurício Teixeira se apercebeu mal chegou ao Território. Isto bem ao contrário do seu chefe da administração civil Meneses Alves. Curioso será entender o facto de ambos serem convictos apoiantes e militantes dos princípios do Estado Novo não diferindo nesse aspecto em termos ideológicos. No que diferiam era nos termos práticos em que haviam de administrar um território cuja situação geopolítica internacional só teria paralelo com o Marrocos francês expresso por Humphrey Bogarth e Ingrid Bergman no filme “Casa Blanca”.

No entanto apesar de todas as eventuais semelhanças o cenário de Macau não era o de Casablanca nem a ficção, ainda que por vezes romântica, se balizava pelo preto e branco. Macau era uma película muito mais complexa. É que sobre as duas cores opostas imperavam todos os matizes de cinzento numa cortina tanto mais difusa quanto lhe emprestava o seu oriental exotismo.

Este esbatido cenário mostrava-se a toda a largura da boca do pano através de dois actores que se mantiveram em cena no palco macaense durante os quatro anos da guerra.

Um era o cônsul britânico John P. Reeves, o outro o seu homólogo japonês Fukui Yasumitsu.

John Reeves era um jovem diplomata quando chegou a Macau vindo de Mukden (actual Sheniang) local onde a guerra secreta se travava de um modo particularmente aceso entre o Japão, a China e as potências ocidentais. Alegadamente terá vindo para Macau para descansar. De que trabalhos e fadigas que outros dos seus colegas não tenham tido? Não se sabe nem era para saber. De facto a ordem oficial de descanso de Reeves não era mais do que uma cobertura já que o cônsul pertencia ao MI6 (Inteligence Service) organismo que dependia do Foreign Office. O posto que vinha ocupar estava longe de se assemelhar a uma estação de convalescença sendo sim uma das principais “antenas” do Extremo Oriente dos serviços de informações.

No que diz respeito a Fukui Yasumitsu a história era outra. Fukui era um funcionário diplomático cumpridor, mas com um espírito intrinsecamente civilista ligado ás correntes políticas que se opunham ao totalitarismo militarista que tinha tomado o seu país com a bênção do imperador Hiroito. No plano concreto Fukui, reflectia a opinião de correntes prevalecentes ainda que sem poder de decisão junto dos órgãos centrais de que a ocupação militar da China não passava de uma guerra perdida a longo prazo. A curto prazo representaria quando muito um investimento demasiado caro, tanto em dinheiro como em vidas perdidas sem possibilidade de retorno. Quanto ao slogan “a Ásia para os asiáticos” apregoado aos quatro ventos pelo “Império do Sol Nascente” Fukui entendia-o apenas como isso mesmo, ou seja um mero slogan que na prática não significava mais do que uma entrada tardia do seu país numa era imperialista que a Europa e os EUA tinham iniciado na China com a primeira “guerra do ópio” (1839-42).

Estes dois homens encontraram-se em Macau (se não se tivessem encontrado antes em Mukden) numa situação pouco menos que surrealista descrita assim: –

Macau é hoje um centro de espionagem japonesa e por sua vez de contra-espionagem chinesa. Registam-se com frequência na colónia atentados a chineses de tendências pró Japão ou mesmo com a simples suspeita de simpatia por ele (…) os nossos amigos de ambos os lados desconfiam de nós (…)mau é que nos tenham colocado nessa posição tornando qualquer movimento que não seja absolutamente claro, suspeito aos seus desconfiados olhos (…). Também os japoneses pensam e dizem que precisam dificultar a vida a Hong Kong que ajuda o governo de Chiang Kai-Shek permitindo que por ali se transporte material e artigos de guerra. (…) Se houver guerra a nossa posição já é diferente. A amizade secular com a Inglaterra pode ser um factor contra nós. (…) Os chineses suspeitam que Hong Kong não poderá dar-nos auxílio e, nestas condições, por sua vez, não nos olharão com os mesmo olhos com que nos vêm agora.

Em 1943 o Japão reuniu uma conferência histórica com os chefes de estado das nações do Sudeste Asiático: – Hideki Tojo (Japão), Wang Jingwei (China), Zhang Jinghui (Manchukuo), Ba Maw (Birmânia), Whaiwhai Thayakone(Tailândia), Jose Laurel (Filipinas) e Chandra Bose (Índia) todos estes tomaram parte na conferência que se realizou numa calorosa atmosfera em Tóquio. “A Ásia para os asiáticos” era o lema.

Esta era a súmula oficial da situação de Macau descrita em relatório secreto pelo bem informado cônsul português em Cantão Vasco Martins Morgado em 1938 no limiar da guerra e da chegada dos dois cônsules.

Curiosamente, Reeves e Fukuy iriam habitar em residência vizinhas nas faldas da colina da Guia mantendo amizade pessoal que não escondiam, nomeadamente ao marcarem presença conjunta em vários eventos sociais e desportivos patrocinados pelo governo de Macau, ou pelos respectivos consulados.

Esta situação mudaria radicalmente na sequência da ocupação de Hong Kong.

Embora permanecessem tão amigos como antes, os dois representantes diplomáticos, depois da declaração de guerra, não tiveram remédio senão considerar-se também formalmente inimigos.

Como prova disso mesmo fizeram questão em emparedar as janelas das respectivas vivendas fronteiras em que residiam a fim de vincar o corte de relações. Formalmente os dois cônsules deixavam dali para a frente de se falar. E nunca mais foram vistos juntos nos convívios sociais onde até então tinham sido assíduos.

O emparedamento das janelas não passou porém de mais outro formalismo (um tanto conspícuo) já que Fukui e Reeves se encarregaram de mandar construir “secretamente” um corredor entre as duas residências que permitia que se continuassem a encontrar ou a receber visitas sempre que assim entendiam fora de vistas indiscretas. E as visitas oficiais eram sem dúvida, principalmente, os agentes da “Kempentai” (polícia secreta militar) japonesa, comandada pelo coronel Sawa, que mantinham um pesado aparato de vigilância à casa do lado, ou seja de Reeves, seguindo-o sempre e ostensivamente de cada vez que se deslocava de casa para o consulado, ou para os diversos actos protocolares em que participava.

Quanto às instâncias portuguesas a construção do corredor não pareceu constituir infracção de maior já que não consta ter havido denuncia de obra ilegal efectuada a propósito, nem por parte dos fiscais das Obras Públicas nem da polícia, embora a construção fosse patentemente notado por todos os que por ali circulavam, incluindo as crianças do bairro de S. Lázaro que se perdiam em brincadeiras a poucos metros do local no Jardim Vasco da Gama e que do “secreto” corredor conheciam a história.

Apesar do benevolente semi-cerrar de olhos oficial ao anómalo convívio entre Fukui e Reeves o caso do “corredor” continua, ainda hoje, a constituir um total mistério. Terá sido ditado pela necessidade imperiosa de manter secretamente uma forma de contacto regular através dos dois homens entre as duas potências em conflito? É uma possibilidade, tanto mais que o dito corredor, não só permitia a passagem de Reeves, Fukui e respectivas famílias, como também a reunião informal de toda a espécie de pessoas que um ou outro dos dois cônsules pudessem convidar para suas casas. Nesse âmbito incluía-se Menezes Alves, chefe da Administração Civil, Pedro Lobo o todo poderoso chefe da Repartição dos Serviços Económicos, oficiais do exército, marinha e polícia, bem como os principais próceres das elites comerciais chinesas de Macau e Hong Kong (estes refugiados em Macau), e mesmo o próprio governador que conforme lhe conviesse poderia entrar oficialmente pela porta de “casa” do Japão, ou da Inglaterra sem ninguém saber ao certo se quebrava a neutralidade que o cônsul Morgado tão insistentemente defendia que tinha de ser preservada a todo o custo.

No entanto o corredor parece ter sido um elemento vital num conjunto de atitudes do consul Fukui que levantou suspeitas de infidelidade ao regime por parte do coronel Sawa.

Um dia ao sair de casa um comando de assassinos esperava-o à porta abatendo-o a tiros de metralhadora. A autoria do atentado não deixou dúvidas a ninguém. O coronel Sawa era o suspeito. No entanto, como o ataque foi levado a efeito por elementos de uma seita chinesa a suspeita não se provou. O governo de Tóquio lavrou um protesto diplomático e Lisboa não teve remédio senão pedir desculpas formais e pagar uma indemnização compensatória por um crime com o qual nada tinha a ver.

Macau 1941-45: Um anel de ferro a toda a volta 09-11-10

Falei a semana passada nas actividades clandestinas da resistência dos aliados em Macau contra a ocupação japonesa durante a Guerra do Pacífico. Um período de neutralidade precária que Macau viveu envolto no anel de ferro que os japoneses mantiveram em torno do Território que assim permaneceu virtualmente isolado do mundo exterior durante mais de quatro anos, particularmente após a queda de Hong Kong no Natal de 1941.

Irei ocupar-me agora da presença japonesa e da sua guerra secreta, mas antes é necessário traçar o quadro da situação nesses anos de brasa, sem o qual não é possível compreender uma situação essencialmente caracterizada por um jogo de sombras.

A neutralidade de Macau permitiu que ao longo de todos esses anos a “union jack” que flutuava diariamente no consulado britânico local fosse a única bandeira aliada visível em todo o Extremo Oriente depois de todas as outras terem sido humilhantemente arriadas, pelas forças nipónicas que em poucos meses tinham provado com a rápida conquista de Hong Kong e Singapura que a Inglaterra como super-potência não passava de um mito.

O Japão dominava de Norte a Sul, ou seja desde a Manchúria à Indonésia sem contestação e ameaçava a Austrália. A esquadra inglesa que “alegadamente” patrulhava o Pacífico tinha sido metida a pique pelas forças navais do almirante Yamamoto nos mares de Singapura e a maior parte dos militares de sua majestade o rei Jorge VI  encontravam-se irremediavelmente encarcerada nos campos de concentração das ex-colónias da costa da China e do Sudeste Asiático. Militarmente o Japão tinha provado a sua superioridade incontestável nos mares repetindo de uma forma exponencial a vitória que tinha obtido em 1905 contra os russos, quando se tornou o primeiro país não europeu a derrotar militarmente “sem apelo nem agravo” um potência ocidental o que lhe permitiu começar a falar de igual para igual com o que então era designado como o “mundo civilizado”.

Nesse contexto, Macau não foi engolido pela força avassaladora do “Sol Nascente” apenas porque Lisboa decidiu adoptar uma politica inversa à que a República tinha adoptado na “1ª Guerra”(1914-18) e que tinha feito com que Portugal “à autrance” tivesse praticamente “obrigado” a Inglaterra a invocar a “velha aliança” a fim de se fazer participar no conflito.

Desta vez os argumentos de Portugal foram esgrimidos ao contrário. A “velha aliança” manteve-se, desta vez, guardada nas gavetas do Ministério dos Negócios Estrangeiros e a Inglaterra agradeceu. Para Londres a neutralidade de Portugal convinha muito mais do que a beligerância activa que o “Foreign Office” tinha pedido na primeira conflagração mundial, quando solicitou a apreensão dos navios alemães surtos nos Portos portugueses.

Independentemente dos argumentos que hoje possam ser aduzidos relativamente à atitude do ditador Salazar perante a guerra certo é que no que diz respeito exclusivamente a Macau essa posição representou a salvação do Território, não só durante o conflito, mas imediatamente após. Isto porque assinada a rendição do Japão em Agosto de 1945, o futuro da colónia britânica de Hong Kong esteve por um fio face às reivindicações nacionalistas do partido Kwomintang e ao facto de os Estados Unidos terem acordado com Chiang Kai-shek que Hong Kong seria entregue à China logo que os japoneses fossem expulsos do país. Nesse contexto Macau ficava desde logo (como ficou) pela neutralidade decorrente da política externa de Lisboa fora de qualquer pré acordo internacional que pudesse existir e livre para negociar com qualquer das potências que emergissem vencedoras.

Por outro lado, no âmbito estritamente militar Macau era na verdade um território inerme, por muito que a doutrina do Ministro da Defesa Santos Costa afirmasse que todo o ultramar português era defensável. Essa doutrina estava longe de corresponder a qualquer realidade, particularmente no que a Macau dizia respeito. Isto apesar das grandes obras de engenharia militar (decorrentes dessa doutrina posta em vigor na segunda metade dos anos 30 do século passado) que foram levadas a cabo e que ainda hoje podem ser observadas em parte nos extensos “bunkers” existentes na zona envolvente do Farol da Guia que no limiar da guerra chegaram a estar eriçados de potente artilharia de costa. Sublinhe-se que antes de dispararem um tiro que fosse os imponentes canhões que ali foram montados tão depressa o foram como o seu destino se cifrou em rápido desmonte. O inusitado afluxo de refugiados que mais do que duplicou a população do Território ditou o inexorável desmantelamento da artilharia que seria ingloriamente vendida aos japoneses em troca de arroz base fundamental da sobrevivência da cidade.

Complexo semelhante ao da Guia existia também em toda a linha de fronteira terrestre na zona das Portas do Cerco. Uma verdadeira colmeia subterrânea capaz de conter uma guarnição de três mil homens. Deste porém hoje nada resta depois das obras que ao longo das últimas décadas foram sendo feitas naquela área.

Apesar de toda a aparente imponência, o dispositivo militar de Macau não passava de um “tigre de papel” como se diria nos tempos da “Revolução Cultural”. De facto nessa época a guarnição militar era constituída por 497 homens, sendo 22 oficiais do exército, 35 da marinha e 440 soldado, cabos e sargentos, 224 dos quais eram elementos recrutados em Moçambique que constituíam as companhias de “caçadores indígenas” (Landins).

Aviação Naval de Macau em 1941 (Foto: – macauantigo.blogspot.com)

Para além destas o dispositivo militar era integrado por uma companhia de metralhadoras, e outra de artilharia. Os destacamentos militares da Taipa e da Ilha Verde completavam o diagrama operacional. O apoio aéreo era garantido por 4 hidroaviões “Hawker Osprey” da Marinha, que tal como os canhões da Guia acabariam igualmente por se desvanecer em mãos obscuras resultantes de negócios de emergência ditados igualmente pela necessidade de adquirir bens essenciais.

Neste contexto qualquer tentativa de resistência perante o invasor japonês nem sequer à partida seria concebível, a não ser para os alegados estrategas de Santos Costa confortavelmente instalados nos sofás do Ministério da Defesa no Terreiro do Paço que apenas pretendiam mostrar serviço desenhando planos de batalha fabulosos sobre mapas de conjuntura geográfica e estratégica essencialmente desactualizados. O plano consistia em resistir até à chegada de reforços. Mas que reforços? Perguntar-se-ia sabendo-se que as forças armadas portuguesas não possuíam nem efectivos nem meios de transporte suficientes para enviar forças expedicionárias fosse para onde fosse. Mesmo o Estado de Goa que era a colónia mais próxima e mais forte não possuía meios capazes para se defender a si própria quanto mais enviar um corpo expedicionário para Macau!

A mobilização do então tenente Bragança (já falecido) é ilustrativa desse contexto militar pouco menos que desolador. O tenente Bragança foi mobilizado para Macau como comandante da defesa anti-aérea viajando juntamente com o governador Maurício Teixeira, de quem tinha aliás opinião politicamente pouco favorável. Sendo voluntário para o efeito e havendo vaga pouco interessava ao estado-maior do exército que soubesse ou não como operar artilharia contra aviões. Todavia o tenente como era escrupuloso (disse-mo, em entrevista que lhe fiz para a TDM em 1997) em vez das férias a que tinha direito, antes de partir, decidiu antes tomar algumas lições de como operar com as novas baterias que iria ter por comissão comandar. Para espanto seu (e nosso) o seu voluntarismo confrontou-se com o aborrecimento expresso do comandante da defesa anti-aérea de Lisboa que achava que o estatuto de um oficial estava acima de trivialidades tais como essas de saber apontar uma metralhadora pesada “Bren” e carregar num gatilho para abater um avião inimigo.

Certo é que, quando a aviação americana bombardeou o Porto Exterior em Janeiro de 1945 as metralhadoras anti-aéreas de Macau não dispararam um tiro. Ou porque os artilheiros não estavam nos postos de combate, ou porque o tenente Bragança não estava lá para os liderar, já que por ignotos imperativos de serviço se encontrava a comandar um pequeno pelotão estacionado bem longe na ilha de Coloane.

Pouco tempo depois do tenente Bragança e do governador Maurício Teixeira chegarem a Macau (Outubro de 1940) a Hong Kong chegavam também consideráveis forças canadianas para reforçar as suas defesas acrescentando mais tropas aos 52 mil homens que constituíam a guarnição da colónia.

Simultaneamente a Singapura chegavam os cruzadores “Prince of Wales” e “Repulse” (glórias da “Primeira Guerra Mundial” ingloriamente torpedeadas pela moderna marinha do “Sol Nascente” mal arribaram ao Estreito de Malaca) para apoiar os 82 mil homens que defendiam a cidade.

Apesar de todas essas demonstrações de força e reafirmações propagandeadas pela “BBC” de que a presença britânica no Extremo Oriente era inexpugnável, Singapura e Hong Kong renderam-se em poucos dias com pesadas baixas. Em Singapura caíram em combate 9500 homens. Em Hong Kong 2113. Nesse contexto de hecatombe que poderia fazer Macau, com os seus 497 soldados? Nada! Ou então fariam o mesmo que fez Vassalo e Silva em Goa em 1961, que se rendeu em 36 horas porque perante uma força invencível sacrificar vidas era opção sem sentido.

Mas, felizmente que, Maurício Teixeira não era Vassalo e Silva, nem Macau estava tecnicamente em guerra. Por isso, o governador, cuja biografia está ainda por fazer, comandou durante cinco anos um teatro de operações de marionetas sombrias e letais cujos cordelinhos que as manipulavam fugiam quase por inteiro ao seu controlo.

Por isso, quando A 5 de Agosto de 1946, o comandante do aviso  “Afonso de Albuquerque”, Samuel Conceição Vieira assumiu as funções de encarregado do Governo, por um período de treze meses, em substituição de Gabriel Maurício Teixeira, “afastado de Macau, a pedido das autoridades chinesas, que o acusavam de ter colaborado com os japoneses durante a guerra do Pacífico” consumava-se finalmente o teatro de todas as farsas que tinha sido o Extremo Oriente em chamas desde 1937. Tudo porque durante cinco anos a neutralidade de Macau não passou de um mito. Os senhores da colónia portuguesa eram de facto os japoneses. O seu “shogum” era o frio e implacável coronel Sawa, chefe da temível “Kempentai” a polícia secreta do Imperador do Japão na província de Guangdong.

Dele pouco se sabe, mas do que fez há notícia bastante para lhe traçar o perfil terrorista. Falarei dele na próxima semana.

A guerra em campo neutro 02-11-10

Ao longo dos quatro anos do chamado conflito do Pacífico Macau manteve-se território neutral mas a guerra ainda que uma forma muito mais insidiosa também teve também aqui o seu teatro ao longo desse angustiante período e apesar de toda a neutralidade oficial.

A neutralidade de Macau foi diplomaticamente e na generalidade respeitada tanto pelos japoneses como pelos aliados, ao contrário do que aconteceu em Timor onde a intenção australiana de ali firmar pé levou o exército nipónico a ocupar a antiga colónia portuguesa.

Apesar disso porém Macau não deixava de ser igualmente uma frente de combate ainda que esse combate fosse levado a cabo por soldados vestidos à civil, guerrilheiros, mercenários e espiões. Aqui todas as forças estavam na primeira linha, mas os diferentes exércitos em vez de se misturarem em sangrentas batalhas digladiavam-se nas sombras. Saber quem era o inimigo foi tarefa impossível até ao final da guerra.

O Hotel Central, situado na Almeida Ribeiro, por exemplo era uma verdadeira Babilónia, onde se entrecruzavam em festas quase permanentes agentes de todas as cores. Fardas do exército português rodopiavam em memoráveis bailes por entre uniformes do “Império do Sol Nascente” e caquis das forças de Wang Jingwei, o presidente chinês do governo de Nanquim marioneta dos japoneses. Jovens mulheres das mais diversas proveniências, desde Yokohama a Harbin e às vezes de mais longe ainda condensavam uma atmosfera envolta em volutas de fumo e eflúvios de álcool no que se diria uma transposição literal dos loucos anos 30 que fizeram a imagem de Xangai. Nesse ambiente de cacofonia, nas na pista de dança e nas mesas que a circundavam segredavam-se os diálogos mais inconcebíveis. Desde informações de valor estratégico para o combate que troava do outro lado das Portas do Cerco a convenientes boatos, passando por negócios escuros, ou apenas negócios, até inocentes juras de amor eterno. Nestes casos o termo “eterno” era um tanto despropositado, pois a eternidade desses tempos em Macau nunca ia muito além da manhã do dia seguinte, já que o futuro constituía para toda a gente a mais total das incógnitas.

Desse ambiente, para além de algumas descrições vivas que se podem encontrar nalgumas obras do romancista Leal de Carvalho, por exemplo, o testemunho do antigo deputado do Conselho Legislativo de Hong Kong, Rogério Lobo (Sir Roger Lobo) constitui uma breve mas elucidativa síntese: – “Eu nunca senti ódio dos chineses a soldo dos japoneses, ou dos próprios japoneses em Macau. Para mim eram apenas pessoas que faziam o que tinham a fazer. Eu fazia também o que tinha a fazer”. O testemunho de Rogério Lobo é tanto mais exemplar quanto ele próprio pertencia uma das mais célebres redes de espionagem que operou durante a “Guerra do Pacífico” no Sul da China com quartel-general em Macau. – “Nos fazíamos parte do British Army Aid Group essencialmente encarregado de enviar para a China livre os pilotos dos aviões que eram abatidos nesta região, ou que conseguiam chegar a Macau. nós conseguíamos retira-los e faze-los regressar às suas unidade de origem. O grupo de “inteligência” passava-nos as informações de modo a conseguirmos localizar os pilotos e coloca-los em juncos depois de nos assegurarmos que a costa estava livre. Essas operações eram normalmente feitas com dois juncos. Um era a motor e suficientemente barulhento para atrair a atenção das patrulhas japonesas. Seguia de maneira a ser deliberadamente apanhado. O outro era o que na verdade transportava o fugitivo escondido e que calmamente rumava sem embaraços com destino à China livre. Eram operações arriscadas. Para nós, para os pilotos, enfim, para toda a gente (…) Recebia as ordens de missão normalmente pela manhã cerca das 10, ou 11 horas durante os jogos de ténis modalidade que praticava. Depois lá ia. Aprendemos a nunca falar sobre o que fazíamos. Nem mesmo com meu Pai alguma vez discuti esses assuntos. O grupo fazia parte da estrutura comandada por Lord Mountbatten”.

Assim, ao longo desses anos Macau foi de facto um palco de guerra e não só um oásis de paz, como aparentemente se poderia ser levado a pensar pela maior parte das memórias que foram sendo recolhidas de quem viveu esses tempos. O lado sombrio e clandestino da guerra permaneceu por isso bem guardado no silêncio das memórias tanto mais que as actividades de espionagem se mantiveram abrangidas pelas leis do segredo de estado até muito depois do final do conflito com a rendição formal do Japão no dia 2 de Setembro de 1945. Por isso revelações extemporâneas, mesmo já em tempos de paz poderiam ser alvo de pesadas condenações nos tribunais civis e militares ingleses, americanos, ou chineses.

No caso português o regime de Salazar possuía ainda meios de coação adicionais que eram a PIDE e os tribunais plenários que até 25 de Abril de 1974 se mostraram sempre lestos em descobrir atentados contra a Nação, mesmo nas mais inócuas das memórias, quer fossem dadas à estampa, ou apenas conversadas em tertúlias de café.

Como abóbada a encerrar todos os segredos por contar acresce ainda a panóplia de traidores e agentes duplos que faziam com que na Macau da “Guerra do Pacífico” nunca se soubesse ao certo quem era quem. A figura do jovem William Gardner, fica para a história como um paradigma.

Gardner era um dos milhares de refugiados que a Macau se acolheram e que deu nas vistas por alegadamente se “bandear” abertamente com os japoneses. Por isso era visto com maus olhos por todos os que simpatizavam com a causa aliada e que constituíam a maioria, mas não só. Diz-se que Gardner chegou a passear-se na Almeida Ribeiro e nos salões do Hotel Central armado e ostentando um uniforme japonês. Por isso sofreu quatro anos de segregação e seus próprios pais não escondiam a vergonha que sentiam pelo comportamento do filho. No entanto, selada a paz Gardner surgiria inopinadamente aos olhos dos que o condenavam vestido, agora sim, com o seu verdadeiro uniforme que era o do exército dos Estados Unidos e integrado numa delegação militar do seu país. Ao peito refulgia para maior espanto de todos a condecoração que lhe tinha sido imposta por relevantes serviços prestados em campanha à causa aliada.

Os guerrilheiros esquecidos do Rio de Leste 26-10-10

Como tenho vindo a dizer a história é assunto delicado de pegar.

Por um lado não se pode fazer sobre o acontecimento, porque é necessário distanciamento no tempo relativamente aos acontecimentos.

Por outro historiar, em muitos países, ainda hoje significa, por vezes, ofender o poder político vigente com as consequências que tais ofensas acarretam.

E por vezes não são poucas.

Muitos que se atreveram a “esgravatar o passado” foram parar às cadeias, ou caíram mesmo perante os pelotões de fuzilamento (noutros tempos claro!).

Goya deixou desenhos elucidativos sobre esse assunto.

Basta olhar para os seus quadros e esboços sombrios para ter uma ideia do que é pugnar pela verdade contra a verdade que os poderes soberanos de ocasião entendem que deve ser.

Portanto, porque não convém, politicamente, ou porque não é oportuno, ou mesmo porque é arriscado, muitas memórias que muitas vezes poderiam explicar com simplicidade o rumo dos acontecimentos no mundo permanecem ignoradas, ou pudicamente auto-obliteradas porque não convém. Por isto, ou por aquilo…

Essas lacunas só contribuem para lançar véus de mistério desnecessários sobre as razões pelas quais as sociedades se comportam de um modo e não de outro. Por vezes o mundo aparenta mover-se de forma incoerente, mas na verdade os resultados sociais decorrem sempre de causas anteriores bem definidas. Conhecendo-se as causas o rumo da marcha dos povos torna-se então mais discernível

Às vezes, decisões políticas e estados sociais radicam em factos históricos marcantes mas que pelas razões apontadas foram relegados para o esquecimento apenas porque a conjuntura política o determinava e a bruma impõe-se.

É o caso narrado no livro: “East River Column. Hong Kong Guerrilhas in the Second World War and After.

Em português, qualquer coisa como “A Coluna do Rio de Lestes. Os guerrilheiros de Hong Kong durante a Segunda Guerra Mundial e depois”.

Mas o que era a Coluna do Rio de Leste?

Em resumo pode dizer-se que era um grupo de patriotas liderado pelo Partido Comunista da China (PCC), sobre os ombros de quem pesou a maior responsabilidade na resistência contra a ocupação japonesa desde 1937 em diante, nesta região do país. A coluna era composta por umas centenas de militantes que iam de intelectuais a camponeses e pescadores iletrados unidos pelos anseios de liberdade contra a opressão nipónica. Não muitos seriam verdadeiramente comunistas no sentido militante do vocábulo, mas certo é que estavam enquadrados nas fileiras e operavam de acordo com a estratégia do partido.

Esse grupo não só manteve em cheque as forças japonesas, como prestou igualmente um auxílio valioso (atrás das linhas) aos exércitos aliados no Leste Asiático, no campo de batalha e no domínio das informações tácticas e estratégicas de auxílio à campanha.

Por outro lado teve também uma acção de relevo no apoio à fuga de numerosos prisioneiros de guerra aliados internados nos campos de concentração japoneses de Hong Kong.

Memorial dedicado à luta dos guerrilheiros contra a ocupação japonesa na província de Guangdong.

Pergunta-se então. Se tiveram uma acção tão relevante, porque é que pouca gente sabe hoje que Coluna tenha sido essa?

A explicação é simples.

No final da guerra, à Inglaterra, ao reocupar Hong Kong, convinha não hostilizar o governo nacionalista, do Kwomintang que tinha lutado bem mais contra os comunistas do que contra os japoneses e a “Coluna do Rio de Leste” era o braço armado do PCC na província de Guangdong. Não era o governo oficial da China. Só o viria a ser no final da guerra civil em 1 de Outubro de 1949.

Por isso, embora reconhecendo os esforços valorosos empreendidos pela Coluna durante a guerra as autoridades britânicas com o seu habitual pragmatismo, preferiram conferir uma ou duas medalhas de mérito em combate a alguns dos seus líderes, oferecer uns pequenos montantes em dinheiro aos guerrilheiros reformados que optaram por permanecer em Kowloon e nos Novos Territórios regressando às suas antigas ocupações e deixar cair, naturalmente, o assunto no esquecimento

Do outro lado da fronteira, guerrilheiros e dirigentes foram por seu turno alvo de reconhecimento, mas apenas momentâneo.

É que com a “Revolução Cultural” (1966) triunfante esses combatentes acabariam também por ser acusados de estar ao serviço do imperialismo. Isto apesar de a acusação se basear apenas no facto de durante a guerra terem mantido estreitos contactos com as forças aliadas e por força das circunstâncias com os Nacionalistas do Kwomintang. Por isso ter pertencido à Coluna deixava novamente de ser pergaminho a ostentar mas antes passado a esconder se possível.

É caso para dizer como dizia o nosso Afonso de Albuquerque: – “Mal com os Homens por Amor de Deus, mal com Deus por amor dos Homens”.

Finda a Revolução Cultural, a China de Deng Xiaoping, não demonstrou interesse em reabilitar memórias e Hong Kong em processo de transição de soberania também não.

E assim, a “Coluna do Rio de Leste”, desapareceu nas brumas da bibliografia e quase da história, como se nunca tivesse existido.

De facto, até surgir a obra que temos vindo a referir praticamente nada se escreveu sobre o assunto, que continuava a não agradar a gregos nem troianos.

Quem decidiu lançar uma pedrada no charco foi Chan Sui Jeung, que se arrojou à empresa de tirar do anonimato esse grupo de heróis que chegou a ser classificado, em certos pontos da história, como “bando de malfeitores”.

O livro é recheado de peripécias, e resultou de numerosas entrevistas que o autor manteve com os sobreviventes da Coluna, bem como da consulta dos arquivos disponíveis.

Um livro, que apesar de tratar essencialmente de Hong Kong, não deixa de salientar o importante papel que Macau desempenhou na luta contra a agressão japonesa, apesar da sua neutralidade na guerra.

O autor, Chan Sui Jeung, é licenciado pela Universidade de Hong Kong e foi durante vários anos administrador civil nos Novos Territórios, local onde viviam muitos dos guerrilheiros que integravam a Coluna, dos quais teve oportunidade de recolher memórias inestimáveis.

De Macau, por enquanto, sabe-se apenas que integravam a coluna 60 guerrilheiros de resto não parece saber-se mais nada.

Macau 400 Years

Em dois anteriores programas falei-lhe sobre as duas primeiras histórias de Macau que se publicaram.

 

A primeira em 1836 da autoria do Sueco Anders Ljungstedt.

 

A segunda foi publicada já na primeira década do século XX, da autoria de Montalto de Jesus.

 

Ambas as obras tiveram em comum o facto de terem sido escritas originalmente em inglês e ambas terem sido muito mal recebidas.

 

A primeira, de Anders Jungiste porque apoiando-se em documentos afirmava uma verdade insofismável, mas politicamente inconveniente, que era o facto de a soberania de Macau, nunca ter sido concedida pela China a Portugal, não existindo qualquer documento oficial, que comprovasse essa fantasiosa doação.

 

A segunda de Montalto de Jesus, porque o autor decidiu incluir um epílogo na obra, sugerindo a entrega de Macau às Nações unidas tendo em conta, segundo ele, a continuada má administração que os portugueses faziam do território.

 

A História de Macau de Montalto provocou os mais irados fervores patrióticos, os exemplares da segunda edição foram mesmo queimados publicamente, numa espécie de auto de fé e o autor condenado pelos tribunais.

 

Mas para alem destas duas histórias existe uma outra, que é esta que tenho aqui.

 

Chama-se “Macau 400 Years”.

 

Originalmente publicada apenas em chinês, em 1988.

 

A tradução inglesa surgiria a público em 1996, ou seja três anos antes da transferência da soberania de Macau, de Portugal para a China.

 

O seu autor é o professor Fei Cheng Kang, da Academia de Ciências Sociais de Xangai e segundo ele próprio, esta tradução para inglês não segue exactamente a primeira edição chinesa, antes incluindo alguma documentação sobre o assunto que o autor viria a descobrir, nos arquivos, ou para os quais foi chamado a atenção por outros académicos, incluindo portugueses posteriormente.

 

Se comparações podem ser feitas, esta história aproxima-se bastante mais das teses de Ljungstedt, e distancia-se claramente das de Montalto de Jesus.

 

Claro que Fei Cheng Kang possuía à partida uma vantagem de que nenhum dos seus antecessores tinha beneficiado.

Dominava a língua dos arquivos chineses e teve acesso a eles, o que não aconteceu com Ljungstedt, ou Montalto que apenas tinha acesso às fontes portuguesas.

 

Só por estas razões vale a pena lê-la.

 

Mas eu chamaria a atenção para outro facto que é o de esta publicação, ao contrário das outras de que falei, não ter provocado qualquer reacção notável junto do público ocidental.

 

Não sei se por ter sido publicada num momento em que a transição decorria a pleno vapor, e tanto o publico leitor como os académicos estarem, então, preocupadas com outros assuntos de maior imediatismo e mediatismo.

 

Alguns consideram esta obra como uma espécie de versão oficial da história feita precisamente para servir de guia pós transição.

 

Isto tanto mais que surgia a público através de uma editora oficial da República Popular da China.

 

Não contesto este ponto de vista, mas não posso deixar de salientar que, independentemente, do grau de subjectividade, que qualquer obra de carácter histórico possui, o livro constitui um relato bastante, diria, imparcial, sobre os mais de quatrocentos anos de presença portuguesa em Macau.

 

Aliás entre várias apreciações sobre alguns episódios controversos dessa presença saliento um, que é o do breve e trágico consulado do governador Ferreira do Amaral em Macau.

 

Ferreira do Amaral foi a figura encarregada em finais da primeira metade do século dezanove de afirmar a soberania de Portugal em Macau, visando tornar o Território, numa verdadeira colónia, missão que cumpriu com empenhamento e sucesso, mas que lhe custaria a vida.

 

Fiquei algo surpreendido ao verificar que Fei Cheng Kang, trata a questão sem fazer juízos de valor, ou repetir chavões preconcebidos.

 

Claro que para os que entendem que a história de Macau é um assunto exclusivamente português, ou para quem ainda defenda visões redentoristas, que tiveram o seu tempo, mas há muito se tornaram totalmente extemporâneas, a obra poderá ser vista do mesmo modo que o foi a de Montalto de Jesus, ou Ljungstedt.

 

Para quem não tem preconceitos, acho que tem todo o interesse lê-la, porque se fica a conhecer outro lado da história.

 

Resta dizer que o autor, para além desta história tem publicado diversos trabalhos, vários deles relacionados com a presença ocidental na China, nomeadamente em Xangai.

É uma pena que “Macau 400 Years” continue bem mais ignorada do que merecia.

 

Não deixe também de dar uma vista de olhos pela bibliografia em que o autor sustenta esta obra vale a pena prestar-lhe também atenção.