A Queda de Roma e o Fim da Civilização

“A Queda de Roma e o Fim da Civilização”.

É o título do livro de que lhe vou falar hoje.

Está aqui.

É este.

A capa é sugestiva.

O conteúdo é não só interessante como inovador ao abordar um tema largamente dissecado por diversos autores ao longo de séculos.

Devo advertir que se trata do resultado de mais de uma década de estudos de Bryan Ward-Perkins, que é o autor.

Perkins é um arqueólogo e por isso o livro pode parecer por vezes perder-se em minudências tipicamente académicas, mas não é verdade.

Aproveito para ler um excerto de um comentário de Vasco Pulido Valente no Jornal Público referindo-se às melhores obras do ano de 2005.

LEIO A CONTRA-CAPA. (poderá lê-la se tiver aceso ao livro). Relembro que estes textos são transcrições do meu programa de televisão na TDM.

Como diz Pulido Valente, com a queda de Roma a civilização regrediu mil anos e demorou outros tantos para se recuperar.

Mas o que mais impressiona neste livro é o paralelismo que não pode deixar de se fazer com os dias de hoje.

De facto, a civilização romana sofisticada e orgânica,  baseava-se no comércio internacional, na extracção de matérias-primas em lugares longínquos e na sua transformação em pontos estratégicos.

Na fabricação de produtos de qualidade a baixos preços, na construção e manutenção de uma impressionante rede de estradas através da Europa, do Médio Oriente e do Norte de África.

E também na manutenção de um exército profissional igualmente impressionante.

Recorde-se que só Napoleão, mil e quatrocentos anos depois, no século XIX teve capacidade para manter e dirigir um exército das proporções que Roma tinha.

Tudo isto sustentado num sistema monetário altamente sofisticado.

A certa altura da história, os povos germânicos, começam a emigrar em maça para onde se vivia bem, ou seja para o Império Romano e lentamente, ou nem tanto, uma civilização desaba.

Perkins concorda em certa medida com a teoria dos historiadores que dizem que as invasões bárbaras foram na generalidade pacíficas e resultado de alianças tácticas do Império Romano do Ocidente com os invasores, mas não deixa de mostrar que a guerra tomou a certa altura a primazia.

Nos dias de hoje, assiste-se a uma emigração, tanto legal como clandestina, oriunda dos países menos desenvolvidos para os mais desenvolvidos.

Veja-se o caso dos emigrantes mexicanos e centro e sul-americanos em geral para os Estados Unidos da América e a imigração dos magrebinos e africanos da África negra para os países da União Europeia.

Que nova realidade poderá surgir no mundo, nos próximos digamos 20, ou 30 anos.

Será o Fim da História como dizia Francis Fukoiama, referindo-se claro à questão do fim do comunismo e da guerra-fria?

Não sei, mas vale a pena ter este livro na sua biblioteca.

A Queda de Roma e o Fim da Civilização.

O autor é como disse Bryan Ward Perkins.

A edição é da Aletheia este livro que eu tenho aqui é a terceira edição.

Advirto apenas que a tradução poderia ser mais aperfeiçoada para a obra que é, mas mesmo assim vale a pena.

A Life in Secrets, The Story of Vera Atkins and the Lost Agents of SOE

Grandes mulheres num papel secundário são frequentes no Mundo, mas muito poucas são como no cinema Merril Streep, por exemplo.

Na política então, as mulheres, ou passam em primeiro plano pela ribalta, como Golda Meyr, Margareth Tatcher, Indira Ghandy, sei lá!… Ou desaparecem engolidas na voragem dos elencos que mudam tão vertiginosamente como os figurantes nos filmes.

Creio que aqui bem perto, Aun San Su Ky de Myanmar (antiga Birmânia) acabará também em página de rodapé da história.

Alimenta cabeçalhos de jornais e primeiros planos das televisões, mas parece irremediavelmente condenada não à prisão domiciliária, em que se encontra, mas sim ao papel ingrato de actriz em papel secundário, sem que antes tivesse obtido galardão de actriz principal

Ou algum acidente a faz ascender na volátil conjuntura birmanesa, a papel determinante ou daqui a alguns anos poucas pessoas, fora de Myanmar, recordarão quem tenha sido.

A não ser que algum biógrafo, na altura certa, a arranque ao anonimato e a faça regressar ao mundo dos mitos, com que vivemos, convivemos e de que também alimentamos o espírito.

Mas isso somente se o momento for propício e o biografo capaz.

E ao longo da história quantas mulheres anónimas não desempenharam na vida papéis de extraordinário valor e mérito, sem que porém disso tenha sido dado conta, mesmo enquanto viveram, até pelos amigos e vizinhos?

Um caso exemplar é o de Vera Atkins.

Creio que nem mesmo em vida este nome terá despertado qualquer atenção especial, ou melhor creio que em vida se dedicou de uma forma invulgar a tratar de que o seu nome não despertasse atenção, já que a sua profissão era essa.

Levar a vida em segredo.

Felizmente que houve biógrafo, neste caso biógrafa que reparou no erro e colmatou a omissão.

Refiro-me a Sarah Helm, uma jornalista britânica, que decidiu fazer justiça a Vera Atkins, e a um inaceitável anonimato.

A humanidade tinha de saber.

De facto a sua vida ficaria irremediavelmente contida para sempre no curto epitáfio da campa rasa onde se encontra sepultada, – nascida em Bucareste em 1908, falecida em Hanstings, Inglaterra no ano 2000, – se Sarah Helm, não a tivesse retratado extensamente aqui.

E que invulgar retrato este que perpassa neste livro que se chama “A Life in Secrets, The Story of Vera Atkins and the Lost Agents of SOE”.

Ou seja, em português, qualquer coisa como “Uma vida em Segredo, A história de Vera Atkins e os Agentes Perdidos dos Serviços de Operações Especiais”.

Mas quem era esta mulher?

Nascida em Bucareste, como disse,  Vera Atkins pertencia a uma  família judia que emigrou para Inglaterra em 1933.

Depois de alguns anos na Grã-bretanha, mudou-se para França, onde estudou línguas modernas na Sorbone, concluindo o curso em Lausana na Suiça.

Em Maio de 1940 regressou a Inglaterra e no ano seguinte entrou para o desk francês executivo dos Serviços de Operações Especiais, do Inteligence Service, como agente civil.

Em 1944, passou a integrar os quadros da Força Aérea com o posto de tenente-coronel, passando a ser a número dois dos serviços de informações

Em 1987 seria agraciada com a Legião de Honra de França, antes de se reformar passando a viver em Hastings, num lar de idosos, no Sul de Inglaterra, onde morreu com 92 anos de idade.

Vera Atkins, foi a responsável directa pelo treino de dezenas de agentes, cuja missão era apoiar a resistência para lá das linhas alemãs, sendo lançados de pára-quedas no interior de França.

Mas esta mulher não se limitou a enviar outros homens e mulheres para um destino incerto e a reportar burocraticamente o desaparecimento dos seus agentes, sempre que isso acontecia.

Bem pelo contrário dedicou inteiramente a sua vida profissional a tratar dos bravos que formara e a seguir-lhes as pistas depois da guerra durante anos até ter a certeza do destino que cada um tivera.

De muitos acabou por saber os destinos nas listas de executados dos campos de extermínio nazis de Natzweiler, Ravensbruck e Dachau, recuperados no fim da guerra.

Mas a sua vida foi tanto mais intrigante quanto até a sua própria família sempre desconheceu o que fazia, para além de saber vagamente que trabalhava nos serviços auxiliares da Real Força Aérea Britânica.

Falta apenas dizer alguma coisa sobre a autora desta interessante biografia.

Chama-se Sarah Helm, é jornalista, começou por trabalhar como repórter no Sunday Times, até ingressar como elemento fundador de o “Independent” em 1986, sendo ali editora dos assuntos diplomáticos.

Mais tarde foi também correspondente no Médio Oriente e na Europa continental.Recebeu vários prémios nomeadamente o Laurence Stern Fellowship do jornal Washington Post.

E pronto “A Life in Secrets”, grandes segredos da grande hecatombe mundial do século XX.

E sobre os ombros de uma mulher, que passou a reforma num asilo da terceira idade muitos segredos repousaram e com ela desapareceram sem ser revelados.

A Embaixada Mártir de Benjamin Videira Pires SJ

A fixação dos portugueses em Macau que se pensa ter sido pelo ano de 1557, deveu-se em grande parte, não a um interesse directo no comércio com a China, mas decorreu antes da rivalidade existente à época entre a China e o Japão.

De facto, as duas nações estavam de costas voltadas e os portugueses aproveitaram essa oportunidade, para servirem de intermediários no comércio.

Macau passava também a ser uma excelente escala na rota da “grande nau” que anualmente efectuava a viagem entre o Japão e a Índia.

Aliás antes de existirem governadores, quem administrava Macau era precisamente o “capitão da nau da viagem”, como lhe chamavam nesses tempos os cronistas e que o historiador Charles Boxer tão cuidadosamente estudou, nomeadamente no seu livro a “Grande Nau de Amacon”.

Não é de admirar por isso, que os canteiros que fizeram a admirável fachada das ruínas de S. Paulo tenham sido, e poucos saibam, japoneses.

Igualmente japoneses foram os construtores e moradores das casas da Rua da Palha.

Hoje, desses tempos, restam creio que apenas uma, ou duas, que conservam a traça original, junto à embocadura da rua com a escadaria que dá acesso às ruínas.

Portanto nessa época, eram os portugueses que serviam de intermediários entre a China e O Japão, comprando nomeadamente a seda chinesa, com a prata abundantemente extraída das minas do Império do Sol Nascente.

Mas porquê japoneses construtores em Macau.

A razão está explicada neste livro de Benjamim Videira Pires chamado “A Embaixada Mártir”.

Nesta obra, dada à estampa em 1965, embora a edição que tenho aqui seja do Instituto Cultural datada de 1988, o historiador jesuíta relata os tempos conturbados do Japão, à época da unificação do império e da luta entre os “shoguns”, ou seja os grandes senhores da guerra que dividiam o arquipélago nipónico em feudos.

Essa luta apanhou de permeio os portugueses, que acabariam por ser atingidos.

É que, principalmente através dos jesuítas, a religião católica encontrava-se na altura em pleno florescimento e alguns “shoguns” tinham mesmo adoptado o novo credo nas regiões que dominavam.

Esta situação verificava-se principalmente no Sul do país e particularmente em Nagazaqui o grande porto onde os navios portugueses ancoravam.

Na luta pelo predomínio entre os “shoguns”, alguns deles adoptaram mesmo o catolicismo como bandeira política e saíam para a guerra com os estandartes de Cristo, da Virgem e de vários santos em vez das flâmulas militares.

Os que o fizeram porém acabariam por se ver derrotados.

Em consequência, os decretos de proibição da religião católica sucederam-se a partir de 1614 e um conjunto de massacres contra cristãos foi tendo lugar nas décadas subsequentes, cada um mais sangrento que o seguinte.

Tudo isto concorreu para que o comércio de Portugal com o Japão conhecesse um fim dramático com o encerramento dos Portos, a fuga dos comerciantes, soldados, marinheiros, e também dos japoneses convertidos.

Já depois do fim das relações entre Portugal e o Japão, Macau fez ainda uma tentativa de reabrir o comércio com o Império do Sol Nascente que tinha cessado e arruinado, por isso, a cidade.

É dessa tentativa que Benjamim Videira Pires nos fala em a Embaixada Mártir.

Uma tentativa fracassada que terminou em mais um massacre, ou seja o de toda a embaixada enviada por Macau, trucidada em Nagazaqui.

Resta lembrar quem foi o autor desta monografia.

O padre jesuíta Benjamim Videira Pires nasceu em Torre de D. Chama, Mirandela, em 1916 e ali faleceu, em Janeiro de 1999.

A maior parte da sua vida viveu-a aqui em Macau.

Exactamente meio século.

Licenciado em teologia pela universidade Cartuja, foi ordenado padre em 1945.

Em 1948 embarcou para Macau.

Este homem que viria a notabilizar-se, sobretudo, como historiador, iniciar-se-ia na escrita com uma biografia, intitulada “Carminda”, obra dada à estampa no Porto, em 1939, seguindo-se-lhe, já em Macau, a publicação. em 1954, de duas pequenas peças de teatro, “Liberdade de Consciência” e “Fé como Grão de Mostarda”.

Dedicou-se também à poesia, escrevendo nomeadamente “Jardins Suspensos”, publicado em 1955, e “Descobrimentos: Poesias” de 1958.

“Espelho do Mar” encerraria a sua obra poética.

De resto distribuiu colaboração na imprensa local também portuguesa, publicando várias monografias sobre Macau.

Uma obra que merece também referência é “Portugal no Tecto do Mundo”, onde relata a descoberta europeia do Tibete, protagonizada pelo padre Jesuíta, português António de Andrade em 1624.

Há Cem anos: A última campanha naval ultramarina da monarquia portuguesa. 15-06-10

Em ano de centenário da República Portuguesa há também que assinalar em Macau um centenário que antecedeu em poucos meses a queda da Monarquia, e a substituição do seu representante máximo no Extremo Oriente: – o governador Eduardo Marques, monárquico convicto, que deu lugar ao seu ajudante de campo, o comandante da marinha Álvaro de Melo Machado que tal como o primeiro era igualmente convicto, mas republicano.

Trata-se de lembrar os combates de Coloane contra os piratas ocorridos durante quase todo o mês de Julho de 1910.

A efeméride, que chegou a servir de mote para o feriado municipal das Ilhas até 20 de Dezembro de 1999, merece ser relembrada, não pelo que tenha sido, em si, já que não se tratou de nenhuma campanha militar digna de nota no cômputo geral ultramarino português, mas pelo marco que constituiu na história de Macau.

Álvaro de Melo Machado primeiro governador republicano de Macau

De facto, num território que, segundo alguns, terá sido cedido pela China aos portugueses em reconhecimento do auxílio prestado ao “Império do Meio” nas lutas contra os piratas do século XVI, os combates de Coloane assinalaram a última campanha militar digna de nota contra a pirataria nos mares do Extremo Oriente.

Depois disso o que se seguiu foram casos de polícia de maiores, ou menores dimensões, mas que não mais passariam disso mesmo.

Aliás os confrontos de Coloane contra os piratas foram mais um conjunto de actos políticos do que verdadeiramente militares e espelharam em grande medida uma tentativa de afirmação da política ultramarina portuguesa da monarquia que tinha sido ferida de morte com o caso do “Mapa Cor de Rosa”, que culminou com o chamado “ultimato inglês” de 1890 e que tentava obter sucesso capaz de contrariar os achincalhos a que era sucessivamente submetida no parlamento de Lisboa pelos republicanos, nas ruas pelos sindicatos e igualmente nas chancelarias internacionais. Neste caso tanto monárquicas como republicanas.

O “ultimato”, não tinha sido mais do que a consequência da supremacia militar inglesa que se sobrepôs às “líricas” tentativas de Portugal de tentar unir Angola e Moçambique numa só colónia do Leste ao Oeste africano. Contra este desígnio opunha-se o de Londres que pretendia unir as colónias inglesas de Norte a Sul, ou seja do Cairo ao Cabo. Evidentemente que venceram os ingleses.

No extremo Oriente os ingleses já tinham vencido também, mas colocava-se a questão suscitada ciclicamente, igualmente por Londres, mas igualmente por Paris e Berlim, de que Macau serviria de quartel-general aos piratas que assolavam os Mares do Sul da China. Nada estava mais longe da verdade. Mas como a Inglaterra dominava a comunicação social o que surgia estampado, nos editoriais dos jornais britânicos e ecoado nos franceses, alemães, italianos e americanos, entre outros, era a eventual verdade (diz-se que em política o que parece é). Ou seja Coloane, onde actuavam de facto uns bandos de piratas que se misturavam com a população, estava muito longe de ser o perigo que constituiriam os grandes bandos que actuavam no vasto espaço geográfico do “Delta do Rio das Pérolas” e mais para Norte, nas costa de Fujian e de Xangai, áreas controladas pelas esquadras britânicas, francesas americanas e alemãs que por ali navegavam. Diga-se que muitos apoiados oficiosamente pelas potências intervenientes sempre que isso lhes servia.

O governador Álvaro de Melo Machado e o historiador Pe. Manuel Teixeira descrevem muito bem a situação: – “Os piratas eram, de um modo geral, bem acolhidos pela população de Coloane, que sabiam quem eram e lhes davam asilo, a população acolhia com benevolência estes malfeitores pelo dinheiro que generosamente gastavam; e as próprias autoridades portuguesas, que de sobejo sabiam da existência desta gente, toleravam-na, nunca fazendo diligências para a escorraçar”.

Por seu turno, o Padre Teixeira diz que “os piratas foram-se ali infiltrando no decorrer dos anos: aqui montavam uma mercearia, além uma loja de peixe; uns trabalhavam nas pedreiras, outros entregavam-se à agricultura; por isso tinham de ter casas para as suas famílias. É de crer que os seus vizinhos soubessem que espécie de gente eram eles, mas não os denunciavam por duas razões: eles não os incomodavam, pois a quadrilha fazia as suas operações em terra chinesa e para ali traziam os seus roubos e as suas armas”. O negócio não era mau e pelos vistos não incomodava ninguém!…

Monumento evocativo dos combates contra os piratas de Coloane de Julho de 1910

Nesse cenário de pretensa guerra que passava bem mais pelos cabeçalhos dos jornais internacionais, do que pela realidade prevalecente, Portugal não teve remédio senão levar a efeito uma demonstração de força.

Para o efeito foi aproveitada a presença do “Cruzador D. Amélia”, transportando a bordo uma força de fuzileiros de cerca de duzentos homens que efectuava o habitual périplo anual pelo Extremo Oriente que costumava levar o vaso de guerra a uma patrulha que passava por Macau incluía Xangai, com regresso a Lisboa pelos mares de Timor.

A viagem do cruzador, que se arriscava a não passar, mais uma vez, de uma espécie de cruzeiro simbólico, ensejo de fim de curso para os cadetes da marinha praticarem as artes da navegação, seria aproveitada dessa vez para uma verdadeira missão de guerra.

O pretexto foi o rapto de 18 crianças de uma escola da localidade de Tong Hang, localizada a poucas dezenas de quilómetros de Macau por um grupo de piratas que teriam a sua base em Coloane.

O caso foi denunciado em parangonas sucessivas pelo jornal “A Verdade” de Constâncio José da Silva que, por acaso, era também advogado dos pais de algumas dessas crianças e que exigia acção às autoridades.

Diga-se que Constâncio José da Silva era também republicano estrénuo e não deixava de aproveitar “o seu caso” para denunciar as fraquezas da monarquia que com um cruzador carregado de artilharia pesada e fuzileiros fortemente armados postado a poucas milhas de Macau permitia um desaforo tal sem fazer nada.

Face ao ambiente político que se adensava pelas diatribes de “A Verdade”, pela pressão dos vizinhos ingleses de Hong Kong, e pelas recentes tentativas dos alemães de ocuparem a vizinha ilha da Lapa (1900) sobre a qual Portugal reivindicava direitos, o governador Eduardo Marques não podia fazer mais nada senão requerer uma acção militar do comandante do D. Amélia e teve-a.

As forças do Cruzador (150 fuzileiros?) desembarcaram em Coloane, com apoio de artilharia. A canhoneira Macau, por seu turno, de mais pequeno calado e a única que se podia aproximar verdadeiramente através dos baixios da ilha, bombardeou a vila. Diz-se que a acção não passou de um exercício de teste de pontaria da artilharia e uma demonstração excessiva de força que provocou mortos e feridos civis desnecessários e mais nada. Mas certo é que com força a mais, ou a menos, no final da operação as crianças foram resgatadas e vários piratas presos.

Nesse episódio a China ofereceu-se para colaborar nas operações navais, mas o governo de Macau rejeitou a oferta e as canhoneiras chinesas limitaram-se a pairar ao largo e a dar caça a juncos tresmalhados suspeitos que singravam pelo dédalo de canais do Delta.

No final da “campanha” foram mais os estragos que os benefícios já que não existem provas sólidas de que os piratas tenham sido erradicados de Coloane. O que resultou de facto foi uma vila mais ou menos arrasada pelas granadas e pouco mais.

O resto da operação foi constituído por um golpe de mão contra um grupo de malfeitores que se tinha escondido numas grutas que hoje fazem parte do campo de golfe do hotel “Westin Resort”, que envolveu um pelotão de infantaria e que um cabo do exército com uma granada de enxofre bem atirada para o interior das ditas do alto das arribas desalojou de pronto sem necessidade de recurso a operações complicadas de estado maior. O golpe completou-se em poucas horas com pleno sucesso já que não se registaram baixas de qualquer dos lados e os bandidos acabaram presos.

Cruzador “Rainha D. Amélia” posteriormente rebaptizado “NRP República”.

A monarquia não salvou na China, numa eventual epopeia bélica, como pretenderia, a humilhação africana do “Mapa Cor-de-rosa” que tinha sofrido vinte anos antes e afinal de contas quem ganhou pontos foi a República que três meses depois se implantaria em Portugal.

O cruzador D. Amélia que tinha vindo essencialmente para afirmar a pujança da marinha da monarquia portuguesa perante as potências coloniais presentes na China registava ali a sua penúltimo missão de relevo. Tinha sido construído em 1901 no Arsenal de Lisboa e nomeado em honra de D. Amélia de Orleães mulher do malogrado rei D. Carlos I. Sendo o primeiro vaso naval de grande porte construído em aço em estaleiros portugueses durou pouco a sua história. Após a revolução de 5 de Outubro de 1910, onde teve papel proeminente, foi rebaptizado passando a chamar-se “NRP República”. A 6 de Agosto de 1915 acabaria por se perder para sempre encalhando na praia da Consolação, a sul de Peniche.

Quanto à lancha canhoneira Macau durou mais alguns anos e teve uma história substancialmente mais curiosa.

Lancha Canhoneira Macau

Encomendada aos estaleiros Yarrow & Co. de Glasgow (Escócia) foi entregue à marinha portuguesa em 1909. Um ano antes do bombardeamento da Vila de Coloane. Seria abatida ao efectivo da marinha a 15 de Agosto de 1943, sendo entregue aos japoneses que ocupavam então a China por troca de 10 mil sacos de arroz passando a navegar com o nome de “Maiko”. Em 1949 foi capturada, passando a fazer parte da marinha da China sob novo nome. Desta vez “Wu Fang”. Não se sabe quando esta histórica lancha canhoneira deixou definitivamente de efectuar serviço activo.

Comentário a um “bloguista” anónimo e a Lei de Imprensa 08-06-10

Eu não sei quem V. Exª. seja embora tivesse interesse em saber. Se soubesse poderia introduzir nestes debates que mantêm no seu blogue o factor conhecimento do autor. Nesse caso poderia explorar-lhe, por exemplo, os pontos fracos. Poderia, escrever, nos comentários, que quando disse isto é por que… ou quando deixou de dizer foi por que…

Eu sei que há maneiras de descobrir tudo no mundo cibernético, mas como pertenço a uma geração anterior à existência da palavra “hacker”, limito-me a usufruir do que o meu monitor me mostra e pouco mais.

Devo dizer neste momento que, “monitor” é para mim também uma palavra nova, já que o que eu via, há, digamos, vinte anos, era um “ecrã”. Mas, agora, como o mundo mudou, concedo que não tenha à frente dos meus olhos um “ecran” francês, mas um “monitor” anglo-saxónico. Assim, também, de entre os comandos do meu computador, não sei qual é o que serve para descobrir quem V. Ex.ª autor de um blogue anónimo seja.

V. Ex.ª, mais dotado que eu, em matéria cibernética (já que mantém um blogue que com certeza requer alguma técnica), com certeza saberá, já quem eu sou (dizem-me que os computadores descobrem logo qual a proveniência das mensagens anónimas nos comentários). Provavelmente, de tão informaticamente inepto a minha identidade não conseguirei esconder como seria de esperar, por exemplo, numa carta anónima, como se fazia tradicionalmente. Muito menos na “webb”.

Como comento em página aberta, ou seja impressa e assinada no JTM, não só V. Ex.ª como toda a gente fica a saber quem é o autor destas linhas sem ter de ler sequer o comentário que segue. Está assinado por baixo como se requer em qualquer ofício de lei e nos jornais.

Serve esta introdução para dizer que, se a informática implementou um mundo novo, na comunicação social, os blogues aproveitaram-no. Tal como os “hippies” da América dos “sixties”, ou os estudantes anarquistas, do Maio de 1968, de França. “Vamos aproveitar a liberdade que temos, para dela usufruir ao máximo. Não é usufruir que a palavra liberdade significa?” diziam eles.

Como subscrevo (ainda que não inteiramente) essa visão existencialista, não posso estar mais de acordo com os blogues.

Enquanto o jornalista vulgar evolui numa cadeia de comando parecida com todas as hierarquias (mesmo as militares) o bloguista não.

Enquanto o jornalista sofre a (com) censura pública e se auto-censura, quando calha, o bloguista não.

Enquanto o jornalista preserva a boa conduta para garantir o salário e/ou a sua consciência, o bloguista (que não tem salário) não.

Enquanto o jornalista assina e/ou é conhecido, e por isso paga o preço do que escreve, diz na rádio, ou apresenta na TV, o bloguista nem é conhecido nem assina. Por isso não paga preço nenhum.

Poderão dizer-me: Àh! Muito bem, mas o bloguista não é credível porque é anónimo, enquanto o “funcionário do jornalismo” tem obrigações e códigos de conduta e preservação das fontes e outras éticas que tais a que está amarrado por dever de profissão.

Mas que ética possui o jornalista “á la large”? Trabalha por conta de outrem, faz as notícias que a cadeia de comando lhe manda fazer e, às tantas acaba por deixar dito, não o que viu, ou ouviu, mas muitas vezes apenas o que foi condicionado a transmitir, ainda que subconscientemente. Depois, quando chega a casa, ao bar, ou ao clube, e revê o dia, descobre, por vezes, que foi enganado. Afinal o seu trabalho, se calhar, não constituiu tanto uma notícia, uma opinião completamente fundada, uma denúncia inteiramente séria, mas provavelmente mais uma espécie de anúncio publicitário de qualquer coisa que não estava nos seus planos. Boa desculpa para afogar em mágoas os tantos mil caracteres que escreveu sobre, sabe-se lá o quê, e em nome de quem. Graham Greene levantava esses problemas de consciência nos seus livros.

O bloguista não, porque o bloguista tem uma agenda que pode prosseguir sem interferências, a não ser as das suas próprias mudanças de humor e convicções. Neste ponto convêm fazer doutrina e é a seguinte:

– Em matéria de convicções, todos sabemos, que, são raros os que as mantêm por mais do que um período determinado, mas raramente por uma vida inteira. Como dizia Camões: “todo o mundo é composto de mudança” e o baladeiro dos anos 70 do século passado acrescentava: “troquemos-lhe as voltas porque o dia é uma criança”. Quem dizia isto? Sérgio Godinho, Letria? Rui Veloso, não era com certeza, ou Jorge Palma, que esses advêm do rock português, caldeado nas holandas, que não se metiam, nessas coisas da política propriamente dita nem ligavam aos “ismos”. Passavam “a la large”. Eram do Maio de 68. A verdade ou a mentira eram questões burguesas e inconsequentes de pormenor. O Importante mesmo era a imaginação.

O bloguista anónimo, hoje, diz uma coisa, amanhã outra, e aqui está a importância do bloguismo, ou seja; reconhecer na verdade de hoje a mentira de ontem. Isto não se faz nos órgãos de comunicação social convencionais, onde os desmentidos, por mais honestos que sejam, vão inevitavelmente para o caixote do lixo, se forem anónimos e não acompanhados de identificação credível, para que o editor os tenha em conta e os mande pôr em letra de forma. O erro do jornalista é outra coisa. Paga-se com desmentido de igual destaque ao da notícia por imposição legal e, às vezes pode custar mesmo uma promissora carreira.

Outra coisa importante nos blogues é a interacção com o leitor, que elogia, concorda, discorda, ou apenas insulta pelo prazer de insultar, na área, ou na janela dos comentários (não sei exactamente qual o termo informático para designar o sítio onde se coloca o “veneno” do leitor/comentador), mas não precisa de se identificar, o que é bom. Mas o “veneno”, ou a inocuidade, só é publicada se o bloguista a isso estiver disposto. O bloguista só publica, se para aí estiver virado, situação, neste caso, absolutamente ética do ponto de vista bloguístico.

Eu, bloguista, só publico o que acho que tem interesse no meu blogue. Ponto parágrafo. E mais doutrina feita (O leitor em geral e o anarquista em particular exultam neste ponto).

Ora! aqui está um preceito, que me parece muito mais transparente e ético, do que o dos provedores, que têm em conta as constituições, leis básicas, códigos civis, penais e toda a legislação avulsa que possa existir em matéria de direitos liberdade e garantias.

Tudo isto pode no entanto voltar aos cânones e ao politicamente correcto, se os tais gestores dos “servidores” desconhecidos, onde os bloguistas se instalam forem desmascarados pelos “hackers”, como comecei por dizer, ou pelos próprios “servidores” (yahoo, google, gmail e quejandos). Então pode acontecer isto:

– Áh, foste tu que escreveste esta aleivosia, constata o “hacker”, qual polícia de costumes.

– Estás descoberto! e aponta-lhe o dedo e manda-lhe a polícia à porta, acompanhada pelos oficiais de diligências, que costumam acompanhar os actos oficiais em circunstâncias assim.

Nessa altura, a liberdade que se instalou há pouco tempo (digamos uma década?), estará perdida para sempre. E nessas circunstâncias voltaremos a ter apenas como fonte de comunicação de notícias e ideias, os velhos jornais, as velhas televisões e as velhas rádios. Tudo isso porque, face à retirada da couraça do anonimato ao bloguista, não resta alternativa, senão a de ajoelhar perante o cruzado, que lhe aponta a espada ao peito:

-Ou crês ou morres. Esta é uma expressão medieval que traduzida para a situação apontada dos dias de hoje, quer dizer mais, ou menos isto:

– Ou acabas com o blogue, ou ficas sem emprego no sítio onde trabalhas.

Claro que, ao mouro inerme, tal como nesses idos tempos, sem saída viável, só ocorrerá uma resposta:

– Rendo-me! Diz ele, espojado em sangue no campo de batalha. O meu blogue escreverá o que quiserdes e o que a Santa Inquisição, entender que deve ser escrito, ou então encerro definitivamente o “site” e peço desculpa.

O cruzado sorrirá e, recolherá a espada contente por ter feito mais um convertido à sua santa causa (menos uma conta no blogspot. com). A Igreja ganhou mais um fiel.

O bloguista diminuiu um pecado à sua lista de iniquidades e o cruzado acrescentou mais uns gramas ao peso das suas bem-aventuranças na balança de S. Pedro. Bom negócio!

O bloguista suspirará de alívio, não só por não ter sido morto (Embora agora já não se pratiquem barbaridades assim tão directas como nos tempos de antanho. A situação descrita não passa, evidentemente, de uma alegoria), mas principalmente por que o seu salário de funcionário, engenheiro, jurista, enfermeiro, motorista, designer – eu sei lá!…- continuará a ser depositado na sua conta bancária no mês, que vem. Que Mundo este!…

É por isso que me debato entre o desejo de saber quem o senhor autor do blogue anónimo seja e a vontade de que as minhas tentativas resultem não num fracasso, mas na continuação das minhas cogitações sobre quem V. Ex.ª possa ser.

Devo dizer-lhe neste ponto que, não há pior coisa no mundo do que conhecer um autor. Falo por experiência própria e digo-lhe o seguinte: Agradeço a Deus nunca ter conhecido pessoalmente, Tolstoi, Dostoyevsky, Camilo, ou Pessoa, figuras pelas quais continuo a ter uma veneração igual à que teria se fosse religioso, por S. João Baptista, S. Paulo, Santa Catarina, ou,  Santa Teresa do Menino Jesus, ou o nosso Santo António, das formiguinhas. É que conhecer um autor é a desilusão total. Pura e simplesmente não são iguais ao que escrevem. Tal e qual como as vozes da rádio, colocadas e imponentes. Quando conhecidas pessoalmente são apenas pessoas com os defeitos mais patentes no físico e no semblante, do que as virtudes, que impõem às ondas hertzianas através das suas laringes dotadas.

Assim, e a menos, que algum inconfidente me diga e, com isso estrague a minha investigação (que o meu subconsciente pede que se mantenha “ad eterno”, sem resultado, mas sempre com esperança), para mim o mistério e o encanto continuam.

– Quem será V. Ex.ª.? diria Camilo, ou Eça e, sem dúvida, se o soubessem, matariam a personagem no penúltimo capítulo da novela, por falta de merecimento, evidentemente.

Por isso, digo eu, descoberto o autor do anónimo blogue, ou seja, pessoalmente V. Ex.ª. os meus comentários, igualmente anónimos, apenas poderiam conter coisas prosaicas como as que disse ao início deste artigo:

– O senhor bloguista, disse isto porque assim. O senhor bloguista deixou de dizer e sei muito bem porquê! Àh malandro!…

Enquanto isso não acontecer continuarei a ser um indefectível leitor e defensor dos blogues e principalmente dos bloguistas que têm a coragem de os manter.

Afinal, para mim “blogar” (será que inventei um neologismo, ou alguém já colocou a palavra no dicionário da academia?) é a mesma coisa que conversar com os amigos e possui uma vantagem, tem muito menos peias e muitíssimo menos restrições morais e , já agora, materiais.

Arrisco-me a parafrasear (sem subscrever inteiramente) Vasco Santana em “A canção de Lisboa”: – Abaixo as convenções sociais vivam os blogues. Isto, enquanto puderem durar livres e anónimos.

Áh! e essencialmente viva a essência do provérbio anarquista (que igualmente não subscrevo inteiramente): – Há governo? Sou contra!

A finalizar diria, como se dizia nas antigas missivas: – serve esta para saudar a atitude do Executivo da RAEM de empreender a revisão da Lei de Imprensa, publicada em 1990 e essencialmente deslindar de uma vez por todas essa coisa dos conselhos de imprensa e radiodifusão que até agora não foram criados.

Victor Chan director do Gabinete de Comunicação Social diz, ser agora o momento adequado para resolver o problema.

Concordo inteiramente. Quanto mais não seja por que há no panorama da comunicação social alguns termos históricos a reenquadrar, nomeadamente vocábulos como imprensa, conselho de imprensa e radiodifusão e neologismos a ter em conta como: – blogue, youtube, faceboock, twitter e sms.

História de Portugal, Rui Ramos

A história de um povo, de qualquer povo, é sempre demasiado extensa e multifacetada para poder ser escrita, num volume, ou dois, ou três, enfim…

Creio que uma história, não caberia em livro, quando muito poderia ser escrita em suporte informático, com muitos “terabites” para poder conter tudo.

Isto, porque além do relato dos acontecimentos passados a história é indissociável de outras matérias, como a geografia, a antropologia, a geologia e a própria psicologia, já para não falar nas questões filosóficas que inevitavelmente envolve.

Mas mesmo sendo possível a realização de um trabalho dessa natureza, restariam muitos pontos por descrever, por falta de documentação, por exemplo, ou porque os testemunhos deixados se mostram evidentemente forjados, ou porque não existem documentos coevos (documentos coevos é um termo de que os académicos gostam muito, mas que muitas vezes não esclarecem nada, mas enfim…)  ou outras razões do género.

Mas mesmo que fosse possível, deixar tudo registado passo a passo, então a história deixaria de o ser e passaria a ser um repositório, um arquivo de coisas,  uma biblioteca de Alexandria que toda  gente imagina o que seria mas que ninguém sabe, na realidade o que tenha sido. Acho que a Biblioteca de Alexandria existe de facto mais na imaginação do que na realidade dos “tombos” que actualmente existem. Armazéns de informação a esmo que aguardarão sempre estudo e classificação.

A Biblioteca de Alexandria não era certamente um repositório de tudo, mas apenas de certas coisas e certas interpretações.

Como se sabe não há ninguém, em vida, que consiga ler uma biblioteca inteira.

Sendo assim quando nos referimos por exemplo à história de Portugal de Matoso, ou de  Veríssimo Serrão, ou de qualquer outro, queremos apenas dizer com isso que nos estamos a referir aos pontos de vista que um determinado autor, achou relevantes sobre os factos do passado de Portugal.

Por isso antes de consultar uma história de Portugal não custa nada e é melhor saber-se quem é o autor e quais as suas credenciais, mas especialmente saber em que época a escreveu já que o desenvolvimento da historiografia se faz a par de tudo o resto, ou seja do desenvolvimento de um país.

A história é também um ramo das ciências e tem evoluído num sentido positivo tal qual os campos da física, ou da química, por exemplo.

Temos assim que ao ler a história de Portugal, de Frei Bernardo de Brito, do século XVII, tropeçamos a cada passo com um pecado dos mouros e um milagre dos cristãos.

Se não fossem as cinco chagas de Cristo a aparecerem a D. Afonso Henriques, Portugal ainda não passaria hoje de uma região de Espanha, segundo Brito.

Perdoam-se as boas intenções desse bom frade, em nome da fé e do patriotismo. Mas o que se não lhe pode perdoar é o facto de ter falsificado documentos para levar a água ao seu moinho, como foi acusado e é verdade.

Este é o único defeito que não se pode perdoar a um historiador, o resto pode relevar-se e até, por vezes, alguma fantasia, ou mesmo muita fantasia.

Mas se andarmos mais para a frente e folhearmos Alexandre Herculano, a história já é bem diferente, com a análise científica mais presente e os desígnios de Deus um pouco mais esbatidos no enredo.

Mais tarde ainda com Pinheiro Chagas e a sua história de Portugal em 8 volumes vemos a opinião do autor politicamente empenhado e do escritor brilhante que num inquérito à opinião pública sobre quem era o mais melhor escritor português da época, ficou claramente à frente de nomes como Eça de Queiroz em termos de popularidade.

A primeira história de Portugal a quebrar com tradições, facciosismos políticos e preconceitos há muito cimentados foi porém sem dúvida a História de Portugal, de António Henrique de Oliveira Marques, publicada em 1974.

Uma história que se eximia às cronologias, às batalhas e aos reis e abordava os aspectos, sociais e económicos até então largamente negligenciados, pelos que o antecederam (retire-se Magalhães Godinho deste cenário com a sua numismática, assunto específico e em parte Jaime Cortesão com a geografia).

A história de Portugal de Oliveira Marques constituiu uma verdadeira pedrada no charco, tanto mais que surgia num momento em que a ditadura entrava no seu último estertor, pouco antes do 25 de Abril.

A segunda a quebrar tradições e a fornecer uma nova visão sobre o que foi Portugal é esta.

Trata-se da primeira história do país cuja autoria não está associada a uma figura, mas sim a uma equipa, coordenada por Rui Ramos.

Os outros dois são Bernardo Vasconcelos e Nuno Gonçalves Monteiro.

E o que trás de novo esta história?

Bastante.

A começar pelo facto de ter sido uma obra colectiva.

Depois ainda, o facto de ter início, não nos tempos fabulosos da Lusitânia de Viriato,  do qual pouco mais se sabe do que o que consta das parcas referências que lhe foram feitas por um geógrafo romano, citado e ampliado nas suas considerações até à exaustão e até hoje.

Estes historiadores concordaram que Viriato e a Lusitânia têm mito a mais e história a menos, pelo que decidiram começar de um modo científico, ou seja pelo princípio, ou seja ainda, pela formação do reino, na época do Conde D. Henrique e de seu filho D. Afonso, o primeiro rei de Portugal.

Para além desta ousadia, esta obra consagra também a maior parte do que se tem descoberto e das novas interpretações que nos últimos anos, nomeadamente com o auxílio de outras áreas da ciência tem vindo a ser dado a estampa de um modo disperso. Dispersão que não era de molde a desfazer erros e preconceitos que continuam por isso a ser constantemente repetidos.

Claro que esta história não vem desdizer tudo nem será capaz de corrigir ideias feitas.

Ideias feitas são preconceitos que não se dissolvem nem perante as provas mais evidentes, mas pelo menos contribui com certeza para redimensionar com mais rigor a ideia que temos de nós próprios, mas não só.

Ao esclarecer alguns quês e porquês desfazendo alguns mitos que teimam em nos ser caros levará com certeza os que discordam a aduzir prova em contrário, o que contribuirá sem dúvida para o avanço do conhecimento científico.

Por outro lado, ao despertar controvérsia, como já despertou, tornou-se imediatamente obra de referência obrigatória seja para quem concorda com o que aqui se diz como para quem discorda.

Por outro lado ainda esta História de Portugal possui um outro mérito.

Trata-se de uma obra num só volume, o que a torna mais acessível a um maior número de leitores, do que outras divididas em vários volumes.

Isto numa época em que cada vez mais gente tem menos tempo para ler e em que o leitor de DVD, ameaça cada vez mais a existência do popular livro de bolso que se lavava para passar o tempo na praia, ou na sala de espera de um consultório.

A decisão de condensar num só volume a História de Portugal, como neste caso, é inteligente também porque o que aqui lemos é apenas uma abordagem, mas que fornece pistas para o sem número de obras específicas, sobre figuras momentos e acontecimentos, que felizmente estão a ser dados à estampa, nomeadamente através da publicação de teses universitárias. Teses que até aqui há poucas décadas confinavam a sua divulgação às audiências das salas de aula onde eram debatidas morrendo a seguir inexoravelmente asfixiadas no pó dos arquivos das faculdades.

As câmaras municipais têm também contribuído ultimamente de um modo mais visível, em certa medida para esta difusão, com a publicação de monografias e biografias regionais.

Só por isto esta História merece encómios.

No que toca ao conteúdo tenho uma opinião, mas acho que não me devo alongar sobre esta vertente, já que a minha será tão boa como a sua que me está a ver e ouvir neste programa.

Mesmo assim não posso deixar de dizer que no que toca à formação de Portugal o que penso não é necessariamente coincidente com o que diz Rui Ramos.

É que às vezes em história, o mito nem sempre é pura e simples efabulação.

Às vezes produz efeitos políticos e sociais bem concretos e definidos, como diria o poeta António Gedeão, com consequências que por vezes desafiam as regras rígidas da ciência e da razão.

Portugal não nasceu de uns desígnios políticos de um rei godo (alemão), mas som da pré-existência de um povo predisposto a auto governar-se. Já lá dizia Estrabão, mais ou menos assim:- nos confins da Ibéria há um povo que não se governa nem se deixa governar.

E mais não digo, a não ser que é indispensável ter em casa esta história de Portugal de Rui Ramos.

A Educação em Macau

Houve um período, ainda recente em que, a imagem de Macau foi vendida no exterior com o slogan: – “Cidade de Cultura”.

Naturalmente que o slogan não significava nada. Macau era antes, isso sim, a cidade do jogo, como sempre foi. Isto, independentemente de a cultura ter sempre existido aqui, como em qualquer parte do Mundo.

Mas politicamente convinha, então, ignorar, ou menorizar esse facto.

Depois da transferência esse anómalo slogan felizmente que foi abolido e o jogo desenvolveu-se sem complexos.

Mas com o desenvolvimento do jogo, em maior, ou menor grau, a cultura também se desenvolveu.

Os incentivos à educação expandiram-se, surgiu um politécnico e estão em actividades várias universidades.

Com tudo isto e com o que falta e que é muito, Macau está no bom caminho para um dia retomar o slogan que acabei de falar.

No entanto se nos anos 90 do século XX, Macau não era uma cidade de cultura, a verdade é que o foi muito tempo antes e de um modo brilhantemente pioneiro.

Refiro-me evidentemente ao chamado Colégio de S. Paulo, fundado pelos jesuítas por volta do ano de 1593.

Foi a primeira universidade do Extremo Oriente.

A história do Colégio de S. Paulo, é tão brilhante como fugaz foi a sua existência e inglório o seu fim.

Quem nos conta como foi é o Padre Manuel Teixeira, neste livro que intitulou: – A Educação em Macau.

Aqui o historiador para além dos pormenores sobre o Colégio de S. Paulo aborda o que foi este sector da vida de Macau ao longo dos séculos e conta-nos uma história pouco simpática depois da expulsão dos jesuítas.

Houve períodos em que pode dizer-se que a educação institucionalizada esteve mesmo completamente ausente e outros em que andou nas mãos de quem não tinha a mínima competência.

Tudo isto perante um quase permanente alheamento do estado, que pouco cuidou durante os séculos de tão importante sector.

Vale a pena citar esta passagem referente à escola pública que o Padre Teixeira reproduz neste livro citando um ouvidor de Macau: –

Com a expulsão dos jesuítas em 1762 não houve mais uma cadeira de latinidade, nenhuma de moral, ou teologia. Quem quis aprender foi a Manila, alguns para Goa e outros a quem os meios faltavam ficaram aqui, ouvindo lições de algum clérigo antigo.

O professor régio com ordenado de 500 taeis, ainda não formou um só estudante bom. As religiosas não dão aulas, nem estes conventos têm mestres.

Era assim que o Juiz Lázaro Ferreira (ouvidor) caracterizava a educação em Macau em 1784.

Ensinar música, por exemplo era chão que tinha dado uvas como se costuma dizer, pois se não havia lugar para as primeiras letras como haveria de haver para as artes.

Mas depois disso a situação melhorou, mas não muito.

Triste história, portanto que vale a pena ler aqui neste livro, publicado em 1981, pela Direcção dos Serviços de Educação e que ainda se pode encontrar, creio eu, na Livraria Portuguesa.

Vale pena dar uma vista de olhos por esta obra condensada e lamentar o que foi.

Felizmente que a história às vezes não se repete, pelo menos quando os que têm obrigação de decidir, conhecem alguma coisa do passado.

East River Column

Como tenho vindo a dizer a história é assunto delicado de pegar.

Não se pode fazer sobre o acontecimento, porque para fazer história é necessário distanciamento no tempo relativamente aos acontecimentos.

Por outro lado historiar, em muitos países ainda hoje significa, por vezes, ofender o poder político vigente com as consequências que tal ofensa acarreta.

E não são poucas essas consequências.

Muitos historiadores foram parar à cadeia, ou cessaram os seus esforços definitivamente caídos perante os pelotões de fuzilamento.

Goya deixou desenhos elucidativos sobre este assunto.

Basta olhar para os seus quadros e desenhos sombrios para ter uma ideia do que é pugnar pela verdade contra a verdade que os poderes soberanos de ocasião entendem que deve ser a autenticidade oficial.

Portanto, porque não convém, politicamente, ou porque não é oportuno, ou mesmo porque é arriscado, muitas memórias que muitas vezes poderiam explicar com simplicidade o rumo dos acontecimentos no mundo permanecem ignoradas, ou pudicamente auto-obliteradas porque não convém. Por isto, ou por aquilo…

Essas lacunas só contribuem para lançar véus de mistério desnecessários sobre as razões porque as sociedades se comportam de um modo e não de outro, aparentando por vezes mover-se de forma incoerente.

Às vezes, decisões políticas e estados sociais radicam em factos históricos marcantes que pelas razões que disse foram relegados para o esquecimento apenas porque a conjuntura política o impunha. Que não a verdade!

É o caso narrado neste livro.

Chama-se  East River Column. Hong Kong Guerrilhas in the second World War and after.

Qualquer coisa como A Coluna do Rio de Lestes. Os guerrilheiros de Hong Kong durante a Segunda Guerra Mundial e depois.

Mas o que era a Coluna do Rio de Leste?

Em resumo pode dizer-se que era um grupo de patriotas liderado pelo Partido Comunista da China (PCC), sobre os ombros de quem pesou a maior responsabilidade na resistência contra a ocupação japonesa desde 1937 em diante. Umas centenas de militantes que iam de intelectuais a analfabetos unidos pelo anseio da liberdade e igualdade contra a opressão que nesses tempos se manifestava na figura opressora do Imperador do Japão, autocrata sangrento e sem escrúpulos.

Este grupo não só manteve em cheque as forças japonesas, como prestou igualmente um auxílio valioso (atrás das linhas) aos exércitos aliados em campanha no Leste Asiático, no campo de combate e no domínio das informações tácticas.

Por outro lado teve também uma acção de relevo no apoio à fuga de numerosos prisioneiros de guerra aliados internados nos campos de concentração japoneses.

Pergunta-se então. Se tiveram uma acção tão relevante, porque é que pouca gente sabe hoje que Coluna tenha sido essa?

A explicação é simples.

No final da guerra, à Inglaterra, ao reocupar Hong Kong, convinha não hostilizar o governo nacionalista, do Kwomintang que tinha lutado bem mais contra os comunistas do que contra os japoneses e a Coluna do Rio de Leste era o braço armado do PCC na província de Guangdong. Não era o governo oficial da China. Só o viria a ser em 1 de Outubro de 1949 com a implantação da República Popular da China.

Por isso, embora reconhecendo os esforços valorosos empreendidos pela Coluna durante a guerra as autoridades britânicas com a sua fleuma habitual, preferiram conferir uma ou duas medalhas de mérito em combate a alguns dos seus líderes, oferecer uns pequenos montantes em dinheiro aos guerrilheiros reformados que optaram por permanecer em Kowloon e nos Novos Territórios e deixar cair, naturalmente, o assunto no esquecimento.

Do outro lado da fronteira, guerrilheiros e líderes foram por seu turno alvo de reconhecimento, mas apenas momentâneo.

É que com a “Revolução Cultural” (1966) triunfante os guerrilheiros acabariam por ser acusados de estarem ao serviço do imperialismo, apenas porque durante a guerra tinham mantido estreitos contactos com as forças aliadas e por força das circunstâncias com os Nacionalistas do Kwomintang.

É caso para dizer como dizia o nosso Afonso de Albuquerque. Mal com os Homens por Amor de Deus, mal com Deus por amor dos Homens.

Finda a Revolução Cultural, a China de Deng Xiaoping, não se interessou em corrigir a injustiça e Hong Kong em processo de transição de soberania também não.

E assim, a Coluna do Rio de Leste, desapareceu nas brumas da bibliografia e quase da história, como se nunca tivesse existido. E de facto, nada se escreveu sobre o assunto, que continuava a não agradar nem a gregos nem a troianos.

Agora Chan Sui Jeung, decidiu arrojar-se à empresa de tirar do anonimato esse grupo de heróis que chegou a ser classificado, a certo ponto da história, como bando de malfeitores.

Uma história recheada de peripécias, que resultou de numerosas entrevistas que o autor manteve com os sobreviventes da Coluna e da consulta dos arquivos disponíveis.

Um livro, que apesar de tratar essencialmente de Hong Kong, não deixa de salientar o importante papel que Macau desempenhou na luta contra a agressão japonesa, apesar da sua neutralidade na guerra.

O autor, Chan Sui Jeung, é licenciado pela Universidade de Hong Kong e foi durante vários anos administrador civil nos Novos Territórios, local onde viviam muitos dos guerrilheiros que integravam a Coluna, dos quais teve oportunidade de recolher as memórias inestimáveis que contam da obra.

Actualmente Chan Sui Jeung é Investigador Honorário do Centro de Estudos Asiáticos da Universidade de Hong Kong.

East River Column , uma publicação da Hong Kong University Press dada à estampa o ano passado.

A não perder.

A História na Bagagem

A bibliografia de Macau tem muitos títulos imerecidamente ignorados.

É certo que principalmente na década que antecedeu a transferência de soberania muito se escreveu sobre Macau.

Muito se disse de interesse, mas pouco de verdadeiro e essencialmente de verdadeiramente novo.

Parece ter havido uma espécie de frenesim destinado a preencher lacunas que a história deixou.

Mas esse frenesim não colmatou as omissões “deixadas pela história” como sói dizer-se actualmente e deixou pouca coisa de verdadeiro interesse.

Naturalmente que entre o que se escreveu há obras dignas de grande mérito.

Falo-lhe hoje de uma delas.

É esta.

A História na Bagagem de Luís Andrade Sá.

Se há livros imperdíveis um deles é este.

A começar pelo título, esta história na bagagem é um retracto vivo de Macau desde finais do século XIX até ao segundo conflito mundial de 1939 – 45.

Luís Sá fala-nos aqui da história dos hotéis que foram um ex-libris de Macau durante muitas décadas, marcando indelevelmente a fisionomia da cidade.

O Hotel Bela Vista, que começou por ser destinado a albergar os oficiais convalescentes do exército de campanha francês em comissão de serviço na Indochina.

Hoje é a residência do cônsul geral de Portugal em Macau.

O Hotel Riviera. Um nome lendário em Macau, onde estiveram hospedados alguns dos grandes nomes da política da arte e da literatura mundial.

Ficava, onde hoje está o banco da China na Esquina da Avenida Almeida Ribeiro com a rua da Praia Grande, que foi deitado abaixo precisamente para dar lugar a este banco, que na altura tinha o nome de Banco Nam Tung.

Ali esteve também hospedado o Poeta Camilo Pessanha e a vida no seu interior reflectia o cosmopolitismo de Macau.

A inteligência local e estrangeira reuniu ali durante mais de 60 anos deixando histórias interessantíssimas de um quotidiano que mudaria radicalmente a partir dos anos 70 com a inauguração do Hotel Lisboa que veio mudar profundamente usos e costumes.

Outro dos hotéis lendários é o Central.

Durante muitas décadas foi o edifício mais alto de Macau, com os seus dez andares.

O apogeu do Hotel Central ocorreu durante a guerra.

Nos seus salões cruzavam-se os ocupantes japoneses do Sul da China, os refugiados, franceses ingleses, americanos e de não sei quantas outras nacionalidades.

As histórias do Hotel Central poderiam muito bem ter servido de fonte de inspiração para Ian Fleming na criação do seu James Bond, se o acaso quisesse que o escritor inglês ali se tivesse ali hospedado.

Leio-lhe o que diz aqui na contra capa…

(Como tenho dito, li este excerto no Guarda-livros de a “Montra do Lilau” que vai para o ar às terças-feiras às 23 e 30 na TDM. Terá que adquirir o livro para saber. Vale a pena!).

Algumas desses enredos que fizeram o imaginário ocidental sobre Macau conta-nos Luís Sá neste livro, numa escrita viva alegre e particularmente impressiva.

Ler a História na Bagagem é ficar a saber através das pequenas histórias, verdadeiramente o que Macau foi, desde os finais do século XIX.

Luís Sá é jornalista e actualmente editor na agência portuguesa de Notícias Lusa.

Durante alguns anos trabalhou em televisão aqui na TDM e colaborou em vários jornais.

Antes de ter vivido em Macau Luís Sá teve também uma breve experiência como editor em Portugal.

Outro livro que vale a pena ler deste autor é The Boys from Macau, Os Portugueses em Hong Kong.


É uma história paralela e que tal como esta se lê um pouco como uma novela.

A História na Bagagem, crónica dos velhos hotéis de Macau, de Luís Andrade Sá.

Um livro da colecção Memória do Oriente, do Instituto Cultural de Macau, com edição de Rogério Beltrão Coelho de 1989.

Bom dia S’tora”.

Um livro que foi publicado em 1991.

É um livro interessante para quem queira saber de Macau.

Tenho-o aqui. É este

A autora não era uma escritora na verdadeira acessão do termo.

Era professora do ensino secundário e que saiba, antes e depois deste livro, nunca publicou nada, a não ser numerosos artigos de jornal que se encontram dispersos e nunca recolhidos em livro e é pena.

“Bom Dia S’Tora”, é o diário de uma professora, ainda que não uma professora vulgar, já que Graciete Batalha fez incursões pela política local e deixou a sua personalidade impressa de forma indelével na formação da personalidade de dezenas e dezenas de alunos que lhe passaram pelas mãos no Liceu de Macau.

Foi deputada do Conselho Consultivo, que era como se chamava a Assembleia Legislativa antes de 1974 e defendia com veemência as sua posições políticas nesse hemiciclo.

Era uma mulher progressista e ao mesmo tempo alinhada com o conservantismo do regime então vigente. Com aqueles pontos de vista que não se contestavam. Não porque não se pudessem contestar, mas apenas por que a margem de contestação não era de fundo, mas apenas de forma. Era assim nesse tempo!…

Ainda a conheci e dela tenho como pessoa, a recordação de uma mulher consciente, decidida e sabedora.

Enfim, daquelas que estavam à frente do seu tempo, apesar da sua formação ter sido influenciada por outros tempos, mas tempos, que nunca renegou.

Em suma no contexto da sua época era uma intelectual comparável a Virgínia Rau, por exemplo, mas não a Agustina Bessa Luís.

Era uma conservadora iluminada pelo racionalismo, que, provavelmente – não sei- mas prezaria mais Rouseaux, que Jean Paul Sartre.

Seja como for e independentemente das recordações pessoais que tenho de Graciete Batalha, não posso deixar de contar com este, Bom Dia S’Tora, como um livro de mesinha de cabeceira neste meu espírito de guarda-livros.

É politicamente incorrecto?

Sim é politicamente incorrecto em várias circunstâncias, mas não sei porquê, ao lê-lo e relê-lo a mim assemelha-se, a Miguel Torga às vezes, e outras a Bernardim Ribeiro.

A um pela forma literária, por vezes dura, a outro pelo lirismo que transmite sobre um mundo circunscrito que era o Liceu de Macau e a cidade que o rodeava.

Mas às vezes também faz lembrar Aquilino Ribeiro, embora sem os regionalismos das serras de Portugal, altaneiras e rugosas, mas com os regionalismos ultramarinos das faldas urbanas da Fortaleza do Monte e dos aterros do Porto Exterior.

E os regionalismos de Graciete são os verdadeiros, não os do crioulo antigo, mas o do que na realidade subsistiu puro ou espúrio, na tradição moderna de Macau.

O papiá cristã perdeu-se há muito.

O papiá de hoje, o verdadeiro, é o de que nos fala Graciete Batalha.

Falo hoje de um livro escrito por alguém de quem quase toda a gente se lembra.

A sua professora.

Graciete Batalha.

Alguns recordar-se-ão das boas notas que tiveram na disciplina que leccionava.

Outros lembram-se de que por ela foram massacrados na disciplina de Português, talvez por má divisão de orações, confusão de pretéritos perfeitos com imperfeitos, gerúndios, adjectivos substantivos. Enfim!… outros apenas por cabularem.

Sabe-se lá porquê e sabe-se lá quem terá hoje razões de queixa ou memórias carinhosas que nunca se apagarão nunca. Umas e outras

Mas Neste Bom dia S’Tora, não é uma professora que escreve.

Mas também não é um manual de Português que nos é transmitido.

É um período da história de Macau que nos passa pelo olhar.

Começa em 1969 e termina em Janeiro de 1986.

O Livro chama-se, como disse, “Bom Dia S’Tora”, é uma edição do Instituto Cultural de Macau com data de 1991.

E deste livro termino com uma citação da S’tora.

“E sente-se uma saudade insistente ao percorrer os corredores desertos em tempos de férias ou ao pensar no dia em que finalmente nos libertamos das canseiras, da rotina, das lutas inglórias, das incompreensões, e seremos… tristes professores reformados.

No próximo programa cá estarei com mais um autor e mais um livro