OS CÃES DE RIGA

Como não me considero crítico literário, nem crítico de cinema, e muito menos crítico de arte prefiro fixar-me apenas na recensão das coisas que vão saindo no mundo editorial, classificadas como “não ficção”.

Devo dizer que esta classificação, “Não Ficção” existe apenas nos escaparates das livrarias anglo-saxónicas.

Em Hong Kong, em Singapura e Bancoque, por exemplo há sempre uma secção destacada, dedicada a livros de não ficção e é por aí que me perco.

No que diz respeito ás livrarias portuguesas o assunto é mais complicado.

Por exemplo na FNAC há uma secção intitulada literatura traduzida, que eu não sei o que seja embora de cada vez que vá a Portugal de férias não deixe de dedicar pelo menos duas ou três horas a essa epítome do escaparate do livro.

A FNAC é também a epítome do disco, mas por agora falo de livros.

Bom, apesar disso continuo sem saber bem o que quer dizer literatura traduzida.

Mas enfim tudo isto para dizer que hoje chamo a sua atenção não para a não ficção, mas para a ficção.

E a ficção que hoje me trás é este livro

É um policial, mas um policial quanto a mim particularmente interessante.

Provavelmente não pela trama em si, mas pela situação, ou seja, passa-se num país que era desconhecido de toda a gente, ou quase até ter sido integrado na União Europeia.

Banhada pelas águas geladas do mar Báltico, a Letónia tem litoral pantanoso, com dunas de areia e importantes portos pesqueiros.

Riga é a maior capital das repúblicas bálticas.

No bairro histórico de Riga misturam-se edificações medievais e prédios art nouveau, declaradas património da humanidade.

As florestas cobrem quase metade do território.

Ex-república da União Soviética, a Letónia conquista a independência em 1991.

Como herança do domínio soviético, os russos constituem mais de 30% da população.

E agora, a simples remoção da estátua de um soldado do Exército Vermelho da ex-união soviética no centro da capital, quase gera uma guerra civil.

IMAGENS DE TELEJORNAL

Que país é este de que tudo se sabe, mas poucos parecem saber ao certo o que se lá passa?

O detective sueco Kurt Walander depois de ser chamado a descobrir dois homens assassinados a navegar à deriva nas costas da Suécia num bote, decide atravessar o Báltico para tentar desvendar os segredos de Riga e a dramática mudança que afecta os estados bálticos.

E é entre prédios art noveux e pântanos e florestas e Letões, que são descendentes de suecos e também russos que são os tais 30% da população, que o detective se move, sem saber bem por onde,  e essencialmente sem retirar conclusões.

Vale a pena ler este livro de 270 páginas, que não tem nada a ver com Macau, ou com a China, ou mesmo com a Ásia, mas que tem a ver seguramente com os dias de hoje.

Lê-se de um fôlego, num fim-de-semana na Tailândia, ou nas Filipinas, ou mesmo na Praia de Cheok Van.

Se não o encontrar na Livraria Portuguesa mande vir.

Custa 190 Patacas.

O Título é estes:

Os cães de Riga, o autor é Henning Mankell.

É da editorial Presença.

Leio policiais desde a minha adolescência e também livros de ficção científica.

Creio que são dois géneros que todos nós cultivamos, para preencher as horas vagas, embora nestas matérias hoje em dia existam o VCD e DVD, mais fáceis de consumir, embora deixem menos espaço à nossa própria imaginação.

Um dia destes hei-de falar-lhe também de ficção científica

Bernard Lewis.

Advertência inicial: O texto que se segue é o script de “Guarda-livros” segmento que faz parte do programa “A Montra do Lilau”. Segue sem alterações nem acrescentos.

Boa noite.

Hoje vou-lhe falar de um autor e de quatro livros.

Tenho aqui um apenas traduzido para português.

PEGO NO LIVRO A CRISE DO ISLÃO

O autor chama-se Bernard Lewis.

Nasceu em Londres em 1916 e apesar da idade, continua a ser o dono da cadeira de estudos do Próximo Oriente das Universidades de Cleveland e Princeton, nos Estados Unidos.

Especializou-se em História do Islão e na interacção entre o Islão e o Ocidente ganhou fama mundial graças aos estudos que publicou sobre a história do Império Otomano.

Naturalmente que não preciso de lhe lembrar que o Império Otomano é a actual Turquia, onde se assiste neste momento a uma luta entre os que querem manter o sistema laico do regime – as mulheres sem véu, por exemplo menor – e aderir à União Europeia.

E os que rejeitam a revolução de Mustafá Kemal Ataturk e preferem pertencer ao mundo islâmico – homens de cabeça descoberta (ou de chapéu, em vez de turbante).

Uns querem uma Turquia moderna, os outros o reingresso no Corão puro e duro.

Os militares – como sempre, guardiães do laicismo na Turquia – já ameaçaram que, se houver um regresso ao passado, vão intervir.

(por  isso uns tantos já foram presos)

A União Europeia reagiu desde logo a dizer que eleições livres não são para contestar.

Má consciência da União Europeia, diria eu, já que, quando os islamitas argelinos ganharam as eleições e os militares as anularam, aqui há uns anos, nenhuma voz se levantou na Europa para as impugnar.

É sobre estas contradições que Bernard Lewis fala nos seus livros.

Neste, que se chama, What Went Wrong (MOSTRAR)

Ou neste, que se chama The Crisis Of Islam (MOSTRAR)

E, finamente, neste, The Middle East, a Brief History of the Last 2000 years.

MOTRAR

Esta obra, publicada há três anos, condensa as aulas de décadas anteriores de um professor com uma  visão particular do mundo, depois da dicotomia entre o Ocidente e o Oriente ter deixado de existir com a queda do muro de Berlim e novas dicotomias terem surgido.

Bernard Lewis, é actualmente um dos mais lidos académicos do mundo na especialidade e as suas teses são tidas em atenção e fazem política nos Estados Unidos da América.

São 60 anos de cátedra e diz-se que Lewis é hoje o mais influente historiador Ocidental do Islão e do Médio Oriente.

Devo dizer que, embora, simpatizando com o que defende, penso que muitas vezes exagera na eventual ameaça que o Islão representa para o mundo.

Mesmo, apesar da El Qaida, dos bombistas suicidas, dos atentados de Beslam, de Madrid, de Londres e das Torres gémeas de Nova Iorque.

Pelo menos não estou a ver no século XXI os exércitos do Islão a unirem-se para reconquistar a Andaluzia espanhola e o Algarve.

Não acredito que isso seja possível.

Mas, tal como todos os académicos, defende uma tese e nela pensa condensar a verdade e defende-a com vigor.

Mas quer estejamos de acordo com ele ou não, a verdade é que os conselheiros de George Bush, o presidente americano, o leram e dele tiraram ilacções.

E delas resultou, entre outras, a invasão do Iraque, do Afeganistão, o contencioso com o Irão, o impasse da Palestina e o mais que adiante se verá nas notícias de telejornal de todo o mundo nos próximos tempos

Tudo porque George Bush (republicano) tem direito de veto às leis do Congresso (actualmente dominado pelos democratas).

Se quiser conhecer o mundo islâmico, que vai do Médio Oriente à Indonésia – e às minorias da Austrália e Timor – e estar a par do que se passa por esta Ásia,  não deixe de ler Bernard Lewis, concorde, ou não com ele.

E se tiver verdadeiro interesse comece por este.

MOSTRAR – WHAT WENT WRONG.

De certeza que não vai dar por perdido o seu tempo.

Se calhar vai perceber a importância desta notícia do Telejornal.

ENTRA AL ZARKAWI (TJ de 06/05/07)

O Número dois da Al – Queida mostrou que está são e vivo e, principalmente, parece querer demonstrar que apesar de já lá irem mais de oitocentos anos as cruzadas não só não acabaram, como estão vivas na mente de muitos dirigentes políticos islamitas.

E será por tudo isto que a Turquia continua a bater, sem resposta, à porta da Europa.

Blogues, anonimato e vírgulas 22 – 06 – 10

Na sequência do meu artigo sobre “blogues e anonimato” recebi vários “feedbacks” neologismo inglês de que não gosto muito mas que não tenho senão que aceitar perante a falta de vocábulo português mais à mão. Ou então perante a preguiça de consultar – por exemplo – o novel dicionário da “Academia das Ciências de Lisboa” que alegadamente contém tudo quanto há no léxico de “aquém e além-mar” que não constava do dicionário de “Figueiredo”.

Fui criticado (imagine-se!) não pelo que disse mas pelas vírgulas que deixei de pôr ou inseri a mais (ou a menos) no artigo que deixei exarado nesta página semanal do “JTM”.

Tenho pena que ninguém na “blogosfera” me tenha interpelado sobre “blogues” “anonimato” “calúnias” “censura” “auto-censura” “ética jornalística” “liberdade” “direitos de autor”. Sei lá que mais?

Mas não!

Fui interpelado essencialmente sobre vírgulas. Vírgulas! Vírgulas e mais nada!

Isto na blogosfera!…

Porque algumas pessoas com quem tive oportunidade de falar sobre a questão e/ou me interpelaram directa e pessoalmente a propósito do escrito essas sim falaram-me do conteúdo. Concordaram e discordaram. Enfim!… Disseram o que quiseram e entenderam. Suscitaram discussão de ideias que era o objectivo subjacente ao tempo que despendi a escrever o dito que se prendia essencialmente sobre a “lei de imprensa” anunciada como em fase de revisão.

Mas essa das vírgulas é boa! Não posso levar a sério (mais outro ponto de exclamação e umas tantas reticências).

Fez-me lembrar o meu professor de português do liceu (Pe. Bento da Guia de boa memória) que dizia que a utilização dos acentos nas palavras é coisa ainda hoje absolutamente dispensável para quem domine seriamente um idioma.

Segundo esse pedagogo a acentuação das palavras só começou, naquela fronteira indefinida da “alta idade média” quando o latim se começou a perder com o ocaso do “Império Romano” dando lugar ao analfabetismo generalizado da barbárie e à ascensão do português a afirmar-se como forma de comunicação corrente exclusivamente oral como percursora de língua nova.

Isso ocorreu num momento em que os padres (ilustrados detentores exclusivos do conhecimento que ameaçava esboroar-se nesse episódio histórico em que a guerra se sobrelevava às letras mas que eram muito poucos) ainda dominavam bem as duas línguas: – o “latinório” e o português nascente que na altura era uma espécie de crioulo pouco diferenciável do castelhano.

Mas dizia eu que os tais padres se viram na necessidade de inventar os tais acentos (e possivelmente as vírgulas). Isso de modo a que os frades seus discípulos semi-analfabetos como instrumentos ao seu serviço de Deus e da difusão dos conhecimentos básicos – que era necessário preservar a todo o custo nas escolas conventuais de primeiras letras – pudessem ensinar correctamente os rudimentos da escrita às crianças. Missão vital bem cometida a quem não teria merecimento original. Graças aos benditos acentos passou a ter.

Os frades acabaram por cumprir o seu serviço como reza a história e Frei Bernardo de Brito entre outros atesta e a gramática da língua portuguesa conclui.

Fizeram muito bem esses esclarecidos padres letrados medievais! Quem leu “O nome da Rosa” de Humberto Eco poderá ter uma ideia mais concreta desse quadro bárbaro de reconstrução que menciono.

Neste ponto do discurso devo dizer – por exemplo – que  Mário Vargas Llosa rejeita as vírgulas como se nota. É pesado lê-lo sem vírgulas? É! Mas quem não se delicia com “Pantaleão e as Visitadoras”; ou a “Conversa na Catedral”?

O desaparecido Saramago – idem. Além disso Saramago acrescenta (a meu ver) igual desprezo pelos parágrafos. Páginas quase inteiras. Verdadeiros conglomerados – como se diz em geologia – de imagens fantásticas que afogam de todo a ortografia e a semântica e tornam mais impossível do que nos Lusíadas a divisão de orações. Mas quem não compreende o “Levantado do Chão. Ou o “Memorial do Convento”?

A “Guidinha” de Luís de Sttau Monteiro (alguém se lembra daquele e daquela que foram paradigmas de uma época de jornalismo militante em Portugal?) o que omitia deliberadamente as vírgulas (mais os pontos e os acentos) para salientar a implacável crítica aos costumes e à política vigente. Todos entendiam o objectivo dessas agressões liminares à gramática e entendiam bem. Tanto a forma como as omissões pretendiam atingir objectivos concretos. Todos os leitores de jornais desde os de “A Bola” aos de “A Seara Nova” ou de “A Vida Mundial” sabiam quais eram. E sorriam. E comentavam. Os textos eram claros porque sem vírgulas. Talvez por isso a censura semântica e ortograficamente analfabeta tenha deixado publicar nesse tempo textos tão subversivos quanto repletos de humor. Humor – diga-se – era coisa que o regime iletrado de então – por não saber o que fosse – desconfiava seriamente.

Neste caso das vírgulas não refiro Eça nem Camilo nem Soares de Passos nem Pessanha. Muito menos Aquilino. Cada um destes punha as vírgulas as tónicas os parágrafos as reticência e apóstrofes onde achavam mais adequado para acentuar o efeito literário conveniente ao desenvolvimento da caneta que fluía pela página linear da novela.

Silva Gaio então punha mais vírgulas num parágrafo do que João de Deus gastava a explicar o que tal sinal ortográfico fosse na sua “Cartilha Maternal”.

Poderia citar outros autores mas cito o seguinte (dois pontos ou ponto e vírgula ou apenas ponto)

“Vírgula pode ser uma pausa… ou não.
Não, espere.
Não espere..
Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.
Pode criar heróis..
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.
Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.
A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.
A vírgula pode condenar ou salvar.
Não tenha clemência!
Não, tenha clemência!
Uma vírgula muda tudo.

Detalhes Adicionais:
SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.
* Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER…
* Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM…”.

Aqui a vírgula tem valor absoluto no que toca ao dinheiro. A estética do poema paira no entanto (quanto a mim) acima da vírgula bem como a própria mensagem ainda que esta seja sobre a vírgula em si.

Do poema citado entendi uma coisa. Cada leitor provavelmente entenderá outras e diversas.

Daqui retiro duas conclusões:

1 – O valor da vírgula faz parte intrínseca da teoria da relatividade. Existe apenas segundo o ponto de vista de quem escreve e pode ser alterado pelo observador. Ou seja por quem lê.

2 – A vírgula tem importância absoluta para o economista ou para o técnico de contas. Neste caso por uma razão simples. É que para o economista ou para o técnico de contas uma vírgula mal colocada pode levar à ruína um pagador de impostos; uma empresa; ou uma “holding”. Se o técnico de contas for ministro então a ruína pode estender-se mesmo a um país inteiro.

Se trocarmos as vírgulas a Pessoa; ou Álvaro de Campos; ou Ricardo Reis; ou Alberto Caeiro para as colocarmos no rigor da gramática estaremos a alterar-lhe o valor da “mensagem” e a reduzir dolosa e acintosamente a coisa a assunto de correcto preenchimento de ofício como na agrimensura de “O Castelo” de Kafka? Sem dúvida!

Nesse caso Pessoa nunca existiria na história da literatura. Nem Bernardim Ribeiro; João de Barros; Pascoais; Torga; Daniel Filipe; Lobo Antunes.

A vírgula não depende do autor, mas do leitor e não interessa de todo a não ser em folhas de balanço.

“O lavrador tinha um bezerro e a mãe do lavrador era também o pai do bezerro”. Se puser vírgulas nesta frase descobre-lhe certamente o sentido. No entanto estou convencido que nem Sá Carneiro nem Almada se tivessem sido autores da dita lhas teriam posto. Quebrariam o seu lirismo rural subjacente e passariam um atestado de menoridade a quem imagina o quê lê e outro igual a quem lê o que imagina.

Poderia neste ponto fazer algumas alusões ao acordo ortográfico. Fato e facto. Ação e acção. Irão ou Irã. Mas isso ficaria obviamente bem distante e fora do âmbito das vírgulas que é do que aqui se trata.

Finalmente e para concluir com uma analogia harmoniosa e quiçá “científica” como convém ao politicamente correcto da Macau chinesa do segundo milénio digo o seguinte:

– A música dita clássica (ou erudita) está inserida nas baias da rígida pauta de cinco tons que deu o extraordinário mundo de Beetoven; Mozart; Bartock; Tchaikovsky; Katchaturian e sei lá mais quantos sagrados nomes da harmonia universal. Mas a harmonia universal também se reconhece com a mesma melodia na escala espúria – para o ouvido ocidental já se vê – que é a dodecafónica da China. O perigo desta escala cíclica é que por mais precauções que se adoptem as fracções tornam-se cada vez mais complicadas e irredutíveis. No entanto o sentimento profundo que se sente ao ouvir a “Sinfonia Nº3 de Rachmaninof” é idêntico ao que nos invade quando se ouve – por exemplo –a “Sinfonia do Rio Amarelo”, ou o trecho de “Os Pioneiros” que é actualmente o hino da República Popular da China.

Do que ficou dito em todo este texto chamo a atenção para o facto de não ter usado vírgulas. Se o leitor entender colocá-las faça dos “Sinais” desta semana coisa sua. Pode ser um mote para qualquer inspiração. Distribua vírgulas por onde quiser. Mude parágrafos. Divida ou multiplique orações. É seu o texto “não fiz mais do que o escrever” como dizia António Nobre.

PS. Não quero com isto ofender. Ou menosprezar os professores de português que diariamente ensinam aos seus alunos coisas tão herméticas como: – palavras paroxítonas ou graves. Palavras oxítonas. Sílabas subtónicas; ou notações sintácticas. Mas acima de tudo a regra essencial que é a seguinte:O vocativo é sempre separado por vírgula.

Antes de concluir de facto não posso deixar de citar aqui um excerto da wikipédia (wikipedia pelos vistos escreve-se com acento) que me surgiu entrementes na blogosfera muito a propósito e que diz o seguinte acerca da língua japonesa: – “Um dos sistemas ortográficos mais complexos é o da língua japonesa que usa uma combinação de várias centenas de caracteres ideográficos kanji, de origem chinesa, dois silabários, katana e hiragana, e ainda o alfabeto latino, a que dão o nome romaji. Todas as palavras em japonês podem ser escritas em katakana, hiragana ou romaji. E a maioria delas também pode ser identificada por caracteres kanji. A escolha de um tipo de escrita depende de vários factores, nomeadamente o uso mais habitual, a facilidade de leitura ou até as opções estilísticas de quem escreve”.

Que seria do sistema ortográfico japonês se lhe acrescentassem vírgulas?

The New Central Asia. The Creation of Nations. Olivier Roy

Aqui há uns bons quinze a vinte anos, um britânico decidiu aventura-se a fazer a pé o trajecto entre a Europa e a China.

Para o efeito achou que era necessário aprender turco.

E porquê turco?

Porque era a língua mais falada na maior parte da rota que ia empreender.

E assim, o aventureiro conseguiu entender-se nesse idioma com as populações dos países por onde passava desde a Turquia até quase às portas de Pequim passando pela imensa Ásia Central.

É que as línguas dessas regiões, com predominância para o Urdu, derivam todas do turco.

Esta história revela bem a dimensão que atingiu o império otomano que durou de 1299 a 1922.

Serve esta introdução para apresentar este título.

“The New Central Asia. The Creation of Nations”.

A obra constitui uma referência importante para quem queira conhecer não só a história da Ásia Central, mas a emergência de novos países depois da queda da União Soviética.

Nela observa-se com nitidez o papel aglutinador do Islão entre essas novas nações, que em termos culturais, pouco ou nada diferem umas das outras.

A razão do seu surgimento prende-se mais com a queda do império otomano e a consequente perda de referência religiosa, ligada a um centro de poder forte.

A divisão em repúblicas, pela União Soviética dos territórios da Ásia Central, um tanto artificial diria eu, fez o resto.

Olivier Roy

O autor deste livro é Olivier Roy, um académico do Centro Nacional de Investigação Científica de Paris.

Roy é um profundo conhecedor do Islão, principalmente no que diz respeito à Ásia Centra, onde desempenhou missões internacionais, nomeadamente no Afeganistão e Kirguistão.

Roy é também consultor do Ministério dos Negócios Estrangeiros francês.

O seu último livro tem por título “Secularism Confronts Islam” e foi publicado em 2007.

“The New Central Ásia” foi publicado pela primeira vez em 1997.

A edição que aqui tenho é uma tradução para inglês datada de 2000 e tem a chancela  da New York University Press.

Um livro que vale a pena ler tanto mais que com a nova administração americana de Barak Obama o fulcro de conflito passa a centrar-se no Afeganistão. Na luta contra o terrorismo e contra os fundamentalistas Taliban, o que perspectiva um crescendo de importância das novas nações da Ásia Central que com o Afeganistão fazem fronteira.

Stalin; the first in-depth biography based on explosive new documents from russia’s secret archives

Sobre Estaline a bibliografia é extensa.

No entanto quem escreve sobre o ditador soviético são escritores ocidentais.

Alguns de grande renome, mas mesmo assim ocidentais.

Confesso que por esse facto nunca perdi grande tempo a ler o que sobre ele se escreveu.

Bastaram-me uns artigos de jornal e uma ressenções literárias.

Isto até ir ali a Zhouhai e descobrir que para além das intermináveis lojas de roupas, CDs, artesanato de duvidosa qualidade e roupas existe também uma livraria.

Uma livraria a sério.

Não fica longe das Portas do Cerco e passei, ou melhor atravessei o local por acaso.

Mas, quando reparei que era uma livraria parei.

A bibliografia era imensa, embora a maior parte em chinês.

Procurei ver então, se tinha livros em línguas estrangeiras, e tinha.

Uma secção pequena. A maior parte são livros técnicos, mas mesmo assim digna de atenção.

Foi ali que vi este livro

Chama-se, como podem ver “Alexander II, The Last Great Tsar” e é assinado por Edvard Radzinsky e diz na capa como também podem ver que este autor escreveu outro livro chamado “The Last Tzar”, ou “O Último Czar”, que foi um best-seller mundial.

“Alexander II”, já não vendeu tanto, mas quanto a mim vale mais pelo que diz do que pelo que contém.

Trata-se de um período da história da Rússia que refere todos os ícones da juventude das pessoas da minha idade.

Nele fala-se de Bakunine, de Turgueniev, de Doistoyevsky, de Toslstoi, de Kropotkine, enfim de todos os nomes.

Vale a pena ler e creio que voltarei especificamente a falar deste livro mais tarde que vale a pena.

Mas agora falo-lhe neste

Chama-se “Estaline”.

O nome, como podem ver surge a branco sobre campo vermelho, como se o autor pretendesse assim salientar o reino sangrento do Czar vermelho, e se calhar pretendia mesmo.

O subtítulo é demasiado grande para as capas a que estamos habituados.

Diz: “The first in-depth biography based on explosive new documents from russia’s secret archives”.

Ou seja a primeira biografia total baseada em novos documentos explosivos dos arquivos secretos da Rússia.

A capa cheira a primeira página de jornais tablóides, mas vale a pena ler e isto porquê?

Porque é o primeiro livro sobre Estaline escrito por um russo sem intervenção de editores ocidentais.

Só por isso vale a pena.

Claro que o autor, não é um historiador imparcial.

Quando muito será uma espécie do nosso Hermano Saraiva, com o qual revela alguns paralelos.

Edvard Radzinsky é monárquico por convicção e estrela de televisão.

Tem programas em vários canais onde expõe os seus pontos de vista.

Mais do que historiador Radzinsky é um contador de histórias e conta-as bem como se depreende da leitura deste livro sobre Estaline.

Principalmente Radzinsky relembra que houve um período da humanidade em que a revolução estava acima de tudo.

Acima de Deus, acima da família, acima da Pátria e acima de cada um de nós individualmente.

Este conceito fez a revolução russa de 1917 e formatou o mundo que temos hoje.

E Estaline quem era?

Era um produto da revolução. Um homem novo que queria fazer um mundo novo.

Morreu antes de o concretizar.

Mas se à sua maneira não o concretizou inteiramente nele deixou uma marca mais do que indelével.

O general Xi Haotian, chefe das forças armadas da China, dizia que o tempo da Alemanha de Hitler apesar do socialismo, foi um erro momentâneo da história

O tempo de Estaline, digo eu foi a formatação de um novo mundo que insidiosamente continua.

Estamos a assistir todos os dias ao seu desenrolar.

Falta saber se também foi um erro momentâneo da história.

Acho que já existe tradução em português deste livro.

A Livraria Portuguesa se o não tem pode mandar vir com certeza. Peça-o lá!

Se não. Leia a edição em inglês.

Pode encontra-la em Banguecoque na Livraria Konukaia no centro comercial “Paragon”, ali no coração da capital tailandesa, ou então em Hong Kong, aqui ao lado na livraria “Page One”, por exemplo.

Rule By Secrecy. Jim Marrs

A Nova Ordem Mundial é uma teoria da conspiração segundo a qual um grupo poderoso e secreto tem estado a planear dominar o mundo através de um governo único desde não se sabe quando, mas pelo menos há mais de dois, ou três séculos.

A Nova Ordem Mundial seria um plano com o objectivo de derrubar governos, bem como erradicar todas as religiões e crenças, para unificar a humanidade sob uma nova ordem, que seria baseada numa ideologia uniforme, uma moeda única e uma religião universal.

Isto tudo para a humanidade alcançar a perfeição.

Segundo esta teoria, ocorrências sócio políticas significativas são causadas por um grupo restrito, mas extremamente poderoso e secreto ou vários grupos igualmente restritos mas interligados.

Acontecimentos históricos e actuais são vistos como passos de um curso rigorosamente planeado para governar o mundo principalmente através de uma combinação de políticas financeiras, corrupção política, engenharia social, e a instilação do medo através da propaganda, ou seja a cultura do medo.

O chamado processo de globalização iniciado em finais do século XX, seria uma das muitas facetas do estabelecimento progressivo dessa nova ordem.

É disto que se fala neste livro que trago hoje aqui.

Chama-se “Rule By Secrecy”.

Jim Marrs, americano, escritor, jornalista e autor de programas de rádio e televisão sobre o assunto é naturalmente um dos apoiantes desta teoria da conspiração tendo-se tornado notado pelas consecutivas denúncias sobre o assassinato do antigo presidente americano John  Kenedy, em Dallas, afirmando que o atentado resultou de uma conspiração envolvendo o próprio governo dos Estados Unidos.

Apesar de se tratar de um tema aparentemente delirante para os mais cépticos, a verdade é que neste livro, Jim Marrs faz uma análise rigorosa, do poder e influencia de algumas organizações, como a Trilateral, o Grupo de Bildberg, que integra os grandes nomes da alta finança mundial, ou a Maçonaria, interrogando-se até que ponto estas organizações desempenham um papel superior ao dos próprios governos na definição das políticas globais.

Jim Marrs começa aliás este livro dizendo que se o leitor está satisfeito com os seus próprios pontos de vista sobre a humanidade, a religião, a história e o Mundo então não vale a pena ler.

Mas se pertence ao número dos que lêem vêem, ou ouvem as notícias e se perguntam sobre o que é que se está a passar no Mundo? Então embarque na aventura deste livro que, percorre os imbricados corredores das sociedades secretas, dos bancos e dos banqueiros, das aparências e dos mistérios, antigos e modernos.

Aliás Jim Marrs, abre com uma citação do antigo primeiro ministro britânico, Benjamin Disraeli, dizendo que o mundo é de facto governado não por quem nós pensamos, mas sim por outras personagens que se movem nas sombras dos bastidores e que os governados não fazem a mínima ideia quem sejam.

Disraeli, foi um dos mais jovens e notáveis chefes de governo da Inglaterra vitoriana e sabia do que falava.

Resta acrescentar que este livro foi publicado em português, brasileiro, há três anos com o título, “O Governo Secreto”.

Creio que não está à venda na livraria portuguesa, mas pode pedir que o mandem vir, ou então vá a wook. pt e encomende-o através desse site electrónico, ou então através da amazon.com.

O Governo Secreto, ou “Ruling by Secrecy”, um livro que acho que as livrarias têm dificuldade em colocar nos escaparates, já que se fica sem saber bem se se trata de política, de história, de economia, ou apenas de mera ficção.

De qualquer modo um livro que não deixa de fazer com que nos interroguemos com a marcha do mundo.

E pensemos duas vezes antes de aceitar como boa a declaração de uma figura do governo a afirmar como Cândido de Voltaire, que tudo corre no melhor dos mundos, ou a contra declaração do político da oposição que afirma que está tudo à beira da catástrofe.

Será que eles saberão do que falam, ou haverá quem de facto saiba como é que gira na verdade o universo em que vivemos?

Pirates, Of the South China Coast – 1790 a 1810. Dian Murray

Os assaltos no golfo de Adem, nas costas da Somália voltaram a colocar a pirataria e os piratas na ordem dia.

Navios das mais diversas tonelagens são atacados. As tripulações dominadas e os piratas exigem resgates avultadíssimos aos armadores e aos governos, para devolver as presas.

Voltamos portanto hoje aos tempos dos flibusteiros do século XVIII.

Durante muitos e muitos anos pouco se ouviu falar de pirataria, e a razão terá a ver com o facto de a partir do final da segunda guerra mundial as pessoas deixaram de viajar por via marítima passando a faze-lo em massa pelos ares.

Talvez por isso a actividade dos piratas passou a dar menos nas vistas.

No entanto, não se pode dizer que a segurança nos mares tenha sido um facto, ou os piratas tenham desaparecido como por encanto durante muitas décadas.

Longe disso, o que se passou é que a maioria dos navios alvos da pirataria transportavam apenas carga e por isso captavam menos a atenção dos jornais.

A pirataria aérea a partir dos anos 60 e 70 é que passou a concitar atenções.

Portanto, a pirataria existiu sempre e por vezes pôs mesmo em perigo a sobrevivência de nações.

É ainda comum dizer-se hoje, por exemplo, que Macau teria sido dada aos portugueses, pelo auxílio que prestaram ao “Império do Meio” na limpeza  da costa dos piratas que tinham bloqueado por completo as ligações marítimas da China com o exterior.

Hoje sabe-se que isso não foi bem verdade, mas a verdade é que Portugal prestou inestimável auxílio a Pequim na luta contra eles.

E não só nos primórdios da existência de Macau.

Noutras épocas, Macau mobilizou-se em conjunto com a China, em acções um pouco semelhantes às que têm actualmente lugar nas costas da Somália e onde a China participa com um contingente naval internacional.

Uma dessas ocasiões aconteceu em 1810 e teve repercussões excepcionais para o Território.

Do que aconteceu e não foi pouco, pode ler-se neste livro.

Chama-se; –  “Pirates, Of the South China Coast – 1790 a 1810”.

O livro faz um retrato da segurança dos mares nesse período no Sul da China, detendo-se particularmente sobre a acção de Kam Pao Sai, um líder marginal que assolou durante mais de uma década não só a região do Delta do Rio das Pérolas, mas que efectuou incursões bem mais a norte imobilizando por completo os movimentos da marinha chinesa.

Nessa conjuntura, Macau mobilizou-se para a ajudar, tanto mais que o seu próprio comércio estava em perigo.

Assim foi armada uma esquadra de emergência, que custou dinheiro e bom dinheiro e que quase ia levando Macau à bancarrota.

Valeu a ajuda preciosa da Tailândia (qual Fundo Monetário Internacional) que disponibilizou um empréstimo vultuoso ao território, o que lhe permitiu armar os navios necessários e apronta-los para o combate.

Diga-se que esse empréstimo haveria de demorar quase cem anos a ser saldado. Mas apesar dos atrasos Macau acabou por pagar a conta!

O dinheiro tailandês e a decisão do Governador Alvarenga e do Ouvidor Arriaga, que pediram o empréstimo permitiu que a pequena esquadra de Macau, de pouco mais de meia dúzia de lorchas e brigues, bloqueasse os piratas junto à ilha de Lantau, mais ou menos no local onde hoje se encontra o aeroporto de Chek Lap Cok e esmagassem a frota inimiga.

Diz-se que o número de juncos piratas se elevava a mais de trezentos, embora não haja dados muito fiáveis.

De qualquer maneira foi uma estrondosa vitória, onde participaram também alguns navios ingleses.

Segundo Dian Murray, a batalha terá marcado o fim dos esforços consertados entre a china e as potências ocidentais no combate ao banditismo nos mares.

Depois disso as concessões estrangeiras na China começaram a estabelecer-se e cada país encarregou-se de manter a ordem por si próprio incluindo Macau.

Resta dizer que a autora deste livro, Dian Murray, professora de história na Universidade de Notre Dame, se especializou em estudos asiáticos e tem publicado diversas obras a maior parte das quais sobre assuntos um tanto ou quanto controversos da história da China.

Dian Murray, professora de história na Universidade de Notre Dame.

Um herói Português, Henrique de Paiva Couceiro. Vasco Pulido Valente

Aqui há trinta, ou quarenta anos, havia cigarros com filtro e sem filtro.

As gerações de hoje não se lembram disso.

Mas havia!

Por isso, quando eu era rapaz me lembro de alguns velhotes dizerem uns para os outros:

Dá-me daí um paivante.

Como não sabia o que era a expressão perguntei:

O que é um paivante? E alguém me esclareceu que paivante era um cigarro com filtro.

Devo confessar que fiquei apenas parcialmente esclarecido sobre esta questão dos paivantes até Vasco Pulido Valente, me esclarecer por completo neste livro.

A obra chama-se: “Um herói Português, Henrique de Paiva Couceiro”.

E a história dos paivantes prende-se com um momento particular da história de Portugal do século XX, quando o capitão, Paiva Couceiro, foge com os seus fiéis monárquicos para a Galiza a fim de combater a república de 1910.

Quem fugia com ele era uma certa aristocracia portuguesa, mais idealista do que propriamente reaccionária.

E em minha opinião mais lírica que romântica.

Era gente habituada, não a viver bem, mas a viver muito bem, mesmo em tempo de guerra.

Por isso, já em 1911, os oficiais de Couceiro fumavam cigarros com filtro, meio século antes dos cigarros com filtro começarem a ser produzidos em massa.

Ele e os seus seguidores eram homens de outros tempos.

De um Portugal que há muitos séculos já não existia. Paiva Couceiro, ele próprio, terá existido quando muito nos tempos em que Amadis de Gaula dos tempos de D. João III  já não existia também.

Neste livro, Vasco polido Valente diz a certa altura

LEIO A PÁGINA 12 E 13 (De novo reitero que se trata da transcrição do script do excerto Guarda Livros do programa Montra do Lilau. Assim quem quiser saber o que leio terá que adquirir o livro, já que os programas da TDM não estão (infelizmente, por agora) on line na Internet)

Um Herói português, Henrique de Paiva Couceiro, 1861-1944

Um edição da Aleteia Editores publicada o ano passado.

É uma biografia assinada por um corajoso autor, que é Vasco Pulido Valente e digo que é corajoso, porque em Portugal, parece, que ao contrário do resto do mundo, fazer biografias é quase pecado.

Vasco Pulido Valente

Será que nós portugueses recusamos a nós próprios a honra de ter heróis, mesmo que reaccionários e deslocados no tempo?

Não sei, mas mesmo assim deixo a pergunta:

Por que será que é que em Portugal, as biografias se contam quase pelos dedos das mãos, enquanto na bibliografia internacional ainda hoje as biografias são quase todos os meses best-sellers?

Será que não gostamos de nos ver ao espelho?

Não sei…

O Senhor Ventura. Miguel Torga

Todos os escritores possuem livros enjeitados.

Eça de Queirós, por exemplo, enjeitou a Tragédia da Rua das Flores, que permaneceu inédito até ser dado à estampa com grande sucesso já bem dentro do século XX.

Até deu novela de sucesso e tudo na televisão.

Parece-me que os escritores e poetas são contra a eutanásia e ainda bem.

Se não fosse assim quantas pérolas da literatura e da poesia não se teriam perdido em folhas rasgadas e deitadas para o caixote do lixo sem remissão nem possibilidade de recuperação.

Vem isto a propósito de Miguel Torga.

Deste escritor e poeta conhecemos muita coisa.

“Os Bichos”, os” Diários”,” Contos da Montanha” e muitas outras obras entre prosa poesia e teatro.

Tudo isso se estuda nas escolas e nas universidades.

Mas a de que vou falar tem um nome próprio.

Tem um título sintético e talvez pouco atractivo num mercado editorial em que o título é mais do que o conteúdo.

Não é o Código de…, nem o Mistério de…, nem as extraordinárias aventuras de qualquer personagem fabulosa.

Não!

O título é este e simples: –

Para mim na bibliografia de Torga “O Senhor Ventura” é um dos seus mais conseguidos livros.

Diria que é a epopeia dos Lusíadas reduzida à expressão mais simples do canto em que Camões fala de Veloso, aventureiro e fanfarrão.

Aqui Veloso toma o nome de Ventura, sem perder romance nem epopeia, nem lirismo, nem nada.

Na obra de Torga, o Senhor Ventura é o soldado número 185 de um regimento qualquer que abandonou o Alentejo para assentar praça num quartel de Lisboa.

Na capital desenrasca-se como pode nas enrascadas em que se mete.

O suspeito de homicídio numa cena de facadas numa tasca da baixa.

Safa-se da condenação em tribunal militar por falta de provas.

O tribunal não encontrou indícios suficientes para o condenar mas mesmo assim achou por bem manda-lo para Macau em comissão de serviço para se ver livre de um indesejável.

Há aqui no apelido Ventura muito da história de Portugal desde os descobrimentos à emigração.

Claro que não vou contar o resto da história senão perderia a graça, mas pergunto-me?

Por que é que Torga decidiu meter na gaveta esta novela durante tantos anos?

Torga, diz que o escreveu nos arroubos da juventude e preferiu esquece-lo

LEIO O PREFÁCIO (lido no programa  “Montra do Lilau” da TDM)

Só em 1985 Torga retirou da gaveta “O Senhor Ventura”, ressuscitou-o, corrigiu-o nalguns pontos e republicou-o.

Para mim de tudo o que Torga escreveu “O Senhor Ventura” é o que de melhor se lê.

Nesta novela há um bocadinho das biografias de Camões e de Bocage, mas essencialmente há uma novela minhota transportada para o Oriente de Camilo.

O Livro é uma edição bilingue de 1989 do Instituto Cultural de Macau.

A tradução para chinês é de Cui Wei Xiao

In The ruins of Empire

Os anos da segunda Grande Guerra Mundial que durou de 1939 a 45 ainda hoje estão presentes na memória colectiva.

Isto, bem como os anos da Guerra do Pacífico, que durou mais um ano e terminou já em 1946.

Ainda há gente aqui em Macau que recorda os bombardeamentos contra o Território feitos pelos aviões da esquadra americana.

Muitos se lembram também dos refugiados que por aqui passaram, mais do que duplicando a população durante vários anos.

Há muitas histórias que ficaram na memória sobre esse período.

Mas alguém se lembrará da forma como a cidade se restabeleceu da crise e regressou à normalidade anterior à guerra?

Esse período imediatamente após o fim do conflito continua em grande parte desconhecido.

Tanto em Macau como em vários outros países do Extremo Oriente e do Sudeste Asiático.

Por que é que surgiram, mas essencialmente como é que surgiram, as independências da Coreia da Malásia, da Indonésia, do Vietname, ou da Birmânia?

O que levou as potências coloniais como a França, a Holanda e a Inglaterra a aceitarem a emergência desses novos países?

A história da descolonização da Ásia é complicada e terá custado mais, ou pelo menos tanto sangue, quanto custaram os seis anos da Guerra do Pacífico.

Isto é o que nos diz Ronald Spector, neste livro.

Chama-se “In The Ruins of  Empire, The Japanese Surrender and the Battle for Postwar Asia”.

O livro aborda a confusão da época que se seguiu ao cessar de hostilidades, a emergência dos movimentos de libertação, fazendo luz sobre alguns protagonistas da época.

Assim fica a conhecer-se melhor Sukarno da Indonésia, por exemplo, que fez a independência do seu país aliado aos japoneses e com o seu apoio, mesmo depois da rendição do Japão.

Igualmente se fica a conhecer melhor a figura de Ho Chi Min e as razões porque o Vietname permaneceu dividido durante décadas.

Fica-se a saber também as razões que levaram à divisão da Coreia em dois países que o paralelo 38 ainda hoje divide.

No que respeita à Malásia fica a conhecer-se o papel da China no restabelecimento da ordem, alegadamente posta em causa pelas guerrilhas oriundas da numerosa comunidade chinesa que naquele país vivia e constituía uma minoria avassaladora.

Enfim, em minha opinião esta obra, talvez um tanto ou quanto abrangente de mais para explicar com detalhe várias situações vale pela luz que derrama sobre a situação geopolítica dos dias de hoje aqui no Extremo Oriente.

O autor é, como disse, Ronald Spector, professor de história e relações internacionais na Universidade George Washington.

Spector, foi também um distinto professor de estratégia na Escola de Guerra de Washington.

Neste livro fica o ponto de vista de um académico que conhece o terreno já que serviu nos marines durante a guerra do Vietname.

“In The ruins of Empire” é uma publicação deste ano da editora americana Random House.