Num momento em que Macau se posta como pólo de ligação entre a China e os países lusófonos, parece-me importante salientar que esse posicionamento não é de agora nem resulta estritamente de uma posição política “tout court” determinada por conjunturas económicas circunstanciais.
De facto, há raízes históricas e sociais mais profundas que a determinam.
O excerto do texto que reproduzo a seguir, da autoria de Eduardo Medeiros, intitulado: Os sino-moçambicanos da Beira. Mestiçagens Várias, é só uma faceta, mas, quanto a mim, muito esclarecedora.
Eduardo Medeiro, é Professor Auxiliar, do Departamento de Sociologia e investigador no Núcleo de Estudos sobre África (NESA), do Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades (CIDEHUS), da Universidade de Évora.
Actualmente centra as suas investigações em Identidades, etnias e etnicidades. A Comunidade Chinesa de Moçambique e suas diásporas, 1858-1975.
Etnias e etnicidades em Moçambique: da sua construção e do seu uso.
O islamismo negro em Moçambique: história da formação das comunidades islâmicas negra e questões identitárias.
A formação das comunidades sino-moçambicanas e o sentido dos números
Data de 18 de Fevereiro de 1858 a chegada à Ilha de Moçambique – na altura capital
das possessões portuguesas da África Oriental4-, o primeiro grupo de 30 chineses da
época moderna contratado pelo Governador-geral João Tavares d’Almeida5. Eram
homens de diversos ofícios, sendo 8 carpinteiros, 12 pedreiros, 4 ferreiros, 4 cobreiros,
e 2 picadores de pedra que o governo da Metrópole «desejoso de promover o
melhoramento e progresso desta importante possessão mandou engajar em Macau, para
introduzir [na Ilha] trabalhadores laboriosos, e sóbrios, que poderão com o seu exemplo,
e com o seu trabalho utilmente aproveitado servir de grande vantagem a esta
Província»6. Na verdade, desta iniciativa do governador nada resultou de concreto. Ela
inscreveu-se por mimetismo no dinâmico contexto do engajamento de «coolies» pela
Inglaterra e pela França para as Ilhas do Oceano Índico ocidental7. O governador
português pretenderia certamente conservar e melhorar a sua cidade, mas o que estava
na ordem do dia no seu tempo era, nos portos do norte de Moçambique, o tráfico
4 Foi em 1898 que o Governador-Geral de Moçambique, o capitão-de-fragata Álvaro António da Costa Ferreira, resolveu transferir
da Ilha de Moçambique para Lourenço Marques a sede do governo da Província, a título provisório, o que veio a tornar-se definitivo
três anos depois. Foi um Decreto com força de Lei, de 23 de Maio de 1907, que oficializou Lourenço Marques como capital,
Suplemento ao Boletim Oficial, n.º 26, 1/Julho/1907.
5 Antes desta época houve a vinda de alguns chineses, chinesas e mestiços chineses para Moçambique que deram origem a filhos
mestiços, como o famoso Nicolau Pascoal da Cruz, militar sino-tailandês ou luso-siamês, do Massangana (1767), na Zambézia, e
seus célebres descendentes António José da Cruz, Joaquim José da Cruz (o Nhaude = teia de aranha, terror), e António Vicente da
Cruz (o Bonga = gato bravo). Mas esses poucos chineses e mestiços chineses nunca deram origem a comunidades sinomoçambicanas.
6 Boletim Oficial do Governo-geral da Província de Moçambique, n.º 9, Sábado, 27 de Fevereiro de 1958, Parte Oficial – grafia
actualizada pelo autor, E.M.
7 Foi em 1829 que colonos britânicos importaram a título de experiência para as plantações de cana-de-açúcar da Ilha Maurícia
quarenta trabalhadores chineses. Seguiram-se outros para as plantações de cana-de-açúcar na África do Sul e demais territórios
coloniais sob domínio britânico e francês. A partir dos anos 60 do século XIX, milhares de «coolies» indianos foram recrutados para
as plantações de cana-de-açúcar na província do Natal, na África do Sul. No seguimento destes chegaram «coolies» e imigrantes
livres chineses. A imigração livre esteve relacionada com toda a problemática e política do sudeste asiático.
clandestino de escravos e a venda dos “libres engajados” (libres engagés) para essas
mesmas Ilhas do Índico8.
Sabemos pouco do destino que tiveram esses 30 homens. Se fizermos fé na memória
local, pelo menos alguns deles terão permanecido na Ilha e outros foram para as Terras
Firmes do Continente, em particular na Cabaceira Grande, “onde de dedicaram à
horticultura e mais tarde à colecta e exportação de holotúrias9 (macajojos, na
terminologia local). Os poucos que ficaram pela Ilha também se terão dedicado à
horticultura numa zona que ainda hoje se chama Rua das Hortas, e onde há uma casa de
tipo colonial que se diz ter sido um Templo Chinês”10. Filhos destes homens com
mulheres africanas da região, que os houve certamente, foram “absorvidos” pela
dinâmica linhageira matrilinear, não constando que tenham renovado o grupo asiático
originário dos seus pais.
Foi a partir de 1881 – já num contexto de implantação do capitalismo imperial – que a
procura de «coolies» chineses se tornou consistente na colónia. A construção das duas
principais cidades, Beira e Lourenço Marques, os respectivos portos e caminhos de
ferro, as açucareiras do Baixo Zambeze (Sena Sugar States) e do vale do rio Búzi
(Companhia do Búzi)11 e outros empreendimentos coloniais modernos careciam de
artesãos mais ou menos hábeis e a baixo preço que a mão-de-obra especializada
proveniente da Europa não satisfazia pelo seu elevado custo12. Por isso, a 20 de Agosto
deste ano, o governador-geral, visconde de Paço d’Arcos, enviou um ofício ao
governador de Macau, J. A.A Carlos Real, que foi recebido na secretaria daquele
governo a 17 de Novembro13, para solicitar contratados chineses para Moçambique. O
visconde argumentava que os negros de Moçambique não estavam aptos para o trabalho
e, por isso, pretendia recorrer aos chineses, pois conhecia a sua índole trabalhadora e
activa, e engenho para a indústria, agricultura e artes, e sabia também da contratação de
“coolies” por diferentes colónias14. O governador-geral explicitava que pretendia
“carpinteiros (de barco e de machado) ou marceneiros; alguns pedreiros, canteiros,
estucadores ou outros que possam ser utilizados nas obras públicas; carregadores para as
companhias braçais das alfândegas (homens habituados ao serviço de embalagem e de
armazenagem); homens para serviço de polícia, como os que havia em Macau, com
boas notas e habituados no manejo das armas. O pagamento seria feito em Moçambique
pela Direcção das Obras Públicas, de acordo com o merecimento de cada um e a
natureza do seu trabalho. De acordo com o que já se praticava com trabalhadores
indianos havia o pagamento de 800 réis diários (mínimo) e 1.500 réis (máximo).
Podiam vir com família”15. Veremos ao longo deste texto que Moçambique nunca
chegou a ser propriamente uma terra de contratados chineses em larga escala, mas na
leva dos «coolies» vieram imigrantes livres. Veremos também que apesar da permissão
8 Vide textos de Edward A. Alpers, Ivory & Slaves in East central Africa . Londres, Heinemann, 1975; Recollecting Africa:
Diasporic memory in the Indian Ocean world. Paper presented at the conference “African Diaspora Studies on the Eve of the 21st
Century. Department of African American Studies. University of California, Berkeley. April 30 – May 2, 1998; José Capela, (de
Col.) O tráfico de escravos de Moçambique para as Ilhas do Índico, 1720-1902, Maputo, 1982; O escravismo colonial em
Moçambique, Afrontamento, 1993; O tráfico de escravos nos portos de Moçambique, Afrontamento, 2002, e Eduardo Medeiros, As
etapas da escravatura no norte de Moçambique, Maputo, 1988.
9 Género de equinodermos de tegumento coriáceo e cilíndrico (Cândido de Oliveira)
10 Padre António Lopes: «Carta aberta aos Amigos da Ilha», jornal Notícias, 9 de Outubro de 1982.
11 Há referências bastantes sobre os pequenos núcleos de sino-asiáticos de Marromeu e de Nova Lusitânia, ambos fazendo parte da
comunidade beirense.
12 Eduardo Costa, O território de Manica e Sofala e a administração da Companhia de Moçambique, 1892-1900. Lisboa, Typ. da
Comp. Nacional Editora, 1902.
13 A.H.U., D.G.U. – Moçambique, 1ª Rep., Pasta 3, Cap. 2, 20.08.1881
14 Carlos Eugénio Correia da Silva, visconde de Paço d’Arcos, fora ministro plenipotenciário nas cortes da China, Japão e Sião, e
governador de Macau.
15 Idem A.H.U., D.G.U. – Moçambique, 1ª Rep., Pasta 3, Cap. 2, 20.08.1881
para a vinda dos familiares dos contratados, essa vinda não se concretizou de modo
consistentes durante os três primeiros decénios da imigração. Só a partir dos anos trinta
do século XX é que as mulheres chinesas, esposas ou simplesmente familiares,
começaram a demandar Moçambique em número significativo16.
O pedido do governador teve resposta satisfatória, pois, seis anos volvidos, em 1887,
chegaram à região de Lourenço Marques os primeiros operários vindos de Cantão para
a construção do Caminho-de-ferro de Lourenço Marques para a África do Sul,
empreendimento que se realizou entre 1887 e 188917, e para o território de Manica e
Sofala, mais a norte, sob administração da Companhia de Moçambique, também foram
contratados «coolies» chineses para a construção do Porto e do Caminho-de-ferro para
a Rodésia Beira-Umtali, 1892-189818. Tanto nestas como noutras tarefas “vieram a
demonstrar vastos conhecimentos e muita perfeição, o que tornava impossível a
concorrência de operários europeus”, lastimava Eduardo Costa19. Os que ficaram pela
povoação depois das obras nos portos e caminhos-de-ferro deram valiosa contribuição
para o crescimento dos dois burgos, ajudando na construção dos edifícios públicos e
das casas de particulares.
Todavia, ainda não foram encontrados documentos com referências precisas sobre os
primeiros contingentes de «coolies» que chegaram a Lourenço Marques e à Beira,
como foi para o caso de 1858 no que respeita à Ilha de Moçambique. As estatísticas
demográficas conhecidas do último quartel do século XIX até 1928 vão referindo
pequenos grupos de trabalhadores chineses contratados e imigrantes que se lhes foram
juntando; os registos dos períodos coloniais seguintes mostram como a população
chinesa foi crescendo até à data da Independência. Referem também o nascimento de
filhos desses imigrantes na Colónia. No final do século passado, em 1899, os números
oficiais apontam para 69 indivíduos do sexo masculino e 2 do sexo feminino nos
territórios da Companhia de Moçambique, 52 em Lourenço Marques e no Sul do Save,
e mais alguns no norte da Colónia. No início dos anos 70 do século XX residiam 1370
indivíduos chineses (702 H e 668 M) nos distritos de Manica e Sofala, dos quais 1019
(518 H e 501 M) tinham a nacionalidade portuguesa, 2744 no restante território. Num
estudo que fizemos sobre a evolução demográfica dos chineses em Moçambique20
mostrámos que estes números não eram fiáveis, e isto porque nunca registavam os
clandestinos a cargo das Tríades21, e, mais importante do que isto, porque não
registavam como a própria comunidade o fazia, muitos dos filhos varões mestiços que
desde o começo da imigração foram nascendo.
16 Em meados de 1898 foi registada a primeira mulher chinesa em Manica e Sofala entre 104 homens; em 1928, dos 475 chineses,
64 eram mulheres; em 1935, foram registados 391 homens e 80 mulheres; em 1940: 536 homens e 200 mulheres, em 1950: 479
homens e 281 mulheres, e em 1970: 702 homens e 668 mulheres sino -asiáticas.
17 Há também uma vaga referência a trabalhadores chineses na construção da linha de caminho de ferro que ligou Lourenço
Marques a Komatipoort publicada em A Colónia Portuguesa de Moçambique. Lourenço Marques: Imprensa Nacional, 1929, p.24,
todavia não foram ainda encontradas provas documentais.
18 A linha-férrea Beira-Umtali começou a ser construída em 1892 num ponto situado a 40 milhas da foz do rio Pungué, num local
que passou a ser chamado Fontesvilla, e onde os chineses da linha começaram a abrir as suas primeiras «machambas». O transporte
entre o porto e essa estação ferroviária era feito por lanchas de pequeno calado. Os troços Beira-Fontesvila e Chimoio-Umtali foram
feitos mais tarde quando a fama de ouro em Manica correu mundo. A linha de via larga de Umtali a Salisbury ficou concluída em
Maio de 1899.
19 Eduardo Costa, O território de Manica e Sofala e a administração da Companhia de Moçambique, 1892-1900. Lisboa, Typ. da
Comp. Nacional Editora, 1902.
20 Eduardo Medeiros, Evolução Demográfica das Comunidades Chinesas em Moçambique, 1858-1975. Não publicado.
21 Sobre a transformação das Confrarias políticas em Tríadas e sua caracterização na História do Século XX, ler Martin Booth, As
Tríades – As Irmandades Criminosas Chinesas (1990). Lisboa, tradução portuguesa de Silva Horta para as Publicações Europa –
América, 1992. João Guedes, As Seitas – Histórias do Crime e da Política em Macau. Livros do Oriente, 1991.
Mesmo assim, os dados estatísticos mostram que desde o último decénio do século XIX
até aos anos sessenta do século passado, a população imigrante chinesa foi-se instalando
em vários pontos da colónia e diversificando as suas actividades ocupacionais. Os
artesãos mais ou menos especializados da primeira vaga transformavam-se em
horticultores na periferia22 das cidades da Beira e de Lourenço Marques quando não
tinham trabalho nas obras ou quando chegaram familiares e não tinham emprego;
dedicaram-se alguns à pesca e à colecta de holotúrias no Inhassoro e Mambone, na
região centro-sul da colónia, entre o rio Búzi e o rio Save, e no norte, em Mocímboa,
Ibo e outras praias do litoral do oceano Índico. Anos volvidos transformaram-se quase
todos e suas famílias em «cantineiros» para o comércio com a população negra. Por fim,
a partir dos anos 30, surgiram comerciantes na cidade de cimento dos colonos, e mais
tarde, nos anos 50 e 60, alguns abriram fabriquetas de confecções e de outras indústrias,
e os jovens saídos das escolas portuguesas passaram a trabalhar nas instituições públicas
e privadas.
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