Arthur C. Clarke

Arthur C. Clarke.

Os grandes críticos pouco tempo perderam a criticar os seus livros.

Na literatura, a ficção científica sempre foi considerada de cordel semelhante à literatura policial.

São historietas que se lêem nos aviões, nas salas de espera dos médicos, enfim em lugares em que é preciso passar o tempo.

Mas facto é que a literatura policial deixou nomes que ninguém esquece.

Ágata Crhistie, Raymond Chandler, ou o universalmente conhecido Arthur Conon Doyle criador de Sherlock Holms.

Na ficção científica existem também nomes semelhantes, olhados pelos intelectuais como autores menores.

Izak Asimov, Douglas Hill, Ballard, Philip K. Dick, Robert A. Heinlei, Ray Bradbury, ou os mais recentes, e menos conhecidos Samuel Delany e Greg Bear.

Tenho aqui vário autores deste género.

Todos eles nos deixaram uma leitura empolgante passada nos mais diversos universos e tempos e mundos paralelos e fantasias assim.

Não quero discutir diferenças em termos de literatura entre autores policiais e de ficção científica e muito menos criticar diferenças com romancistas e novelistas de ontem e de hoje.

Muito menos entre romancistas consagrados.

Seria possível comparar A. E Van Voght com Dostoyevsky, ou Isak Assimov com Tolstoi?

Claro que não. São coisas diferentes, mas no fundo, no fundo a essência da literatura é a mesma.

Vem tudo isto a propósito da morte recente de Arthur Charles Clarke, mais conhecido como Arthur C. Clarke, nascido em Minehead, Somerset, a 16 de Dezembro de 1917.

Foi um escritor e inventor britânico, autor de obras de divulgação científica e de ficção científica como o conto The Sentinel, que deu origem ao filme 2001: Uma Odisseia no Espaço e o premiado Encontro com Rama.

Desde pequeno mostrou fascínio pela astronomia, a ponto de, utilizar um telescópio caseiro, para desenhar um mapa da Lua.

Durante a Segunda Guerra Mundial, serviu na Força Aérea britânica como especialista em radares, envolvendo-se no desenvolvimento de um sistema de defesa por radar, sendo uma peça importante no êxito na batalha de Inglaterra.

Depois, estudou Física e Matemática no King’s College de Londres.

Talvez a sua contribuição de maior importância seja o conceito dos satélites geostacionários como ferramenta para desenvolver as telecomunicações.

Clarke propôs essa ideia num artigo científico intitulado “Can Rocket Stations Give Worldwide Radio Coverage?”, publicado na revista Wireless World em Outubro de 1945.

A ideia teve aceitação e aqui temos nós os telefones móveis

A órbita geostacionária também é conhecida, desde então, como órbita Clarke.

Em 1956 mudou a sua residência para Colombo, no Srilanka, em parte devido a seu interesse pela fotografia e exploração submarina, onde permaneceu até à sua morte o mês passado.

Teve dois de seus romances levados ao cinema, 2001: Uma Odisseia no Espaço, dirigido por Stanley Kubrick em 1968) e 2010, O Ano do Contacto dirigido por Peter Hyams, o primeiro considerado um ícone tão importante da ficção científica mundial que especialistas lhe atribuem forte influência sobre a maioria dos filmes do género que lhe sucederam.

Arthur C. Clarke, formulou três leis que tratam da relação entre o homem e a Tecnologia, e são elas:

  1. Quando um cientista distinto e experiente de mais idade diz que algo é possível, está provavelmente certo. Quando ele diz que algo é impossível, está muito provavelmente errado.
  2. O único caminho para desvendar os limites do possível é aventurar-se além dele, através do impossível.
  3. Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.

Inicialmente, era só uma lei, conhecida como a Lei de Clarke, proposta no ensaio, Perigo da Profecia: A Falha da Imaginação, do livro Perfis do Futuro: Um Inquérito dentro dos Limites do Possível, de 1962. Essa primeira lei vinha acompanhada de uma definição sobre o que seria a idade avançada:

“Em física, matemática e astronáutica, significa acima dos trinta anos. Em outras disciplinas, a decadência senil é por vezes adiada até os quarenta anos. Claro que existem gloriosas excepções; mas, como qualquer pesquisador recém-saído da faculdade sabe, cientistas acima dos cinquenta só servem para reuniões de conselho de administração e devem ser mantidos fora do laboratório a qualquer custo.”

A última proposta de Clarke é a de um elevador propulsionado por cabo, capaz de substituir com muito menos custos os dispendiosos foguetões que actualmente se utilizam.

Toda a gente se ri dessa proposta.

Mas C. Clarke responde que o elevador espacial será construído 50 anos depois de todos se deixarem de rir da ideia.

Tenho aqui comigo dois livros da uma imensa biografia.

Este chama-se Expedição à Terra.

É uma das suas menos conhecidas obras.

Este chama-se. – Rendez-vous com Rama e é um dos seu mais aclamados livros e também um dos últimos que escreveu.

Ganhou inúmeros prémios.

Arthur C. Clarke não era definitivamente um escritor de cordel.

Goste-se, ou não de ficção científica Clarke, tal como Izak Asimov vai ficar tal como Júlio Verne na história do futuro.

Volto para a semana com mais livros, autores e imaginação.

Charles Boxer, an Uncommon Life

Nós portugueses sempre nos orgulhamos muito do nosso império marítimo.

Nomes sonantes da historiografia portuguesa descreveram os nossos feitos através do mares fazendo ressaltar nomes como Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque, Diogo Cão e sei lá quantos mais que retemos na memória.

No entanto em toda a bibliografia historiográfica portuguesa há uma espécie de mistério.

De facto os grandes historiadores esmiuçaram os pormenores biográficos de todos os navegadores que citei.

Mas uma cortina de ferro parece ter sido erguida relativamente aos que se aventuraram para Oriente de Malaca, considerada por Afonso de Albuquerque como a fronteira mais oriental do império marítimo português para lá da qual não parecia avisado avançar.

Por isso os que se aventuraram para além da Porta de S. Pedro de Malaca ficaram esquecidos.

Diogo Cão, por exemplo, toda a gente sabe quem tenha sido, agora Jorge Álvares, já há menos quem saiba a não ser quem vive em Macau e passa mais ou menos diariamente pela praça que tem o seu nome em frente ao edifício do antigo tribunal que a breve trecho se vai transformar na nova Biblioteca Central.

Os grandes historiadores portugueses não se debruçaram sobre a sua figura, não se sabendo mesmo ao certo em que data Jorge Álvares chegou à China.

Só começamos a saber alguma coisa sobre os que se aventuraram a Oriente de Malaca graças a um historiador inglês.

Chamava-se Charles Boxer

Descendente de militares, Charles Boxer foi educado no Wellington College e no Royal Military College, em Sandhurst.

Tenente no Regimento do Lincolnshire em 1923, serviu naquele regimento durante 24 anos, até 1947.

Serviu na Irlanda do Norte e, de 1930 a 1933, como tradutor no Japão adido ao Regimento de Infantaria com base em Narra.

Em 1933, formou-se como intérprete oficial da língua japonesa.

Transferido para Hong Kong em 1936, serviu como oficial nas tropas britânicas nos serviços de inteligência.

Ferido em combate durante o ataque japonês a Hong Kong em 8 de Dezembro de 1941, foi feito prisioneiro de guerra e mantido no cativeiro até 1945.

Solto, voltou ao Japão como membro da Comissão Britânica no Extremo Oriente em 1946-1947.

Major Charles Ralph Boxer

Durante sua carreira militar, publicou cerca de 86 livros e opúsculos sobre a história da presença ocidental no Extremo Oriente, sobretudo a portuguesa, nos séculos XVI e XVII.

Como major no Exército, aposentou-se em 1947, quando o Kings College, em Londres, lhe ofereceu regência da Cadeira de Camões de Português, cargo que deteve por vinte anos até 1967.

Em tal período, a Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres nomeou-o seu primeiro Professor de História do Extremo Oriente.

Aposentando-se em 1967 da Universidade de Londres, Boxer aceitou a cadeira de professor visitante na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos da

De 1969 a 1972, teve uma cadeira de história da Expansão Europeia no Ultramar na Universidade de Yale.

Doutorado honoris causa por diversas universidades, desde Lisboa a Utrech, passando pela universidade brasileira da Baía e também pela universidade de Hong Kong, também não lhe faltaram condecorações nomeadamente as de Santiago da Espada  e a Grã-Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique de Portugal.

Esta é a biografia mais exaustiva que jamais sobre ele foi feita.

O autor desta biografia de Charles Boxer chama-se Dauril Alden.

Contemporâneo do historiador foi seu amigo durante mais de 30 anos e dedicou quatro anos da sua vida a vasculhar a biografia de Boxer.

“Charles Boxer, an Uncommon Life” foi o que resultou do estudo, dado à estampa precisamente em 2001 pela Fundação Oriente.

Um livro cheio de fôlego que embate com a vida dos nossos dias em que temos que saber tudo em resumos de poucas linhas.

Esta obra tem seiscentas e quinze páginas, mas vale a pena, nem que seja para ler aos bocadinhos quando houver disposição.

Tem todos os condimentos de uma vida de aventura variada como a de James Bond de Yan Fleming. É que Boxer também foi espião ao serviço de Sua Majestade.

Sword Song

Bernard Cornwell é um dos mais importantes escritores britânicos da actualidade.

Já publicou mais de 40 livros e teve obras traduzidas em mais de 16 línguas.

Incapaz de escrever um romance simples, Cornwell prima pelas sagas de  cativante subtileza narrativa e autenticidade histórica.

O autor é um apaixonado pela história em geral e da Inglaterra em especial, o que se reflecte em romances que retratam conflitos ocorridos em território inglês, como na série A Busca do Graal, situada durante o período de  lutas entre Inglaterra e França conhecido como Guerra dos Cem Anos, ou ainda em crónicas como as do Rei Artur, onde Cornwell, com sólida base histórica, dá uma versão muito pessoal deste rei semi-lendário associado para sempre à Távola Redonda.

Bernard Cornwell nasceu em Londres em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial.

Seu pai era um aviador canadiano e a mãe trabalhava como auxiliar da Força Aérea Britânica.

Cornwell foi adoptado posteriormente por uma família em Essex, na Inglaterra, que pertencia à seita religiosa chamada Peculiar People (Pessoas Peculiares, e, segundo o escritor, eram mesmo).

Por isso fugiu, literalmente para a Universidade de Londres e, depois de ter sido aí professor, por pouco tempo foi para a rede de televisão BBC, onde trabalhou durante 10 anos.

Começou como um pesquisador no programa Nationwide e terminou como Chefe do departamento de Actualidade da BBC, na Irlanda do Norte.

Foi enquanto trabalhava lá em Belfast que conheceu Judy, uma americana que estava de visita ao país, e por quem se apaixonou.

Judy não podia mudar-se para a Inglaterra por questões familiares, e Bernard decidiu então ir para os Estados Unidos onde lhe foi recusado autorização de trabalho.

Decidiu então ganhar a vida como escritor, ofício que não necessitava de permissão do governo americano.

Bernard e Judy  casaram em 1980, permanecem casados e vivem nos Estados Unidos.

O autor tem os seus livros publicados, um pouco por todo o mundo.

A sua série mais extensa, As Aventuras de Sharp, é formada por mais de 20 livros e foi adaptada para a televisão na Inglaterra, com histórias protagonizadas pelo aclamado actor inglês Sean Bean.

Actualmente estão em fase de tradução para português as obras sobre Sharp e as Crónicas Saxonicas, cujos primeiros 3 livros já foram publicados

O Último Reino, O Cavaleiro da Morte, e Os Senhores do Norte.

O último é este.

Chama-se Sword Song.

Gostava ainda de salientar agora que passam os duzentos anos sobre as invasões francesas de Portugal, que a série Sharp de Bernard Cornwell se desenrola precisamente durante o período napoleónico.

Vários dos episódios têm lugar em Portugal.

Se quiser saber o que se passou por exemplo nas batalhas do Bussaco, da Roliça, ou na Ponte de Amarante e não tiver pachorra para ler compêndios de história, lei as aventuras de Sharp de Bernard Cornwell.

A Independência de Portugal, Guerra e Restauração 1640-1680

Hoje vou-lhe falar de uma obra, que é recente, é importante e traz revelações tão novas quanto antigo é o tema que o autor escolheu.

A par de grandes patriotas vemos gente venal neste livro.

Vemos traidores e também incompreendidos.

Vemos que o libertador de Angola, Salvador Correia de Sá, (sim aquele patriota que nos ensinavam na escola) afinal era espanhol!

Mas neste livro lemos e vemos mais!

Vemos um novo retracto, ou talvez apenas um esboço do Padre António Vieira, numa outra perspectiva a que não estávamos habituados nos livros da escola.

Um Padre Vieira que vai ao reino de Nápoles para convencer os napolitanos a rebelarem-se contra Filipe IV de Espanha (III de Portugal).

Em Nápoles o Padre Jesuíta, propõe ao plenipotenciário espanhol a independência Napolitana (não esquecer que Nápoles, embora fosse em Itália era uma província de Espanha).

Em troca oferecia a reunificação da península Ibérica sob o reinado da Casa de Bragança, ou seja o rei de Espanha seria o nosso D. João IV.

Claro que o embaixador Castelhano se recusou a ouvir formalmente as razões de Vieira dizendo-lhe, oficiosamente que não estava bem da cabeça.

Entretanto a Inglaterra, até então neutral e periférica, iniciava a caminhada emergente para o futuro e metia-se também na política europeia, logo que aprontou navios suficientes para rodear os mares da Europa e em breve acabaria com a política hegemónica dos Habsburgos que até então ainda pensavam que dominavam o mundo, mesmo depois de terem perdido a armada invencível constituída por navios portugueses e espanhóis.

A Inglaterra ascendeu a partir de então como primeira potência mundial beneficiando das guerras entre Castelhanos, Flamengos, franceses, italianos e alemães.

No meio deste complicado xadrez internacional Portugal restaurado em 1640, sem dinheiro, sem exército e quase sem gente continuou a viver na Península Ibérica e no Ultramar, das Américas às índias orientais.

Graças à asa protectora dos ingleses? Acredito que sim.

Tudo isto é o que diz Rafael Valladares neste livro que li com o maior dos interesses.

E com o maior dos interesses porquê? Devo dizer que apenas pela novidade de ser escrito por um espanhol.

É que desde que me lembro li sempre a versão portuguesa da nacionalidade; ele era Frei Bernardo de Brito, João de Barros, Alexandre Herculano, Manuel de Arriaga e eu sei lá quantos nomes que compunham as selectas literárias da nossa juventude.

Para Valladares a independência de Portugal ocorreu porque os Habsburgo tinham uma Europa inteira para cuidar, uma Europa em rebelião e Portugal era pequenino (esqueceram-se que a “pérfida Albion” estava empenhada nesse cantinho europeu.

Nesse contexto Portugal era de facto uma questão menor, por isso foi negligenciada por Filipe que não cuidava de unir a Península Ibérica, mas o continente inteiro.

Nesse contexto havia então, segundo Valladares, uma negligência apátrida.

O autor evita tratar o assunto como um negócio de família, embora aborde essa questão particular com desassombro e sem a subalternizar face à geopolítica mundial do tempo.

No entanto, não sei bem se foi assim, ou não.

É que para além das traições políticas, dos negócios sem pátria nem lealdades, e das conjunturas militares desses tempos, Portugal já possuía então uma história de meio milénio.

E Valladares erudito atento, consciencioso e baseado nos documentos que consultou por meia Europa, desde Lisboa a Madrid passando pelo Vaticano parece ter esquecido uma verdade simples que é esta: Quando uma fractura acontece não se restabelece inteiramente, ou não se regenera de todo. Nem com solda da mais dura.

Valladares, neste livro tem razão em tudo, ou quase tudo, mas peca apenas por ter descurado o facto de Portugal já existir antes dos Braganças, dos Filipes de Áustria, dos Ingleses e do Cardeal Mazarino que dizem ter tido parte importante nas intrigas que deram origem à restauração de Portugal de 1640.

Apesar das minhas discordâncias digo-lhe que é um livro que vale, mas vale mesmo a pena ler.

E nem é preciso gostar de história. Este livro lê-se como uma novela.

Há!… e devo dizer-lhe que não esperava encontrar numa obra dedicada à independência de Portugal, com referências a Macau.

Não é que Logo a seguir à revolta do primeiro de Dezembro de 1640, Macau propôs arvorar a bandeira dos Filipes se Madrid abrisse formalmente Manila ao comércio do porto de Macau.

Madrid disse também que não e Macau respondeu mantendo na fortaleza do Monte hasteada a bandeira branca das quinas dos Bragança.

Como seria curiosa a história se Filipe IV tivesse dito que sim.

Se calhar a China não aceitaria e talvez a história do Mundo, no Extremo Oriente tivesse enveredado por um caminho completamente diferente.

O livro chama-se, “A Independência de Portugal, Guerra e Restauração 1640-1680”.

É uma edição da Esfera dos Livros e o autor é como lhe disse Rafael Valadares.

À Boleia pela Galáxia

À Boleia pela Galáxia é o título em português de “The Hitchhiker’s  Guide to the Galaxy”.

Para quem gosta de ficção científica este livro mais do que vale a pena.

É, como disse quando me referi a Artur C. Clarck, verdadeira literatura.

Devo confessar que só li a versão original em inglês que tenho aqui.

A colecção Argonauta, que o saudoso tradutor Eurico da Fonseca tão bem conseguiu verter para português na maioria dos seus livros deve ter também colaborado na tradução deste.

Não consegui averiguar.

Um livro sobre o qual Filipe D’Avillez diz o seguinte e cito: –

“O humor de Adams é brilhante e surpreende-nos constantemente.

Esta mistura de ficção científica com o nonsense tornado famoso pelos Monty Python (com quem Adams conviveu) resulta numa leitura divertida e frenética.

O forte da obra é, sem dúvida, e é bom ver que este não sai prejudicado pela tradução”.

Se a tradução for tão boa como as que Eurico da Fonseca fazia na colecção Argonauta estamos conversados.

É boa.

O livro é interessante.

Diria apaixonante para quem se deleita com o humor nas suas diversas vertentes quer goste de ficção científica ou não.

Faço um pequeno resumo.

Segundos antes da Terra ser destruída para dar lugar a uma auto-estrada intergaláctica, o jovem Arthur Dente é salvo pelo seu amigo Ford Prefect, um alienígena disfarçado de actor desempregado.

Juntos, viajam pelo espaço na companhia do presidente da galáxia um ex-hippie, com 2 cabeças e 3 braços, Marvin, robot paranóico com depressão aguda, e Veet Voojagig, antigo estudante obcecado com todas as canetas que comprou ao longo dos anos.

Onde estão essas canetas? Porque nascemos? Porque morremos? Porque passamos tanto tempo entre as duas coisas a usar relógios digitais?

Se quer obter estas respostas, estique o polegar e apanhe uma boleia pela galáxia.

Isto são perguntas que nunca nos fazemos a nós próprios pelo menos alguma vez na vida, seriamente, digo eu.

Porque coleccionamos coisas?

Porque nos apegamos a isto ou aquilo?

Porque estamos aqui?

Porque nos apaixonamos?

Vale a pena ser o que somos, ou melhor será ser e não perguntar nada?

The “Hitchikers Guide to the Galaxy” é o manual que responde a todas as nossas perguntas espontâneas, ou disparatadas, ou filosóficas, ou apenas pedantes, ou liminarmente tolas.

Vale a pena ler.

E depois leia também esta sequela que se chama: – “So Long and Thanks for all the Fish”.

É o regresso à Terra de Arthur Dent.

O encolher de uma galáxia inteira na pequenina casa que reencontra na sua vilória de província na Inglaterra rural, que afinal acabou por ser restituída à sua originalidade pelos poderes galácticos que conseguiram sobrepor-se ao todo o mando dos tractores dos patos bravos da construção civil.

Podia ser numa qualquer casa de xisto, ou de granito de uma serrania da Beira ou de um monte alentejano.

Ou se calhar em Coloane, onde os poderes galácticos teimam em destruir aos pouquinhos a floresta e aniquilar os esquilos que acham que são os verdadeiros donos dessa pequeníssima selva natural a atentar pela forma como fazem equilibrismo nos cabos da companhia de electricidade e roem as nozes do arvoredo público sem pedir licença nem à CEM nem à edilidade.

Creio que um dos meus vizinhos de Coloane se chama Arthur.

Será também Dent?

Se é o caso esperemos que Ford Prefect esteja por perto para procurar a entrada adequada na enciclopédia electrónica a fim de resolver a situação dos baldios.

Se não estiver sabemos que há sempre a entrada salvadora que diz assim:

– Don’t Panic (não entre em pânico) e a situação se resolverá.

A verde Coloane voltará a restabelecer-se porque os procedimentos administrativos do Universo acabam sempre por repor a legalidade

Leia o livro.

Veja o filme.

E vai verificar que o futuro pode ser mais sombrio do que imagina, ou muito mais hilariante do que alguma vez pensou.

Se calhar já experimentou a desagradável experiência de ter de mudar de casa no NAPE (Novos Aterros do Porto Exterior), ou em qualquer outro sítio, só por que no sítio onde mora vai passar a auto estrada da inflação promovida por uma companhia imobiliária que pretende aumentar os preços dos imóveis e das rendas para dimensões inimagináveis e o vai pôr na rua sem remissão.

Agora imagine poderes galácticos a fazer novo traçado da Via Láctea, ou estrada de S. Tiago, nalgum local que necessite de um viaduto de saída para.

Para sabe-se lá para quê?

Volto para a semana com mais livros e mais autores.

Uns realistas, outros surrealistas, outros perfeitamente disparatados, mas todos com  alguma coisa importante a dizer para a nossa vida quotidiana ainda que achemos que o mais importante na vida é não deixar de  pagar a conta da electricidade, do gás, da água, do condomínio e naturalmente a renda de casa.

Termino perguntando-me. O que é que a ficção científica tem a ver com a vida real e respondo se calhar muito mais do que com o que deparamos nas nossas vidas quando dobramos uma esquina, quando saímos do emprego ao fim da tarde, ou simplesmente quando nos acontece qualquer coisa inesperada ao Domingo, ou numa quarta-feira qualquer.

O Espião Alemão em Goa

Para muitos de nós que vivemos em Macau há alguns uns anos o nome de

José António Barreiros, não é desconhecido.

Os que se lembram, lembram-se da polémica que desencadeou na segunda metade dos anos oitenta, quando era secretário adjunto para a Justiça do Governador, Carlos Melancia.

O caso consistiu no facto de ter demitido o Director dos Assuntos de Justiça, Alberto Costa, que foi o ministro português que tutelou a mesma área, com José Sócrates e que foi também ministro no Governo de António Guterres, mas não chegou ao fim do mandato com Ministro da Administração Interna.

Recordo-me que o despacho de demissão surgiu a horas tardias num suplemento qualquer de emergência ao Boletim Oficial de Macau.

Toda a gente falava nisso na altura.

O caso deu polémica e teve forte repercussão.

Principalmente na vida de José António Barreiros, que depois disso se declarou completamente desiludido da política abandonando o Partido Socialista de que era militante e reformulou a sua vida.

Regressado a Portugal, passou a exercer a advocacia a tempo inteiro e o seu nome costuma surgir sempre que há casos jurídicos de grande interesse mediático.

Recordamo-nos por exemplo do caso dos Skinheads, ou do caso Casa Pia, entre muitos outros.

Porém, ficamos espantados ao perceber que a actividade jurídica de José António Barreiros é apenas e só uma actividade profissional que desempenha com mérito invulgar, mas pouco mais.

José António Barreiro, é essencialmente um escritor que não se importa de perder tempo e eventualmente clientes, sempre que encontra uma pista nova, ou um novo motivo para escrever qualquer coisa na área que mais o interessa.

Provavelmente cancela as consultas jurídicas, ou então delega noutros advogados do seu escritório a função profissional.

Ainda bem que o faz, já que José António Barreiros começou a desbravar um novo campo literário.

O escritor diz e cito

Sou um descrente da vida política, porque a que vivi me desiludiu.

Tenho-me dedicado nos últimos anos, em paralelo com a advocacia, a investigar as redes de espionagem estrangeira em Portugal, nomeadamente durante a Segunda Guerra Mundial.

Hoje gostaria de fazer uma só coisa: escrever. Tenho-o feito, em livros, revistas e jornais e ultimamente também na blogosfera.

O meu primeiro artigo aconteceu porque eu tinha 19 anos de juvenil entusiasmo.

O meu último escrito surgirá quando eu tiver ainda não quantos anos de senil desespero.

Este é o seu resumo autobiográfico

Longe de qualquer senil desespero.

José António Barreiros começou com este livro a desbravar novos campos em português.

Um género que a literatura anglo saxónica cultiva há séculos, mas que nós portugueses teimamos em não aceitar.

Campo inexplorado é este e também o das biografias.

Reparem que praticamente só Mário Domingues escreveu biografias.

Depois dele quase que se contam pelos dedos os que as escreveram.

Claro que excluo do género os jornalistas da actualidade que escrevem as biografias dos famosos e mediáticos, como Pinto da Costa, Jorge Costa, Mourinho, Cristiano Ronaldo e outros que tais.

Mas isso, não será propriamente literatura.

É de relativo interesse.

Mas José António Barreiros interessa.

E interessa principalmente pelo que se diz desse seu primeiro livro nas edições Huguin, sobre “A Lusitânia dos espiões” e cito:

Tudo começou com artigos de jornal, escritos sob pseudónimo.

Durante mais de um ano, o autor, como se fosse António Rebelo da Silva, ele que se chama José António Rebelo da Silva Barreiros, foi escrevendo artigos sob o tema da redes de espionagem na 2ª Grande Guerra e não só.

Um dia assumiu a autoria e compilou algum desse material em livro. Felizmente está esgotado; na apreciação que dele hoje faz, só a capa vale a pena!

Em minha opinião, nem só a capa vale a pena. O conteúdo também.

Os seus últimos livros chamam-se:

“Uma Aventura na Praia dos Coelhos”,

“O 13º PASSAGEIRO”,

“NATHALIE SERGUEIEW”,

“O HOMEM DAS CARTAS DE LONDRES”,

“Rogério de Menezes, uma agente dupla em Lisboa”

E claro,

“O ESPIÃO ALEMÃO EM GOA”,

Operação Longshanks

E ainda “A Lusitânia dos Espiões”.

Para mim que gosto de novelas este é o melhor dos seus livro.

José António Barreiro diz que foi um dos seus piores.

Enfim a opinião é livre e a interpretação dos leitores mais livre ainda.

Eu acho que foi muito conseguido.

Begginers Luck, como se diria aqui em Macau, terra de jogo

Mas, voltando ainda ao “Espião Alemão em Goa”, devo dizer que esta novela foi filme com David Niven como protagonista.

Mas décadas depois de David Nivem, estou certo, o “Espião Alemão em Goa” daria hoje novo filme porventura ainda mais interessante, com os efeitos especiais de Hollywood, que actualmente são mais soberbos do que nunca, desde que Harrisson Ford se estreou no grande ecran.

Imagine-se em Goa na casa que José António Barreiros descreve sobre o mar.

Leia o livro e vai ver que encontra todos os filmes e todos os escritores.

Àh esquecia-me de fornecer mais alguns dados biográficos do autor.

José António Barreiros nasceu em Angola em 1949, Advogado criminalista foi docente na área do direito criminal e autor de vários livros jurídicos.

Investigador no sector da História da Guerra Secreta em Portugal, durante a Segunda Guerra Mundial, publicou cinco livros sobre o tema. Interessado em projectos culturais diversos tem colaboração dispersa em artigos de imprensa, conferências e subscreve vários blogues na Internet.

Enquanto espera pela chegada dos livros, vá lendo os blogues de José António Barreiros.

São muitos e valem a pena.

Vá a joseantoniobarreiros.blogspot.com e encontra-os lá todos.

O Português que nos Pariu

Hoje vou-lhe falar de um livro recente.

Foi editado em Portugal o ano passado e tem um título inédito.

“O PORTUGUÊS QUE NOS PARIU”.

É uma edição da Editora Civilização e deu algum brado.

Pelo menos entre os críticos que não deixaram de sobre ele lançar um olhar enviesado.

Alguns tomaram-no por um livro sobre a história e a influência de Portugal, na história do Brasil.

Mas não é.

Por isso teceram-lhe críticas acentuando ligeireza nas sua páginas.

Todavia a crítica foi unânime em considerá-lo bem escrito.

Claro que o Português que nos Pariu não é um livro sobre a história do Brasil e muito menos sobre a história de Portugal.

No entanto fala não só da história do Brasil, mas também sobre a de Portugal e neste último caso vai aos primórdios.

Recua aos lusitanos e à mescla de povos que constitui o português e acrescenta-lhe mais um ponto a partir da via aberta por Cabral em 1500, quando aportou a Terras de Santa Cruz.

Neste ponto vale a pena ler um excerto do que diz a páginas 21 que é esclarecedor.

(leia a página 21 e sublinhe)

Neste livro haveria outras passagens interessantes, e muitas, mesmo muito mais interessantes do que a da página 21 a sublinhar, mas não vale a pena relevar passagens repletas de mordacidade e interesse.

Quem isto escreve não é uma historiadora, nem a isso tem pretensões.

É uma jornalista e escritora.

Chama-se Ângela Dutra de Menezes.

Trabalhou nessa grande fábrica de televisão brasileira que é a Rede Globo, mas também na Enciclopédia Encarta.

Fez incursões pela ficção e publicou o romance “MIL ANOS MENOS CINQUENTA”, que lhe valeu o Prémio Revelação na Bienal do Livro de 1995.

Depois disso publicou “Santa Sofia” e ainda o “Avesso do Retrato”.

Eu que desconfio dos best-sellers, tenho que reconhecer que gostei deste best seller, que já vai em seis edições.

E leio-lhe o que se diz na contra capa da edição portuguesa

(li no programa Guarda Livros o segundo parágrafo da contra-capa).

É este o Livro.

“O Português que nos Pariu”.

A autora é Ângela Dutra Menezes, como disse já.

A edição é da Civilização.

Deixo-o com este livro mordaz que sorri dos académicos, mas não faz pouco da história.

O Livro de Hitler

Se alguém estiver interessado, ainda, na Segunda Grande Guerra Mundial, guerra que produziu milhares e milhares de obras de ficção e não ficção e que terminou há 63 anos leia este livro.

Chama-se “O Livro de Hitler”.

O título é um pouco infeliz já que não se trata de nenhuma autobiografia do extravagante e sanguinário ditador.

Trata-se de outra coisa.

Apenas dezasseis anos depois do final da Guerra, foi encontrado nos arquivos russos um documento da maior importância e uma das mais significativas fontes históricas do Terceiro Reich: “O Livro de Hitler”.

Composto exclusivamente para José Estaline, contém as recordações pessoais de Otto Günsche e Heinz Linge, por eles passadas a papel, sob controlo do NKWD, quando se encontravam numa prisão soviética.

Ambos eram oficiais das SS e durante muitos anos moveram-se nos círculos próximos de Adolf Hitler.

Ou seja este livro resulta de um interrogatório prolongado por vários meses a dois oficiais que tiveram o privilégio de conviver intimamente com o Furrer.

Stalin, ditador, queria saber como é que o seu colega ditador do centro da Europa se comportava.

Por isso pediu a um dos seus assessor que transformasse os interrogatórios num relatório credível que ele pudesse ler, compreender e extrair ilações.

O assessor, que por acaso viria a acabar anos mais tarde num campo de reeducação na Sibéria por ordem do mesmo Estaline fez o melhor que pôde.

E da sua capacidade de redacção surgiu este relatório agora publicado em livro

Terá Estaline extraído alguma coisa de útil do relatório que lhe foi entregue?

Creio que não.

Os oficiais alemães interrogados tentaram ser o mais impessoais possível para se descartarem de eventuais responsabilidades.

O oficial russo que escreveu este livro, por seu turno, omitiu e adicionou, o que lhe parecia ser então politicamente correcto.

Seja como for temos aqui um apanhado da vida pessoal de Hitler interessante de ler.

Corresponderá a qualquer verdade?

Bom! Isso não sei, nem sei se algum dia se poderá saber com algum grau de certeza.

Embora este livro seja sério, pelo tema que trata, atrevo-me a compará-lo aos tablóides da actualidade, quando esmiúçam a vida privada dos ricos e famosos.

Os autores deste livro são Henrik Eberle, jornalista e historiador que completou o doutoramento com uma tese sobre o Nacional Socialismo.

Mathias Hul é doutorado em História do Leste Europeu.

Este livro é uma edição Alêthea de 2006.

Macau Histórico

A semana passada falei-lhe da primeira história publicada de Macau.

Hoje vou falar-lhe da segunda.

Entre as duas obras mediou mais de meio século.

A primeira da autoria de Anders Ljungstet, foi publicada em 1836, enquanto a segunda, surgiu em 1902

Tenho aqui um exemplar.

Foi publicada com título “Macau Histórico”, e editada pela editora Livros do Oriente, em 1990.

Trata-se da tradução da segunda edição, que foi publicada em inglês, em 1926.

O autor chamava-se Montalto de Jesus

Mas quem era Montalto de Jesus?

Bom. Montalto de Jesus era um macaense que nasceu em Hong Kong, em 1863.

Trabalhou no comércio e na banca e foi tradutor profissional.

Durante a Primeira Grande Guerra, trabalhou em Londres no departamento de Propaganda do Ministério dos Negócios Estrangeiros e em 1922, integrou a delegação portuguesa à Conferência Internacional do Desarmamento em Washington.

Politicamente era um republicano muito provavelmente ligado ao Partido Democrático de Afonso Costa.

Embora se tenha dedicado à investigação histórica, tendo deixado alguns trabalhos nessa área parece-me que terão sido motivações de ordem política que o levaram a escrever esta história de Macau.

Isto, nomeadamente, com a intenção de valorizar a presença portuguesa em Macau, face à Inglaterra e ao seu imperialismo que sempre irritou os republicanos portugueses desde os tempos do Mapa cor-de-rosa.

A primeira edição do “Historic Macau”, de Montalto de Jesus, veio a público em 1902 e foi recebida com aplauso, não só pela crítica como pelas instituições.

Mas se a primeira edição lhe granjeou fama e reconhecimento, a segunda edição haveria de o fazer cair na desgraça.

Porquê?

Bom. Porque, Montalto de Jesus, era um militante republicano e em 1926, parece que andaria de candeias às avessas com o que se passava em Portugal, onde as correntes monárquicas do Integralismo Lusitano triunfavam com o golpe do marechal Gomes da Costa, de 1926.

Para além de andar desgostoso com o rumo político de Portugal, Montalto, não o andava menos com a administração de Macau, onde pontificava o governador Tamagnini Barbosa, homem também do 28 de Maio.

Assim, nesse mesmo ano, decidiu publicar uma segunda edição da sua obra, mas acrescentando-lhe três capítulos novos e uma sugestão fatal.

Tendo em conta, dizia, a má administração que Portugal, fazia de Macau, melhor seria entregar o território à Sociedade das Nações, que era a ONU, da época e por acaso presidida pelo ex-primeiro ministro republicano Afonso Costa, que se encontrava exilado em França.

A sugestão valeu-lhe um processo e a condenação em tribunal, para além de uma campanha difamatória e a todos os títulos vergonhosa, na imprensa.

O livro chegou a ser queimado num acto público de desagravo reminiscente dos tempos da inquisição ali para os lados do Palacete de Santa Sancha, à porta do edifício onde é hoje a, Fundação Macau.

Mas mais. A ordem de apreensão do livro foi cumprida com todo o zelo pela polícia que andou de casa em casa na cidade em busca de exemplares, tendo-os apreendido quase todos.

Os que se salvaram permitiram à Editora Livros do Oriente, republicar 60 anos, mais tarde, essa edição de 1926, agora em português que é a que está aqui.

Aliás o “Historic Macau” ficou como marco por ter sido o primeiro livro apreendido pelo Estado Novo de Salazar.

A ditadura não poupou a idealística e ingénua franqueza de Montalto de Jesus, que para além de humilhado acabaria por ser escorraçado pelos poderes instituídos, não só em Macau, mas também em Hong Kong.

Com todas estas atribulações Montalto de Jesus acabaria por morrer, quase na miséria no Convento das Irmãzinhas dos Pobres em Hong Kong.

“Macau Histórico”, é um livro, não só datado, como politicamente motivado, mas que por isso mesmo mais curioso se torna ainda ler.

E neste ponto gostaria de citar o sinólogo Graça de Abreu que escrevia assim sobre Montalto de Jesus

Para além de alguns erros de pormenor que, aqui e além, ressaltam na obra e do surrealismo dos capítulos finais quanto ao futuro governo da cidade, “Historic Macao” continua a ser a melhor história de Macau até hoje publicada.

As propostas avançadas pelo autor eram, tanto nos anos vinte do século passado como hoje, no mínimo,irrealistas, mas não se pode negar a originalidade e coragem deste homem que, amava lapidarmente Macau.

Isto dizia Graça de Abreu, de Montalto de Jesus e do seu “Historic Macau”.

Macau na Política Externa Chinesa, 1949-1979

Quarenta e um anos nos separam das manifestações de fins de 1966, princípios de 67.

Muitos estarão lembrados desses tempos difíceis

E quarenta e um anos depois já é possível analisar com serenidade a história.

Este livro explica o que se passou.

Diria que principalmente sistematiza as causas já que em situações semelhantes não existe apenas uma causa e fá-lo de uma forma extremamente esclarecedora.

O autor é Moisés da Silva Fernandes.

Um investigador, que quanto a mim tem o mérito de ter estudado Macau através de documentos e testemunhos, sem nunca ter passado mais do que alguns poucos dias aqui na RAEM.

Está por isso de certo modo imune a certo preconceito que toma quem vive no palco onde se desenrola a história.

Moisés da Silva Fernandes é um investigador de renome já considerado.

Licenciado no Canadá, país novo, teve as dificuldades usuais para se impor no velho continente e em Portugal, em particular, mas conseguiu.

Neste livro a que deu o título de “Macau na Política Externa Chinesa – 1949-1979”, Moisés da Silva Fernandes historia antecedentes e consequências do “Um, Dois, Três”.

Penso ser um trabalho definitivo sobre esse período da história de Macau, isto, se é que existem trabalhos definitivos.

Claro que para ler esta obra tem que estar munido de algumas armas necessárias, ou seja tem que saber um mínimo sobre o que foi a história de Macau dos últimos 50 anos.

Se não souber nada sobre o assunto, não vale a pena abrir o livro, porque corre o risco de tirar conclusões erradas, ou pior não tirar conclusões nenhumas.

Mas se souber, ou julgar que sabe, há!… então abra-o, leia-o, concorde, discorde, mas vai ver que as posições do autor vão provocar em si com certeza uma reacção.

O autor é como tenho vindo a dizer Moisés da Silva Fernandes, o livro chama-se “Macau na Política Externa Chinesa, 1949-1979”.

É uma edição ICS, abreviatura que quer dizer Imprensa de Ciências Sociais.

Creio que ainda haverá exemplares à venda em Macau.

Moisés da Silva Fernandes continua a estudar Macau e vai lançar um novo livro que se chama “Confluência de Interesses: Macau nas relações luso-chinesas contemporâneas, 1945-2005”.

Um livro onde segundo quem já o leu o pragmatismo impera e se expõe a importância que Pequim dá à RAEM enquanto lança para Angola e o Brasil.