História de Portugal, Rui Ramos

A história de um povo, de qualquer povo, é sempre demasiado extensa e multifacetada para poder ser escrita, num volume, ou dois, ou três, enfim…

Creio que uma história, não caberia em livro, quando muito poderia ser escrita em suporte informático, com muitos “terabites” para poder conter tudo.

Isto, porque além do relato dos acontecimentos passados a história é indissociável de outras matérias, como a geografia, a antropologia, a geologia e a própria psicologia, já para não falar nas questões filosóficas que inevitavelmente envolve.

Mas mesmo sendo possível a realização de um trabalho dessa natureza, restariam muitos pontos por descrever, por falta de documentação, por exemplo, ou porque os testemunhos deixados se mostram evidentemente forjados, ou porque não existem documentos coevos (documentos coevos é um termo de que os académicos gostam muito, mas que muitas vezes não esclarecem nada, mas enfim…)  ou outras razões do género.

Mas mesmo que fosse possível, deixar tudo registado passo a passo, então a história deixaria de o ser e passaria a ser um repositório, um arquivo de coisas,  uma biblioteca de Alexandria que toda  gente imagina o que seria mas que ninguém sabe, na realidade o que tenha sido. Acho que a Biblioteca de Alexandria existe de facto mais na imaginação do que na realidade dos “tombos” que actualmente existem. Armazéns de informação a esmo que aguardarão sempre estudo e classificação.

A Biblioteca de Alexandria não era certamente um repositório de tudo, mas apenas de certas coisas e certas interpretações.

Como se sabe não há ninguém, em vida, que consiga ler uma biblioteca inteira.

Sendo assim quando nos referimos por exemplo à história de Portugal de Matoso, ou de  Veríssimo Serrão, ou de qualquer outro, queremos apenas dizer com isso que nos estamos a referir aos pontos de vista que um determinado autor, achou relevantes sobre os factos do passado de Portugal.

Por isso antes de consultar uma história de Portugal não custa nada e é melhor saber-se quem é o autor e quais as suas credenciais, mas especialmente saber em que época a escreveu já que o desenvolvimento da historiografia se faz a par de tudo o resto, ou seja do desenvolvimento de um país.

A história é também um ramo das ciências e tem evoluído num sentido positivo tal qual os campos da física, ou da química, por exemplo.

Temos assim que ao ler a história de Portugal, de Frei Bernardo de Brito, do século XVII, tropeçamos a cada passo com um pecado dos mouros e um milagre dos cristãos.

Se não fossem as cinco chagas de Cristo a aparecerem a D. Afonso Henriques, Portugal ainda não passaria hoje de uma região de Espanha, segundo Brito.

Perdoam-se as boas intenções desse bom frade, em nome da fé e do patriotismo. Mas o que se não lhe pode perdoar é o facto de ter falsificado documentos para levar a água ao seu moinho, como foi acusado e é verdade.

Este é o único defeito que não se pode perdoar a um historiador, o resto pode relevar-se e até, por vezes, alguma fantasia, ou mesmo muita fantasia.

Mas se andarmos mais para a frente e folhearmos Alexandre Herculano, a história já é bem diferente, com a análise científica mais presente e os desígnios de Deus um pouco mais esbatidos no enredo.

Mais tarde ainda com Pinheiro Chagas e a sua história de Portugal em 8 volumes vemos a opinião do autor politicamente empenhado e do escritor brilhante que num inquérito à opinião pública sobre quem era o mais melhor escritor português da época, ficou claramente à frente de nomes como Eça de Queiroz em termos de popularidade.

A primeira história de Portugal a quebrar com tradições, facciosismos políticos e preconceitos há muito cimentados foi porém sem dúvida a História de Portugal, de António Henrique de Oliveira Marques, publicada em 1974.

Uma história que se eximia às cronologias, às batalhas e aos reis e abordava os aspectos, sociais e económicos até então largamente negligenciados, pelos que o antecederam (retire-se Magalhães Godinho deste cenário com a sua numismática, assunto específico e em parte Jaime Cortesão com a geografia).

A história de Portugal de Oliveira Marques constituiu uma verdadeira pedrada no charco, tanto mais que surgia num momento em que a ditadura entrava no seu último estertor, pouco antes do 25 de Abril.

A segunda a quebrar tradições e a fornecer uma nova visão sobre o que foi Portugal é esta.

Trata-se da primeira história do país cuja autoria não está associada a uma figura, mas sim a uma equipa, coordenada por Rui Ramos.

Os outros dois são Bernardo Vasconcelos e Nuno Gonçalves Monteiro.

E o que trás de novo esta história?

Bastante.

A começar pelo facto de ter sido uma obra colectiva.

Depois ainda, o facto de ter início, não nos tempos fabulosos da Lusitânia de Viriato,  do qual pouco mais se sabe do que o que consta das parcas referências que lhe foram feitas por um geógrafo romano, citado e ampliado nas suas considerações até à exaustão e até hoje.

Estes historiadores concordaram que Viriato e a Lusitânia têm mito a mais e história a menos, pelo que decidiram começar de um modo científico, ou seja pelo princípio, ou seja ainda, pela formação do reino, na época do Conde D. Henrique e de seu filho D. Afonso, o primeiro rei de Portugal.

Para além desta ousadia, esta obra consagra também a maior parte do que se tem descoberto e das novas interpretações que nos últimos anos, nomeadamente com o auxílio de outras áreas da ciência tem vindo a ser dado a estampa de um modo disperso. Dispersão que não era de molde a desfazer erros e preconceitos que continuam por isso a ser constantemente repetidos.

Claro que esta história não vem desdizer tudo nem será capaz de corrigir ideias feitas.

Ideias feitas são preconceitos que não se dissolvem nem perante as provas mais evidentes, mas pelo menos contribui com certeza para redimensionar com mais rigor a ideia que temos de nós próprios, mas não só.

Ao esclarecer alguns quês e porquês desfazendo alguns mitos que teimam em nos ser caros levará com certeza os que discordam a aduzir prova em contrário, o que contribuirá sem dúvida para o avanço do conhecimento científico.

Por outro lado, ao despertar controvérsia, como já despertou, tornou-se imediatamente obra de referência obrigatória seja para quem concorda com o que aqui se diz como para quem discorda.

Por outro lado ainda esta História de Portugal possui um outro mérito.

Trata-se de uma obra num só volume, o que a torna mais acessível a um maior número de leitores, do que outras divididas em vários volumes.

Isto numa época em que cada vez mais gente tem menos tempo para ler e em que o leitor de DVD, ameaça cada vez mais a existência do popular livro de bolso que se lavava para passar o tempo na praia, ou na sala de espera de um consultório.

A decisão de condensar num só volume a História de Portugal, como neste caso, é inteligente também porque o que aqui lemos é apenas uma abordagem, mas que fornece pistas para o sem número de obras específicas, sobre figuras momentos e acontecimentos, que felizmente estão a ser dados à estampa, nomeadamente através da publicação de teses universitárias. Teses que até aqui há poucas décadas confinavam a sua divulgação às audiências das salas de aula onde eram debatidas morrendo a seguir inexoravelmente asfixiadas no pó dos arquivos das faculdades.

As câmaras municipais têm também contribuído ultimamente de um modo mais visível, em certa medida para esta difusão, com a publicação de monografias e biografias regionais.

Só por isto esta História merece encómios.

No que toca ao conteúdo tenho uma opinião, mas acho que não me devo alongar sobre esta vertente, já que a minha será tão boa como a sua que me está a ver e ouvir neste programa.

Mesmo assim não posso deixar de dizer que no que toca à formação de Portugal o que penso não é necessariamente coincidente com o que diz Rui Ramos.

É que às vezes em história, o mito nem sempre é pura e simples efabulação.

Às vezes produz efeitos políticos e sociais bem concretos e definidos, como diria o poeta António Gedeão, com consequências que por vezes desafiam as regras rígidas da ciência e da razão.

Portugal não nasceu de uns desígnios políticos de um rei godo (alemão), mas som da pré-existência de um povo predisposto a auto governar-se. Já lá dizia Estrabão, mais ou menos assim:- nos confins da Ibéria há um povo que não se governa nem se deixa governar.

E mais não digo, a não ser que é indispensável ter em casa esta história de Portugal de Rui Ramos.

A Educação em Macau

Houve um período, ainda recente em que, a imagem de Macau foi vendida no exterior com o slogan: – “Cidade de Cultura”.

Naturalmente que o slogan não significava nada. Macau era antes, isso sim, a cidade do jogo, como sempre foi. Isto, independentemente de a cultura ter sempre existido aqui, como em qualquer parte do Mundo.

Mas politicamente convinha, então, ignorar, ou menorizar esse facto.

Depois da transferência esse anómalo slogan felizmente que foi abolido e o jogo desenvolveu-se sem complexos.

Mas com o desenvolvimento do jogo, em maior, ou menor grau, a cultura também se desenvolveu.

Os incentivos à educação expandiram-se, surgiu um politécnico e estão em actividades várias universidades.

Com tudo isto e com o que falta e que é muito, Macau está no bom caminho para um dia retomar o slogan que acabei de falar.

No entanto se nos anos 90 do século XX, Macau não era uma cidade de cultura, a verdade é que o foi muito tempo antes e de um modo brilhantemente pioneiro.

Refiro-me evidentemente ao chamado Colégio de S. Paulo, fundado pelos jesuítas por volta do ano de 1593.

Foi a primeira universidade do Extremo Oriente.

A história do Colégio de S. Paulo, é tão brilhante como fugaz foi a sua existência e inglório o seu fim.

Quem nos conta como foi é o Padre Manuel Teixeira, neste livro que intitulou: – A Educação em Macau.

Aqui o historiador para além dos pormenores sobre o Colégio de S. Paulo aborda o que foi este sector da vida de Macau ao longo dos séculos e conta-nos uma história pouco simpática depois da expulsão dos jesuítas.

Houve períodos em que pode dizer-se que a educação institucionalizada esteve mesmo completamente ausente e outros em que andou nas mãos de quem não tinha a mínima competência.

Tudo isto perante um quase permanente alheamento do estado, que pouco cuidou durante os séculos de tão importante sector.

Vale a pena citar esta passagem referente à escola pública que o Padre Teixeira reproduz neste livro citando um ouvidor de Macau: –

Com a expulsão dos jesuítas em 1762 não houve mais uma cadeira de latinidade, nenhuma de moral, ou teologia. Quem quis aprender foi a Manila, alguns para Goa e outros a quem os meios faltavam ficaram aqui, ouvindo lições de algum clérigo antigo.

O professor régio com ordenado de 500 taeis, ainda não formou um só estudante bom. As religiosas não dão aulas, nem estes conventos têm mestres.

Era assim que o Juiz Lázaro Ferreira (ouvidor) caracterizava a educação em Macau em 1784.

Ensinar música, por exemplo era chão que tinha dado uvas como se costuma dizer, pois se não havia lugar para as primeiras letras como haveria de haver para as artes.

Mas depois disso a situação melhorou, mas não muito.

Triste história, portanto que vale a pena ler aqui neste livro, publicado em 1981, pela Direcção dos Serviços de Educação e que ainda se pode encontrar, creio eu, na Livraria Portuguesa.

Vale pena dar uma vista de olhos por esta obra condensada e lamentar o que foi.

Felizmente que a história às vezes não se repete, pelo menos quando os que têm obrigação de decidir, conhecem alguma coisa do passado.

East River Column

Como tenho vindo a dizer a história é assunto delicado de pegar.

Não se pode fazer sobre o acontecimento, porque para fazer história é necessário distanciamento no tempo relativamente aos acontecimentos.

Por outro lado historiar, em muitos países ainda hoje significa, por vezes, ofender o poder político vigente com as consequências que tal ofensa acarreta.

E não são poucas essas consequências.

Muitos historiadores foram parar à cadeia, ou cessaram os seus esforços definitivamente caídos perante os pelotões de fuzilamento.

Goya deixou desenhos elucidativos sobre este assunto.

Basta olhar para os seus quadros e desenhos sombrios para ter uma ideia do que é pugnar pela verdade contra a verdade que os poderes soberanos de ocasião entendem que deve ser a autenticidade oficial.

Portanto, porque não convém, politicamente, ou porque não é oportuno, ou mesmo porque é arriscado, muitas memórias que muitas vezes poderiam explicar com simplicidade o rumo dos acontecimentos no mundo permanecem ignoradas, ou pudicamente auto-obliteradas porque não convém. Por isto, ou por aquilo…

Essas lacunas só contribuem para lançar véus de mistério desnecessários sobre as razões porque as sociedades se comportam de um modo e não de outro, aparentando por vezes mover-se de forma incoerente.

Às vezes, decisões políticas e estados sociais radicam em factos históricos marcantes que pelas razões que disse foram relegados para o esquecimento apenas porque a conjuntura política o impunha. Que não a verdade!

É o caso narrado neste livro.

Chama-se  East River Column. Hong Kong Guerrilhas in the second World War and after.

Qualquer coisa como A Coluna do Rio de Lestes. Os guerrilheiros de Hong Kong durante a Segunda Guerra Mundial e depois.

Mas o que era a Coluna do Rio de Leste?

Em resumo pode dizer-se que era um grupo de patriotas liderado pelo Partido Comunista da China (PCC), sobre os ombros de quem pesou a maior responsabilidade na resistência contra a ocupação japonesa desde 1937 em diante. Umas centenas de militantes que iam de intelectuais a analfabetos unidos pelo anseio da liberdade e igualdade contra a opressão que nesses tempos se manifestava na figura opressora do Imperador do Japão, autocrata sangrento e sem escrúpulos.

Este grupo não só manteve em cheque as forças japonesas, como prestou igualmente um auxílio valioso (atrás das linhas) aos exércitos aliados em campanha no Leste Asiático, no campo de combate e no domínio das informações tácticas.

Por outro lado teve também uma acção de relevo no apoio à fuga de numerosos prisioneiros de guerra aliados internados nos campos de concentração japoneses.

Pergunta-se então. Se tiveram uma acção tão relevante, porque é que pouca gente sabe hoje que Coluna tenha sido essa?

A explicação é simples.

No final da guerra, à Inglaterra, ao reocupar Hong Kong, convinha não hostilizar o governo nacionalista, do Kwomintang que tinha lutado bem mais contra os comunistas do que contra os japoneses e a Coluna do Rio de Leste era o braço armado do PCC na província de Guangdong. Não era o governo oficial da China. Só o viria a ser em 1 de Outubro de 1949 com a implantação da República Popular da China.

Por isso, embora reconhecendo os esforços valorosos empreendidos pela Coluna durante a guerra as autoridades britânicas com a sua fleuma habitual, preferiram conferir uma ou duas medalhas de mérito em combate a alguns dos seus líderes, oferecer uns pequenos montantes em dinheiro aos guerrilheiros reformados que optaram por permanecer em Kowloon e nos Novos Territórios e deixar cair, naturalmente, o assunto no esquecimento.

Do outro lado da fronteira, guerrilheiros e líderes foram por seu turno alvo de reconhecimento, mas apenas momentâneo.

É que com a “Revolução Cultural” (1966) triunfante os guerrilheiros acabariam por ser acusados de estarem ao serviço do imperialismo, apenas porque durante a guerra tinham mantido estreitos contactos com as forças aliadas e por força das circunstâncias com os Nacionalistas do Kwomintang.

É caso para dizer como dizia o nosso Afonso de Albuquerque. Mal com os Homens por Amor de Deus, mal com Deus por amor dos Homens.

Finda a Revolução Cultural, a China de Deng Xiaoping, não se interessou em corrigir a injustiça e Hong Kong em processo de transição de soberania também não.

E assim, a Coluna do Rio de Leste, desapareceu nas brumas da bibliografia e quase da história, como se nunca tivesse existido. E de facto, nada se escreveu sobre o assunto, que continuava a não agradar nem a gregos nem a troianos.

Agora Chan Sui Jeung, decidiu arrojar-se à empresa de tirar do anonimato esse grupo de heróis que chegou a ser classificado, a certo ponto da história, como bando de malfeitores.

Uma história recheada de peripécias, que resultou de numerosas entrevistas que o autor manteve com os sobreviventes da Coluna e da consulta dos arquivos disponíveis.

Um livro, que apesar de tratar essencialmente de Hong Kong, não deixa de salientar o importante papel que Macau desempenhou na luta contra a agressão japonesa, apesar da sua neutralidade na guerra.

O autor, Chan Sui Jeung, é licenciado pela Universidade de Hong Kong e foi durante vários anos administrador civil nos Novos Territórios, local onde viviam muitos dos guerrilheiros que integravam a Coluna, dos quais teve oportunidade de recolher as memórias inestimáveis que contam da obra.

Actualmente Chan Sui Jeung é Investigador Honorário do Centro de Estudos Asiáticos da Universidade de Hong Kong.

East River Column , uma publicação da Hong Kong University Press dada à estampa o ano passado.

A não perder.

A História na Bagagem

A bibliografia de Macau tem muitos títulos imerecidamente ignorados.

É certo que principalmente na década que antecedeu a transferência de soberania muito se escreveu sobre Macau.

Muito se disse de interesse, mas pouco de verdadeiro e essencialmente de verdadeiramente novo.

Parece ter havido uma espécie de frenesim destinado a preencher lacunas que a história deixou.

Mas esse frenesim não colmatou as omissões “deixadas pela história” como sói dizer-se actualmente e deixou pouca coisa de verdadeiro interesse.

Naturalmente que entre o que se escreveu há obras dignas de grande mérito.

Falo-lhe hoje de uma delas.

É esta.

A História na Bagagem de Luís Andrade Sá.

Se há livros imperdíveis um deles é este.

A começar pelo título, esta história na bagagem é um retracto vivo de Macau desde finais do século XIX até ao segundo conflito mundial de 1939 – 45.

Luís Sá fala-nos aqui da história dos hotéis que foram um ex-libris de Macau durante muitas décadas, marcando indelevelmente a fisionomia da cidade.

O Hotel Bela Vista, que começou por ser destinado a albergar os oficiais convalescentes do exército de campanha francês em comissão de serviço na Indochina.

Hoje é a residência do cônsul geral de Portugal em Macau.

O Hotel Riviera. Um nome lendário em Macau, onde estiveram hospedados alguns dos grandes nomes da política da arte e da literatura mundial.

Ficava, onde hoje está o banco da China na Esquina da Avenida Almeida Ribeiro com a rua da Praia Grande, que foi deitado abaixo precisamente para dar lugar a este banco, que na altura tinha o nome de Banco Nam Tung.

Ali esteve também hospedado o Poeta Camilo Pessanha e a vida no seu interior reflectia o cosmopolitismo de Macau.

A inteligência local e estrangeira reuniu ali durante mais de 60 anos deixando histórias interessantíssimas de um quotidiano que mudaria radicalmente a partir dos anos 70 com a inauguração do Hotel Lisboa que veio mudar profundamente usos e costumes.

Outro dos hotéis lendários é o Central.

Durante muitas décadas foi o edifício mais alto de Macau, com os seus dez andares.

O apogeu do Hotel Central ocorreu durante a guerra.

Nos seus salões cruzavam-se os ocupantes japoneses do Sul da China, os refugiados, franceses ingleses, americanos e de não sei quantas outras nacionalidades.

As histórias do Hotel Central poderiam muito bem ter servido de fonte de inspiração para Ian Fleming na criação do seu James Bond, se o acaso quisesse que o escritor inglês ali se tivesse ali hospedado.

Leio-lhe o que diz aqui na contra capa…

(Como tenho dito, li este excerto no Guarda-livros de a “Montra do Lilau” que vai para o ar às terças-feiras às 23 e 30 na TDM. Terá que adquirir o livro para saber. Vale a pena!).

Algumas desses enredos que fizeram o imaginário ocidental sobre Macau conta-nos Luís Sá neste livro, numa escrita viva alegre e particularmente impressiva.

Ler a História na Bagagem é ficar a saber através das pequenas histórias, verdadeiramente o que Macau foi, desde os finais do século XIX.

Luís Sá é jornalista e actualmente editor na agência portuguesa de Notícias Lusa.

Durante alguns anos trabalhou em televisão aqui na TDM e colaborou em vários jornais.

Antes de ter vivido em Macau Luís Sá teve também uma breve experiência como editor em Portugal.

Outro livro que vale a pena ler deste autor é The Boys from Macau, Os Portugueses em Hong Kong.


É uma história paralela e que tal como esta se lê um pouco como uma novela.

A História na Bagagem, crónica dos velhos hotéis de Macau, de Luís Andrade Sá.

Um livro da colecção Memória do Oriente, do Instituto Cultural de Macau, com edição de Rogério Beltrão Coelho de 1989.

Bom dia S’tora”.

Um livro que foi publicado em 1991.

É um livro interessante para quem queira saber de Macau.

Tenho-o aqui. É este

A autora não era uma escritora na verdadeira acessão do termo.

Era professora do ensino secundário e que saiba, antes e depois deste livro, nunca publicou nada, a não ser numerosos artigos de jornal que se encontram dispersos e nunca recolhidos em livro e é pena.

“Bom Dia S’Tora”, é o diário de uma professora, ainda que não uma professora vulgar, já que Graciete Batalha fez incursões pela política local e deixou a sua personalidade impressa de forma indelével na formação da personalidade de dezenas e dezenas de alunos que lhe passaram pelas mãos no Liceu de Macau.

Foi deputada do Conselho Consultivo, que era como se chamava a Assembleia Legislativa antes de 1974 e defendia com veemência as sua posições políticas nesse hemiciclo.

Era uma mulher progressista e ao mesmo tempo alinhada com o conservantismo do regime então vigente. Com aqueles pontos de vista que não se contestavam. Não porque não se pudessem contestar, mas apenas por que a margem de contestação não era de fundo, mas apenas de forma. Era assim nesse tempo!…

Ainda a conheci e dela tenho como pessoa, a recordação de uma mulher consciente, decidida e sabedora.

Enfim, daquelas que estavam à frente do seu tempo, apesar da sua formação ter sido influenciada por outros tempos, mas tempos, que nunca renegou.

Em suma no contexto da sua época era uma intelectual comparável a Virgínia Rau, por exemplo, mas não a Agustina Bessa Luís.

Era uma conservadora iluminada pelo racionalismo, que, provavelmente – não sei- mas prezaria mais Rouseaux, que Jean Paul Sartre.

Seja como for e independentemente das recordações pessoais que tenho de Graciete Batalha, não posso deixar de contar com este, Bom Dia S’Tora, como um livro de mesinha de cabeceira neste meu espírito de guarda-livros.

É politicamente incorrecto?

Sim é politicamente incorrecto em várias circunstâncias, mas não sei porquê, ao lê-lo e relê-lo a mim assemelha-se, a Miguel Torga às vezes, e outras a Bernardim Ribeiro.

A um pela forma literária, por vezes dura, a outro pelo lirismo que transmite sobre um mundo circunscrito que era o Liceu de Macau e a cidade que o rodeava.

Mas às vezes também faz lembrar Aquilino Ribeiro, embora sem os regionalismos das serras de Portugal, altaneiras e rugosas, mas com os regionalismos ultramarinos das faldas urbanas da Fortaleza do Monte e dos aterros do Porto Exterior.

E os regionalismos de Graciete são os verdadeiros, não os do crioulo antigo, mas o do que na realidade subsistiu puro ou espúrio, na tradição moderna de Macau.

O papiá cristã perdeu-se há muito.

O papiá de hoje, o verdadeiro, é o de que nos fala Graciete Batalha.

Falo hoje de um livro escrito por alguém de quem quase toda a gente se lembra.

A sua professora.

Graciete Batalha.

Alguns recordar-se-ão das boas notas que tiveram na disciplina que leccionava.

Outros lembram-se de que por ela foram massacrados na disciplina de Português, talvez por má divisão de orações, confusão de pretéritos perfeitos com imperfeitos, gerúndios, adjectivos substantivos. Enfim!… outros apenas por cabularem.

Sabe-se lá porquê e sabe-se lá quem terá hoje razões de queixa ou memórias carinhosas que nunca se apagarão nunca. Umas e outras

Mas Neste Bom dia S’Tora, não é uma professora que escreve.

Mas também não é um manual de Português que nos é transmitido.

É um período da história de Macau que nos passa pelo olhar.

Começa em 1969 e termina em Janeiro de 1986.

O Livro chama-se, como disse, “Bom Dia S’Tora”, é uma edição do Instituto Cultural de Macau com data de 1991.

E deste livro termino com uma citação da S’tora.

“E sente-se uma saudade insistente ao percorrer os corredores desertos em tempos de férias ou ao pensar no dia em que finalmente nos libertamos das canseiras, da rotina, das lutas inglórias, das incompreensões, e seremos… tristes professores reformados.

No próximo programa cá estarei com mais um autor e mais um livro

Império à Deriva,

Até hoje, e já lá vão muitas décadas, não perdi um certo orgulho nacional.

Foi o que me ensinaram na escola e depois no liceu.

Fui formado assim como toda a gente da minha geração. Os que nasceram em meados do século XX.

Mais tarde, quando vim para Macau esse nacionalismo que me foi inculcado pareceu-me pela primeira vez extravasar as aulas e os manuais e demonstrar-se verdadeiro.

Tinha então trinta anos e aqui em Macau conhecia pela primeira vez uma verdadeira competição, uma competição pragmática e real entre nações, que não tinha nada a ver com livros, nem com citações pedagógicas.

Alexandre Herculano, integralismos, saudosismos de Teixeira de Pascoais?

Nem mesmo com as epopeias pessoanas, ou as outras mais antigas dos cronistas: – João de Barros, Frei Bernardo de Brito. Sei lá! Ou então a republica de Junqueiro da liberdade igualdade e fraternidade

Aqui, neste Extremo Oriente, onde arribei, nem Eça era reconhecível, nem Fernão Mendes Pinto era credível.

Mas tudo isso existia então (provavelmente ainda existe aqui e agora tantos anos depois).

Nós portugueses em Macau e os ingleses do outro lado do rio das Pérolas em Hong Kong.

Dois povos aliados há quase oitocentos anos a competir na real, como nos diziam nos manuais de história.

Em Portugal ninguém pensa nisto e muito menos nestes termos.

Ser patriota em Portugal é demodee, pelo menos desde a restauração de 1640, ou do Mapa Cor-de-rosa e das “Conferências do Casino”.

No entanto, certo é que longe de Portugal se sente esta maneira de ser nacional com mais intensidade, independentemente das opções políticas e partidárias de cada um.

Vem isto a propósito deste livro

Chama-se – Império à Deriva, a Corte Portuguesa no Rio de Janeiro 1808-1821.

Trata-se de uma obra escrita por um inglês, Patrick Wilcken.

Uma visão estrangeira sobre um assunto nosso. Exclusivamente nosso.

Mas afinal e em minha opinião uma visão que ultrapassa os conceitos pequeninos do nacionalismo tal qual nos foi ensinado na velha escola anterior a 1974.

Sim ultrapassa em muito o que à gente da geração de cinquenta do século passado e a que pertenço, nos foi subliminarmente inculcado.

Isto apesar e como disse das opções políticas, ideológicas e partidárias por que cada um de nós optou.

Neste livro o autor narra um dos momentos mais singulares da história de Portugal.

O momento, em que um estado abandona a Pátria, para, segundo Patrick Wilcken salvar a Pátria.

Que estranho conceito?

Que teria acontecido a Portugal se o rei D. João VI tivesse optado por ficar em Portugal a enfrentar as imposições de Napoleão Bonaparte através do seu legado, o general Junot?

Não se sabe, mas provavelmente, para além de uma crise passageira, Portugal voltaria a ser Portugal, já que Napoleão perderia a guerra de unificação da Europa em Waterloo como veio a perder.

Mas a decisão de abandonar o continente português revelou-se extraordinariamente histórica, pragmática e correcta.

Fundou-se um outro império que foi o do Brasil, que provavelmente nunca existiria se não fosse esse episódio de fuga.

Todos sabemos o que aconteceu nessas primeiras décadas dos século XIX.

As invasões francesas, a independência do Brasil, a guerra civil portuguesa.

Mas reflectir sobre tudo isto através da escrita fluida deste autor inglês foi para mim uma experiência interessantíssima.

Sim, que coisa interessante é sentir que o nacionalismo redutor que me ensinaram se dilui, mas ao mesmo tempo se inflama e amplia, quando um autor inglês fala bem de Portugal?

E segundo o suplemento literário do Times, Patrick Wilcken ao escrever este livro terá tido em mente apenas contar uma boa história.

Pelo menos é o que diz na contracapa:

(Leia a contracapa)

Mais um livro que vale a pena ler.

O romance policial vem de longe, tem pelo menos século e meio.

Neste domínio da literatura os pioneiros são Sir Arthur Conan Doyle, que em 1887 inventou a figura de Sherlock Holmes.

Depois disso apareceram centenas de autores que vão de Agatha Christie ao nosso bem português Deniz Mac Shade, ou Diniz Machado que escreveu o “ O que diz Molero”, novela que não tem nada ver com romances policiais, mas é um marco na literatura portuguesa.

Mas antes de todos estes nomes sonantes da literatura mundial houve alguns pioneiros de que se houve falar pouco e outros de que não se houve falar de todo.

Um dos que não se conhece e de que nem sequer existe obra acessível em qualquer livraria a não ser provavelmente em alfarrabistas e na Biblioteca Nacional, naturalmente, é António Maria Bordalo.

António Maria Bordalo era um oficial de marinha português que foi secretário do governo de Macau durante cerca de dois anos nos idos de 1850.

1850, um ano particularmente dramático na história de Macau, quanto desconhecido hoje em dia.

Foi o ano que se seguiu ao assassinato do governador Ferreira do Amaral.

Um ano em que mais do que antes, ou depois, a sobrevivência de Macau esteve por um fio.

Este escritor menor da literatura portuguesa, isto segundo a classificação dos dicionários bibliográficos, deixou obra publicada, principalmente no que respeita ao seu género literário preferido que eram as narrativas de viagem marítimas.

Neste âmbito escreveu coisas interessantes, como “Trinta anos de Peregrinação”, “Manuscrito Achado na Gruta de Camões”, ou um “Passeio de Sete Mil Léguas”.

Digo eu que são coisas interessantes, porque dizem respeito a Macau.

Mas Portugal ainda não redescobriu este autor.

O que é certo é que António Maria Bordalo escreveu, não só o primeiro romance policial passado em Macau, como talvez até um dos romances, ou novelas policiais, como lhe queiram chamar, que se escreveram no mundo.

Isto muitos anos antes do “Mistério da Estrada de Sintra” de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão

A novela chama-se “Sansão na Vingança”.

O enredo gira em torno da explosão da Fragata D. Maria II, que ocorreu em Macau em 1850.

António Maria Bordalo, fala pela primeira vez das seitas em Macau, do crime que campeava nas ruelas tortuosas dos bairros, que eram então periféricos à cidade como o da fortaleza do Monte, de que restam hoje as ruas de Sancho Pança e D. Quixote e o recuperado bairro de S. Lázaro.

António Maria Bordalo ficcionou um drama familiar, depois de o ter investigado exaustivamente.

É que o irmão, também oficial de marinha morreu precisamente no desastre da fragata D. Maria II.

A explosão de um dos navios mais emblemáticos da marinha portuguesa desses tempos provocou uma consternação nacional.

E o mais estranho nesse episódio é que o irmão de Bordalo teria feito chegar a Lisboa uma carta em que dava conta do desastre.

No entanto essa carta, misteriosamente, fora expedida antes do desastre ter acontecido.

Este facto não consta da novela.

Mas consta da história. E até hoje ainda ninguém avançou com uma explicação plausível para esse facto.

Uma novela de ficção científica, talvez possa especular sobre o que passou.

A destruição da fragata D. Maria II foi um desastre nacional.

Uma tripulação de duzentos homens obliterada num ápice pela explosão de toneladas de pólvora carregadas no porão.

Vários navios ingleses, franceses e americanos, que se encontravam nas imediações do ancoradouro da Taipa sofreram as consequências. Houve mortos, feridos e danos irreparáveis nalguns dos mais modernos navios de várias nações.

Quem foi o responsável?

Quem foram os responsáveis?

Nesta novela Francisco Maria Bordalo não dá uma resposta concreta.

Deixa pairar vagamente que foram as seitas.

Pena é que o livro só esteja disponível na Biblioteca de Macau e na Biblioteca Nacional de Lisboa já que nunca mais foram feitas quaisquer reedições.

Mas ainda bem que ainda existe.

Mas, “De Longe à China”, uma compilação de vários autores, fala disso – e de muito mais.

Este conjunto de livros que aqui tenho fornece resumos da história que contei e de muitas outras, de muitos outros autores que escreveram sobre Macau.

É uma edição do Instituto Cultural de Macau, que poderá encontrar também na Livraria Portuguesa.

Nestes cinco volumes talvez encontre também outras histórias que nunca pensou que se pudessem passar em Macau.

De Longe à China é uma espécie de enciclopédia resumida e fácil de manusear do que se escreveu sobre Macau

Se quer saber quem escreveu o quê, sobre Macau, seja história, romance ou biografia, leia de Longe à China e depois, se puder, compre a colecção inteira.

Infelizmente muita da bibliografia que de “Longe à China” refere não existe nas livrarias.

É pena.

D. José da Costa Nunes

D. José da Costa Nunes, a figura que deixou o seu nome ligado ao infantário situado na Avenida Sidónio Pais aqui em Macau foi uma das figuras mais destacadas da Igreja Católica ao longo de mais de meio século.

Foi bispo de Macau durante cerca de vinte anos imprimindo a sua marca na vida da igreja, local, mas não só.

Também no plano cultural teve uma acção de destaque principalmente durante os anos 20 do século passado.

Ficaram memoráveis as conferências que produziu nomeadamente no Clube Militar, e o seu papel dinamizador nas tertúlias de então em que pontificavam nomes sonantes da cultura portuguesa, como Camilo Pessanha e outros.

Nascido na ilha açoriana do Pico, D. José da Costa Nunes, veio para Macau ainda antes de concluir o seminário como secretário do bispo D. João Paulino, a quem sucederia em 1923.

Em 1940 é nomeado Arcebispo de Goa e Damão e Patriarca das Índias Orientais.

Mais tarde, 1962 ascende a cardeal por nomeação do Papa João XXIII, tendo tido uma acção influente no Concílio Vaticano II.

Faleceu em Roma em 1976.

Uma ascensão pujante para um homem que fez tudo quanto pode para evitar ser nomeado bispo e que acima de tudo prezava as letras.

Porém o seu talento literário permaneceu ensombrado para a história face à sua faceta de resoluto apóstolo da Igreja.

D. José da Costa Nunes publicou uma considerável bibliografia, ainda que essencialmente dedicada a temas eclesiásticos.

No entanto tenho aqui comigo o volume 7 de uma série das suas obras compilada pela Fundação Macau.

Tem por título “Crónicas”

Nestes textos revela-se o fino estilistas da língua portuguesa, mas também o arguto observador do Oriente social e político.

Leio-lhe um pequeno trecho de um texto que D. José intitulou, Em Plena China, escrito em 1927.

LEIO O TRECHO (no programa Guarda Livros leio de facto o excerto. Neste caso terá que adquirir o livro para o poder ler. É uma pérola da língua portuguesa e de uma certa corrente de pensamento da época)

Crónicas de D. José da Costa Nunes, uma edição da Fundação Macau datada de 1999.

Vale a pena ler.

Creio que ainda restam exemplares na Livraria Portuguesa, ali na Rua das Mariazinhas.

Crowned with The Stars

Como para a maioria de nós (digo da minha geração) os assuntos dos espanhóis despertam-nos pouca curiosidade.

Eu não me excluo desse alheamento.

De Espanha retenho nomes como Cervantes, ou Goya, ou Salvador D’Ali, ou o mais recente Biscainho Cazas, por exemplo e pouco mais.

Mas não querem saber que no mais inaudito dos cantos geográficos por onde se possa passar deparei no escaparate de uma livraria de Sabá, na Ilha do Bornéu, na Malásia, com uma das biografias mais fascinantes que me foi dado ler nos últimos tempos.

É esta

Chama-se: – Crowned with The Stars.

O subtítulo diz: The Life and Times of  D. Carlos Quarteron First Pefect of Borneo, 1816-1880.

Em português poderá ser qualquer coisa como: A vida e a época de D. Carlos Quarteron, primeiro perfeito do Bornéu.

O autor é Mike Gibby.

Embora não seja escritor, Gibby escreve esta obra quase como Emílio Salgari escreveu as aventuras de Sandokan, precisamente nas mesmas paragens. As selvas da Malásia e do Bornéu e aventuras semelhantes. Com seitas, piratas e tudo. Um Indiana Jones antes do cinema.

Mas vamos ao que interessa.

Carlos Quarteron nasceu em Cadiz de boas famílias e ingressou na marinha espanhola.

Inteligente, rapidamente ascendeu na hierarquia, obtendo o comando de um navio com apenas 25 anos.

Passou então a fazer a carreira marítima entre Manila e Macau no Extremo Oriente onde a sua família tinha interesses comerciais.

A certa altura este aventureiro espanhol soube do naufrágio de um navio britânico nos chamados recifes de Londres que ficam a meia distância entre o Bornéu e o Vietname.

Recifes perigosos que no século XIX ainda se encontravam mal assinalados nas cartas de marear.

Intrépido e calculista, Quarteron , ao saber da notícia não hesitou.

Abandonou a marinha espanhola, comprou um navio a que chamou “Mártires de Tonquim”, recrutou uma tripulação e alguns pescadores de pérolas conhecidos por conseguirem mergulhar sem respirar durante mais de três minutos e partiu para os perigosos recifes.

Por ali esteve cerca de dois meses e os seus esforços foram recompensados.

Descobriu um tesouro de milhões em lingotes de prata.

E o que julga que fez com eles?

Pois nem mais nem menos do que rumar a Macau e entregar o tesouro ao que julgo à Santa Casa da Misericórdia, esperando que alguma seguradora saísse a terreiro para reclamar o salvado.

Entretanto a Santa casa entregou-lhe 10 por cento do tesouro e guardou o resto aguardando que alguém clamasse a sua posse.

Ninguém a reclamou no prazo legal e D. Quarteron ficou com toda a fortuna ajudado pelo seu amigo José D’Almeida que por procuração ficou a tratar dos seus negócios em Macau.

Mas Quarteron era, passe o eventual exagero da comparação um devoto católico. Uma espécie de S. Francisco Xavier dos tempos modernos.

O seu objectivo não era ficar rico, mas sim evangelizar os indígenas do Bornéu que considerava lamentavelmente abandonados pela igreja Católica.

Assim pegou na sua fortuna e entregou-a toda inteira à “Congregação para a Propagação da Fé”, ou “Propaganda Fides” como é conhecida esta organização do Vaticano, com a condição de ser inteiramente devotada ao apostolado na ilha de Bornéu.

Não vou contar as aventuras deste D. Carlos Quarteron, que frequentaria o seminário em Roma e viria a ser sagrado padre pelo número três da Igreja Católica assumindo os habituais votos, menos o de pobreza, excepção muito, mas mesmo muito raramente concedida fosse a quem fosse.

D. Carlos Quarteron lançou as bases da missionação católica no Bornéu, foi comerciante, e com os navios da sua esquadra privada deu combate sem quartel aos piratas que infestavam a região.

Dedicou a sua vida a libertar escravos cristãos e foi agente secreto de Espanha.

Que vida extraordinária a deste homem que depois de mais de quarenta anos nestes mares que nós, aqui em Macau, também conhecemos (é por lá que se passa férias em conta) regressou à sua Cadiz natal meio arruinado.

Abandonado pelo Vaticano e malquerido pela sua Espanha que não lhe dava crédito.

Mike Gibby descreve esta vida extraordinária de uma forma primorosa.

É pena que não exista tradução deste livro para português já que tem tanto a ver connosco e com Macau.

O livro não será fácil de adquirir, já que se trata de uma edição da diocese de Kota Kinabalu de 2005.

Mas seguramente estará à venda nas livrarias de Orchard Road em Singapura.

Se passar por lá compre que vale a pena.

Camilo Pessanha, o Jurista e o Homem.

Por Macau passaram muitos poetas.

A começar pelo vate nacional Luís de Camões que está celebrado ali (no jardim) na sua gruta em busto de bronze.

Depois do autor dos lusíadas, muitos outros passaram por aqui.

Uns passaram apenas, outros acabaram por deixar impressas em rima, ou versos solto, os sentimentos que os assolaram nestes longínquos orientes.

Estou-me a lembrar, por exemplo, de Couto Viana, que permaneceu por estas paragens tempo suficiente para dedicar a Macau, mais do que um livro inteiro de sonetos.

Torga também por cá passou, ou Eugénio de Andrade, ou António Patrício que terminou a sua vida acometido de doença súbita no Palacete de Santa Sancha.

Mas todos por aqui andaram brevemente.

O único que por cá permaneceu de todo e cá morreu também, foi o poeta do simbolismo.

Falo de Camilo Pessanha.

Camilo Pessanha foi Talvez o único poeta de Macau, se exceptuarmos a figura literária obscura de José Baptista de Miranda Lima, autor do século XIX, cujos poemas surgem citados apenas por outros autores posteriores, não se sabendo por onde andarão os seus versos, se é que ainda existem nalgum espólio particular.

Camilo Pessanha, tem sido um dos poetas mais divulgados e estudados na literatura portuguesa, ainda que em vida poucos lhe tenham reconhecido mérito.

A não ser, evidentemente, Ana de Castro Osório.

Muito se sabe, sobre a poesia de Pessanha portanto, mas pouco se sabe da sua vida.

E a vida de Pessanha dava um romance de Camilo, se Camilo fosse ainda vivo no tempo de Pessanha.

Por isso não vou falar aqui dos seus poemas, que são sobejamente conhecidos, mas sim da outra faceta da sua vida que poucos conhecem e que é a de jurista.

Essa faceta está estampada no livro que hoje trago.

Chama-se Camilo Pessanha, o Jurista e o Homem.

A autora é Celina Veiga de Oliveira.

Trata-se de um trabalho metódico, que não revela apenas a personalidade de Camilo Pessanha, mas também o meio sociológico em que se movimentava.

Como notário e juiz, deixou peças de inegável interesse a todos os títulos, aqui reunidos e bem por Celina Viga de Oliveira, numa edição de 1991 do Instituto Cultural de Macau.

A dimensão deste livro pode encontrar-se em duas recensões que me parecem de todo o interesse.

A primeira é de João Fernandes, um jornalistas que igualmente viveu em Macau longos anos e que diz assim:

Dos poeirentos processos dos arquivos do Tribunal, lutando contra o rebarbativo da escrita e a letra esmaecida no papel amarelecido pelo tempo e a humidade, a autora arrancou a outra face de Camilo Pessanha.

Não o poeta que extravasa o tempo, mas o homem, o jurista perante a sociedade e a circunstância.

Trabalho precioso e que confirma que Pessanha nunca foi banal.

Outra cotação que não resisto a ler é a de Júlio Pereira, procurador-geral adjunto, que aqui residiu também vários anos e que diz assim:

As intervenções processuais que agora vêm a público revelam-nos Camilo Pessanha como um jurista de formação que ultrapassava os cânones da sua época, reivindicando práticas e princípios que só em tempos mais recentes ganharam consagração plena.

É preciso dizer que Camilo Pessanha viveu em Macau entre 1894 e 1926.

Ora Camilo Pessanha era de facto um jurista invulgar e dotado, de uma memória prodigiosa.

Dizem que ouvia um depoimento, por mais longo que fosse e depois o ditava ao escrivão de direito com a mais completa fidelidade.

Mas há muitas outras histórias de Camilo Pessanha que permaneceram na tradição urbana.

Principalmente das suas excentricidades.

Lembro-me por exemplo o que me contou o escritor Henrique de Senna Frernandes, que se recorda de ouvir dizer que no casamento de seus pais, na casa do Jardim de Lou Lim Yock, Camilo Pessanha fez esperar toda a gente chegando com considerável atraso.

Justificando a falta Camilo pediu desculpa e disse que a culpa tinha sido do colete.

Ou seja o poeta vestira-se com os habituais rigores e trabalhos dos smokings, mas não sabia onde tinha posto o colete.

Como estava atrasado decidiu vir mesmo assim.

Nessa altura, alguém que reparou, disse: O senhor Doutor, não sabia onde estava o colete porque vestiu a camisa por cima dele.

Mas para além de distraído Camilo Pessanha era também desafiador, não perdendo oportunidade de criticar quem quer que não lhe caísse de feição, por isso teve mesmo alguns dissabores tendo mesmo um dia que responder em tribunal na sequência de uma discussão com um amigo que lhe levou a mal uma graçola e com o qual chegou a vias de facto.

Mas a sua ousadia um dia foi mais longe.

Por ocasião da visita a Macau do escritor espanhol Fernandez Flores, já então com fama universal, o governador da altura resolveu leva-lo a casa de Pessanha.

Não se sabe se por estar de candeias às avessas com o governador, ou por qualquer outro motivo, Pessanha recebeu as duas personalidades no quarto, deitado na cama apenas com o lençol por cima.

O historiador Monsenhor Manuela Teixeira, dá eco também às suas excentricidades, mostrando-se escandalizado pelo facto de Camilo Pessanha assistir à passagem das procissões da varanda de sua casa, na avenida da Praia Grande junto ao edifício onde se encontra hoje a sede do Banco Nacional Ultramarino, em tronco nu.

Tronco nu era o que as pessoas viam da rua porque na verdade, diz Monsenhor Teixeira, Camilo Pessanha costumava estar de facto mas era como Deus o tinha posto no mundo, ou seja totalmente em pelota.

Um escândalo que só não lhe trazia mais consequências, apenas porque todos lhe conheciam as distracções e excentricidades.

Camilo Pessanha O Jurista e o Homem, de Celina Veiga de Oliveira, vale a pena conhecer a outra face do poeta do simbolismo.