Até hoje, e já lá vão muitas décadas, não perdi um certo orgulho nacional.
Foi o que me ensinaram na escola e depois no liceu.
Fui formado assim como toda a gente da minha geração. Os que nasceram em meados do século XX.
Mais tarde, quando vim para Macau esse nacionalismo que me foi inculcado pareceu-me pela primeira vez extravasar as aulas e os manuais e demonstrar-se verdadeiro.
Tinha então trinta anos e aqui em Macau conhecia pela primeira vez uma verdadeira competição, uma competição pragmática e real entre nações, que não tinha nada a ver com livros, nem com citações pedagógicas.
Alexandre Herculano, integralismos, saudosismos de Teixeira de Pascoais?
Nem mesmo com as epopeias pessoanas, ou as outras mais antigas dos cronistas: – João de Barros, Frei Bernardo de Brito. Sei lá! Ou então a republica de Junqueiro da liberdade igualdade e fraternidade
Aqui, neste Extremo Oriente, onde arribei, nem Eça era reconhecível, nem Fernão Mendes Pinto era credível.
Mas tudo isso existia então (provavelmente ainda existe aqui e agora tantos anos depois).
Nós portugueses em Macau e os ingleses do outro lado do rio das Pérolas em Hong Kong.
Dois povos aliados há quase oitocentos anos a competir na real, como nos diziam nos manuais de história.
Em Portugal ninguém pensa nisto e muito menos nestes termos.
Ser patriota em Portugal é demodee, pelo menos desde a restauração de 1640, ou do Mapa Cor-de-rosa e das “Conferências do Casino”.
No entanto, certo é que longe de Portugal se sente esta maneira de ser nacional com mais intensidade, independentemente das opções políticas e partidárias de cada um.
Vem isto a propósito deste livro
Chama-se – Império à Deriva, a Corte Portuguesa no Rio de Janeiro 1808-1821.
Trata-se de uma obra escrita por um inglês, Patrick Wilcken.
Uma visão estrangeira sobre um assunto nosso. Exclusivamente nosso.
Mas afinal e em minha opinião uma visão que ultrapassa os conceitos pequeninos do nacionalismo tal qual nos foi ensinado na velha escola anterior a 1974.
Sim ultrapassa em muito o que à gente da geração de cinquenta do século passado e a que pertenço, nos foi subliminarmente inculcado.
Isto apesar e como disse das opções políticas, ideológicas e partidárias por que cada um de nós optou.
Neste livro o autor narra um dos momentos mais singulares da história de Portugal.
O momento, em que um estado abandona a Pátria, para, segundo Patrick Wilcken salvar a Pátria.
Que estranho conceito?
Que teria acontecido a Portugal se o rei D. João VI tivesse optado por ficar em Portugal a enfrentar as imposições de Napoleão Bonaparte através do seu legado, o general Junot?
Não se sabe, mas provavelmente, para além de uma crise passageira, Portugal voltaria a ser Portugal, já que Napoleão perderia a guerra de unificação da Europa em Waterloo como veio a perder.
Mas a decisão de abandonar o continente português revelou-se extraordinariamente histórica, pragmática e correcta.
Fundou-se um outro império que foi o do Brasil, que provavelmente nunca existiria se não fosse esse episódio de fuga.
Todos sabemos o que aconteceu nessas primeiras décadas dos século XIX.
As invasões francesas, a independência do Brasil, a guerra civil portuguesa.
Mas reflectir sobre tudo isto através da escrita fluida deste autor inglês foi para mim uma experiência interessantíssima.
Sim, que coisa interessante é sentir que o nacionalismo redutor que me ensinaram se dilui, mas ao mesmo tempo se inflama e amplia, quando um autor inglês fala bem de Portugal?
E segundo o suplemento literário do Times, Patrick Wilcken ao escrever este livro terá tido em mente apenas contar uma boa história.
Pelo menos é o que diz na contracapa:
(Leia a contracapa)
Mais um livro que vale a pena ler.
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