Rule By Secrecy. Jim Marrs

A Nova Ordem Mundial é uma teoria da conspiração segundo a qual um grupo poderoso e secreto tem estado a planear dominar o mundo através de um governo único desde não se sabe quando, mas pelo menos há mais de dois, ou três séculos.

A Nova Ordem Mundial seria um plano com o objectivo de derrubar governos, bem como erradicar todas as religiões e crenças, para unificar a humanidade sob uma nova ordem, que seria baseada numa ideologia uniforme, uma moeda única e uma religião universal.

Isto tudo para a humanidade alcançar a perfeição.

Segundo esta teoria, ocorrências sócio políticas significativas são causadas por um grupo restrito, mas extremamente poderoso e secreto ou vários grupos igualmente restritos mas interligados.

Acontecimentos históricos e actuais são vistos como passos de um curso rigorosamente planeado para governar o mundo principalmente através de uma combinação de políticas financeiras, corrupção política, engenharia social, e a instilação do medo através da propaganda, ou seja a cultura do medo.

O chamado processo de globalização iniciado em finais do século XX, seria uma das muitas facetas do estabelecimento progressivo dessa nova ordem.

É disto que se fala neste livro que trago hoje aqui.

Chama-se “Rule By Secrecy”.

Jim Marrs, americano, escritor, jornalista e autor de programas de rádio e televisão sobre o assunto é naturalmente um dos apoiantes desta teoria da conspiração tendo-se tornado notado pelas consecutivas denúncias sobre o assassinato do antigo presidente americano John  Kenedy, em Dallas, afirmando que o atentado resultou de uma conspiração envolvendo o próprio governo dos Estados Unidos.

Apesar de se tratar de um tema aparentemente delirante para os mais cépticos, a verdade é que neste livro, Jim Marrs faz uma análise rigorosa, do poder e influencia de algumas organizações, como a Trilateral, o Grupo de Bildberg, que integra os grandes nomes da alta finança mundial, ou a Maçonaria, interrogando-se até que ponto estas organizações desempenham um papel superior ao dos próprios governos na definição das políticas globais.

Jim Marrs começa aliás este livro dizendo que se o leitor está satisfeito com os seus próprios pontos de vista sobre a humanidade, a religião, a história e o Mundo então não vale a pena ler.

Mas se pertence ao número dos que lêem vêem, ou ouvem as notícias e se perguntam sobre o que é que se está a passar no Mundo? Então embarque na aventura deste livro que, percorre os imbricados corredores das sociedades secretas, dos bancos e dos banqueiros, das aparências e dos mistérios, antigos e modernos.

Aliás Jim Marrs, abre com uma citação do antigo primeiro ministro britânico, Benjamin Disraeli, dizendo que o mundo é de facto governado não por quem nós pensamos, mas sim por outras personagens que se movem nas sombras dos bastidores e que os governados não fazem a mínima ideia quem sejam.

Disraeli, foi um dos mais jovens e notáveis chefes de governo da Inglaterra vitoriana e sabia do que falava.

Resta acrescentar que este livro foi publicado em português, brasileiro, há três anos com o título, “O Governo Secreto”.

Creio que não está à venda na livraria portuguesa, mas pode pedir que o mandem vir, ou então vá a wook. pt e encomende-o através desse site electrónico, ou então através da amazon.com.

O Governo Secreto, ou “Ruling by Secrecy”, um livro que acho que as livrarias têm dificuldade em colocar nos escaparates, já que se fica sem saber bem se se trata de política, de história, de economia, ou apenas de mera ficção.

De qualquer modo um livro que não deixa de fazer com que nos interroguemos com a marcha do mundo.

E pensemos duas vezes antes de aceitar como boa a declaração de uma figura do governo a afirmar como Cândido de Voltaire, que tudo corre no melhor dos mundos, ou a contra declaração do político da oposição que afirma que está tudo à beira da catástrofe.

Será que eles saberão do que falam, ou haverá quem de facto saiba como é que gira na verdade o universo em que vivemos?

Pirates, Of the South China Coast – 1790 a 1810. Dian Murray

Os assaltos no golfo de Adem, nas costas da Somália voltaram a colocar a pirataria e os piratas na ordem dia.

Navios das mais diversas tonelagens são atacados. As tripulações dominadas e os piratas exigem resgates avultadíssimos aos armadores e aos governos, para devolver as presas.

Voltamos portanto hoje aos tempos dos flibusteiros do século XVIII.

Durante muitos e muitos anos pouco se ouviu falar de pirataria, e a razão terá a ver com o facto de a partir do final da segunda guerra mundial as pessoas deixaram de viajar por via marítima passando a faze-lo em massa pelos ares.

Talvez por isso a actividade dos piratas passou a dar menos nas vistas.

No entanto, não se pode dizer que a segurança nos mares tenha sido um facto, ou os piratas tenham desaparecido como por encanto durante muitas décadas.

Longe disso, o que se passou é que a maioria dos navios alvos da pirataria transportavam apenas carga e por isso captavam menos a atenção dos jornais.

A pirataria aérea a partir dos anos 60 e 70 é que passou a concitar atenções.

Portanto, a pirataria existiu sempre e por vezes pôs mesmo em perigo a sobrevivência de nações.

É ainda comum dizer-se hoje, por exemplo, que Macau teria sido dada aos portugueses, pelo auxílio que prestaram ao “Império do Meio” na limpeza  da costa dos piratas que tinham bloqueado por completo as ligações marítimas da China com o exterior.

Hoje sabe-se que isso não foi bem verdade, mas a verdade é que Portugal prestou inestimável auxílio a Pequim na luta contra eles.

E não só nos primórdios da existência de Macau.

Noutras épocas, Macau mobilizou-se em conjunto com a China, em acções um pouco semelhantes às que têm actualmente lugar nas costas da Somália e onde a China participa com um contingente naval internacional.

Uma dessas ocasiões aconteceu em 1810 e teve repercussões excepcionais para o Território.

Do que aconteceu e não foi pouco, pode ler-se neste livro.

Chama-se; –  “Pirates, Of the South China Coast – 1790 a 1810”.

O livro faz um retrato da segurança dos mares nesse período no Sul da China, detendo-se particularmente sobre a acção de Kam Pao Sai, um líder marginal que assolou durante mais de uma década não só a região do Delta do Rio das Pérolas, mas que efectuou incursões bem mais a norte imobilizando por completo os movimentos da marinha chinesa.

Nessa conjuntura, Macau mobilizou-se para a ajudar, tanto mais que o seu próprio comércio estava em perigo.

Assim foi armada uma esquadra de emergência, que custou dinheiro e bom dinheiro e que quase ia levando Macau à bancarrota.

Valeu a ajuda preciosa da Tailândia (qual Fundo Monetário Internacional) que disponibilizou um empréstimo vultuoso ao território, o que lhe permitiu armar os navios necessários e apronta-los para o combate.

Diga-se que esse empréstimo haveria de demorar quase cem anos a ser saldado. Mas apesar dos atrasos Macau acabou por pagar a conta!

O dinheiro tailandês e a decisão do Governador Alvarenga e do Ouvidor Arriaga, que pediram o empréstimo permitiu que a pequena esquadra de Macau, de pouco mais de meia dúzia de lorchas e brigues, bloqueasse os piratas junto à ilha de Lantau, mais ou menos no local onde hoje se encontra o aeroporto de Chek Lap Cok e esmagassem a frota inimiga.

Diz-se que o número de juncos piratas se elevava a mais de trezentos, embora não haja dados muito fiáveis.

De qualquer maneira foi uma estrondosa vitória, onde participaram também alguns navios ingleses.

Segundo Dian Murray, a batalha terá marcado o fim dos esforços consertados entre a china e as potências ocidentais no combate ao banditismo nos mares.

Depois disso as concessões estrangeiras na China começaram a estabelecer-se e cada país encarregou-se de manter a ordem por si próprio incluindo Macau.

Resta dizer que a autora deste livro, Dian Murray, professora de história na Universidade de Notre Dame, se especializou em estudos asiáticos e tem publicado diversas obras a maior parte das quais sobre assuntos um tanto ou quanto controversos da história da China.

Dian Murray, professora de história na Universidade de Notre Dame.

Um herói Português, Henrique de Paiva Couceiro. Vasco Pulido Valente

Aqui há trinta, ou quarenta anos, havia cigarros com filtro e sem filtro.

As gerações de hoje não se lembram disso.

Mas havia!

Por isso, quando eu era rapaz me lembro de alguns velhotes dizerem uns para os outros:

Dá-me daí um paivante.

Como não sabia o que era a expressão perguntei:

O que é um paivante? E alguém me esclareceu que paivante era um cigarro com filtro.

Devo confessar que fiquei apenas parcialmente esclarecido sobre esta questão dos paivantes até Vasco Pulido Valente, me esclarecer por completo neste livro.

A obra chama-se: “Um herói Português, Henrique de Paiva Couceiro”.

E a história dos paivantes prende-se com um momento particular da história de Portugal do século XX, quando o capitão, Paiva Couceiro, foge com os seus fiéis monárquicos para a Galiza a fim de combater a república de 1910.

Quem fugia com ele era uma certa aristocracia portuguesa, mais idealista do que propriamente reaccionária.

E em minha opinião mais lírica que romântica.

Era gente habituada, não a viver bem, mas a viver muito bem, mesmo em tempo de guerra.

Por isso, já em 1911, os oficiais de Couceiro fumavam cigarros com filtro, meio século antes dos cigarros com filtro começarem a ser produzidos em massa.

Ele e os seus seguidores eram homens de outros tempos.

De um Portugal que há muitos séculos já não existia. Paiva Couceiro, ele próprio, terá existido quando muito nos tempos em que Amadis de Gaula dos tempos de D. João III  já não existia também.

Neste livro, Vasco polido Valente diz a certa altura

LEIO A PÁGINA 12 E 13 (De novo reitero que se trata da transcrição do script do excerto Guarda Livros do programa Montra do Lilau. Assim quem quiser saber o que leio terá que adquirir o livro, já que os programas da TDM não estão (infelizmente, por agora) on line na Internet)

Um Herói português, Henrique de Paiva Couceiro, 1861-1944

Um edição da Aleteia Editores publicada o ano passado.

É uma biografia assinada por um corajoso autor, que é Vasco Pulido Valente e digo que é corajoso, porque em Portugal, parece, que ao contrário do resto do mundo, fazer biografias é quase pecado.

Vasco Pulido Valente

Será que nós portugueses recusamos a nós próprios a honra de ter heróis, mesmo que reaccionários e deslocados no tempo?

Não sei, mas mesmo assim deixo a pergunta:

Por que será que é que em Portugal, as biografias se contam quase pelos dedos das mãos, enquanto na bibliografia internacional ainda hoje as biografias são quase todos os meses best-sellers?

Será que não gostamos de nos ver ao espelho?

Não sei…

O Senhor Ventura. Miguel Torga

Todos os escritores possuem livros enjeitados.

Eça de Queirós, por exemplo, enjeitou a Tragédia da Rua das Flores, que permaneceu inédito até ser dado à estampa com grande sucesso já bem dentro do século XX.

Até deu novela de sucesso e tudo na televisão.

Parece-me que os escritores e poetas são contra a eutanásia e ainda bem.

Se não fosse assim quantas pérolas da literatura e da poesia não se teriam perdido em folhas rasgadas e deitadas para o caixote do lixo sem remissão nem possibilidade de recuperação.

Vem isto a propósito de Miguel Torga.

Deste escritor e poeta conhecemos muita coisa.

“Os Bichos”, os” Diários”,” Contos da Montanha” e muitas outras obras entre prosa poesia e teatro.

Tudo isso se estuda nas escolas e nas universidades.

Mas a de que vou falar tem um nome próprio.

Tem um título sintético e talvez pouco atractivo num mercado editorial em que o título é mais do que o conteúdo.

Não é o Código de…, nem o Mistério de…, nem as extraordinárias aventuras de qualquer personagem fabulosa.

Não!

O título é este e simples: –

Para mim na bibliografia de Torga “O Senhor Ventura” é um dos seus mais conseguidos livros.

Diria que é a epopeia dos Lusíadas reduzida à expressão mais simples do canto em que Camões fala de Veloso, aventureiro e fanfarrão.

Aqui Veloso toma o nome de Ventura, sem perder romance nem epopeia, nem lirismo, nem nada.

Na obra de Torga, o Senhor Ventura é o soldado número 185 de um regimento qualquer que abandonou o Alentejo para assentar praça num quartel de Lisboa.

Na capital desenrasca-se como pode nas enrascadas em que se mete.

O suspeito de homicídio numa cena de facadas numa tasca da baixa.

Safa-se da condenação em tribunal militar por falta de provas.

O tribunal não encontrou indícios suficientes para o condenar mas mesmo assim achou por bem manda-lo para Macau em comissão de serviço para se ver livre de um indesejável.

Há aqui no apelido Ventura muito da história de Portugal desde os descobrimentos à emigração.

Claro que não vou contar o resto da história senão perderia a graça, mas pergunto-me?

Por que é que Torga decidiu meter na gaveta esta novela durante tantos anos?

Torga, diz que o escreveu nos arroubos da juventude e preferiu esquece-lo

LEIO O PREFÁCIO (lido no programa  “Montra do Lilau” da TDM)

Só em 1985 Torga retirou da gaveta “O Senhor Ventura”, ressuscitou-o, corrigiu-o nalguns pontos e republicou-o.

Para mim de tudo o que Torga escreveu “O Senhor Ventura” é o que de melhor se lê.

Nesta novela há um bocadinho das biografias de Camões e de Bocage, mas essencialmente há uma novela minhota transportada para o Oriente de Camilo.

O Livro é uma edição bilingue de 1989 do Instituto Cultural de Macau.

A tradução para chinês é de Cui Wei Xiao

In The ruins of Empire

Os anos da segunda Grande Guerra Mundial que durou de 1939 a 45 ainda hoje estão presentes na memória colectiva.

Isto, bem como os anos da Guerra do Pacífico, que durou mais um ano e terminou já em 1946.

Ainda há gente aqui em Macau que recorda os bombardeamentos contra o Território feitos pelos aviões da esquadra americana.

Muitos se lembram também dos refugiados que por aqui passaram, mais do que duplicando a população durante vários anos.

Há muitas histórias que ficaram na memória sobre esse período.

Mas alguém se lembrará da forma como a cidade se restabeleceu da crise e regressou à normalidade anterior à guerra?

Esse período imediatamente após o fim do conflito continua em grande parte desconhecido.

Tanto em Macau como em vários outros países do Extremo Oriente e do Sudeste Asiático.

Por que é que surgiram, mas essencialmente como é que surgiram, as independências da Coreia da Malásia, da Indonésia, do Vietname, ou da Birmânia?

O que levou as potências coloniais como a França, a Holanda e a Inglaterra a aceitarem a emergência desses novos países?

A história da descolonização da Ásia é complicada e terá custado mais, ou pelo menos tanto sangue, quanto custaram os seis anos da Guerra do Pacífico.

Isto é o que nos diz Ronald Spector, neste livro.

Chama-se “In The Ruins of  Empire, The Japanese Surrender and the Battle for Postwar Asia”.

O livro aborda a confusão da época que se seguiu ao cessar de hostilidades, a emergência dos movimentos de libertação, fazendo luz sobre alguns protagonistas da época.

Assim fica a conhecer-se melhor Sukarno da Indonésia, por exemplo, que fez a independência do seu país aliado aos japoneses e com o seu apoio, mesmo depois da rendição do Japão.

Igualmente se fica a conhecer melhor a figura de Ho Chi Min e as razões porque o Vietname permaneceu dividido durante décadas.

Fica-se a saber também as razões que levaram à divisão da Coreia em dois países que o paralelo 38 ainda hoje divide.

No que respeita à Malásia fica a conhecer-se o papel da China no restabelecimento da ordem, alegadamente posta em causa pelas guerrilhas oriundas da numerosa comunidade chinesa que naquele país vivia e constituía uma minoria avassaladora.

Enfim, em minha opinião esta obra, talvez um tanto ou quanto abrangente de mais para explicar com detalhe várias situações vale pela luz que derrama sobre a situação geopolítica dos dias de hoje aqui no Extremo Oriente.

O autor é, como disse, Ronald Spector, professor de história e relações internacionais na Universidade George Washington.

Spector, foi também um distinto professor de estratégia na Escola de Guerra de Washington.

Neste livro fica o ponto de vista de um académico que conhece o terreno já que serviu nos marines durante a guerra do Vietname.

“In The ruins of Empire” é uma publicação deste ano da editora americana Random House.

A Queda de Roma e o Fim da Civilização

“A Queda de Roma e o Fim da Civilização”.

É o título do livro de que lhe vou falar hoje.

Está aqui.

É este.

A capa é sugestiva.

O conteúdo é não só interessante como inovador ao abordar um tema largamente dissecado por diversos autores ao longo de séculos.

Devo advertir que se trata do resultado de mais de uma década de estudos de Bryan Ward-Perkins, que é o autor.

Perkins é um arqueólogo e por isso o livro pode parecer por vezes perder-se em minudências tipicamente académicas, mas não é verdade.

Aproveito para ler um excerto de um comentário de Vasco Pulido Valente no Jornal Público referindo-se às melhores obras do ano de 2005.

LEIO A CONTRA-CAPA. (poderá lê-la se tiver aceso ao livro). Relembro que estes textos são transcrições do meu programa de televisão na TDM.

Como diz Pulido Valente, com a queda de Roma a civilização regrediu mil anos e demorou outros tantos para se recuperar.

Mas o que mais impressiona neste livro é o paralelismo que não pode deixar de se fazer com os dias de hoje.

De facto, a civilização romana sofisticada e orgânica,  baseava-se no comércio internacional, na extracção de matérias-primas em lugares longínquos e na sua transformação em pontos estratégicos.

Na fabricação de produtos de qualidade a baixos preços, na construção e manutenção de uma impressionante rede de estradas através da Europa, do Médio Oriente e do Norte de África.

E também na manutenção de um exército profissional igualmente impressionante.

Recorde-se que só Napoleão, mil e quatrocentos anos depois, no século XIX teve capacidade para manter e dirigir um exército das proporções que Roma tinha.

Tudo isto sustentado num sistema monetário altamente sofisticado.

A certa altura da história, os povos germânicos, começam a emigrar em maça para onde se vivia bem, ou seja para o Império Romano e lentamente, ou nem tanto, uma civilização desaba.

Perkins concorda em certa medida com a teoria dos historiadores que dizem que as invasões bárbaras foram na generalidade pacíficas e resultado de alianças tácticas do Império Romano do Ocidente com os invasores, mas não deixa de mostrar que a guerra tomou a certa altura a primazia.

Nos dias de hoje, assiste-se a uma emigração, tanto legal como clandestina, oriunda dos países menos desenvolvidos para os mais desenvolvidos.

Veja-se o caso dos emigrantes mexicanos e centro e sul-americanos em geral para os Estados Unidos da América e a imigração dos magrebinos e africanos da África negra para os países da União Europeia.

Que nova realidade poderá surgir no mundo, nos próximos digamos 20, ou 30 anos.

Será o Fim da História como dizia Francis Fukoiama, referindo-se claro à questão do fim do comunismo e da guerra-fria?

Não sei, mas vale a pena ter este livro na sua biblioteca.

A Queda de Roma e o Fim da Civilização.

O autor é como disse Bryan Ward Perkins.

A edição é da Aletheia este livro que eu tenho aqui é a terceira edição.

Advirto apenas que a tradução poderia ser mais aperfeiçoada para a obra que é, mas mesmo assim vale a pena.

A Life in Secrets, The Story of Vera Atkins and the Lost Agents of SOE

Grandes mulheres num papel secundário são frequentes no Mundo, mas muito poucas são como no cinema Merril Streep, por exemplo.

Na política então, as mulheres, ou passam em primeiro plano pela ribalta, como Golda Meyr, Margareth Tatcher, Indira Ghandy, sei lá!… Ou desaparecem engolidas na voragem dos elencos que mudam tão vertiginosamente como os figurantes nos filmes.

Creio que aqui bem perto, Aun San Su Ky de Myanmar (antiga Birmânia) acabará também em página de rodapé da história.

Alimenta cabeçalhos de jornais e primeiros planos das televisões, mas parece irremediavelmente condenada não à prisão domiciliária, em que se encontra, mas sim ao papel ingrato de actriz em papel secundário, sem que antes tivesse obtido galardão de actriz principal

Ou algum acidente a faz ascender na volátil conjuntura birmanesa, a papel determinante ou daqui a alguns anos poucas pessoas, fora de Myanmar, recordarão quem tenha sido.

A não ser que algum biógrafo, na altura certa, a arranque ao anonimato e a faça regressar ao mundo dos mitos, com que vivemos, convivemos e de que também alimentamos o espírito.

Mas isso somente se o momento for propício e o biografo capaz.

E ao longo da história quantas mulheres anónimas não desempenharam na vida papéis de extraordinário valor e mérito, sem que porém disso tenha sido dado conta, mesmo enquanto viveram, até pelos amigos e vizinhos?

Um caso exemplar é o de Vera Atkins.

Creio que nem mesmo em vida este nome terá despertado qualquer atenção especial, ou melhor creio que em vida se dedicou de uma forma invulgar a tratar de que o seu nome não despertasse atenção, já que a sua profissão era essa.

Levar a vida em segredo.

Felizmente que houve biógrafo, neste caso biógrafa que reparou no erro e colmatou a omissão.

Refiro-me a Sarah Helm, uma jornalista britânica, que decidiu fazer justiça a Vera Atkins, e a um inaceitável anonimato.

A humanidade tinha de saber.

De facto a sua vida ficaria irremediavelmente contida para sempre no curto epitáfio da campa rasa onde se encontra sepultada, – nascida em Bucareste em 1908, falecida em Hanstings, Inglaterra no ano 2000, – se Sarah Helm, não a tivesse retratado extensamente aqui.

E que invulgar retrato este que perpassa neste livro que se chama “A Life in Secrets, The Story of Vera Atkins and the Lost Agents of SOE”.

Ou seja, em português, qualquer coisa como “Uma vida em Segredo, A história de Vera Atkins e os Agentes Perdidos dos Serviços de Operações Especiais”.

Mas quem era esta mulher?

Nascida em Bucareste, como disse,  Vera Atkins pertencia a uma  família judia que emigrou para Inglaterra em 1933.

Depois de alguns anos na Grã-bretanha, mudou-se para França, onde estudou línguas modernas na Sorbone, concluindo o curso em Lausana na Suiça.

Em Maio de 1940 regressou a Inglaterra e no ano seguinte entrou para o desk francês executivo dos Serviços de Operações Especiais, do Inteligence Service, como agente civil.

Em 1944, passou a integrar os quadros da Força Aérea com o posto de tenente-coronel, passando a ser a número dois dos serviços de informações

Em 1987 seria agraciada com a Legião de Honra de França, antes de se reformar passando a viver em Hastings, num lar de idosos, no Sul de Inglaterra, onde morreu com 92 anos de idade.

Vera Atkins, foi a responsável directa pelo treino de dezenas de agentes, cuja missão era apoiar a resistência para lá das linhas alemãs, sendo lançados de pára-quedas no interior de França.

Mas esta mulher não se limitou a enviar outros homens e mulheres para um destino incerto e a reportar burocraticamente o desaparecimento dos seus agentes, sempre que isso acontecia.

Bem pelo contrário dedicou inteiramente a sua vida profissional a tratar dos bravos que formara e a seguir-lhes as pistas depois da guerra durante anos até ter a certeza do destino que cada um tivera.

De muitos acabou por saber os destinos nas listas de executados dos campos de extermínio nazis de Natzweiler, Ravensbruck e Dachau, recuperados no fim da guerra.

Mas a sua vida foi tanto mais intrigante quanto até a sua própria família sempre desconheceu o que fazia, para além de saber vagamente que trabalhava nos serviços auxiliares da Real Força Aérea Britânica.

Falta apenas dizer alguma coisa sobre a autora desta interessante biografia.

Chama-se Sarah Helm, é jornalista, começou por trabalhar como repórter no Sunday Times, até ingressar como elemento fundador de o “Independent” em 1986, sendo ali editora dos assuntos diplomáticos.

Mais tarde foi também correspondente no Médio Oriente e na Europa continental.Recebeu vários prémios nomeadamente o Laurence Stern Fellowship do jornal Washington Post.

E pronto “A Life in Secrets”, grandes segredos da grande hecatombe mundial do século XX.

E sobre os ombros de uma mulher, que passou a reforma num asilo da terceira idade muitos segredos repousaram e com ela desapareceram sem ser revelados.

A Embaixada Mártir de Benjamin Videira Pires SJ

A fixação dos portugueses em Macau que se pensa ter sido pelo ano de 1557, deveu-se em grande parte, não a um interesse directo no comércio com a China, mas decorreu antes da rivalidade existente à época entre a China e o Japão.

De facto, as duas nações estavam de costas voltadas e os portugueses aproveitaram essa oportunidade, para servirem de intermediários no comércio.

Macau passava também a ser uma excelente escala na rota da “grande nau” que anualmente efectuava a viagem entre o Japão e a Índia.

Aliás antes de existirem governadores, quem administrava Macau era precisamente o “capitão da nau da viagem”, como lhe chamavam nesses tempos os cronistas e que o historiador Charles Boxer tão cuidadosamente estudou, nomeadamente no seu livro a “Grande Nau de Amacon”.

Não é de admirar por isso, que os canteiros que fizeram a admirável fachada das ruínas de S. Paulo tenham sido, e poucos saibam, japoneses.

Igualmente japoneses foram os construtores e moradores das casas da Rua da Palha.

Hoje, desses tempos, restam creio que apenas uma, ou duas, que conservam a traça original, junto à embocadura da rua com a escadaria que dá acesso às ruínas.

Portanto nessa época, eram os portugueses que serviam de intermediários entre a China e O Japão, comprando nomeadamente a seda chinesa, com a prata abundantemente extraída das minas do Império do Sol Nascente.

Mas porquê japoneses construtores em Macau.

A razão está explicada neste livro de Benjamim Videira Pires chamado “A Embaixada Mártir”.

Nesta obra, dada à estampa em 1965, embora a edição que tenho aqui seja do Instituto Cultural datada de 1988, o historiador jesuíta relata os tempos conturbados do Japão, à época da unificação do império e da luta entre os “shoguns”, ou seja os grandes senhores da guerra que dividiam o arquipélago nipónico em feudos.

Essa luta apanhou de permeio os portugueses, que acabariam por ser atingidos.

É que, principalmente através dos jesuítas, a religião católica encontrava-se na altura em pleno florescimento e alguns “shoguns” tinham mesmo adoptado o novo credo nas regiões que dominavam.

Esta situação verificava-se principalmente no Sul do país e particularmente em Nagazaqui o grande porto onde os navios portugueses ancoravam.

Na luta pelo predomínio entre os “shoguns”, alguns deles adoptaram mesmo o catolicismo como bandeira política e saíam para a guerra com os estandartes de Cristo, da Virgem e de vários santos em vez das flâmulas militares.

Os que o fizeram porém acabariam por se ver derrotados.

Em consequência, os decretos de proibição da religião católica sucederam-se a partir de 1614 e um conjunto de massacres contra cristãos foi tendo lugar nas décadas subsequentes, cada um mais sangrento que o seguinte.

Tudo isto concorreu para que o comércio de Portugal com o Japão conhecesse um fim dramático com o encerramento dos Portos, a fuga dos comerciantes, soldados, marinheiros, e também dos japoneses convertidos.

Já depois do fim das relações entre Portugal e o Japão, Macau fez ainda uma tentativa de reabrir o comércio com o Império do Sol Nascente que tinha cessado e arruinado, por isso, a cidade.

É dessa tentativa que Benjamim Videira Pires nos fala em a Embaixada Mártir.

Uma tentativa fracassada que terminou em mais um massacre, ou seja o de toda a embaixada enviada por Macau, trucidada em Nagazaqui.

Resta lembrar quem foi o autor desta monografia.

O padre jesuíta Benjamim Videira Pires nasceu em Torre de D. Chama, Mirandela, em 1916 e ali faleceu, em Janeiro de 1999.

A maior parte da sua vida viveu-a aqui em Macau.

Exactamente meio século.

Licenciado em teologia pela universidade Cartuja, foi ordenado padre em 1945.

Em 1948 embarcou para Macau.

Este homem que viria a notabilizar-se, sobretudo, como historiador, iniciar-se-ia na escrita com uma biografia, intitulada “Carminda”, obra dada à estampa no Porto, em 1939, seguindo-se-lhe, já em Macau, a publicação. em 1954, de duas pequenas peças de teatro, “Liberdade de Consciência” e “Fé como Grão de Mostarda”.

Dedicou-se também à poesia, escrevendo nomeadamente “Jardins Suspensos”, publicado em 1955, e “Descobrimentos: Poesias” de 1958.

“Espelho do Mar” encerraria a sua obra poética.

De resto distribuiu colaboração na imprensa local também portuguesa, publicando várias monografias sobre Macau.

Uma obra que merece também referência é “Portugal no Tecto do Mundo”, onde relata a descoberta europeia do Tibete, protagonizada pelo padre Jesuíta, português António de Andrade em 1624.

Há Cem anos: A última campanha naval ultramarina da monarquia portuguesa. 15-06-10

Em ano de centenário da República Portuguesa há também que assinalar em Macau um centenário que antecedeu em poucos meses a queda da Monarquia, e a substituição do seu representante máximo no Extremo Oriente: – o governador Eduardo Marques, monárquico convicto, que deu lugar ao seu ajudante de campo, o comandante da marinha Álvaro de Melo Machado que tal como o primeiro era igualmente convicto, mas republicano.

Trata-se de lembrar os combates de Coloane contra os piratas ocorridos durante quase todo o mês de Julho de 1910.

A efeméride, que chegou a servir de mote para o feriado municipal das Ilhas até 20 de Dezembro de 1999, merece ser relembrada, não pelo que tenha sido, em si, já que não se tratou de nenhuma campanha militar digna de nota no cômputo geral ultramarino português, mas pelo marco que constituiu na história de Macau.

Álvaro de Melo Machado primeiro governador republicano de Macau

De facto, num território que, segundo alguns, terá sido cedido pela China aos portugueses em reconhecimento do auxílio prestado ao “Império do Meio” nas lutas contra os piratas do século XVI, os combates de Coloane assinalaram a última campanha militar digna de nota contra a pirataria nos mares do Extremo Oriente.

Depois disso o que se seguiu foram casos de polícia de maiores, ou menores dimensões, mas que não mais passariam disso mesmo.

Aliás os confrontos de Coloane contra os piratas foram mais um conjunto de actos políticos do que verdadeiramente militares e espelharam em grande medida uma tentativa de afirmação da política ultramarina portuguesa da monarquia que tinha sido ferida de morte com o caso do “Mapa Cor de Rosa”, que culminou com o chamado “ultimato inglês” de 1890 e que tentava obter sucesso capaz de contrariar os achincalhos a que era sucessivamente submetida no parlamento de Lisboa pelos republicanos, nas ruas pelos sindicatos e igualmente nas chancelarias internacionais. Neste caso tanto monárquicas como republicanas.

O “ultimato”, não tinha sido mais do que a consequência da supremacia militar inglesa que se sobrepôs às “líricas” tentativas de Portugal de tentar unir Angola e Moçambique numa só colónia do Leste ao Oeste africano. Contra este desígnio opunha-se o de Londres que pretendia unir as colónias inglesas de Norte a Sul, ou seja do Cairo ao Cabo. Evidentemente que venceram os ingleses.

No extremo Oriente os ingleses já tinham vencido também, mas colocava-se a questão suscitada ciclicamente, igualmente por Londres, mas igualmente por Paris e Berlim, de que Macau serviria de quartel-general aos piratas que assolavam os Mares do Sul da China. Nada estava mais longe da verdade. Mas como a Inglaterra dominava a comunicação social o que surgia estampado, nos editoriais dos jornais britânicos e ecoado nos franceses, alemães, italianos e americanos, entre outros, era a eventual verdade (diz-se que em política o que parece é). Ou seja Coloane, onde actuavam de facto uns bandos de piratas que se misturavam com a população, estava muito longe de ser o perigo que constituiriam os grandes bandos que actuavam no vasto espaço geográfico do “Delta do Rio das Pérolas” e mais para Norte, nas costa de Fujian e de Xangai, áreas controladas pelas esquadras britânicas, francesas americanas e alemãs que por ali navegavam. Diga-se que muitos apoiados oficiosamente pelas potências intervenientes sempre que isso lhes servia.

O governador Álvaro de Melo Machado e o historiador Pe. Manuel Teixeira descrevem muito bem a situação: – “Os piratas eram, de um modo geral, bem acolhidos pela população de Coloane, que sabiam quem eram e lhes davam asilo, a população acolhia com benevolência estes malfeitores pelo dinheiro que generosamente gastavam; e as próprias autoridades portuguesas, que de sobejo sabiam da existência desta gente, toleravam-na, nunca fazendo diligências para a escorraçar”.

Por seu turno, o Padre Teixeira diz que “os piratas foram-se ali infiltrando no decorrer dos anos: aqui montavam uma mercearia, além uma loja de peixe; uns trabalhavam nas pedreiras, outros entregavam-se à agricultura; por isso tinham de ter casas para as suas famílias. É de crer que os seus vizinhos soubessem que espécie de gente eram eles, mas não os denunciavam por duas razões: eles não os incomodavam, pois a quadrilha fazia as suas operações em terra chinesa e para ali traziam os seus roubos e as suas armas”. O negócio não era mau e pelos vistos não incomodava ninguém!…

Monumento evocativo dos combates contra os piratas de Coloane de Julho de 1910

Nesse cenário de pretensa guerra que passava bem mais pelos cabeçalhos dos jornais internacionais, do que pela realidade prevalecente, Portugal não teve remédio senão levar a efeito uma demonstração de força.

Para o efeito foi aproveitada a presença do “Cruzador D. Amélia”, transportando a bordo uma força de fuzileiros de cerca de duzentos homens que efectuava o habitual périplo anual pelo Extremo Oriente que costumava levar o vaso de guerra a uma patrulha que passava por Macau incluía Xangai, com regresso a Lisboa pelos mares de Timor.

A viagem do cruzador, que se arriscava a não passar, mais uma vez, de uma espécie de cruzeiro simbólico, ensejo de fim de curso para os cadetes da marinha praticarem as artes da navegação, seria aproveitada dessa vez para uma verdadeira missão de guerra.

O pretexto foi o rapto de 18 crianças de uma escola da localidade de Tong Hang, localizada a poucas dezenas de quilómetros de Macau por um grupo de piratas que teriam a sua base em Coloane.

O caso foi denunciado em parangonas sucessivas pelo jornal “A Verdade” de Constâncio José da Silva que, por acaso, era também advogado dos pais de algumas dessas crianças e que exigia acção às autoridades.

Diga-se que Constâncio José da Silva era também republicano estrénuo e não deixava de aproveitar “o seu caso” para denunciar as fraquezas da monarquia que com um cruzador carregado de artilharia pesada e fuzileiros fortemente armados postado a poucas milhas de Macau permitia um desaforo tal sem fazer nada.

Face ao ambiente político que se adensava pelas diatribes de “A Verdade”, pela pressão dos vizinhos ingleses de Hong Kong, e pelas recentes tentativas dos alemães de ocuparem a vizinha ilha da Lapa (1900) sobre a qual Portugal reivindicava direitos, o governador Eduardo Marques não podia fazer mais nada senão requerer uma acção militar do comandante do D. Amélia e teve-a.

As forças do Cruzador (150 fuzileiros?) desembarcaram em Coloane, com apoio de artilharia. A canhoneira Macau, por seu turno, de mais pequeno calado e a única que se podia aproximar verdadeiramente através dos baixios da ilha, bombardeou a vila. Diz-se que a acção não passou de um exercício de teste de pontaria da artilharia e uma demonstração excessiva de força que provocou mortos e feridos civis desnecessários e mais nada. Mas certo é que com força a mais, ou a menos, no final da operação as crianças foram resgatadas e vários piratas presos.

Nesse episódio a China ofereceu-se para colaborar nas operações navais, mas o governo de Macau rejeitou a oferta e as canhoneiras chinesas limitaram-se a pairar ao largo e a dar caça a juncos tresmalhados suspeitos que singravam pelo dédalo de canais do Delta.

No final da “campanha” foram mais os estragos que os benefícios já que não existem provas sólidas de que os piratas tenham sido erradicados de Coloane. O que resultou de facto foi uma vila mais ou menos arrasada pelas granadas e pouco mais.

O resto da operação foi constituído por um golpe de mão contra um grupo de malfeitores que se tinha escondido numas grutas que hoje fazem parte do campo de golfe do hotel “Westin Resort”, que envolveu um pelotão de infantaria e que um cabo do exército com uma granada de enxofre bem atirada para o interior das ditas do alto das arribas desalojou de pronto sem necessidade de recurso a operações complicadas de estado maior. O golpe completou-se em poucas horas com pleno sucesso já que não se registaram baixas de qualquer dos lados e os bandidos acabaram presos.

Cruzador “Rainha D. Amélia” posteriormente rebaptizado “NRP República”.

A monarquia não salvou na China, numa eventual epopeia bélica, como pretenderia, a humilhação africana do “Mapa Cor-de-rosa” que tinha sofrido vinte anos antes e afinal de contas quem ganhou pontos foi a República que três meses depois se implantaria em Portugal.

O cruzador D. Amélia que tinha vindo essencialmente para afirmar a pujança da marinha da monarquia portuguesa perante as potências coloniais presentes na China registava ali a sua penúltimo missão de relevo. Tinha sido construído em 1901 no Arsenal de Lisboa e nomeado em honra de D. Amélia de Orleães mulher do malogrado rei D. Carlos I. Sendo o primeiro vaso naval de grande porte construído em aço em estaleiros portugueses durou pouco a sua história. Após a revolução de 5 de Outubro de 1910, onde teve papel proeminente, foi rebaptizado passando a chamar-se “NRP República”. A 6 de Agosto de 1915 acabaria por se perder para sempre encalhando na praia da Consolação, a sul de Peniche.

Quanto à lancha canhoneira Macau durou mais alguns anos e teve uma história substancialmente mais curiosa.

Lancha Canhoneira Macau

Encomendada aos estaleiros Yarrow & Co. de Glasgow (Escócia) foi entregue à marinha portuguesa em 1909. Um ano antes do bombardeamento da Vila de Coloane. Seria abatida ao efectivo da marinha a 15 de Agosto de 1943, sendo entregue aos japoneses que ocupavam então a China por troca de 10 mil sacos de arroz passando a navegar com o nome de “Maiko”. Em 1949 foi capturada, passando a fazer parte da marinha da China sob novo nome. Desta vez “Wu Fang”. Não se sabe quando esta histórica lancha canhoneira deixou definitivamente de efectuar serviço activo.

Comentário a um “bloguista” anónimo e a Lei de Imprensa 08-06-10

Eu não sei quem V. Exª. seja embora tivesse interesse em saber. Se soubesse poderia introduzir nestes debates que mantêm no seu blogue o factor conhecimento do autor. Nesse caso poderia explorar-lhe, por exemplo, os pontos fracos. Poderia, escrever, nos comentários, que quando disse isto é por que… ou quando deixou de dizer foi por que…

Eu sei que há maneiras de descobrir tudo no mundo cibernético, mas como pertenço a uma geração anterior à existência da palavra “hacker”, limito-me a usufruir do que o meu monitor me mostra e pouco mais.

Devo dizer neste momento que, “monitor” é para mim também uma palavra nova, já que o que eu via, há, digamos, vinte anos, era um “ecrã”. Mas, agora, como o mundo mudou, concedo que não tenha à frente dos meus olhos um “ecran” francês, mas um “monitor” anglo-saxónico. Assim, também, de entre os comandos do meu computador, não sei qual é o que serve para descobrir quem V. Ex.ª autor de um blogue anónimo seja.

V. Ex.ª, mais dotado que eu, em matéria cibernética (já que mantém um blogue que com certeza requer alguma técnica), com certeza saberá, já quem eu sou (dizem-me que os computadores descobrem logo qual a proveniência das mensagens anónimas nos comentários). Provavelmente, de tão informaticamente inepto a minha identidade não conseguirei esconder como seria de esperar, por exemplo, numa carta anónima, como se fazia tradicionalmente. Muito menos na “webb”.

Como comento em página aberta, ou seja impressa e assinada no JTM, não só V. Ex.ª como toda a gente fica a saber quem é o autor destas linhas sem ter de ler sequer o comentário que segue. Está assinado por baixo como se requer em qualquer ofício de lei e nos jornais.

Serve esta introdução para dizer que, se a informática implementou um mundo novo, na comunicação social, os blogues aproveitaram-no. Tal como os “hippies” da América dos “sixties”, ou os estudantes anarquistas, do Maio de 1968, de França. “Vamos aproveitar a liberdade que temos, para dela usufruir ao máximo. Não é usufruir que a palavra liberdade significa?” diziam eles.

Como subscrevo (ainda que não inteiramente) essa visão existencialista, não posso estar mais de acordo com os blogues.

Enquanto o jornalista vulgar evolui numa cadeia de comando parecida com todas as hierarquias (mesmo as militares) o bloguista não.

Enquanto o jornalista sofre a (com) censura pública e se auto-censura, quando calha, o bloguista não.

Enquanto o jornalista preserva a boa conduta para garantir o salário e/ou a sua consciência, o bloguista (que não tem salário) não.

Enquanto o jornalista assina e/ou é conhecido, e por isso paga o preço do que escreve, diz na rádio, ou apresenta na TV, o bloguista nem é conhecido nem assina. Por isso não paga preço nenhum.

Poderão dizer-me: Àh! Muito bem, mas o bloguista não é credível porque é anónimo, enquanto o “funcionário do jornalismo” tem obrigações e códigos de conduta e preservação das fontes e outras éticas que tais a que está amarrado por dever de profissão.

Mas que ética possui o jornalista “á la large”? Trabalha por conta de outrem, faz as notícias que a cadeia de comando lhe manda fazer e, às tantas acaba por deixar dito, não o que viu, ou ouviu, mas muitas vezes apenas o que foi condicionado a transmitir, ainda que subconscientemente. Depois, quando chega a casa, ao bar, ou ao clube, e revê o dia, descobre, por vezes, que foi enganado. Afinal o seu trabalho, se calhar, não constituiu tanto uma notícia, uma opinião completamente fundada, uma denúncia inteiramente séria, mas provavelmente mais uma espécie de anúncio publicitário de qualquer coisa que não estava nos seus planos. Boa desculpa para afogar em mágoas os tantos mil caracteres que escreveu sobre, sabe-se lá o quê, e em nome de quem. Graham Greene levantava esses problemas de consciência nos seus livros.

O bloguista não, porque o bloguista tem uma agenda que pode prosseguir sem interferências, a não ser as das suas próprias mudanças de humor e convicções. Neste ponto convêm fazer doutrina e é a seguinte:

– Em matéria de convicções, todos sabemos, que, são raros os que as mantêm por mais do que um período determinado, mas raramente por uma vida inteira. Como dizia Camões: “todo o mundo é composto de mudança” e o baladeiro dos anos 70 do século passado acrescentava: “troquemos-lhe as voltas porque o dia é uma criança”. Quem dizia isto? Sérgio Godinho, Letria? Rui Veloso, não era com certeza, ou Jorge Palma, que esses advêm do rock português, caldeado nas holandas, que não se metiam, nessas coisas da política propriamente dita nem ligavam aos “ismos”. Passavam “a la large”. Eram do Maio de 68. A verdade ou a mentira eram questões burguesas e inconsequentes de pormenor. O Importante mesmo era a imaginação.

O bloguista anónimo, hoje, diz uma coisa, amanhã outra, e aqui está a importância do bloguismo, ou seja; reconhecer na verdade de hoje a mentira de ontem. Isto não se faz nos órgãos de comunicação social convencionais, onde os desmentidos, por mais honestos que sejam, vão inevitavelmente para o caixote do lixo, se forem anónimos e não acompanhados de identificação credível, para que o editor os tenha em conta e os mande pôr em letra de forma. O erro do jornalista é outra coisa. Paga-se com desmentido de igual destaque ao da notícia por imposição legal e, às vezes pode custar mesmo uma promissora carreira.

Outra coisa importante nos blogues é a interacção com o leitor, que elogia, concorda, discorda, ou apenas insulta pelo prazer de insultar, na área, ou na janela dos comentários (não sei exactamente qual o termo informático para designar o sítio onde se coloca o “veneno” do leitor/comentador), mas não precisa de se identificar, o que é bom. Mas o “veneno”, ou a inocuidade, só é publicada se o bloguista a isso estiver disposto. O bloguista só publica, se para aí estiver virado, situação, neste caso, absolutamente ética do ponto de vista bloguístico.

Eu, bloguista, só publico o que acho que tem interesse no meu blogue. Ponto parágrafo. E mais doutrina feita (O leitor em geral e o anarquista em particular exultam neste ponto).

Ora! aqui está um preceito, que me parece muito mais transparente e ético, do que o dos provedores, que têm em conta as constituições, leis básicas, códigos civis, penais e toda a legislação avulsa que possa existir em matéria de direitos liberdade e garantias.

Tudo isto pode no entanto voltar aos cânones e ao politicamente correcto, se os tais gestores dos “servidores” desconhecidos, onde os bloguistas se instalam forem desmascarados pelos “hackers”, como comecei por dizer, ou pelos próprios “servidores” (yahoo, google, gmail e quejandos). Então pode acontecer isto:

– Áh, foste tu que escreveste esta aleivosia, constata o “hacker”, qual polícia de costumes.

– Estás descoberto! e aponta-lhe o dedo e manda-lhe a polícia à porta, acompanhada pelos oficiais de diligências, que costumam acompanhar os actos oficiais em circunstâncias assim.

Nessa altura, a liberdade que se instalou há pouco tempo (digamos uma década?), estará perdida para sempre. E nessas circunstâncias voltaremos a ter apenas como fonte de comunicação de notícias e ideias, os velhos jornais, as velhas televisões e as velhas rádios. Tudo isso porque, face à retirada da couraça do anonimato ao bloguista, não resta alternativa, senão a de ajoelhar perante o cruzado, que lhe aponta a espada ao peito:

-Ou crês ou morres. Esta é uma expressão medieval que traduzida para a situação apontada dos dias de hoje, quer dizer mais, ou menos isto:

– Ou acabas com o blogue, ou ficas sem emprego no sítio onde trabalhas.

Claro que, ao mouro inerme, tal como nesses idos tempos, sem saída viável, só ocorrerá uma resposta:

– Rendo-me! Diz ele, espojado em sangue no campo de batalha. O meu blogue escreverá o que quiserdes e o que a Santa Inquisição, entender que deve ser escrito, ou então encerro definitivamente o “site” e peço desculpa.

O cruzado sorrirá e, recolherá a espada contente por ter feito mais um convertido à sua santa causa (menos uma conta no blogspot. com). A Igreja ganhou mais um fiel.

O bloguista diminuiu um pecado à sua lista de iniquidades e o cruzado acrescentou mais uns gramas ao peso das suas bem-aventuranças na balança de S. Pedro. Bom negócio!

O bloguista suspirará de alívio, não só por não ter sido morto (Embora agora já não se pratiquem barbaridades assim tão directas como nos tempos de antanho. A situação descrita não passa, evidentemente, de uma alegoria), mas principalmente por que o seu salário de funcionário, engenheiro, jurista, enfermeiro, motorista, designer – eu sei lá!…- continuará a ser depositado na sua conta bancária no mês, que vem. Que Mundo este!…

É por isso que me debato entre o desejo de saber quem o senhor autor do blogue anónimo seja e a vontade de que as minhas tentativas resultem não num fracasso, mas na continuação das minhas cogitações sobre quem V. Ex.ª possa ser.

Devo dizer-lhe neste ponto que, não há pior coisa no mundo do que conhecer um autor. Falo por experiência própria e digo-lhe o seguinte: Agradeço a Deus nunca ter conhecido pessoalmente, Tolstoi, Dostoyevsky, Camilo, ou Pessoa, figuras pelas quais continuo a ter uma veneração igual à que teria se fosse religioso, por S. João Baptista, S. Paulo, Santa Catarina, ou,  Santa Teresa do Menino Jesus, ou o nosso Santo António, das formiguinhas. É que conhecer um autor é a desilusão total. Pura e simplesmente não são iguais ao que escrevem. Tal e qual como as vozes da rádio, colocadas e imponentes. Quando conhecidas pessoalmente são apenas pessoas com os defeitos mais patentes no físico e no semblante, do que as virtudes, que impõem às ondas hertzianas através das suas laringes dotadas.

Assim, e a menos, que algum inconfidente me diga e, com isso estrague a minha investigação (que o meu subconsciente pede que se mantenha “ad eterno”, sem resultado, mas sempre com esperança), para mim o mistério e o encanto continuam.

– Quem será V. Ex.ª.? diria Camilo, ou Eça e, sem dúvida, se o soubessem, matariam a personagem no penúltimo capítulo da novela, por falta de merecimento, evidentemente.

Por isso, digo eu, descoberto o autor do anónimo blogue, ou seja, pessoalmente V. Ex.ª. os meus comentários, igualmente anónimos, apenas poderiam conter coisas prosaicas como as que disse ao início deste artigo:

– O senhor bloguista, disse isto porque assim. O senhor bloguista deixou de dizer e sei muito bem porquê! Àh malandro!…

Enquanto isso não acontecer continuarei a ser um indefectível leitor e defensor dos blogues e principalmente dos bloguistas que têm a coragem de os manter.

Afinal, para mim “blogar” (será que inventei um neologismo, ou alguém já colocou a palavra no dicionário da academia?) é a mesma coisa que conversar com os amigos e possui uma vantagem, tem muito menos peias e muitíssimo menos restrições morais e , já agora, materiais.

Arrisco-me a parafrasear (sem subscrever inteiramente) Vasco Santana em “A canção de Lisboa”: – Abaixo as convenções sociais vivam os blogues. Isto, enquanto puderem durar livres e anónimos.

Áh! e essencialmente viva a essência do provérbio anarquista (que igualmente não subscrevo inteiramente): – Há governo? Sou contra!

A finalizar diria, como se dizia nas antigas missivas: – serve esta para saudar a atitude do Executivo da RAEM de empreender a revisão da Lei de Imprensa, publicada em 1990 e essencialmente deslindar de uma vez por todas essa coisa dos conselhos de imprensa e radiodifusão que até agora não foram criados.

Victor Chan director do Gabinete de Comunicação Social diz, ser agora o momento adequado para resolver o problema.

Concordo inteiramente. Quanto mais não seja por que há no panorama da comunicação social alguns termos históricos a reenquadrar, nomeadamente vocábulos como imprensa, conselho de imprensa e radiodifusão e neologismos a ter em conta como: – blogue, youtube, faceboock, twitter e sms.